A Marquesa
20 Sem Saída
ubi as escadas praticamente correndo, minha mão estava trêmula e minha mente começou a funcionar como um cavalo de corrida batalhando para ser vitorioso, neste caso a vitória seria impedir que kitty estragasse sua vida.
Abri a porta do quarto de Sherlock e ele estava deitado de bruços, sem camisa e com as cobertas tampando apenas suas pernas. Aproximei – me devagar e chamei seu nome, foi preciso três vezes para ele acordar.
— Boa Noite, Watson. Se queria minha companhia em sua cama era só...
— Você precisa ler isto. – Disse eu interrompendo seu pronunciamento.
Coçando os olhos e levantando devagar, ele pegou o bilhete e engoliu em seco percebendo a gravidade da situação.
— Temos que ir agora para o esconderijo de Del Gruner. – Foi o que ele disse.
Percorremos Baker Street a procura de uma carruagem e devido à hora foi extremamente difícil encontrar alguma, quando vimos uma no final da rua soltei minha respiração e nem tinha me dado conta de que eu estava prendendo-a. O cocheiro cobrou o dobro de libras do que o valor normal como pagamento, mas não podíamos nos dar o luxo de nos zangar por isso, naquele instante soube o verdadeiro significado da expressão “Vida ou morte”.
As ruas vazias ajudaram para que percorrêssemos o trajeto o mais rápido possível, olhei para Sherlock que encarava o chão e passava a mão em sua barba, estava translucidamente apreensivo.
— Sherlock. – Falei chamando sua atenção – Eu não te contei uma coisa. Kitty quando estava refém de Del Gruner escrevia atrás das partituras, dadas a ela para tocar no piano, várias formas de como se vingar de Gruner. Havia descrições de mortes dolorosas e tudo estava escrito com muita fúria. Eu o nomeei como manual de vingança, pois eram isso que se constituíam aquelas folhas.
— Você acha que por qual motivo eu a convidei para ser detetive? – Kitty é perspicaz e observadora. Assemelha-se muito a mim quando eu estava nas piores fases da minha vida e eu, Watson, não tive ninguém para me ajudar. Eu queria ser este alguém para ela.
— Não é culpa sua, Sherlock. Você não falhou, hoje é nossa oportunidade para fazer com que ela repense que a morte de Del não é a única alternativa.
A poeira levantou assim que passamos com a carruagem para a Rodovia 49, observamos atenciosamente se havia qualquer residência abandonada ou algo do tipo ao longo do percurso, mas em toda a Rodovia só existia um armazém que não demonstrava nenhum sinal de vida. Com as lamparinas em mão eu e Sherlock saímos da carruagem, falando para que o cocheiro nos aguardasse no início da Rodovia. Desconfiado ele colocou os cavalos em movimento.
— Não parece ter alguém lá dentro, está muito escuro. – Falei em voz baixa.
— Vamos contornar e olhar pelos fundos, não quero invadir uma propriedade sem qualquer motivo. – Disse Sherlock.
O mato alto dificultava o caminhar, as inúmeras janelas estavam quebradas e ao ver um vestígio distante de luz adentramos no recinto. Pulamos a janela quebrada e caminhamos lentamente, entramos no que parecia uma dispensa que hoje era constituída somente de suportes de metal, ao passar pela porta que dava para uma sala bem maior, olhares de fúria se destinaram a mim e a Sherlock.
A cena era inusitada: Kitty segurava um ferro que em sua ponta reluzia em fogo, na sua frente um homem fora amarrado formando um X de braços e pernas abertos e ao fundo uma lareira deixava o cômodo à meia luz.
— O que fazem aqui? – A voz de Kitty ecoou no salão vazio.
— Graças a Deus! Esta mulher é louca, me ajudem, me tirem daqui. – Disse Del Gruner que fazia um grande esforço para falar.
Sherlock dando passos largos ficou em frente à Gruner e começou a encará-lo:
— É por isso que você irá acabar com o seu futuro. — Sherlock levantou a cabeça de Gruner pelo queixo – Ele não merece Kitty, não merece estragar sua vida duas vezes.
— Vocês não entendem, nunca irão entender – Ela gritava – vocês com suas vidas perfeitas, trabalhando no que gostam, sem se preocupar com o dinheiro, tendo amigos e casas belas para morar. Não irão entender o que eu sinto!
Sherlock correu até ela e eu instintivamente me aproximei. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, sacolejando-a e obrigando ela a olhar para ele.
— Não imagina kitty, o quanto eu sonhei com uma cena parecida com esta. Cada um dos meus inimigos ali amarrados e eu pondo fim ao meu sofrimento, mas sempre haverá algo que irá te atormentar, dias ruins, perdas e pessoas que querem o seu mal e então resta você olhar o lado positivo e agradecer por estas pessoas existirem e nos fazerem mais fortes.
Kitty se afastou de Sherlock e colocou o ferro quente nas costas de Gruner, já havia quatro marcas ali e eu tive que desviar os olhos ao ver a pele dele se desfazer aos poucos sob o objeto, o grito dele era de puro pânico, senti a mão tranquilizante de Sherlock no meu ombro.
— Chega Kitty! – Minha voz estava estranha e parecia de um desconhecido, respirei fundo e continuei – Você tem duas opções; ficar aqui e ver Del Gruner derreter pouco a pouco na sua frente ou ir comigo para a casa e descobrir tudo o que nos podemos te oferecer.
Ela parecia considerar as opções e subitamente deixou o ferro cair no chão e correu até mim me dando um abraço. Kitty dava soluços baixos e me apertava, procurando um abrigo, um ombro para chorar, me lembrei de minha mãe e proferi as seguintes palavras:
— Vai ficar tudo bem.
Sherlock e Kitty arrumaram o local a fim de ocultar com todas as possíveis coisas que a incriminariam enquanto eu caminhava até o início da Rodovia 49 procurando o cocheiro.
— Estou pronta para ir, mas antes temos que ir a alguns lugares. – Falei quando encontrei a carruagem e o cocheiro tirando uma soneca.
Passei na casa do capitão Gregson e avisei que encontramos Del Gruner, que estava ferido e inconsciente. O sol nascia quando todos se reuniram na Scotland Hard e partimos para a captura de Gruner. Fiquei pensando em todo o caminho que Sherlock deveria inventar uma boa desculpa para dar a todos, pois se descobrissem estaríamos com sérios problemas.
Logo após criar em minha cabeça cerca de 10 versões para o caso, chegamos ao local que agora estava claro com a luz do dia.
— Capitão. – Falou Sherlock – Tivemos que amarrá-lo quando chegamos ontem ele já estava preparando uma fuga.
— Que bom revê-lo, Del Gruner. – Falou Arthur Morstan.
— Se aguardássemos até o dia de hoje para capturá-lo com certeza já estaria longe. – Disse Kitty confiante.
— Percorremos ontem este trajeto – Continuou Sherlock – kitty gostaria logo de prender o homem que causou tanta dor para ela, deixou um bilhete para nós, dizendo que iria encontrar Del Gruner e partiu em uma carruagem antes que eu e Watson viéssemos pra cá. Reconheceu Gruner e nós o autuamos antes dele fugir.
Arthur Morstan e Tobias Gregson parabenizavam Kitty com apertos de mão e rapidamente o criminoso estava sendo levado ao departamento policial de lá ele seria transportado para a Índia onde ficaria numa cela de segurança máxima no 34º Regimento de Infantaria de Bombaim.
Fomos diretamente para Baker Street, eles saberiam o que fazer com Del Gruner e não precisava mais da nossa ajuda. Fomos em uma carruagem separada e dentro dela, perguntei a Sherlock e a Kitty:
— O que fizeram com o ferro? Gruner não irá contar nada?
— Calma Watson. Enterramos o ferro e depois das ameaças de kitty ele não vai sequer querer repetir o nome dela outra vez.
— Ele vai ter pesadelos comigo pelo resto da vida... Isto é gratificante!
E nos três ficamos ali, gargalhando e nos entreolhando, era um bom começo para a nossa parceria.
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