A Matemática do Prazer
10 - Adição Inesperada
Notas iniciais
– Hum! – ouvi minha própria voz ressoar, mas o tom que tinha e o timbre que assumia a meus ouvidos – sensíveis ao misero ruído – me era totalmente estranha. E não só eu como algo me era estranho naquela situação, mesmo eu sequer ter aberto os olhos. Dor era tudo o que eu sentia... Ou não.
Eu não sentia meu corpo e minha alma habitar o mesmo plano, nem o mesmo espaço. Eu estava entre o sono e a realidade. Na verdade; entre a sanidade e a loucura, definiria melhor. Todavia, não conseguia nem chegar a raciocinar coerentemente neste instante, mas algo me incomodava! Perturbava!... Avisava?
– Oh! – Minha voz podia estar irreconhecível, mas não a este ponto. Eu podia estar sentindo muita dor, mas não a este ponto. Não a ponto de eu não sentir meus lábios se moverem! E esse bocejo horrendo não pertencia a mim!
Ah... Não! Não, não, não! NÃO!
Saltei da cama, e por incrível que pareça, em meio ao pânico e sobressalto, fui delicada o suficiente para não acordar quem quer que seja que estava enrolado em meu edredom.
E me afastar o suficiente da minha cama e da janela para que a luz do sol não me incomodasse e a penumbra da manhã fosse o bastante para meus olhos reconhecerem quem é que se deitava de bruços sobre meus lençóis só de blusa social e nada mais, exibindo uma bunda branca e desprovida de cueca. Os cabelos recaiam em sua face mais eu o reconhecia, reconhecia mesmo me amaldiçoando por isso. Em algum ponto entre aquela boate e a minha casa essa tragédia aconteceu.
Puta que pariu! O que eu fiz? Não me lembrava de nada que se passou noite passada! NADA!
Pequei uma camisola surrada em cima da cômoda e me vesti, ocultando meus seios e minha calcinha rendada – a única peça que usava –, correndo imediatamente para o banheiro em seguida, levando meu celular junto.
Entrei e fui direto para o vaso, a corrida reavivou a vertigem que estava sentindo e meu fígado protestou perante o excesso de álcool em meu organismo, ativando a válvula de escape e colando meus joelhos ao chão enquanto me reclinava despejando o que podia lá dentro.
Me sentei no chão depois de várias ânsias de vomito que limparam meu estomago. Fraquejando e tremendo, e obviamente ordenando meu cérebro a focar em meu mal-estar atual, não no problema em minha cama, ergui-me escorada na pia e escovei repetidas vezes meus dentes, buscando conforto na atividade.
Oh Deus! O que faria? O que faria? Eu havia dormido com Kol! Não podia ser, mas era! Tinha desperdiçado o vigésimo número!
Ah! Eu estava em um ataque nervoso, pânico, se preferir chamar. Recostei-me na parede ao lado da porta sentindo o chão frio minimizar os sintomas de ressaca que sentia. Levei as mãos a meus cabelos, embrenhando meus dedos nos fios ao apoiar minha cabeça sobre meu joelho tentando raciocinar, pensar e encontrar uma saída ou possibilidade de fugir, mudar ou esquecer o que havia acontecido e a situação que me encontrava agora.
Deus! Por favor!
E seu sequer sabia pelo o que pedia, e muito menos era religiosa o suficiente para poder pedir algo, mas eu clamava a ele. Redenção? A oportunidade de mudar a noite de ontem? Ser virgem novamente? Não sabia, mas a ultima resolveria, certamente, meus problemas.
Eu não conseguia ver ou pensar nada além de minha auto piedade, eu precisava de alguém, mas não aquele que estava dormindo na parede de trás, uma que entendesse e ajudasse no problema “noitada com o chefinho”. Ex-chefinho!
“Irmã! Ajude-me agora!” Liguei para Kath rezando em silêncio para que me atendesse. O bipe me estressava mais que tudo e criava a tensão da expectativa quase que insuportável de minha parte.
– Alô? – a voz baixa e suave rompeu o som de chamada e confortou-me em parte.
– Eu dormi com meu ex-chefe! – falei rapidamente antes que perdesse a coragem.
– Rebekah? – Ouvi a voz confusa de Kath indagar.
– Não! É a Elena! – minha irmã não me reconheceu, para completar o circo.
– Como assim ex-chefe? – Kath questionou avoada.
– Do emprego no qual fui demitida! – falei automaticamente.
– Céus! Como isso aconteceu?
– Sério que você está perguntando isso? – retruquei.
– Desculpe Elena! Pergunta idiota, é que eu estou um pouco surpresa. – ela murmurou sinceramente.
– Ah, claro! Imagine eu! – falei sarcástica e rancorosa.
– Desculpe Lena! – disse mais uma vez.
– Ok! – suspirei. – Mas a culpa é sua! Foi você que me levou naquele bar!
– Não me culpe! Quando quis te tirar de lá você cuspiu em mim! – repreendeu.
– Ah! – falei envergonhada, não me lembrava de nada disso.
– Mas parabéns pelo vigésimo! – ela disse animada. – Você disse que seria especial e ele seria seu marido. – ouvi o barulho da cama e percebi que Kol se levantava.
– Cala a boca sua vadia! Você não tem ideia. Eu não me lembro de nada! Não é a melhor hora para ironias. – falei chateada. Ela riu.
– Sabe que eu pensei que aconteceria mais tarde, mas eu estou muito comovida, que bom que encontrou o cara. – Continuou zoando de modo repreendedor. – Hey Stef, a Lena vai se casar!
– Cala a boca! Eu já falei que não queria! – fiquei emburrada. – Mesmo você sendo sarcástica, talvez ele seja até meu marido. Pode ter sido o destino, e agora temos uma bela história para contar para nossos netos. – disse ao ponderar os possíveis pontos positivos nisso.
– Vá nessa! Que bom que viu esperança nisso. Sério Elena. Não sei o que você esperava de mim, um sermão ou uma comemoração. E já que gastou essa última transa com ele, mesmo que diga não se lembrar, tomara que tenha gostado e ele iniciem um relacionamento. – disse esperançosa. Olhei para porta do banheiro em direção ao meu quarto e o observei enquanto pegava sua cueca no chão de costas para mim.
– Não sei por que nunca dei uma chance para ele antes. – sussurrei sorridente o vendo por a calça e, antes que fechasse o zíper, ele me surpreendeu. Sua mão direita foi para dentro de sua cueca e ele a esfregou forte lá dentro, o olhava chocada e de olhos arregalados, mas minha ânsia de vômito retornou depois disso, quando ele a tirou de lá e levou sua mão até o nariz, inalando com uma feição de prazer aquilo.
No mesmo instante, passou por minha mente as milhares de vezes em que o vi fazer isso na empresa ou onde que fosse, e pensando na nojeira que aquilo representava. Virei para o vaso e despejei o que não tinha no estomago.
– Lena? Lena você tá bem? – ouvi o chiado baixinho da voz de Kath do celular apoiado no chão, o peguei e o posicionei em minha orelha tentando encontrar voz depois daquilo.
– Ele não vai ser meu marido! – falei forte e definitiva, deixando minha irmã muda.
Sai do banheiro de fininho e corri para a sala, sentando em meu sofá de modo em que ficasse oculta na esperança dele ir embora logo. Ouvi a porta do banheiro se fechar e o barulho de água surgiu.
Fechei os olhos somente sentindo o latejar constante em minha cabeça por algum tempo, logo ouvi o som da porta se abrindo, mas continuei na mesma posição. Após algum tempo sem ruído decidi que deveria levantar e no momento que abri os olhos tomei um susto.
– Bom dia! – disse ele sorrindo amplamente para mim.
–Er. Bom dia! – sorri amarelo para ele.
– O papel higiênico acabou. – falou casualmente.
– Ah sim! Ok! – falei me sentando.
– Nossa! Você não imagina como eu estou feliz em saber que você não é mais lésbica. Claro, sou irresistível. – gamou-se e foi em direção à cozinha.
– Oh sim! – falei sem graça.
– Você fez o café da manhã? – perguntou já distante. Oh droga. Que cara chato!
– Ah! Não, não! Acordei agora pouco. Mas tem uma cafeteria no caminha para sua casa, não? – perguntei sugestiva.
– Ah que beleza! Então deixe que eu faça uma coisa gostosa para nós dois! – sorriu para mim. – Já pegou o jornal? Tô doido para saber o resultado do jogo de basquete de ontem à noite.
– Ah! Que pena! Eu não assino o jornal! – sorri para ele. Vá embora, capeta!
Ele se virou para mim me olhando de um jeito mais estranho que ele era e senti um arrepio frio surgir em meu corpo. Salva pelo congo, ouvi o som de batidas na porta e, para fugir daquele olhar estranho, corri para poder atendê-la.
– Bom dia Eleninha! – encarei aqueles olhos azuis e o sorriso torto. – Aqui está o seu jornal.
– Esse jornal não é meu não, Damon, deve ser da vizinha aqui do lado. – disse semi desesperada, arrancando o rolo de papel de suas mãos e lançando longe.
– Ah! Tudo bem. – disse entrando na minha casa. – É que eu fiquei trancando fora do meu apartamento, sem as chaves e a carteira está lá dentro, quis fazer uma gentileza. – semicerrei os olhos para ele. Damon e gentileza não combinavam, pelo pouco que sabia sobre ele. Senti o tom de mentira em sua voz, mas preferia que ele estivesse ali em casa. Não entenda mal, só o queria lá para não ter que ficar sozinha com Kol.
– Ah, obrigada de qualquer forma. – sorri para ele e Kol pigarreou levemente. Olhei para ele e Damon seguiu meu olhar.
– Oi. Sou o vizinho da Lena. – Damon falou.
– Já percebi. – disse um tanto grosso, franzi o cenho com isso, não entendendo exatamente o porquê daquilo.
– Ah! Bom, já que se conheceram que tal irem para suas casas? – Joguei verde.
– Hey Lena, posso usar seu telefone? – Damon pediu para mim. Será que não intenderam as indiretas dirigidas?
– Claro. Pode sim! Só um instante que vou pegar. – sorri de leve para ele e fui até meu quarto para buscar meu celular. Aliviando-me do peso que estava sendo aquele dia momentaneamente.
Virei para voltar e observei Kol se levantar para cumprimentar Damon e lhe estendeu a mão, observei, com nojo e assombro, Damon segurar sua mão para retribuir o aperto de mãos. Repulsivo. Respirei fundo e retornei a sala.
– Elena. – Kol veio até mim. – Que tal irmos jantar hoje?
– Hoje? – questionei inserta desviando a todo custo de seus esforços de segurar minhas mãos. Sai fora rapá. Olhei para Damon em um pedido mudo e olhei para Kol tentando inventar uma desculpa.
– Ah não vai dar, né Elena? – Damon disse e Kol virou para ele com certa raiva.
– Ah é? Por quê? – questionou.
– É que hoje nós temos... Reunião de condomínio. – Damon falou olhando para mim que suspirei aliviada.
– É! Isso mesmo! Lamento. – reforcei.
– Mas o que tem de importante nisso? Não pode faltar só hoje? – Kol me olhou meio que implorando.
– Ah não! Não posso! Tenho que reclamar do encanamento. Se eu tiver que viver mais um dia nessas condições terei que passar a ir a um banheiro químico. – falei rapidamente. Kol inalou de seus dedos mais uma vez e, com um arrepio de asco, afastei-me um passo. – Que tal eu te ligar? E marcamos algo e talvez saímos... – disse apresada para me livrar dele, o segurei pelo ombro e sutilmente o direcionei a porta e abri os cambalachos com o cadeado.
– Está bom! – Kol falou e me virei para olhá-lo, mas ele me pegou pela cintura e me jogou contra a parede do hall chocando seus lábios contra os meus, sustentando meu peso no alto para que não tenha que se abaixar. Oh droga! Pensei enquanto chacoalhava os pés em busca do chão.
Ele me soltou finalmente e eu já estava vermelha com falta de ar, ofeguei em busca de ar e vi Damon desviar o olhar de nós enquanto Kol o encarava de uma forma territorial.
– Tchau. – Kol sussurrou para mim com um sorriso leve.
– Tchau. – respondi enquanto ele saia e vi a porta da frente, a de Damon, abrir e uma ruiva sair de lá com uma cara nada boa, ao mesmo tempo Damon tinha se escondido no sofá como eu mesma tinha feito para fugir de Kol pouco antes, imediatamente fechei a porta. Vá com Deus e nunca mais volte! Gritei mentalmente.
Virei-me para Damon que agora estava sentado virado na minha direção com um sorriso divertido.
– Acho que aquela moça que saiu agora mesmo do seu apê poderia ter facilmente resolvido seu problema de ficar trancado do lado de fora, não? – falei irritada.
– Claro que sim. – riu. – Se ela não fosse o problema!
– Não acredito que está se escondendo na minha casa de novo! – ruminei os dentes rolando os olhos.
– Não se esqueça de que agora pouco eu te livrei de um encontro! Está me devendo! – afirmou altivamente;
– Não estou não! – retorqui indo para minha cozinha.
– Está! Por essa e por aquele dia da porta! – afirmou me olhando faceiro.
– Já pensou que deveria não mentir para as mulheres, assim não teria “problemas” com elas. – falei pegando uma caixa de leite na geladeira e alguns biscoitos no armário.
– Não minto para as mulheres. – falou calmamente vindo se sentar na bancada.
– Acabou de mentir para mim para entra na minha casa! – acusei.
– Ok! Me rendo! Só faço isso para evitar magoar as pessoas, mas se é errado... Quebrarei o coração de todas elas! – falou divertido me fazendo rolar os olhos para ele, riu e roubou um biscoito meu e mergulhou no meu copo de leite.
– Hey! Não faça isso! Essa é a minha mania estranha. – falei possessiva.
– Uma mania que compartilhamos. – sorriu de lado encantador com os olhos azuis brincalhões piscando para mim e eu mordi meu lábio interior. Droga! Pare com isso!
Concentrei-me em somente continuar a comer e após alguns furtos de biscoito ele se levantou e deu uma volta por minha casa. Parou alguns instantes em frente algumas paredes minhas observando as enormes fotografias quem tinham nelas, pareceu admirado.
– Muito bonitas essas fotos, onde descolou isso? – perguntou se virando para mim.
– Não as comprei, eu mesma tirei. – sorri para ele comendo em seguida mais um biscoito ao leite.
– Talentosa! – sorriu para mim e eu olhei para o lado para evitar corar. – E esses efeitos? – apontou para as nuances que pareciam um leve queimado nas fotos.
– Fácil. Só precisa do negativo do filme e um isqueiro. – falei.
– Ficaram realmente boas. – olhou em volta, que tinha em diversas paredes diferentes fotos, algumas do nada, outras do tudo, mas a que eu mais gostava era a que ele estava olhando. Era a foto que meu avô havia tirado, em sua inexperiência com a máquina fotográfica, ele não solte tirar uma foto minha e de Katherine e somente dava para ver meu sorriso e um pouco de meu rosto e corpo, e os braços de Kath ao meu redor. Claro que os efeitos “solares” eu tinha feito depois.
Viajando em minha mente só voltei à realidade quando Damon assobiou e eu olhei em sua direção, ele estava com meu caderno de esboços na mão, vendo os desenhos rabiscados de qualquer jeito nas folhas de um jeito que parecia que já tinha apreciado muita arte.
– Você faz muitas coisas legais, não sei por que fez publicidade. – me olhou deixando a prancheta sobre o braço do sofá.
– Obrigada. – sorri. – Mas isso é só um hobbie. – Sorri para ele. Não diria para ele como me sentia frustrada em ser formada em publicidade, mesmo gostando eu não amava.
– De qualquer forma eu gostei. – disse ele. – Você é muito boa. – falou chegando perto de mim e eu senti-me fraquejar com aquele olhar que ele me dirigiu, era puro duplo sentido.
– Obrigada. – disse somente, corando. Não sei quantas vezes já corei com ele e não estava gostando disso.
– Pensei que você fosse menos envergonhada. Vi seu vídeo na internet e aquela sua versão não parece nada com você agora. – comentou me olhando atentamente.
– O que? – assustei. Droga! Tinham realmente me filmado. – Que filhos da puta! E como você já viu? – tinham feito isso ontem à noite.
– Eu tenho o prédio inteiro em um programa de busca, sou um pouco curioso. – deu de ombros casualmente. Olhou para mim e eu com certeza o encarava surpresa ou certamente furiosa. – Minha família tem um histórico no ramo do direito e da policia, é da minha natureza. – se defendeu.
– Sério? – perguntei na esperança dele estar de brincadeira com minha cara.
– Uhum. Sabia que o cara do primeiro andar tentou se casar com o cachorro? – falou confidente.
– Coitado do Tobby! – disse chocada. Fiquei com pena do animal, lembrando-me do pequenino nas mãos daquele vadio. Que raiva.
– Coitado mesmo! Pensei em até processa-lo e pedir a guarda o cão para mim, mas não posso fazer isso já que não peguei diploma. – deu de ombros e ou o olhou surpresa.
– Diploma? Você fez Direito? – falei rápido.
– Sim, mas eu não gostava, eu gosto de música, por isso aqui estou! Papai não aceitou filho que não seja o que ele ordena. – falou naturalmente, parecia não se arrepender e eu senti uma espécie de inveja dele agora. Ele havia tido coragem de dizer não ao que os pais o forçaram e saiu de casa, ao contrário de mim, que mesmo não morando mais com minha mãe, fiz o que ela mandou simplesmente por que ela quis.
– Te admiro por isso! – falei em seguida com um sorriso leve no rosto.
– Eu sei, por isso e por eu ser tudo trabalhado no tesão. Eu te entendo! – piscou para mim com um sorriso de lado me fazendo rir e aliviando toda a tensão que estava sentindo desde que acordara. Era bom rir.
– Olha, eu estou fora dessa sua missão de dormir com todas as mulheres do estado de New York, elas são como minhas irmãs! – falei o cortando, agora mesmo que não poderia ceder aos dotes do Sr. Orgasmos a minha frente. Ele riu, sua risada era morna e envolvente, me peguei o fitando longamente.
– Nossa! Pensei que você fosse mais legal. – disse indo até outra parede para analisar o quadro que lá estava.
– Ser legal não tem nada a ver com ser puta. – retorqui.
– Não! Tem a ver com diversão e eu sei me divertir. – me olhou de lado com um sorriso lindo de molhar minha calcinha. – Diversão é aquilo que eu posso te dar. Ou você pode me dar. – arqueou a sobrancelha com seu sorriso de lado e piscou um orbe azul para mim. Deliciosamente ousado e desafiador. Sim, eu me arrepiei.
– Que bom para você “Sr. Alegria e Diversão”. – disse irônica, o fazendo menear a cabeça como se eu estivesse em um tipo de competição com ele. Ou estava e não tinha me ligado, estávamos uma brincadeira de quem flerta mais em plena manhã, justo no dia em que já não poderia cogitar mais a hipótese de jogá-lo na parede e...
– Bom, acho que a barra já está limpa. – ele disse olhando pelo olho-mágico da porta. Virei-me para ele desviando os olhos do além onde minha mente estava presa e sorri para ele. – Valeu por me ajudar. Você é um anjo. – me elogiou conquistador.
– E você um cafajeste! – acusei cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha.
– É o que dizem. – piscou e abriu a porta. – Um beijo! – E se foi. Arg! Que homem mais lindo e irritante.
Suspirei e voltei a minha cama, após guardar os biscoitos e por o copo na pia, necessitava dormir muito mais para aliviar minha dor de cabeça, dor essa causada por vinte e um motivos, um era a ressaca que estava sentindo e os outros vinte eram os homens no qual havia deitado; transado e dormido.
Talvez se dormisse para sempre eu me livrasse desses problemas.
Levantei-me após algumas horas em coma induzido pela ressaca um tanto recuperada. Decidi limpar a casa, já estava na hora de uma arrumação.
Suspirei e peguei um paninho e o álcool para limpar os móveis e, para relaxar e para ocupar minha mente pus o toca disco para rodar com o disco de vinil, sim de vinil, do meu cantor favorito; Lionel Richie. Sei que é antigo, mas o cara tinha o dom.
Ao som de Easy comecei a dançar/limpar a casa cuidadosamente. Depois que limpei todos os móveis e os ventiladores, as paredes, o banheiro, e tudo quanto é coisa pela frente, peguei o aspirador de pó para limpar o chão e o carpete que não estava exatamente algo que chamaria de limpo.
Quando já estava na sala, um dos últimos lugares a que faltava limpar, vi a tela meu telefone fixo brilhar e desliguei o aspirador para chega-lo. O som do telefone tocando invadiu meus ouvidos logo que desliguei a máquina e me adiantei para atender.
– Alô? – perguntei logo que o coloquei contra meu ouvido.
– Oi, Lena? – ouvi a voz levemente grave invadir meus tímpanos e me fazer lembrar todas das doces memórias infantis com sabor de nostalgia.
– Pai! – sorri ao sussurrar.
– Borboletinha. – respondeu ele.
– Como é que vai? – disse animada. – O senhor está bem?
– Estou sim, minha filha. Só estou ligando para avisar que não irei voltar para as festas de fim de ano como havíamos combinado. – ele avisou com a voz cuidadosa enquanto sentia a animação se esvair aos poucos.
Meu pai vivia viajando após a separação, com ele próximo sempre teve muitas brigas, pois minha mãe meio que não nos “autorizava” a tentar unir no mesmo espaço ela e papai.
Eles se separaram quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, claro que na época ele fora super presente, mas a medida que fomos crescendo ele foi nos dando a nossa liberdade e ai pode ter a dele. Vivia entre negócios e bares, fora ele que me dera o meu apartamento, mas com a condição de eu o escolher e como eu queria algo simples escolhi este.
– Ah! Mas por quê? Posso saber Sr. Alaric? – perguntei, tentando ao máximo disfarçar a decepção em minha voz. Eu sempre fora extremamente ligada a ele, e ele a mim e Kath, sempre nos ligava ou falávamos pelo computador, digamos que ele era um “coroa antenado”, mas da mesma forma não era como ver-nos cara a cara.
– É que... É que... – ele começo indeciso.
– Pai, sabe que pode me contar qualquer coisa, já sou adulta e sei do mundo. – falei reconfortante.
– Bom, tem uma moça, uma ex-namorada minha. – explicou. – Eu a encontrei em Petra semana passada, e ela mora no Tennessee. – deu um suspiro. – Quando a vi eu não sei, algo em mim se tornou mais vivo e quando ela veio falar comigo eu não sei explicar o quanto feliz eu fiquei. – disse encantado e eu sorri ouvindo.
– Que ótimo pai! – falei emocionada.
– Sabe, é sobre isso que liguei. Não entenda mal, não estou trocando você e Kath por outra mulher, vocês são as mulheres mais importantes da minha vida. – disse também emocionado. – Mas estou velho, filha, e eu já perdi a chance uma vez, não posso deixar essa escapar também. Jenna é incrível, e eu me sinto tão bem com ela.
– Isso é lindo, pai, mas tem certeza disso? – falei incerta, não queria que meu velho tivesse uma decepção a essa altura da vida, o amava demais.
– Tenho sim Lena. Pessoas mudam e todos merecem uma segunda chance, e esta é a minha. – ponderou sabiamente.
– Então eu confio em você, quero somente a sua felicidade. – murmurei com os olhos lacrimejantes.
– E eu a sua borboletinha. – disse carinhoso.
– Sinto sua falta, pai. – deixei as lágrimas caírem com um sorriso nos lábios.
– Eu também pequena, prometo que a virada de ano passo com você e Kath. Talvez vocês conheçam Jenna. – falou animado, com a voz embargada.
– Espero que sim. – ri com o peito doendo, era sempre bom falar com papai, ele era tão animado, louco e carinhoso ao mesmo tempo, talvez por isso ele e mamãe não dessem certo, ela era séria demais para ele, mas eles se amaram, um dia.
– Claro que sim, mas agora está na hora de eu desligar, filha, ainda tenho que passar pelo processo choradeira com Katherine. – falou rindo.
– Boa sorte. Pelo menos ela está menos emocional que eu. – sorri.
– Conto com isso, querida. – podia o imaginar piscando ao falar isso. – Até que nos encontremos. – sussurrou.
– Até que nos falemos. – sussurrei também nossa despedida costumeira. – Te amo pai.
– Te amo filha. – desligou e me deixou com lágrimas e sorrisos uma vez mais. Sempre era assim, toda vez que nos falávamos eu ficava entre risos e choros. Mas era bom, apesar de tudo.
Me sentei no sofá e pensei sobre meu pai, com quarenta e três correndo com uma colegial atrás de um amor pela segunda vez.
“... Pessoas mudam e todos merecem uma segunda chance...”.
Será que eu faria isso algum dia? Pensei admirando a iniciativa de meu pai.
– Por que não faço isso agora? – me perguntei em voz alta. Realmente, se meu pai poderia dar uma segunda chance a essa tal Jenna, por que eu não poderia dar a algum ex meu? Eu não aumentaria meu número. Como meu pai disse, pessoas mudam, por que eles não?
Oh meu Deus! Estava confusa.
Levantei-me e fui para meu quarto, pus uma calça jeans e uma blusa regata, não aguentava ficar em casa mais e nem a ideia de continuar a faxina me distraia.
Saí a pé de casa andando pela as ruas do Brooklyn, peguei um táxi até o Central Park, sentei-me em um banco observando as pessoas, os animais, casais e mais casais juntos, se beijando, abraçados. A possibilidade de nunca mais ter isso era angustiante.
Olhei além das árvores, para o outro lado da rua e vi uma igreja. Sério, nunca fui de ir à igreja ou religiosa, mas como hoje de manhã, se Deus fosse tão maravilhoso quanto diziam ele iria me mostrar um caminho, uma saída.
E sem raciocinar mais nenhum segundo, me vi diante do confessionário respirando fundo para tomar coragem para o que faria a seguir.
Me confessar, eu, Elena Gilbert, estava prestes a me confessar.
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