A Mata
8 Capítulo 8
Tempo Presente
Antônio ouviu e podia ver tudo o que aconteceu no passado e que tudo dependeria das escolhas feitas por ele naquele momento. Yanna o olhava fixamente e sorrindo sempre, os olhos de volta ao verde floresta fascinante e hipnotizador. E ela começou a falar suavemente:
— Antônio, este é o momento que você tanto esperou, o chamado que ecoava em seu sangue, o chamado de sua amada mata, meu chamado. – ela diz e se aproximava dele devagar com a mão estendida — Você podendo controlar as árvores, os seres viventes que na mata habitam, controle sobre as águas, controle sobre quem entra e sai daqui.
Ela coloca a mão em seu peito e sussurra.
— O poder de punir quem ousar profanar nosso lar – sua mão esquentando em seu peito — Poder de criar novas vidas, vidas mais fortes que meus filhos são no momento, compartilhar o poder com eles... – o vazio foi tomando conta de seu ser enquanto ela sussurrava — poder de destruir e reconstruir... você só precisa dizer sim, diga sim e se junte a mim...
Antônio olhou para seus braços e viu sua pele começar a ficar igual a de Yanna. E uma ganância nunca antes sentida por ele, começou a crescer em sua alma. Ânsia pelo poder, pelo controle sobre vidas, poder de controlar a mata a seu bel prazer... e de repente, como se fosse uma pequena luz no fundo de um longo túnel, ele ouviu o riso de sua mãe, a voz de seu irmão Pedro implicando com a pequena Amanda. O riso grave de seu pai e ele ralhando com os filhos mais novos. E a luz foi aumentando e ele ouviu a voz dos pais falando em sua mente: — Lembre-se do amor, se preencha com a força do amor. Não se deixe dominar pelo vazio. Lute, lute Antônio, lute agora!
— Não, – ele diz em voz baixa para Yanna e ela mantém a mão em seu peito — eu disse, NÃO!! – e a empurra.
Yanna volta a ficar com os olhos negros, e avança enfurecida.
— Eu já perdi João, não perderei você também. – ela o puxa e com a força, arranca a manga de sua camisa e a tatuagem da cobra fica a vista.
Ela recua e grita enfurecida. Os galhos das árvores ao redor começam a chacoalhar violentamente e um som de tambor forte começa a ser ouvido.
Atrás da árvore seca onde Yanna habitava, começou a sair um brilho dourado, a cobra de seus sonhos vinha em sua direção.
— Yanna, Yanna... – a voz que vinha junto com a cobra soava forte — Mais uma vez, cometendo o erro de mexer com quem não deveria.
— E você, Tucanaã, você mais uma vez atrapalhando meus planos. – Yanna avança para a cobra dourada, mas de repente, atrás da cobra aparece um majestoso cacique, e ele olha impassível para Yanna.
Kuanan olha para quem um dia foi sua sonhadora filha e balança a cabeça com tristeza.
— Yanna, minha filha, por que deixaste Kaitoã fazer isso com você?
— Eu deixei? – Yanna grita — Eu deixei?? Vocês me abandonaram, vocês me deixaram secar, vocês, ancestrais que deveriam me ajudar, me deixaram aqui, sem vida, sem verde puro, sem alma.
— Olhe além do olho, Yanna, o que você vê? – Kuanan diz a ela.
Yanna vira com rapidez levantado uma nuvem de poeira. E olha além do olho.
E lá, na entrada do Olho da Mata, uma parede de guerreiros olha para ela com olhos tristes. Alguns com lanças nas mãos, outros tocando tambores, alguns com chocalhos e cantavam baixinho. Mas, todos a olhavam com tristeza.
Yanna paralisada continua a olhar a parede de guerreiros e diz baixinho.
— Eu nunca os vi. – ela repete — Eu nunca os vi.
— Não, você nunca os procurou. – Kuanan diz triste — Você deixou o ódio secar seu coração, assim como Kaitoã queria. Você escolheu não ver seu povo ali, pronto para lhe ajudar.
— E por que então aparecem agora? – Yanna pergunta cheia de desdém — Milagre?
— Olhe seus dedos, – Kuanan diz a Yanna — veja o que tocar o peito de Antônio quando ele estava cheio da luz do amor, fez com você.
Yanna olha para suas mãos e vê em choque, que seus dedos voltaram a ser normais, só os dedos. Sua pele avermelhada estava de volta, ainda com a tinta que ela havia enfeitado naquele dia fatídico.
— Essa pequena parte sua de volta, nos permitiu aparecer para você sem sua ajuda. – Kuanan diz com tristeza — Você, minha filha Yanna, você nos renegou e nunca nos procurou dentro de você.
— Mas, a árvore se fora! Você partiu, como eu poderia saber? – Yanna grita.
— A raiz ainda estava aqui, não é? – Kuanan explica — Uma árvore são mais que folhas, não são as folhas que a sustentam e sim, sua raiz.
— Eu estava dentro da árvore e não senti ninguém – Yanna ainda insiste.
— Você não se permitiu sentir e nem tentou fazer a árvore voltar a vida. Se acomodou e aceitou seu destino sem lutar.
Yanna leva as mãos a cabeça e puxa seus cabelos gritando em desespero.
Antônio, que observava tudo em choque absoluto, sente a aproximação da cobra dourada. A cobra começa a subir por suas pernas e se envolver em seu corpo. Seu toque era quente e trazia conforto. Seus olhos brilhantes e azuis, transmitiam uma sabedoria quase humana e a cobra o encarou.
— Veja, Antônio, veja a história da maldição de Yanna ter seu fim. E quando o brilho vier, coloque seu colar.
Antônio volta a observar o que acontecia entre Yanna e Kuanan e pega o colar em seu bolso e o deixa na sua mão, em espera.
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