A Matemática do Prazer
11 - Coeficiente de Confessionário
Notas iniciais
Bom, me confessar não era exatamente o que eu tinha em mente, mas na minha situação intervenção divina era uma das únicas coisas que me vinha a mente e me confessar era a maneira mais rápida de conversar com o cara lá de cima por intermédio de um padre, talvez Deus tenha clemencia e ao menos torne meu 20 em 19, como antes, não precisava de mais, já ficaria satisfeita.
Aproximei-me do confessionário o que se definia por hesitante, somente tinha me confessado uma vez, quando eu tinha quinze anos e tinha uma paixonite e busquei respostas divinas, a diferença com minha situação atual é que uma paixonite não te torna puta. Ajoelhei-me no local apropriado para isso e pus as mãos em sinal de reza.
– Perdoe-me, padre, pois eu pequei... – Muito! Acrescentei mentalmente. Comecei da única maneira que sabia, na maioria dos filmes faziam desta forma. – Faz uns nove anos desde que me confessei pela última... – e única – vez. Calma, não, são oito anos. Oito desde que me confessara. – me corrigi, nunca fui boa em matemática, deve ser por isso esse número 20?
– Bom, minha filha, conte-me quais são seus pecados? – pergunta ele suavemente. Mesmo que sua voz seja reconfortante, ainda me sinto com os nervos em frangalhos. Respiro fundo sabendo que se não houvesse o anteparo entre nós nunca conseguiria iniciar a conversa que estávamos prestes a ter, se este fosse um daqueles confessionários onde ficamos cara a cara com os padres.
– É que... – respirei fundo tentando imaginar uma maneira atenuante, delicada ou gentil para se contar isso, mas não encontrava, tinha que ser na tora mesmo. – Padre, eu dormi com 20 homens.
Falei apressadamente, mas de maneira clara. Não só dormi como brinquei de casinha com eles. Estava até que um pouco aliviada de contar isso para um desconhecido, ele não me julgaria. Espero.
Aguardo a resposta em expectativa e paz. Mas com a demora comecei a me agitar. Oh Deus. Será que ele morreu? Enfartou? Rezava por minha alma ou fora embora? E mesmo em meio as minhas conjecturas ele não me responde, quando maior é o tempo em silêncio maior é minha inquietação. Até que me passar pela mente algo. Será que me interpretou de forma errada? Aprecei-me em explicar antes que ele imaginasse o mesmo que eu.
– Oh, mas não foram todos de uma vez. Foram 20 diferentes homens em 20 momentos diferentes. – minha voz era aguda com um toque de desespero e presa ao esclarecer. Ok. Acho que assim está melhor, talvez ele volte a falar comigo. Sorri comigo mesma e aguardo.
Mas nada aparece, nada se escuta. Ocorreu-me que eu não estava sendo inteiramente verdadeira com ele. A fim de despejar todo aquele peso resolvo revelar outro pequeno detalhe.
– Ah e houve uma garota também. Mas não a considero nessa contagem. Eu estava na faculdade, tomada pelas biritas e tudo que aconteceu fora acima da linha da cintura, e bem... O senhor sabe como são essas coisas. – minha voz já estava com uma ponta chorosa. “O senhor sabe como são essas coisas”? Como eu disse isso? Ele é um padre, pelo amor de Deus. Não! Ele não sabe sobre isso. Droga! Sou uma burra!
E ele continua a não me responder, e isso me deixa preocupada e inquieta, que me faz suar como um porco e me fazer feder, o que me deixa ainda mais nervosa e consequentemente, suo ainda mais. Era um ciclo vicioso, eu falava, ele calava e eu ficava desesperada. Sinto que estou falando sozinha e todo o conforto que senti antes se vai, ou já tinha ido, e me pergunto que ainda há alguém lá.
– Oi. Tem alguém aí? – minha voz é baixa. Escuto em resposta um pigarro baixo.
– Estou aqui. Estava... absorvendo isso e pensando. – Suspirou. – Mas deixe-me fazer uma pergunta.
– Faça. – disse feliz e ansiosa.
– Você se arrepende de ter dormido com esses homens? – ele disse mais intenso, sentia uma pitada familiar naquela voz levemente curiosa. Penso seriamente naquela pergunta.
– Bom, alguns foram trágicos, outros péssimos ou terríveis. Mas... – pensei no que iria falar agora. Estava ali para me confessar, então só valia a verdade se eu quisesse que fosse real, eu queria um conselho, uma luz, sei lá, algo que me direcionasse. – Não. Não me arrependo de ter dormido com eles. – disse por fim.
– Então por que se confessa? – questionou o padre.
– Porque eu me arrependo de ter sido tantos. Lamento ter sido 20, como um todo, mas não me arrependo de ter feito com cada um, individualmente. – falo rápido, porém era uma questão pensada.
– E por que veio até aqui hoje? – seu tom era sério.
– Acho que por que eu não tenho um psicólogo ou um terapeuta. – confidenciei.
Sabia que não havia gostado da resposta que tinha dado, porém era a verdade e eu estava determinada a falar somente ela. Ele solta um grande suspiro. Percebo que vir foi uma má ideia. Não preciso ser julgada, não agora, não hoje e nem por um representante de Deus. Levanto-me para ir para casa...
– Espere! Não vá! – ouvi a voz do padre ao perceber meus movimentos. – Só estou confuso, pois não tenho certeza do porquê você estar aqui.
– O senhor já me disse isso. – minha voz é um tanto alta. Tinha a impressão de estar em um disco arranhado, repetindo várias vezes as mesmas coisas presa nas mesmas questões. Honestamente, meu dia havia sido dificílimo, por que as coisas não podiam ser mais fáceis?
– É verdade, desculpe. Eu já disse isso. Por favor, então me conte por que ficou irritada, então? – disse reconfortante.
– O motivo? – digo pega de surpresa. Hesito antes de continuar. – Bem... há vários motivos para eu ficar irritada.
– Não tenho pressa. – diz gentil. Ele parece sincero e assim fico mais a vontade, porém incerta.
– Tudo?
– Tudo. – sinto que ele está sorrindo.
– Tem certeza disso?
– Total.
– Então tudo bem. – vejo que estou em um estado automático. Sento-me no mármore frio do chão da igreja e me recosto contra o confessionário para iniciar a longa história. Simplesmente começo a contar tudo a ele, absolutamente tudo, as palavras chegam a somente transbordar desenfreadas por meus lábios.
Falo sobre minhas frustrações, minha mãe, ser uma dama, de como a separação de meus pais me afetou, de como queria chamar atenção, como comecei a ser “dada”, falei sobre a demissão, em como a tensão sexual era insuportável, da matéria na revista, a minha tentativa de fazer uma lista, do meu problema de memória, de minha promessa de ficar nos 19, de como eu a quebrei, falo sobre como me senti mal com os números de minhas amigas, de como odiava a pressão que sentia, do meu sonho no dia no noivado de Kath, de como eu não acreditava haver mais salvação para mim e o que me levou até lá em busca de um direcionamento, de resposta, de qualquer coisa. Conto tudo a ele. Exatamente tudo, sem omitir ou resumir, um uma única frase.
Ao terminar espero que ele diga algo, mas ele era um cara insistente, insistia no silêncio que me deixava prestes a ter uma sincope. Mas acho que sei por que ele se mantem em silêncio desta vez. Tenho certeza que vou para o inferno e ele não tem coragem de me falar como estou censurada. Suspiro alto resignada com meu destino: condenada a viver em celibato e depois, a eternidade no inferno.
De novo me levanto para ir em bora e começo a sair do confessionário, mas o padre, finalmente, quebra o imenso silêncio, porém ele não diz o que eu espero e sim um nome. Meu nome.
– Elena? – prendo a respiração totalmente surpresa e paralisada. Tenho certeza que nunca estive nessa igreja antes e em nenhum momento lhe disse meu nome, só o nome das demais pessoas da história.
– Você sabe quem sou? – pergunto com os nervos à flor da pele.
– ah, eu, eu... Apenas... – ele cala.
E aí eu me toco, a voz do padre não é reconfortante por ele ser gentil e sim porque é familiar.
– Nos conhecemos? – pergunto abismada.
– Talvez sim. – ele responde.
– Como?
– Acho que estudamos juntos. – ele responde, mas a todo o momento eu tenho certeza que não frequentei nenhuma escola católica na vida. Ainda não estou louca!
– Quando? – estou desconfiada.
– No segundo grau.
– Segundo grau? Em Jersey? Estudamos juntos em Jersey? – franzo o cenho tentando associar a voz a um rosto conhecido daquela época.
– Sim. Sou Daniel. Dan Gillies. – responde ele.
Dan? Oh Deus! Aquele Daniel? Céus, ele é padre? Oh não! Não mesmo!
– Você... é... padre? – pergunto arrastado e confusa.
– Sou... – respondo baixo. Sinto uma ânsia de vômito ainda maior que a de manhã.
– Bom, faz muito tempo Lena. – ele continua. – Da última vez que nos vimos estávamos...
– Transando! – eu praticamente grito o interrompendo de imediato. – Estávam... Estávamos no banco de trás do carro da sua mãe! Ai, meu Deus! Opps! Digo... Ai que droga! – pus a mão em minha cabeça. Só essa que me faltava! O que será agora? Ser abduzida? Pagar pau pro Papa? Pro Barack Obama?
Bom, Dan havia sido o número 2. Estava tonta. Com sete bilhões de pessoas no planeta, que ouviu a minha confissão de que eu dormi com 20 caras, tinha que ser um dos vinte? Ah, sim, agora que eu vou direto para o inferno. Não estava acreditando nisso. Saí imediatamente e fui caminhando transtornada em direção aos portões da igreja, e mais uma vez ouvi uma voz me chamando à minhas costas.
– Elena, Elena, espere. – diz Daniel. – Desculpe, eu deveria ter ficado calado. – mais? – Mas queria impedir que você acabasse falando demais.
– Antes que eu falasse demais? – digo incrédula. – Então você deveria ter me interrompido logo após eu dizer “Perdoe-me padre, pois eu pequei”!
– Eu devia ter feito isso, mas só te reconheci quando começou a falar de sua família. – paro antes de atravessar as portas de igreja e dou meia volta. Não creio que Daniel virou padre, ele está exatamente como eu me lembrava, somente um pouco mais magro e, claro, pela batina.
– Lamento por isso, Lena. – ele diz arrependido e ele me chamar pelo meu apelido me lembrou da ultima vez que escutei sua voz, enquanto ele gemia. Argh!
– Também lamento Dan. – Me viro para a porta novamente o sinto me segurar. Isso me faz me lembrar da nossa história juntos. Bom, não tínhamos realmente uma história, além da amizade, e, diga-se de passagem, o fim dela fora inteiramente minha culpa.
Estávamos no Show do Bon Jovi, eu tinha por volta dos 16 anos e estava muito puta da vida naquele dia. Havia planejado semanas aquele dia, estávamos eu, Dan, Matt e Cindy, não era muito amiga de todos, somente de Dan e ele era o melhor amigo de Matt, meu amor do momento, e Daniel teve que levar a prima para o show, caso contrário não poderia ir, e consequentemente Matt também não iria.
Meu único objetivo no show ele ir atrás de alguns meninos. De um menino. Matt. E este sumiu, eu e Dan fomos atrás dele e o encontramos atrás dos banheiros químicos com uma menina de nossa sala, meus olhos arderam, mas eu não liguei. Quando ele olhou em volta para ver se alguém o flagrava eu empurrei Dan contra a árvore que nos escondíamos e o beijei.
Saímos cedo do show, eu Dan, após aquilo. Ele era o único que poderia dirigir de nós já que sua mãe confiava inteiramente nele e fora no carro da mesma que entramos. Durante todo momento que nos agarrávamos ele mantinha os olhos fechados, percebi, mas não liguei e quando ele perguntou se eu queria que ele me levasse para algum lugar eu neguei.
Com o coração ferido eu sinceramente esperava que Matt viesse a nossa procura e nos encontrasse fazendo o que estávamos fazendo naquele instante. Durante todo o ato ele ficou daquele modo, muito passivo e não me olhava nos olhos. No momento eu não liguei, fora sexo por ódio e então nas semanas seguintes ele tinha se mudado com a família e Matt e eu nos acertamos.
Céus! Será que ele tinha se tornado padre por causa daquela noite? Será que eu era tão ruim assim de cama? O encarei, observando seus traços novamente... A batina... Deus! O que eu havia feito?
– Dan, por favor. Me diga que isso... – apontei para suas vestes. – não é por minha causa. – por favor, por favor, por favor! Clamei em silêncio. Estava prestes a surtar e aquilo seria peso demais para eu driblar, acabar com a vida de um garoto de dezesseis anos por ciúme era muita responsabilidade.
– Não! Não! Isso não por sua culpa, Lena. Eu juro. – ele sorriu condescendente para mim e eu me permiti respirar. Dane-se se ele estiver mentindo para mim, eu me sentia aliviada da mesma forma e se a verdade fosse pior... Verdade! Verdade é sempre a melhor decisão! Algo em mim dizia.
– Tem certeza? – disse receosa em ouvir uma negação.
– Toda do mundo. – suspirei. – Por favor, Elena, volte e converse comigo, quero te ajudar a superar isso. – Ele pegou minhas mãos, impedindo que eu fosse em bora. Olhe para e senti pena. Pena dele, de mim, pena de nós e dessa situação totalmente constrangedora. Se não estivesse mais atordoada eu estaria corada, cem dúvidas. – Aliás, eu já sei a história. O que te prende?
– Tudo bem. – cedi, em fim. Ele sorri para mim e me leva até um dos grandes bancos da igreja e nos sentamos para conversar.
Passa-se mais uma hora e nós estamos conversando, ele tenta me entender e eu tenho entender o que ele diz. Apesar de não esperar por perdão quando entrei aqui já estava me estressando de ele não me conceder um. Apesar de eu afirmar que estava, sim, arrependida, ele insistia em dizer que eu não estava!
“Porra! O arrependimento é meu, se eu disse que eu estou é porque eu estou!” Ah, claro que eu não me expressei desta forma, mas queria.
– Elena, se você não tivesse tido o seu vigésimo, se não tivesse dormido com Kol ontem, você estaria aqui? – perguntou calmo.
Pensei em respostas como “Claro que não!” e “Claro que sim!”, mas me mantive calada, nenhum das duas era a verdade.
– Você está certo! – suspirei derrotada.
– Está vendo o que quero dizer? Você não se arrependia de ter dormido com nenhum deles até dormir com o último. E você está irritada pelo fato de ter atingido algum tipo de limite que você se auto impôs, isso não é arrependimento, você está se repreendendo por algo que fez! – ele disse de maneira calma. Vi minha mão estragando a cara branca e imaculada dele todinha, mas eu simplesmente abaixei a cabeça. Ouvir a verdade era doloroso, e quando a esfregavam e saiam sambando na sua cara com ela, era pior ainda.
– Mas estou arrependida de um jeito ou de ouro, não? Não é assim que funciona? Arrependimento, por arrependimento... – falei trabalhada na esperança.
– Não. Imagine, se você tivesse determinado que seu limite fosse trinta, você estaria aqui agora? Estaria arrependida? Não! Estaria em casa, de boa, curtindo uma ressaca e tentando esquecer o cara nojento no qual você acordou ao lado. Isso não é arrependimento real. – ele afirmou e ai eu abaixei a crista e assenti.
– Ah! Cala a boca Dan! – falei como nos velhos tempos, onde eu me irritava por ele sempre estar certo. – Opa! Desculpe. – disse de olhos arregalados. Ele fez uma feição séria e depois relaxou, levando meu coração na mão.
– Tudo bem. Ócios do ofício. – ele disse, calmo.
– Realmente me desculpe. Foi sem intenção. – verbalizei de forma solene.
– Eu lhe perdoo, pois está realmente arrependida de ter me insultado. – sorriu levemente me olhando sugestivo. – Viu a diferença?
Bufei irritada, porém resignada.
– E como eu fico arrependida realmente? – perguntei com a curiosidade ardendo em meus olhos.
– Olha Lena. Há um problema mais profundo, além do arrependimento, que você precisa explorar e resolver. Enquanto você não descobre o porquê de você passar por tantos homens assim, não irei lhe conceder o perdão por nenhum dos 20.
– E como isso me ajuda? – perguntei, desesperada. Daniel riu e segurou minhas mãos.
– Lena, você não disse que estava fazendo uma lista? – assenti para ele totalmente perdida. – Então, a utilize para, primeiramente, analisar cada um de seus relacionamentos e ver o lado ruim e bom de cada um deles, assim você poderá se arrepender da maneira certa.
– Sim. – concordei. – Só tem um problema, eu, realmente, acredito ter déficit de atenção. Como é que vou conseguir fazer isso tudo?
– Tudo bem, então volte aqui quando você tiver 60 anos e tiver dormido com 78 caras. – fez uma analogia para meu sonho, me tirando um enorme arrepio de medo.
– Isso não foi legal de sua parte! – acusei. Ele suspira.
– Não maneiras fáceis para resolver isso. Não há uma solução instantânea, tem que ser da maneira difícil. Enquanto não resolver este problema continuará a cometer os mesmos erros, repetidamente. Faça a analise e retorne para conversarmos e então, lhe darei o perdão. – gemi concordando e largando a preguiça de lado.
– Ok! Tudo bem! – me rendo completamente de contradizer e decido fazer o que ele me sugeriu o quanto antes. – Sabe, me confessar era estupidamente mais fácil quando eu era adolescente, já que as piores coisas que tinha feito fora falar alguns palavrões, na época.
– Você só se esquece de que crescemos juntos! – Daniel diz, sorrindo para mim.
– Ah! Dan, você ainda fala com Matt? – perguntei. Ele meneou a cabeça.
– Não, perdemos o contado fá anos. E você?
– Também não! – digo enquanto caminhamos para a saída. Era estranho falar com ele sobre isso, quando eu tinha o usado para fazer ciúme no outro, mas fora mera curiosidade. Matt fora o meu primeiro, o número 1.
– Você virá para missa amanhã, Elena? – Daniel pergunta enquanto abre as enormes portas da igreja.
– Acho que sim... – minto descaradamente.
– Você deveria aparecer, Lena. – Dan diz com um sorriso e sinto que ele sabe que menti, mas não liga. – Você precisa de Jesus na sua vida, minha amiga.
– Preciso de muito mais que isso, Daniel. – falo indo embora, após pedir a benção.
Tinha dever de casa para fazer.
Fale com o autor