A Matemática do Prazer
19 - Equivalentes a Cafajestes
Notas iniciais
Meus passos são rápidos, quase uma corrida. Meu tornozelo torcido protestava contra a velocidade, mas a aceleração que me tomava era movida à fúria. E eu estava repleta dela no momento.
Meus saltos pendiam em minha mão à medida que me afastava das luzes opulentas do requintado bistrô. As ruas não estavam desabitadas, mas também não tinham a vida de minha amada Nova York. Chapinhava pela calçada com a segurança e certeza de que ele não me seguiria. Oh! Como me arrependia!
Chego à esquina onde a placa de que ali era um ponto de táxi chacoalhava pesa a marquise do edifício acima de vários pavimentos. Ali era a área mais nobre da cidade, cercada pelo centro movimentado.
Trinco os dentes com o ímpeto que me consome. Não choraria por ele! Da primeira vez não derrubei sequer uma lágrima, não seria agora que o faria. Mas o papel que me prestei a fazer me chateava na mesma proporção em que me enfurecia.
A obstrução turva e quente não permitia ver muito além do farol do veiculo estacionado há metros de distância. O vento frio que varria o espaço ao meu redor não era muito percebido por mim, mas me recordava muito o ambiente com o forte ar condicionado que estava há pouco.
Abro a porta do táxi e deslizo pelo banco de couro com um suspiro. Olho para o motorista e me surpreendo que seja uma mulher. Ela sorri acolhedora para mim, mas tudo que consigo é um sorriso fraco em resposta.
– Boa noite. – cumprimenta baixinho. – Para onde senhora? – ela questiona com os olhos na rua. Entrego-lhe o cartão do hotel.
– Para este endereço. – respondo ao por em sua mão o cartão e me recosto no banco.
Demora um momento para ela arrancar com o carro, mas logo está na pista e observo a calçada pelo vidro de minha porta. Em instantes passamos pelo restaurante requintado e minha respiração falha. Não posso evitar lembrar-me de quão desastroso meu jantar fora esta noite.
“Desço para o saguão do hotel e vejo que há um carro parado em frente à porta dupla de entrada. Tento ver quem é o motorista, mas minha visão não é tão boa assim, porém a dele é. O vejo sair do Tucson e sorrir para mim. Saio do hotel e o encontro na metade do caminho. Ele me cumprimentou rapidamente e abriu a porta do carro para mim. Agradeço o gesto e não consigo deixar de sorrir um segundo. Olho para a fachada do hotel e no segundo andar a luz de nosso quarto ainda está ligada.
No caminho, conversamos sobre o que tínhamos feito durante o tempo em que não nos víamos, mas a surpresa agradável foi o como em que ele me elogiava repetidamente – seja por minha independência como mulher, inteligência ou por meu bom humor; suas palavras. Foram os vinte minutos da minha vida que mais me senti bajulada.
Ele estava agindo muito bem comigo, me ofereceu o braço na entrada do restaurante até. Estava deliciosamente surpresa com sua atitude, com todas elas. Fomos até a mesa que ele tinha reservado – sim, reservado! – no centro do salão.
– É bem movimentado aos sábados... – ele justificou quando perguntei por que reservou uma mesa. Nunca tínhamos saído para jantar, almoçar ou lanchar no período em que ficamos ‘juntos’. Isso sim era progresso.
Eu me sento sem esperar mais alguma gentileza da parte dele – seria abusar demais da sorte –, observo Rod sentar-se a minha frente com um sorriso leve. Usava uma blusa cinza e sem estampas com calça jeans e o toque mais chique, que quebrava toda simplicidade que tem em se vestir, provinha do blazer preto com cortes retos.
– Gostaria de pedir agora? – pergunta quando o garçom se posta ao nosso lado, prestativamente.
– Oh! Algo para beber seria bom... – sugiro somente, mas não ligo para o que fala com o moço ao nosso lado e ele também não pergunta minha opinião sobre gosto ou preferência.
Observei a mesa redonda que continha dois conjuntos de jantar no estilo fino, mas não me preocupei com os diversos talheres em prata, minha educação desde pequena tinha incluso aulas de etiqueta. Cada prato em porcelana branca e assim como as taças de cristal, as bordas eram delineadas por uma linha dourada, eram todos alinhados simetricamente sobre o forro cor creme da mesa.
Conversamos amistosos por momentos até descobrir que ele pediu champanhe para degustarmos e, após uma taça, ele faz nossos pedidos e escolhe para mim salmão grelhado com arroz e cream cheese. Novamente ele tinha pedido por mim, mas eu apreciei a seleção e não podia exigir que ele deixasse todos seus velhos hábitos subitamente. Ele estava muito mudado, pelo o que notei até agora, mas também não deixou de ser ele mesmo.
Enquanto comíamos, tentava abordar o assunto principal – nosso encontro – sutilmente, para não parecer uma louca completamente desesperada, ele também evoluía a conversa para o assunto central, mas comecei a estranhar alguns comentários que ele começou a fazer. No fim, decidi comer o jantar que estava perfeito.
– Recebeu meu presente hoje à tarde, Elena? – ele pergunta antes de por o garfo na boca. Sorrio ao terminar de mastigar e beberico a taça de água para poder responder-lhe de forma educada.
– Sim! Adorei, sem exceções, todos os presentes. – digo de forma agradecida, tanto pelo presente, quanto pelo rumo propicio do assunto.
– Que bom. – repuxa o canto da boca. – E você usou os produtos? – fala bem interessado.
– Claro que sim. – rio e tomo um gole da taça de champanhe. – Todos eles! – completo arrancando-lhe, agora, um sorriso inteiro.
– Oh! Então valeu a pena pegar todas aquelas amostras grátis na empresa! – responde animado e não posso evitar como aquilo tinha quebrado o encanto do cara atencioso que tinha montado em minha mente, sabendo que eram todas amostras grátis. Meu sorriso morre, mas disfarço ao tomar outro gole de minha bebida e dou mais duas garfadas antes de ter que responder para fingir, com mais convicção, que não me importava.
– São ótimos produtos. – falo, somente, ao ver que aguarda aprovação ansiosamente de minha parte.
– Isso é perfeito! – remexe em sua lasanha. Confesso que gostaria de estar comendo aquela massa recheada de queijo derretido, manjericão e molho bolonhesa, delicioso; só de olhar sabia que estava divino. – Bom... – pigarra.
– Sim? – digo educadamente.
– Você notou alguma modificação em seu corpo com os produtos? – ele apoia a cabeça sobre suas mãos ao me olhar incisivamente.
– Você está fazendo uma pesquisa de marcado? – contesto com escárnio. Inacreditável se ele estivesse, por isso tratei como brincadeira.
– Parcialmente! – começa a rir descontroladamente. Dou um sorriso amarelo, agora sem saber a verdade. Seria chacota?
– Hum... – murmuro desconfortável. Ele está me encarando na expectativa e eu me sinto contra a parede com esta situação. – Bem, não notei nada demais...
– Nada demais? – repete, como para confirmar a informação. Assinto e cruzo as pernas sob a mesa para evitar chutar ele. Estava tudo tão bom e agora me vem ele agindo como um idiota!
– Não. – falo com confiança.
– Nada de redução de acnes, oleosidade, ressecamento ou rugas na pele? – franzo o cenho com o tom manso que ele começa. – Sem diminuição de varizes, verrugas, estrias ou celulite? – sua voz agora estava mais afobada por eu estar impassível diante dele tentando me controlar. – Nenhum decrescimento de medidas, culotes, pelancas ou até de transpiração? – está nervoso e falando sem sessar. Engulo em seco e trinco os dentes, não esboço nenhuma reação pelo fuzilamento em minha autoestima. Devo aparentar uma quenga mal acabada! Respiro fundo para não fazer nada precipitado e opto por segurar a faca de peixe com mais força para não correr o risco dela escorregar para o meio de sua cara.
– Não, Rod. – sou curta e até seca ao tom definitivo que assumo a fim de extinguir tal assunto desagradável.
– Não é possível que nenhum dos presentes tenha funcionado! – agora parece levemente irritado. Espere... funcionado? – Pelo menos a loção depiladora tirou seus pelos pubianos crespos? – Mas o que? Crespos? Hã?
– Como assim? – minha voz é baixa e mortalmente contida. Não estava compreendendo o que dizia... ou fingia para não explodir.
– Ah! Você sabe, né Elena? Quando eu te fodia, os cabelos da sua boceta eram tão grossos que davam irritação na pele da minha virilha... Usei até pomada para assadura de bebês. – o modo como diz com naturalidade me choca.
– Mas eu sempre me depilei. – argumento não sei por quê.
– Sim, mas quando começa a crescer eles são mais grossos que os pelos da vassoura de minha casa. – rola os olhos como se fosse óbvio. Engulo minha saliva e lágrimas. Era vergonhoso isso e eu não considerava os meros pelinhos tão crespos assim... O difícil era achar uma parte do meu corpo com a cor natural porque a essa altura até meu rabo estava rubro de pura vergonha.
Fico em silencio e Rod resmunga mais algumas coisas que não dou atenção. Espero que depois de tudo, possamos superar todas minhas estias e rugas, defeitos no total, e sermos felizes em nossa segunda chance – porque tentar me lembrar da lista de imperfeições citada anteriormente faria qualquer mulher pegar a faca de peixe ao lado de meu prato e cortar os pulsos ali mesmo.
Não sei como ainda tenho esperança de existir uma ‘segunda chance’ com Rod, mesmo que ele tenha me convidado para sair e tudo mais e sua simplicidade me atraia, não podia me sentir mais lixo ao lado dele. Bom, ao menos ele se interessou o suficiente para me trazer um restaurante fino; pedir champanhe e salmão grelhado...
Iria aguentar até o fim do jantar, iria para o hotel, passaria o resto da noite em frente ao espelho procurando todos os defeitos que tinha, choraria e iria em bora amanhã.
–... Para mim um sorvete de limão siciliano com creme irlandês e para ela milk-shake diet de frutas vermelhas. – Rod pede para o garçom que enruga a testa ao me olhar de soslaio, mas assente e se afasta. Aff! Até não liguei de ele pedir pra mim no inicio, mas milk-shake diet? Só peso cinquenta e oito quilos, sem necessidade disso! Ou tem? Será que estou com pneuzinhos?
– Oh! Perdão, senhorita! – o garçom exclama e agora vejo que esbarrou o cotovelo em minha taça d’água.
– Tudo bem. – digo para tranquiliza-lo. – Pode deixar. – dou de ombros com um sorriso triste. Ele termina de pôr meu milk-shake a minha frente e se vai.
Sorvo minha sobremesa um tanto furiosa outro, ofendida. Até que não era tão mal, estava com o sabor exatamente igual ao milk-shake normal, igual até demais, suspeitava que o garçom tivesse trazido a sobremesa com açúcar. Agradeço eternamente, necessito de glicose para curar minha raiva.
– Elena? – Rod é impaciente ao exigir minha atenção.
– Sim? – minha fala é cortês, meu tom não.
– Estava falando sobre o porquê de lhe trazer aqui hoje... – Agora ele parecia confiante de si e eu fiquei curiosa. Mesmo com a péssima opinião a meu respeito e todos os baldes de água fria em meu amor próprio, talvez ele goste de verdade de mim.
– Me conte o motivo. – agora sorrio, cheia de esperanças.
– Tenho uma proposta para você. – informa agora todo sorrisos ao notar minha empolgação.
– E...? – incentivo com impaciência, em busca das palavras que não se seguiram, já que ele só sabia me olhar como se tivesse algo que eu quisesse muito.
– Você vai aceitar, Elena! – ele diz convicto e malicioso. – Você vai aceitar porque é uma mulher inteligente, sagaz e bonita. – dá uma pausa como se oferecesse a oportunidade de minha vida. E poderia, sim, ser isso mesmo. – Você sabe o que é bom e também sabe que pode levar a beleza a toda e qualquer mulher. – Franzi o cenho um pouco perdida em sua frase. – Você busca interpendência profissional, versatilidade, estabilidade financeira e sabe que merece o melhor. – sua empolgação o trazia cada vez mais próximo a mim e eu me sentia incrível com suas palavras e elogios, mas não nego que parecia um vendedor daqueles comerciais na TV. – E você está aqui porque eu também sei que você merece o melhor e posso te oferecer isso. – seu sussurro intenso quase me fazia ofegar presa aos olhos verdes.
– É claro que mereço! – exclamo com excitação provocada por suas palavras. Eu o encarava, estagnada.
– Sim, isso! – seu tom de vitória exclamou. – Você quer aumentar sua renda de forma simples, sem esforços, com horário flexível de acordo com seus compromissos e ainda tirar um tempo para si própria. Eu posso de dar isso! – sua voz é resoluta e persuasiva, como se conhecesse meus segredos e vontades mais íntimos, mas não eram esses desejos que citava, especificamente, que se enquadravam na categoria quanto a mim, além do rumo da conversa ser estranho. Secretamente temia e ansiava que estivesse fazendo um pedido de namoro, mas com suas palavras ou seria o pedido mais incrível e criativo do mundo, ou não seria um.
– Como? – foi só o que disse, foi só o que consegui falar.
– Preenchendo este formulário para ser nossa revendedora Beauty Line! – ele recitou com animação, mas a minha foi-se por completo com o papel sulfite impresso que ele deslizava na minha direção, sobre a mesa. Meu olhar de decepção e desprezo sobrou para o formulário e, se eu fosse iniciada nas “artes”, ele estaria em brasas naquele momento. – Com o investimento inicial de quarenta e nove dólares você vira uma revendedora e não para de ganhar vantagens como descontos nos produtos ou a possibilidade de concorrer a diversos sorteios exclusivos! Os benefícios não param por aí: nossas empresas também fornecem a garantia e serviço, totalmente gratuito, de frete para todo o país, sem nenhum custo adicional para você. – ele explica e eu olho para ele sem intender muito de tudo isso, mas não me importava. Ele era um porco; e sempre seria um porco! Ridículo, horrível, abominável e idiota! Argh!
Seu falatório se seguiu enquanto em minha mente eu só conseguia pensar em quão otária eu era por ter sequer cogitado estar com ele novamente e o tanto que me prestei – voluntariamente – ao papel desprezível em que me encontrava agora. Que ódio! Eu gritava por dentro, mas por fora estava impassível, me contendo para não explodir!
– E então? Me fale o seu endereço atual para entrega dos panfletos e revistas para pedidos, assim como a nossa maravilhosa mercadoria e mala com as amostras. – Fala com uma inacreditável euforia. Meu limite foi ultrapassado quando ele insinuou que eu tinha estrias! Oh, ele iria se arrepender completamente!
– Ah claro! – meu sorriso era forçado e distorcido. – Moro na esquina da Rua Vai Se Foder com a Avenida A Puta Maléfica Que Lhe Pariu; Bairro do Seu Cara De Pau; Cidade de Vá Para O Inferno. – minha voz evoluiu para algo totalmente descontrolado. Antes que chore de raiva, eu pego a taça elaborada com a minha sobremesa e a lancei na sua cara. – Você é um escroto, Rod! Nunca mais quero lhe ver na minha existência. – estou descontrolada, sei disso, mas toda vez que eu explodo, não meço consequências.
Assim me viro, com meio salão me olhando especulativamente, porém em um silêncio espectral, caminho para a saída. Não me importo, não ligo, de me acharem louca assim que cruzo a porta de entrada, só não quero deixar cair minhas lágrimas de decepção por mim mesma, por ele e pela vida antes que eu esteja com menor plateia.
Caminho pela calçada após tirar meus saltos, angustiantes, de meus pés para alcançar ao menos o conforto físico. O mental eu sequer tinha expectativa de ponderar sobre. Quero sair daqui, quero ir para casa – ou o que exercia o papel de uma, para mim, nesta cidade. Vou para o hotel, mas preciso de transporte. Olho pela rua e na esquina há um ponto de táxi. É para lá que vou!”
– São vinte e um dólares, moça. – Olho para a motorista e ela se virou para me olhar. Poucas lágrimas escaparam durante o percurso, duas ou três no máximo, porém eram frias, a vergonha e desilusão eram sentimentos frios, afinal. Assinto para a mulher que aguarda minha resposta.
– Aqui está. – digo ao lhe entregar vinte e cinco e recuso troco enquanto pego meus sapatos no tapete do carro e abro a porta.
– Moça, pode parecer estranho a seus olhos minha intromissão, mas noto que está desapontada. – ela fala rápida e interrompe minha saída, já que paro para olhá-la. – Sei que alguns dias são difíceis e existem aqueles homens que não valem nada, no entanto, há um pelo qual tudo vale a pena. – ela sorri de forma compreensiva e meu sorriso ameno, mesmo que fraco, é sinal de gratidão por suas palavras.
– Obrigada. Acho que precisava ouvir isso. – agradeço verbalmente e aperto com leveza seu ombro em despedida, ela pisca e sorri para mim. Parecia vivida, mas não cansada e sim guerreira.
– Sempre às ordens! – diz um pouco mais alto quando saio do carro, para ouvi-la com clareza. Aceno para o ela e me viro para entrar. Minha vergonha foi aplacada pela esperança nas palavras daquela mulher, mas agora que meu embaraço cedeu o que sobrou foi somente e fúria e até um leve rancor em mim.
Inspiro profundamente ao alcançar o primeiro degrau da escada e, pela primeira vez, busco por algum relógio. No topo da escada, já no segundo andar, encontro um analógico e paro por alguns segundos contando os tracinhos para os minutos para então descobrir que eram meia noite e trinta e quatro.
Olho para o corredor e pela fresta da porta lança-se luzes rápidas de coloridas, conheço este fenômeno e deduzo que Damon ou está assistindo TV, acordado, ou já dormiu e a deixou ligada.
Pratico minha respiração para controlar meus ânimos e seco meu rosto dos resquícios úmidos deixados pelas lágrimas. Passo o dedo indicador sob os olhos para tirar e verificar a existência de algum borrado na minha maquiagem, mas meus dedos saem praticamente limpos.
Mordo meu lábio inferior de antecipação quando caminho para a porta, não sei como agir se ele estiver acordado e não suportaria fingir que foi bom ou relatar minha noite desastrosa sem que exploda em lágrimas ou de raiva. Desisto de pensar sobre e destranco a porta, meus olhos seguem direto para a cama de Damon no mesmo instante em que a televisão clareia o quarto e respiro fundo com aquilo que vejo.
“Pelo menos não era na minha cama”. Foi a primeira coisa que pensei, a segunda foi como aquilo me deixou mal, porque quando o olhei nos olhos sabia que queria desabafar no colo do meu amigo enquanto ele me confortava, mas não aconteceria isso, pois seu colo já estava ocupado.
– Vai. – foi o que Damon sussurrou de forma autoritária para a loira de sutiã encavalada em sua cintura. Ela me olhou assuntada e frustrada, passou o top laranja pela cabeça e pegou uma bolsinha prata largada pelo chão, nem o salto ela teve tempo de tirar. Havia chegado ao inicio da farra. Ela passou por mim e desceu rapidamente.
Entro e fecho a porta em silêncio, não por estar incomodada em ele estar com outra, não tínhamos nada, mas por ter que me contentar em sofrer muda. Eu sequer direcionei o olhar em sua direção.
– Elena... – ele me chamou, olho de soslaio para seu incomodo. Pego somente uma garrafa d’água do frigobar, minha garganta parecia áspera e fechada, quase desértica, mas sabia que era pelo nó que travou naquela região com o choro reprimido. Tomar água era só ilusão, assim como eu acreditar em uma segunda chance com aquele canalha. Rod sempre foi um e nunca deixaria de ser. – Sei que está me achando um cafajeste, um retardado, mas não queria que tivesse visto aquilo. Desculpe.
– Não quero explicação, estou cansada. – falo rouca pelo bolo duro na altura da laringe
– Tudo bem. – se levanta um pouco irritado pela rigidez de seus movimentos, mas também contrariado e, mesmo que escondesse, encabulado. Entra no banheiro e em instantes percebo que estou parada no mesmo lugar, escutando o outro cômodo e as batidas de meu coração raçoando à meus ouvidos. Escuto a água abrir simultaneamente ao inicio da breve caminhada até minhas malas. Queria me livrar de minhas roupas e talvez pegar uma barra de chocolate e me empanturrar.
Aproveito que ele está no banheiro para trocar a roupa no quarto. Jogo os sapatos no chão com uma força maior que a necessária, solto meus cabelos com cuidado com o elástico, mas mesmo assim arranco alguns fios castanhos. Abro o colchete e forço com exagero o zíper, porém o som é sufocado pela água corrente do chuveiro. Termino de retirar o vestido e coloco uma camisola fresquinha com estampa de cobra em violeta.
Sento-me na cama para pentear os cabelos e enquanto passo a escova pelos fios pondero sobre extravasar ou não sobre minha noite de merda. Decido por guardar para mim mesma toda essa história e retirar o melhor dela, como uma pessoa sensata faria. Fingiria que foi ótima e que nada havia acontecido esta noite.
Ao mesmo tempo em que coloco a escova na minha bolsa, Damon sai do banheiro com uma calça de moletom da Levi’s, preta. Deito em minha cama e me cubro com o edredom que estava sobre a cama e me viro para o lado da sacada, de costas para Damon e sua cama. Em instantes as luzes do quarto se extinguem e fecho os olhos com força para tentar dormir.
– Elena, está tudo bem? – ouço sua voz depois do ranger suave da cama assim que deposita seu peso.
– Está sim. – minha voz expressa tranquilidade, mas estou indolente por dentro.
– Você ficou chateada porque trouxe uma garota para cá? – ele é cauteloso no tom e em suas palavras.
– Não. Achei estranho, já que está dividindo o quarto comigo. – sou sincera. Não fiquei triste por ele estar com uma garota e sim por não respeitar minha presença, entre outros fatores.
– Perdão. – ele fala baixo e neutro. – Eu nem sabia quem ela era, mas não vale brigar com você por ela. – Damon expõe. – Só a trouxe aqui porque pensei que voltaria tarde, não queria que presenciasse aquilo. – ri seco, como se brigasse consigo mesmo.
– Graças a Deus cheguei antes de iniciarem o ato, não estou tão interessada assim em sua vida sexual. – ralho com desdém. Estou a ponto de descontar nele minha raiva e não quero isso. Sua respiração falha com minha grosseria e sinto que o ofendi.
– Oh! Desculpe de novo se sou homem e achei uma mulher fácil que queria dar para alguém sem sequer saber o nome! – destila ironia.
– Não me venha com essa de ser homem, para mim isso é se portar como canalha, filho da puta e etc. – não queria, mas ele cutucou e agora estava nele o alvo. Sei que ele não fez com intenção, mas logo hoje que estou um caco de ser humano e preciso de um amigo, de preferencia um que não me julgasse?
– Não precisa falar de novo. Já sei que me acha um cafajeste e eu acho que sou mesmo, mas não finjo que sou santo. – retruca. – Peço desculpas se te passei a impressão errada, mas é isso que eu sou e faço! – fecho os olhos, pois ele me atinge com isso. Quase cedo ao choro, mas engulo forte. Não queria por a culpa nele do meu jantar dos infernos, mas eu não sou sensata então não consigo agir como uma pessoa ajuizada e não jogar raiva na primeira pessoa que dê oportunidade.
– Não desculpo... – falo baixinho. Sinto-me no dever de falar essas palavras para ele, levando em conta que ele só explodiu por minha causa. – Ainda não sei quase nada sobre o que você é. Não nego! Concluí que você é “Damon, o devorador de mulheres” desde a primeira vez que ouvi do meu apê alguma mulher te xingar toda manhã, mas já vi de você o suficiente para notar que não é só de curtição que se faz sua vida. Há mais aí de você, não ignore. Seu passado não te destrói, ele também faz parte de quem você é!
Tentei manter a leveza e compreensão em todas as palavras com a mesma intensidade, não queria ser dura com ele. Não obtive resposta e sorrio com isso. Longe de esperar por uma, mas tinha certeza de que ouviu e estava acordado, só é orgulhoso e cabeça dura demais para concordar com o que disse, mas também não é falso para falar que menti, por isso preferiu se acalmar em silêncio.
Ele queria ser aquilo que ele pensava se resumir; eu só queria lhe mostrar de que se entregar a isso não vai mudar quem ele é, somente como as pessoas o vê. Ele é um tremendo canalha, mas também é um cara que passou por dificuldades bem parecidas com as minhas, na vida.
Confesso: ele gosta de partir corações. Claro que ele não é totalmente culpado nisso já que as mulheres se oferecem, mas ele as seduzia também e as dava esperanças ou se aproveitava das que tinham e elas acabavam se ferindo. Para ele pode ser sexo casual, mesmo assim ele tinha total e completa noção de que para a maioria não era e usava isso para ter quem quisesse se fosse do deu interesse. Também confesso que a cada coisa que descobria sobre ele me quebrava a imagem dele ser somente sexo, ele tenha várias coisas legais sobre ele mesmo, só não valorizava isso.
Concentro-me em minha respiração para tentar dormir, o sossego total já se estendia por minutos e desisti de esperar que fale algo e preferi não focar no que me cutucava a mente desde que saí do restaurante.
– Como foi com o Senhor Conceda-me Outra Chance? – seu tom é mais contido ao interromper a calmaria, porém ainda irritado pela ironia que lhe provém a fala. Antes de responder me ajeito na cama para encarar o teto, estava completamente desperta.
– Legal! – tento usar minha voz mais animada.
– Só isso? – Damon questiona de forma desconfiada.
– Só. – Minha voz vacila na convicção ensaiada e deixo meu pescoço pender para o seu lado e encaro por fim seus olhos, reluzentes os de um gato na falta de luz.
– O que aconteceu, Elena? – Ele se senta na cama e seu tom varia do preocupado ao sério. Não sou uma atriz muito boa, pelo visto.
– Você tinha razão... – sussurro e me aconchego no colchão, me deitando de lado. Ele me encara e sua boca vira uma linha dura com a compreensão.
– Ele te machucou? Te obrigou a alguma coisa? – ele interroga com a voz tão dura quanto seu maxilar cerrado.
– Não. – murmuro. “A não ser que tentar me inscrever para ser revendedora a qualquer custo se enquadre em ‘obrigação’”, completo mentalmente. A entonação lúgubre se quebra pela alegria de notar sua preocupação.
– Quer falar sobre isso? – ele se levanta e se senta ao meu lado na cama.
– Eu me iludi. Entendi errado suas intenções. – falo com desânimo. – Desculpe por descontar em você a raiva àquela hora. – olho em seus olhos. – Só que eu fiquei incomodada por aquela mulher estar aqui enquanto eu queria chorar por ser uma tonta. Não o culpo, só que te considero amigo e precisava desabafar com um. – Meus olhos lacrimejam de leve. – Mesmo que tenha certeza que você falará “Eu te avisei!” – rio de leve, enxugando a umidade que começa a acumular sob os olhos.
– Então me conte o que aconteceu naquele lugar. – ele é suave. Damon consegue não ser uma pessoa irritante e maliciosa quando quer.
Conto a ele tudo que aconteceu – exceto pela parte em que o assunto foi meus pelos pubianos crespos – e seus pequenos comentários me deixam mais confortável. Não derrubei nenhuma lágrima, por incrível que pareça, e não me senti tão idiota assim quando percebi que Rod havia sido muito mais. Damon discordou sobre os comentários sobre meu corpo, me fazendo corar e rir muitíssimo quando contei a parte do formulário, falando estar orgulhoso quando fiz Rod beber a força milk-shake diet ao jogar nele.
– Obrigada por me ouvir, Dam. – dou um abraço nele com muita gratidão.
– De nada, Lena. – sorri de lado. – Agradeço pelo que disse mais cedo, sobre mim. – ele é relutante em falar isso e escondo meu sorriso para não o deixar desconfortável.
– Claro, não há de quê. – pisco para ele de brincadeira. Acaricio seus cabelos enquanto ele me encara pensativo por alguns momentos.
– Tem certeza que quer procurar outros caras? – ergue uma sobrancelha com um olhar severo.
– Tenho sim. Preciso tentar, senão vou ficar remoendo. – afirmo com calma.
– Mas correr o risco de encontrar com piores que ele. – alerta e se recosta ao meu lado. – Esse Rod foi um cafajeste de certo, imagine os outros...
– Sei disso, mas já sobrevivi ao pior. – caçoo o olhando sugestivamente.
– Sou mesmo, mas o meu tipo de canalhice não é igual a dos seus ex-namorados. – ele argumenta sorrindo. “Talvez por isso você possa ser o que mais me machuque...”, não consigo impedir a associação imediata, mas resolvo continuar a brincadeira, não queria aquele ar pesado novamente.
– Digamos que você e eles sejam equivalentes a cafajestes. – zombo fingindo pensar sobre o assunto.
– Nem em sonho, nunca levei uma mulher para um restaurante fingindo estar interessado nela para propor que ela seja uma revendedora dos meus produtos. É o cúmulo do ridículo! – fala, indignado. – Além de um disperdicio de dinheiro. – pontua com um sorriso.
– Mas que idiota você é, Damon Salvatore! – falo lhe dando tapas. – Quem está chateada sou eu! – tento amenizar, mas sai com a voz afetada. Não estou com tristeza por Rod, mas decepcionada que minha primeira tentativa foi um desastre e que era menos uma oportunidade que eu tinha e um homem a menos que eu tinha a possibilidade de não mudar o número.
– Não fique assim, Elena. – ele acaricia meus cabelos. – Há milhões de homens no mundo, você pode tentar com todos eles que eu não ligo para o seu número quando acabar, principalmente por estar dentro desta categoria. – dou outro tapa nele, mas rio com sua tentativa de mudar de assunto, nem que seja para eu brigar com ele sobre o motivo de não poder sair dos vinte, só para não ficar do jeito que estou, mas não estava com vontade de discutir com ele. Não merecia depois do gesto de amizade que fez. – Estava pensando se você não tem outras teorias para explicar a tinta em mim quando cheguei da rua de tarde... – provoca e sei que tenta ser sutil para novamente tentar mudar de assunto.
– Claro que tenho! – sorrio. Não me oporia a sair da tristeza de uma forma que eu não precise brigar com ele.
– E qual seria? – sonda, altivo e brincalhão.
– De que foi ao circo local e descobriu que era gay e acabou dando uns amaços quentes com o palhaço e a tinta era a maquiagem que não soube tirar completamente depois de pegar o pobre coitado de jeito. – exponho com ar de seriedade e falta de emoção, como um médico ao dar o diagnóstico a um paciente. Ficamos nos encarando, olho no olho, até que, por fim, caímos na gargalhada.
– Certo. Agora sei quando quer dizer que sempre pensa o pior. – ri mais um pouco. – Garanto que não tenho filhos e não sou gay e para provar vou te levar para um lugar especial amanhã.
– Acredito em você, Damon! Não precisa me provar nada, não quero ser mãe e você não faz meu tipo! – falo de olhos arregalados, pois suas malicias nunca foram tão diretas, mas também minto. Quero ser mãe sim, mas não tão breve e ele faz exatamente meu tipo, ou fazia quando eu não era comprometida com algum dos vinte e ficar com Damon seria trair a mim mesma e perder a possibilidade de casar um dia.
– Sua boba! Não é provar desta forma, mas por mim tudo bem. – ri de minha cara. – Eu quis dizer que ia te mostrar o porquê de ter que vir para a Filadélfia de qualquer forma.
– Ah sim! Vou adorar, se for desta forma. – digo um pouco envergonhada, mas feliz em desvendar o mistério, finalmente.
– Tenho certeza que vai gostar e sei que mentiu agora mesmo quando entendeu errado. – ele é convencido. – Amanhã vamos até lá e depois vamos para casa, o que acha?
– Acho que estou sentindo falta de Nova York como nunca imaginei. – digo, feliz.
– Eu também. – ri de forma gostosa. Vira-se e estica o braço. Me ergo para ver o que é que procura e o vejo alcançar o seu celular. – Vou por o celular para despertar antes do almoço, porque sei que ambos não madrugamos e acho melhor irmos dormir. – propôs enquanto desviava o olhar quase fluorescente do celular para mim e então assinto para ele em concordância total.
– Que horas são? – bocejo ao fim da pergunta.
– Três e vinte e dois da manhã. – fala após bocejar em seguida.
– Acho melhor irmos dormir mesmo, estou exaurida. – meu tom revela o tamanho de meu cansaço.
– Boa noite, Elena. – fala e me dá um beijo na testa. Sorrio para ele que se levanta e vai até sua cama e se deita virado para mim, estou na mesma posição.
– Boa noite para você também. – minha voz é um pouco alegre mesmo que esteja de olhos fechados e a beira do sono, por um instante antes de dormir me ocorre de que é a primeira vez que dormimos juntos. Mesmo que em camas separadas estamos virados para o outro e a distância é de meio metro entre nós. Estranhamente, isso me conforta.
Fale com o autor