A Matemática do Prazer
7 - Algarismos de Noivado
Notas iniciais
– Ai! – reclamei com a moça que acabara de tirar um bife da minha cutícula.
– Desculpe! – ela exclamou afoita. Eu sorri deixando para lá.
– Tudo bem... – falei calma e ela voltou ao seu trabalho, aliviada.
– Elena! Seja mais mulher e aguente a dor quietinha. Para ficar bonita precisa sofrer! – Caroline chamou minha atenção na cadeira a minha esquerda fazendo uma careta enquanto a cabeleireira puxava seu cabelo na escova para espichá-lo.
– Não concordo com isso! – emburrei e Kath rui com Bonnie e Bekah. Meredith estava no celular com sua mãe do lado de fora do SPA, pelo que entendi a empregada foi passar o vestido dela e o queimou.
Observei a manicura trabalhar calmamente em meus dedos enquanto uma obra de arte se formava em cada unha com perfeição. Assumiria que a moça tinha talento.
Ela já estava limpando cada unha com habilidade reconhecida por mim quando Meredith retornou com um sorriso triste.
– Meninas. Terei que ir ao Shopping agora, Maria acidentalmente assassinou minha roupa de hoje. Não sei o que houve, isso nunca ocorreu, mas não a culpo. Acontece. – assentimos entendendo. – Pois bem, estou indo então aproveitem o dia de beleza por mim e por vocês, nos vemos a noite.
Despedimos dela cordialmente e lhe lancei um beijo já que minhas mãos estavam retidas, minutos depois vi que minhas unhas estavam prontas e as encarei alegre.
– Ficou muito bom. – elogiei e a moça sorriu para mim amplamente.
– Obrigada. – ela disse e pisquei para ela. Aguardei, na secadora automática de unhas, Kath finalizar as delas para irmos fazer uma massagem antes de fazer o cabelo.
Kath apareceu com todas as meninas que me mostraram suas unhas, todas bem feitas como a minha. Kath optou pelo dourado, já Bonnie continuou com sua saga Disney e honrou o Mickey Mouse em suas unhas, Carol preferiu o retrô e Rebekah assumiu sua verdadeira forma, vaca, o que nos rendeu diversas risadas e chacotas para com a loira.
Fomos eu e Katherine para a massagem corporal enquanto as meninas se dividiam para onde queriam ir.
Dormi relaxadamente enquanto esfoliavam cada centímetro de meu corpo e em meu sonho agitado, me vi com 60 anos e estava segurando um maço de papéis que reconheci como a lista dos ex’s que fiz, só que mais completa e extensa. Quando olhei para o ultimo número que continha na lista eu comecei a berrar em sonho reconhecendo-o como pesadelo. 78 era o número que vi.
Acordei sobressaltada e caí da maca de massagem ainda com um berro preso na garganta substituído por uma dor tremenda em meu traseiro. As massagistas me olharam com uma feição mista entre choque e diversão e Katherine se debulhava em desmedidas gargalhadas ao ver meu desespero estampado na cara. Não aguentei e comecei a rir desenfreadamente junto com elas, relaxando um pouco após retornar a maca e ser massageada na retaguarda, agora doída.
Tomei um banho gostoso numa banheira perfumada e coloquei um roupão impecavelmente branco e fui até as cadeiras giratórias onde me sentei e uma cabeleira logo se aproximou, olhei para Kath e a vi com seu próprio cabeleireiro conversando e gesticulando para ele.
Sorri e prestei atenção a minha cabeleireira que agora me estendia um catálogo com vários penteados. Folheei calmamente e escolhi um que me agradou bastante e permitiria mostrar o melhor que o vestido tinha; brilho, lançando a massa de fios castanhos sobre meus ombros.
Fechei os olhos e deixei-a trabalhar em mim da maneira que quis, após uma hora estava finalizado e fui para a maquiagem. Notei que fui a primeira a acabar o cabelo, já que Caroline agora estava com uma maquina para secar os cachos em torno da cabeça, por mim ela deixava liso, mas ela inventou de enrolar as pontas...
Pedi uma maquiagem leve no rosto e marcante nos olhos e na boca um batom mate, o maquiador elogiou bastante minha pele e eu pensei “Pelo menos algo bom em mim”.
Conversei com Car enquanto ele trabalhava em meu rosto e ela me falou que tinha uma surpresa e que levaria seu novo peguete para o noivado de hoje e que eu o adoraria, afinal, segundo ela, ele era perfeito! Sorri de leve e falei que se a fizesse bem eu já o adoraria, ela ficou toda besta e risonha. Conversamos mais um pouco enquanto o maquiador finalizava com primer e fixador de make em minha face e logo fui guiada para poder me vestir.
Na sala ao lado comecei a me vestir, sendo auxiliada, o tempo todo, por uma garota muito simpática que evitou a ruína de meu cabelo. Por fim vi no espelho enorme que se estendia por toda a parede, meu reflexo. O vestido tinha aquele tom verde azulado que amei, no meu cabelo normalmente liso havia uma trança bastante charmosa que dava vida a meus longos cabelos castanhos; nos pés o sapato não tão discreto, mas de cor leve que Kath me deu me deixava com uma postura ótima. Completei com perfume e uma pulseira que combinava com o sapato e peguei a pequenina bolsa que tinha – falsificada, é claro.
Saí da saleta e me sentei aguardando Kath com a bolça de mão e a mochila que trouxe minhas coisas. Ela me levaria em casa para deixar a mochila e depois seguiríamos direto para a casa de mamãe.
Após cinco minutos Katherine apareceu me provocando mínis ataques cardíacos. Ela estava deslumbrante e impecável com o vestido branco longo que usava em sua condição de noiva e seu cabelo sedoso em um penteado chique e discreto, somente com alguns apliques brilhantes atrás que reservavam toda a beleza para sua roupa e para si mesma e aqueles olhos brilhantes de emoção que tinha.
– Putzz! Cadê minha irmãzinha? – falei chocada.
– Virou mulher! – ela sorriu para mim.
– Virou mesmo. Uma grande mulher. – sorri e peguei em sua mão lhe passando confiança e a abracei em seguida, bem apertado.
Gargalhamos segurando as lágrimas, era só o noivado imagine quando ela for casar realmente? Iria me debulhar em lagrimas só de pensar nela. Ri.
– Que tal irmos? Já são seis e meia e até chegarmos à mamãe já será sete meia ou mais e está marcado para as oito... – Ela disse se afastando, assenti para ela e nos despedimos das garotas que ainda estavam se vestindo e estavam lindas.
Entramos na limusine – na opinião de minha irmã, indispensável – e fomos até minha casa, pedi somente um instante e saí e subi as escadas lentamente para não suar e estragar toda minha produção.
Cheguei a meu andar, abri o cadeado e forcei a porta a abrindo e adentrando o apê. Deixei sobre o sofá a mochila e tomei um copo de água antes de descer novamente, saí e tranquei o cadeado e sorri com o som que ouvi.
– Fiu-Fiu! – Virei-me e vi Damon deliciosamente vestido, também trancando sua porta. – Tá arrasando hein? – Ele disse me olhando dos pés a cabeça com aquele sorriso de lado. – Pra quê tudo isso?
– Ah, obrigada! – sorri para ele. – Vou ao noivado de minha irmã, pro isso tudo isso. – Dei uma voltinha em torno se mim mesma para descontrair e terminei com uma reverencia o vendo bater palmas, brincalhão.
– Ah sim, tinha comentado ontem. – falou suavemente. Assenti sentindo o arrepio subir minha coluna, esfreguei os braços afastando os pelos eriçados disfarçadamente.
– Então... Tenho que ir, minha irmã está me esperando no carro. – Sorri. – Bom te ver Damon. – Me despedi.
– Melhor ainda eu... Te ver. – Me deu um sorriso galante e arrasador e desceu as escadas correndo. “Será que ele é sempre daqueles que choca a gente e depois se manda?” Pensei abestada. Chacoalhei minha cabeça para me recompor e desci lentamente as escadas ainda deslumbrada e com um enorme cuidado por causa dos saltos.
Entrei novamente na limusine com um sorriso estranho no rosto. Kath me olhou e eu fingi não notar desviando o olhar para fora e admirando as casas. “Se lembre, vinte, vinte, vinte! Ele não é um cara para casar”. Recitei mentalmente.
Momentos depois, começamos a desfrutar do álcool contido no frigobar da limusine. Champanhe! Taças e taças de champanhe com a minha irmã me relaxaram e quando menos notei já havia chego a meu destino.
Sorria amplamente e agradecia a bebida por me animar, há muito não ficava feliz por vir à casa de mamãe, mas hoje nada arruinaria o dia perfeito para minha mana e de quebra, o meu.
Na entrada vimos somente os carros. Um homem bem trajado abriu a porta para nós e nos recepcionou impecavelmente bem, caminhamos até a sala vendo a beleza que tinha dado ao local a decoração. Vimos Dani de despedindo e agradecemos a ela a perfeita repaginação do local que, costumeiramente, comparava com um cemitério, de tão grande a animação que tinha.
Ela se foi após falar algo com uma moça vestida socialmente. Comecei a caminhar em torno na sala e ouvi duas vozes distintas se aproximando, impossível não reconhecer, logo vi minha mãe adentrando a sala com um vestido num tom estranho de laranja. Sorriu para nós e deu espaço para vermos logo atrás Stefan com o telefone no ouvido estancar no portal adornado com guirlandas e flores.
– Mas tia, desde que meu primo foi em bora de casa, vocês nunca mais saíram dela. É meu noivado e não acho estranho minha família comparecer a ele! – argumentou no telefone e suspirou com a resposta que recebeu do outro lado murmurando em seguida uma breve despedida e desligou.
– O que foi amor? – Kath perguntou suave capturando a atenção de Stefan para si, fazendo-o virar em direção a sua voz.
– No-ossa! – sufocou e vi Kath corar com um sorriso maravilhoso nos lábios com o olhar pousado sobre ele que estava bastante elegante com o smoking cor grafite que usava.
– Eu sei, ela está de matar. Cuidado para não enfartar antes do casório, hein Stef? – brinquei com ele enquanto via um garçom passar com uma pequena bandeja com pouquíssimos copos repletos da bebida âmbar e suave.
Pisquei para ele simulando um brinde e fui em direção à porta de acesso para o jardim amplo onde alguns rostos conhecidos, mas evitados por mim; sorriram fraco e eu os cumprimentei com um aceno e preferi observar minha mãe andando de pessoa em pessoa com conversas entediantes, quando eu somente sorria para o garçom que nunca deixava minha taça esvaziar à medida que dava um pouco de privacidade aos dois lá dentro.
Minha mãe se aproximou de mim com um simplório sorriso.
– Que bom que chegaram, estava louca aqui achando que você faria Kath se atrasar! – disse já ao meu lado.
– Oi para você, mãe. Não, eu e Katherine chegamos pontualmente. Não temos culpa que os convidados se anteciparam! – dei de ombros enquanto levava novamente a taça aos lábios.
– Ah sim! – respondeu e passou a mão por meu cabelo de cenho franzido “arrumando” os fios.
– Mãe! Não estrague meu cabelo. – reclamei. Ela levantou a sobrancelha para mim e eu suspirei sabendo o que ela estava pensando. – Estou deixando a franja crescer ok? – me defendi. Ela iria reclamar por eu ter faltado ao jantar de “família” que teve recentemente.
– Certo. Mas cadê o Elijah? – questionou me rodeando. Aff! Tenha me esquecido de que prometi a ela não comparecer ao noivado de Kath sozinha, e tinha falado que Elijah era meu namorado, na época estávamos naquele rolo, porém esqueci-me de desmentir isso para ela, quando o rolo chegou ao fim.
– Ah! O Elijah está em uma viajem... Para o Alaska! É de negócios! – inventei rapidamente olhando ao redor em busca de alguma distração para ela.
– Hum, pensei que finalmente iria conhecê-lo. – falou, olhando-me desconfiada. – Bom, pelo o que me disse tenho certeza que este não faz animais de bexigas. – Sorri amarelo para ela assentindo. Balançou a cabeça parecendo notar algo em mim e logo me perguntou: – Por que não está usando o vestido que lhe dei? – entortou a boca para mim.
Ah, vamos ver! Como eu explico a minha mãe que ela tem um gosto detestável? Nunca usaria aquele vestido! Nem iria comentar sobre o que fiz com ele quando chegou anteontem pelo FedEx e o susto que levei ao abrir a caixa, levando-me a concluir minha próxima ação: Dá-lo a um sem teto que morava no bebo ao lado do prédio para usar como combustível para a sua fogueira na lata de lixo. Adorei ver aquela aberração queimar. Ok! Nunca falaria essa história para minha mãe!
– Ah! Você me mandou um? Que pena! Deve ter extraviado ou se perdido no correio, pois não me chegou nada. Tem certeza que escreveu o endereço corretamente? – perguntei com uma cara falsamente interessada fazendo minha mãe assumir uma feição confusa, depois pareceu ter acreditado no que disse com sua postura como se tivesse esquecido algo.
– Deve ter ocorrido de eu escrever errado. Sebe como ando esquecida! – dramatizou e assenti como quem consente a seu argumento.
Farta da conversa olhei entediada para a porta da varanda vendo Bonnie irromper a porta trajando azul escuro e seu olhar encontrou-se ao meu. Antes de afastar-me minha mãe falou algo que começo a estragar minha noite.
– Ah! Seu primo James está aqui! – comentou sorrindo.
– Primo de consideração, mãe! De consideração! – enfatizei a denominação correta para “Monther Jay”, desconfiava que ele tivesse uma tara por sua mãe. Com uma enorme vontade de me bater olhei para os lados não querendo vê-lo e anotei mentalmente para adicioná-lo a lista. Tinha me esquecido dele!
Em seguida pedi licença a minha mãe e fui até Bonnie e a chamei para uma mesinha a fazendo sentar-se ao meu lado, vi seu olhar pesar sobre meu primo mais novo, Jeremy, repetidas vezes e a incentivei a falar com ele.
Não era como se fossem desconhecidos, então somente o chamei para conversar um pouco e sutilmente deixei Bonn com ele quando vi Rebekah chegar abalando com suas curvas acentuadas no preto rendado que usava, atraindo alguns olhares imediatos.
Katherine começou a rodar o circulo de pessoas que começava a lotar o local com Stefan sorrindo admirado a seu lado a cada elogio gentil que recebiam. Às vezes a felicidade dos dois me sufocava, mesmo eu os amando.
Meredith chegou com um vestido que presumi ser o que ela tinha ido comprar a tarde e me juntei a ela e Rebekah em uma conversa divertida sobre as roupas bizarras que a maioria da terceira idade que andava pelo local – duvido que sequer Kath saiba que viriam; obra de minha mãe, sem duvidas –, e começamos a relembrar algumas coisas do tempo de escola enquanto víamos alguns de nossos ex-colegas no lugar.
Nem metade das pessoas que lá estavam eu conhecia por incrível que pareça. As meninas me avisaram que iriam ao banheiro e me convidaram, mas eu recusei querendo desfrutar das bombas de chocolate que rodavam pelo salão.
Enquanto virava a taça se caipisaquê que o garçom gostosinho que parecia querer me embebedar me serviu, vi Liz – mãe da Car – acenar para mim, assenti cortês para ela e ela começou a caminhar na minha direção. Vish!
– Boa noite Liz. – disse olhando ao redor para ver se me salvava da conversa fútil e inútil, que certamente teria caso não fugisse dali em breve.
– Boa noite Elena. Tudo bom? – e com isso se vai a chance de fugir da conversa. Suspirei e a olhei brevemente nos olhos.
– Tudo sim. – murmurei e tomei mais um gole da delicia que estava em meu copo.
– Bebendo? – sua voz aguda teve um tom estranho. A olhei com uma cara de “Não! Isso não pandas asiáticos em disfarces.” Vi ela se recompor diante da postura irônica que assumi. – Oh. Por que está fazendo isso?
Rolei os olhos. Ela estava perguntando o porquê de estar me alcoolizando? Ai! Depois eu é que sou a demente.
– É bom. – dei de ombros esperando finalizar o diálogo por ali.
– Ah querida. Não precisa encher a cara por isso! – ela me olhou com pesar.
– Isso? – questionei.
– É. O noivado de sua irmã! Logo verá! Encontrará alguém legalzinho para você. – pôs a mão eu meu ombro em um gesto que devia ser reconfortante. Legalzinho? Não sei se era coerente de minha parte, mas além de me ofender, eu fiquei triste com a pena que via. Mais uma achando que eu estava sofrendo por continuar solteira.
Liz se afastou com um sorriso afetado enquanto eu ainda absorvia o que aconteceu. Girei o olhar ao redor focalizando rostos aleatórios e vi que todos que olhavam em minha direção estavam com um olhar penoso, antes de desviarem para qualquer outra parte do ambiente.
Não era só minha mãe que tirava conclusões quanto a meus sentimentos em relação ao casamento de Katherine, todos, ou a maioria deles, que estavam ali hoje sentiam e pensavam a mesma coisa.
Onde estavam minhas amigas agora?
Senti-me terrivelmente sufocada e com visão um tanto turva ao olhar redor em busca de um rosto amigo. Estava com um nó na garganta que ameaçava sair por meus olhos a qualquer instante. Se sentir um fracasso era uma sensação similar, porém não igual, a ser julgada. Eu já devia estar acostumada, eu era a Gilbert desviada, a imprudente rebelde. Mas não era do mesmo jeito, não tinha o mesmo peso e não atingia os mesmo pontos.
E especificamente agora, eu estava bastante frágil quando o assunto eram relacionamentos, principalmente quando pensavam algo assim de mim para com a pessoa que eu mais amava; Kath.
Respirei fundo prendendo o ar em meus pulmões para adquirir fôlego, não olhei na direção de Liz não querendo encontrar o mesmo olhar de antes, passei a mão pelo cabelo buscando loucamente, em silêncio, por uma alternativa imediata antes que fosse tarde demais e acabasse chorando ali, decidindo ir a meu recanto seguro logo ao pensar. Duelei mentalmente contra mim mesma para andar em uma velocidade normal e não correr desesperadamente.
Passei a passos esguios, próximo ao bar rumo às escadas e simplesmente saquei uma garrafa de uísque Jack Daniel’s que estava em cima do balcão e mesmo sentindo os olhares passarem a perfurar minha coluna, segui em linha subindo rapidamente as escadas e quando atingi o corredor superior, desatei a correr até meu antigo quarto.
Fechei a porta atrás de mim e comecei a ofegar. Sentei-me em minha cama e sequei os indícios de lagrimas que surgiram. Cruzei as pernas contra o peito, deixando os sapatos ao chão e me recostei contra a parede fitando a floresta calma e a paisagem fria que a antiga cachoeira desenhava para além de minha janela veneziana. Abri a garrafa e a levei aos lábios.
Deveria ter sido mais discreta, agora, além de ser a filha solteirona e invejosa, também seria a filha alcoólatra de minha mãe. Não que eu ligasse para a imagem dela.
Quem queria enganar? Obvio que ligava e implorava por aprovação por parte de minha mãe ou reconhecimento, e até orgulho, se não fosse pedir de mais. Mas a minha insegurança me fazia almejar atenção além de tudo e quando percebi que fazer tudo que estivesse em meu alcance para agradá-la e ao meu pai não funcionava, comecei a fazer o contrário. Foi assim que perdi a virgindade. A cada briga eu cometia um ato impensado, pensando poder atingi-la com ele, mas só me atingia e prejudicava. A mim, e não a ela.
Eu era um ser deplorável mesmo.
Desci no gargalo mais uma dose do liquido forte e engoli fortemente. Pensando em como eu era patética. Eu não queria ser. Teria que dar um jeito em minha vida, mas não fazia ideia de como!
Continuei a beber e pensar quando a porta se abriu. Discretamente esfreguei meu rosto tentando me livrar das lagrimas já secas. Fitando agora uma casinha bem ao longe me despertando vagas memorias.
– Lena! – a voz baixa de Katherine interrompeu meu raciocínio e me aliviou quando seus braços me rodearam, confortando. – Não ligue para eles, nenhum deles. Eu sei a verdade e isso que importa.
Suspirei e assenti. Era incrível, até ela estava sabendo sobre o que fofocavam sobre mim.
– Mas...
– Shhii! Você é melhor que todos lá em baixo, você não é falsa, alto suficiente, dissimulada nem interesseira como eles. Acorde Lena! Não se deixe abater! – ela me suplicou no final. Desviei o olhar da janela para seu rosto. Não poderia estragar este momento tão importante para ela. Respirei fundo e assenti firmemente desta vez a fazendo abrir um lindo sorriso. – Isso mesmo! – me incentivou.
Passei os dedos por debaixo dos olhos e os afastei vendo nenhuma mancha preta nos dedos, pelo menos a maquiagem era a prova d’água. A olhei determinada a melhorar meu humor e levei a garrafa a boca, desta vez com sede de coragem e me pus de pé.
Abraçamos-nos bem forte.
Ela me largou e eu a olhei, curiosa.
– Nossa! A mamãe está tão chata desde que os pais do Stefan chegaram! – Começou um novo assunto na tentativa de me distrair.
– Mas por quê? – rendi-me a curiosidade que ela despertou em mim.
– Ela não acredita que o casamento dela acabou antes do deles! – rolou os olhos.
– Ah! O papai já, já chega então ela vai ter outro para pegar pra Cristo! – comentei distraída.
– Hã!... O papai não vem, Lena! Ela não me deixou convidá-lo. – Kath confessou com a voz retraída.
– Não vai o convidar ele nem para o casamento? – questionei chocada. Com quem ela entraria na igreja, se não com ele?
– Ah! Eu não sei! Mamãe me põe doida! – pôs a mão na cabeça confusa e me afastei um pouco para olha-la.
– Ah! Isso vai dar em merda! – murmurei meneando a cabeça e ela fez uma cara de “não complica que eu já sei o quanto estou fodida!”, fiz um gesto com as mãos me rendendo sob seu olhar.
Novamente, meu olhar cruzou com a casa ao longe novamente, agora com a tristeza um pouco afastava, me lembrei do porquê das memorias de pouco antes. Era o que faltava, ou parte deles.
– Kath, você se recorda dos nomes daquele nosso vizinho moreno gostozão e tesudo que fazia truques de mágica para nós? – perguntei para ela que franziu o cenho com a minha pergunta estranha após uma seção-depressiva.
– Hã?... Acho que era Mason... Mason Lockwood! – Me respondeu confusa. Isso mesmo! Sorri fraco com as memórias de Mason-Magia, que tinha um feitiço na língua, além de saber alguns truques de “magica” para impressionar colegiais como eu.
– Acho que é ele mesmo. – Ótimo, lembrei-me de mais um número desperdiçado! Tentei não transparecer nada. A cada segundo, mais puta eu ficava.
– Bom, que tal voltarmos lá para baixo e deixarmos tudo isso para depois? – Kath questionou-me atenciosamente.
– Sim, claro. Só me dê um minuto para me recompor. Vou atrás de você! – falei e ela assentiu e dando um beijo no rosto e voltando animadamente para a porta e saindo.
Sentei-me na cama e respirei fundo, hoje seria uma noite bombástica pelo que notava e precisaria de pouca lucidez para enfrentar tudo aquilo de forma “tranquila”. Não sabia se me arrependeria, não sabia se era o certo ou o recomendável, mas eu desci metade do conteúdo que restava na garrafa por minha boca e saí daquele quarto com um novo estado de espirito; o imprevisível.
Agora com Elena Gilbert tudo poderia acontecer!
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