A Marquesa
23 Um Beijo Inigualável
11 de Setembro de 1884, período da tarde, tempo nublado
unca me acovardei diante de um problema, sempre procurei as soluções o mais depressa possível. E algo está acontecendo comigo! Desde o dia do jantar com Max Morstan, sentia enjoos, tonteiras e o todo tempo estava passando mal, já desconfiava de algo, mas precisava confirmar minhas suspeitas.
Encaminhei-me diretamente para a Holywell Street, pois lá teria a pessoa ideal para me aconselhar; Nancy Sprinc. A Sra. Sprinc foi à parteira que fizera o parto de Oren e o meu, além desta profissão ela fora nossa cuidadora por muito tempo até não precisarmos mais de cuidados. Chegando a sua casa imaginei como era injusto que mesmo com o passar do tempo, ela continuasse morando naquele casebre e naquela rua imunda. Nancy tinha cinco filhos, mas cuidava mais dos filhos dos outros do que dos seus próprios.
— Se meus velhos olhos não me enganam estou de frente à Joan Watson? – Falou ela quando abriu a porta e me deu um forte abraço.
Ela não me deu tempo para responder.
— Você está famosa menina — não devia nem estar andando pela Holywell Street – suas façanhas com o Sr. Sherlock Holmes sempre saem no jornal.
Depois de me oferecer uma xícara de café e contar boa parte de sua vida, falei de todas as minhas suspeitas e de tudo que havia acontecido na minha vida, confiei nela quando era criança e ainda confio, com certeza o que eu falasse ali permaneceria ali.
Após um breve exame, nas mãos habilidosas de Nancy, confirmei tudo o que rodeava minha mente durante a última semana, quando ela disse:
— Parabéns, Watson! Você está esperando um filho.
A ansiedade tomou conta do meu ser, não sabia que minha mãe queria uma nova vida, ainda mais a dois e estas novidades fizeram do meu dia um borrão que passou rapidamente.
12 de setembro de 1884, anoitecer de céu estrelado
Sentada na mesma poltrona, na mesma casa e encarando a mesma pessoa. Nancy se preocupava com meu estado emocional e reafirmou que estava ali para me ouvir.
— O que eu e Sherlock temos é algo incrível, mas acredito que essa relação não sobreviveria com a presença de uma criança. Minha mãe criou dois filhos sozinha e acredito que posso fazer o mesmo.
— Não seja egoísta menina, essa criança merece conhecer o pai.
— Ela vai conhecer o pai, mas não neste momento que estamos passando por diversas modificações em nossas vidas.
— Venha cá! – Ela abriu os braços e me abraçou me embalando como se eu fosse ainda uma criança – Sei que é uma informação nova, mas pense em contar para Sherlock quem sabe ele não te pede em casamento.
Fui de Holywell Street até a Baker Street caminhando, precisa pensar; porém, em nenhum desses pensamentos aparecia a imagem de Sherlock Holmes casado e formando uma família. Quando avistei a 221 já havia tomado a decisão mais difícil da minha vida.
Entrei no recinto e me deparei com os dois ainda com roupa de festa, Kitty na sala com as pernas para cima do sofá e Sherlock na cozinha concentrado no que parecia ser um jornal.
— Nossa você está com uma cara péssima. – Falou Kitty.
— Falou à mulher que tem buracos nas costas. – Tentei brincar, mas não deu muito certo devido ao meu tom de voz arrastado.
Sherlock viera correndo da cozinha ver o que estava acontecendo.
— Onde você estava? Mary Watson fez algo com você? Você sumiu depois que conversou com ela. – Sherlock estava preocupado, pois aquela falação não era típica de sua pessoa.
— Eu estava lá o tempo todo só estava no meu antigo quarto, minha mãe me disse coisas que me fizeram refletir. – Menti parcialmente.
— Coisas ruins? – Perguntou Kitty.
— Não, longe disso, ela se desculpou e me contou histórias de quando era mais jovem, nunca tivemos uma conversa daquela. Agora, se não se importarem irei me retirar.
Subi as escadas com os olhares desconfiados de Sherlock e Kitty sobre mim.
Naquela noite, sonhei com uma criança correndo pela casa Watson e ele era demasiado parecido com o pai, àquele era o meu pequeno Sherlock Holmes, instintivamente coloquei minha mão sobre a barriga.
A casa ainda estava adormecida quando saí a passos calmos para o meu destino. A carruagem já estava a minha espera e agora não houve pancadas na cabeça ou vendas escuras, apenas meu caminhar constante e decidido. Morland me aguardava ansioso e se levantou assim que adentrei na saleta.
— Espero que tenha se decidido Watson? – Disse Morland.
— Irei para os Estados Unidos, mas tenho algumas condições: A primeira é que não interfira na vida de Sherlock, eu tenho essa dívida para como você, não o seu filho; a segunda, é que me dê todo o apoio que precisar neste outro país e isso inclui uma mensalidade para que eu possa me adaptar.
— Combinado, faço o que você precisar, mas fique por um ano no NYPD e trabalhe da melhor maneira possível. A próxima embarcação é às quatro horas e leve apenas suas malas que o resto ficará resolvido, em Nova York terá uma casa em seu nome em um bairro respeitável e depois da mudança poderá encontrar com Lestrade e conhecer seu novo trabalho.
Morland me esticou sua mão direita e eu não a apertei, ele era uma pessoa que não gostava de ser contrariada como Sherlock e eu ainda nem pensara nos últimos detalhes que teria que resolver até quatro horas da tarde.
Voltei para Baker Street e Sherlock e Kitty já estavam acordados, passei diretamente pelos dois sem cumprimentá-los e me senti a pior pessoa do mundo quando comecei a redigir uma carta. Bati no quarto de Sherlock e a entreguei em suas mãos, depois saí com o intuito de arrumar todas as coisas que eu tinha em duas malas.
Sherlock Holmes,
Não sei expor em voz alta o que estou sentindo, quando você ler está carta estarei arrumando minhas malas para embarcar para os Estados Unidos.
Há alguns dias recebi uma proposta de emprego no Departamento Policial de Nova York (NYPD) o oficial Gareth Lestrade necessita de novos profissionais já que os seus foram contratados pelo FBI. Esta decisão foi extremamente pensada e foi um erro avisá-lo somente em cima da hora. Kitty Winter será uma boa substituta enquanto eu estiver fora e espero que me mantenha informado de toda a evolução dela. Também te manterei informado de tudo o que acontecer em Nova York, de cada crime, de cada resolução e de cada grande obstáculo.
Saiba que você está marcado em meu coração, desde o dia que socorremos aquele rapaz juntos e que inesperadamente me convidou para morar com você.
Isto não é um adeus, pois é apenas um ano que passarei fora e que este ano passe rapidamente para que possamos nos encontrar o mais breve possível.
Te Amo,
Joan Watson.
Estava na porta da sala quando ouvi uma pequena correria no andar de cima, Sherlock se lançou para cima de mim e me deu o melhor beijo que já pudera me dar, longo e demorado, como se quisesse arrancar um pedaço do meu ser e guardar junto a ele.
— Não vou te obrigar a ficar, você pode fazer suas próprias escolhas, mas saiba Watson que nunca amei alguém como eu te amo.
Ele me abraçou e meus olhos começaram a marejar.
— Levarei seu nome e todas as pessoas do mundo irão conhecer Sherlock Holmes e Joan Watson.
Disse antes de me virar para a rua e sair.
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