A Marquesa
2 Primeiras Impressões
movimento da carruagem me deixava entorpecida; mesmo com o grande espaço do veículo, o incômodo permanecia devido à estrada em más condições onde seguíamos viagem. Íamos meu irmão, minha mãe e eu; o primeiro com olhar distante e roçando o dedo indicador no lábio inferior, provavelmente pensando em como deixar todas as jovens solteiras loucas com sua presença, minha mãe abanava o leque como se estivesse um calor insuportável, pensando bem para ela poderia estar, por que colocara tanta anágua em seu vestido que um dos bancos da carruagem era destinado somente a ela, já eu, enfim, me sentia cansada com a mesma rotina, os mesmos gestos e as mesmas expressões e ainda sentia um peso enorme em minhas mãos.
Era apenas uma folha de papel que possuía um imenso significado. Todas as temporadas eu era obrigada a encará-la, minha mãe fazia uma lista com os oito dos melhores pretendentes disponíveis da época, como já estava com 22 anos era considerada uma futura solteirona. Se eu ligava para isso? Definitivamente não! Desdobrei a folha e comecei a ler os nomes, seis dos oito eu já conhecia, mas, os dois últimos, nunca tinha ouvido falar e possuíam o mesmo sobrenome: Holmes. A lista era constituída desta forma:
Anthony Hastings
Derek Wolf
Jason Berbrooke
Benjamin Merrywather
Patrick Colins
Nigel De Bourne
Mycroft Holmes
Sherlock Holmes
No mesmo instante fui surpreendida pelo cocheiro que abriu a porta e preparou a nossa descida, o destino final de nossa viagem era perto do centro de Greenwich, um parque com vasta área verde, um grande lago e um salão de conversas que também poderia ser chamado de "casa das mães ambiciosas." Estávamos na entrada do salão assinando nossos nomes, o mestre de cerimônias então começou...
— Sr. Oren Watson.
— Sra. Mary Watson.
—Srta. Joan Watson.
Fizemos reverência e descemos a escada, num piscar de olhos Oren adentrou em meio à multidão e eu, me pus a seguir minha mãe que encontrara uma conhecida. Fechei a cara pensando na sorte que meu irmão possuía. Mais ou menos, um século depois da Sra. Watson recitar todas as minhas qualidades e defeitos para cada um dos quatro homens referidos em minha lista, seu olhar de águia pousou em outro homem afastado da multidão, este estava conversando com uma moça — muito linda aliás – concentrado mais na taça de vinho do que na conversa que ela recitava. Chegando mais perto, Mary praticamente empurrou a moça com a crinolina e os tecidos de seu vestido e assim começou a falar o discurso de sempre.
— Oh! Sr. Holmes é um prazer encontrá-lo nesta linda tarde. Permita–me apresentar minha filha Joan Watson, ela tem um bordado muito bom, certa vez...
O Sr. Holmes então a interrompeu, o que não era usual, a maioria dos cavalheiros somente assentia com a cabeça ou em alguns casos me despia com os olhos, nem prestando atenção no que era falado por minha mãe. Mesmo não sendo deveras interessante.
— Sra. Watson deixe sua filha falar por si só que certamente irei escutá-la.
Minha mãe ruborizou instantaneamente e então falou se afastando.
— Vou deixar que conversem então!
Não sabia o que falar, a maioria das mulheres comentavam sobre o clima (uma coisa tão óbvia que todos poderiam ver) não queria passar uma imagem de ignorância. Na verdade, não devia estar preocupada com o que ele iria pensar de mim, sendo que nem ali eu queria estar. Dei graças por ele acabar de vez com aquela crise interna, depois de um período de silêncio, que pareceu levar uma eternidade.
— Para mim esta é a melhor área de Londres é ótimo fazer uma visita ao Observatório Real para ver o Meridiano de Greenwich. Você sabe alguma coisa sobre navegação e longitude?
Pensei sobre a regra de que uma mulher não pode demonstrar sua inteligência perante a um homem e monopolizar a conversa, mesmo assim, olhei para os lados certificando que minha mãe estava distante e então respondi.
— Não muito infelizmente, entretanto, é muito arrogante da nossa parte posicionarmo-nos no centro do mundo.
— Você acha? – Disse ele.
Seus olhos azuis se estreitaram demonstrando um misto de confusão e perplexidade.
— É claro, não entendo como simplesmente todo mundo concordou com Greenwich. Acho difícil acreditar que os franceses não tenham insistido que fosse Paris, nem o papa preferido que fosse Roma. – Falei com um tom decidido.
— Não é bem um acordo, o Observatório Real publica uma excelente coleção de mapas e tabelas denominado Almanaque Náutico, um marinheiro, por exemplo, seria tomado como louco se não estivesse com um desses em um barco. O Almanaque trata como ponto zero Greenwich e então não houve modificações.
— Surpreendente – Finalizei.
— Não quanto à senhorita. – Rebateu ele com os olhos me encarando de certa forma que sem perceber fiquei cabisbaixa por um instante.
Senti uma mão pousar em meu ombro, era minha mãe, que dirigiu um olhar furioso para meu acompanhante.
— Sr. Holmes, lamento acabar com esta conversa, mas temos que ir para o desjejum. – Disse ela com um tom sarcástico.
— Seria um prazer conversar com você novamente. – Foi o que ele disse.
Puxando-me pelo braço, minha mãe levou-me até as escadas, dei-me o prazer de vislumbrar pela última vez aquele homem que olhava para mim de uma forma, que me fez pensar que ele conhecesse todos os segredos de minha alma.
O desjejum aconteceu na casa de Lady Katerina (uma amiga de minha mãe que se tornou viúva recentemente) sua personalidade não era das mais confiáveis, temia que qualquer palavra que saísse da minha boca, por mais insignificante, fosse espalhada por toda a Londres, então decidimos dar uma última volta por Greenwich Park e assim terminar com o passeio.
Lady Katerina e minha mãe andavam a frente de mim e Oren conversando animadamente sobre algo, Oren contava-me suas investidas em Gabriella sua amada e como dançou com quase todas as moças solteiras do recinto, mesmo parecendo um libertino, era um perfeito cavalheiro e, tudo o que desejava era casar e formar uma família e, sobretudo era um ótimo irmão e companheiro.
Foi quando algo inusitado aconteceu, dois jovens galopavam numa velocidade não permitida em Greenwick Park, disputando uma corrida quando o segundo foi atingido violentamente por um galho de árvore, arremessando-o assim no chão, seu antebraço bateu em uma pedra que ficou vermelha com seu sangue.
Oren com a ajuda do primeiro jovem ergueu o ferido do chão e seguiram rapidamente para uma porta ao lado do salão de conversas, ergui meu vestido com as duas mãos e entrei na sala que parecia ser destinada a encontros particulares e reuniões importantes, Sherlock Holmes estava lá, acompanhado com um cavaleiro de mais idade com cabelos grisalhos e olhos claros, eles ficaram assustados com a interrupção.
— O que está acontecendo? – Perguntou o Sr. Holmes.
— Este homem caiu de seu cavalo. – Oren respondeu colocando o jovem no sofá de couro.
— Chamem um médico! – Disse Lady Katerina.
Enquanto isso, peguei a bolsa que minha mãe carregava e tirei de lá um pequeno estojo para emergências vestais e comecei a pôr em prática o que eu sabia. Cortei um pedaço de tecido da borda de meu vestido e enrolei no pulso do rapaz pressionando-o para estancar o sangue.
— Joan levante-se daí e deixe que os homens resolvam esta situação.
Minha mãe mal terminou de falar quanto Oren e Sherlock Holmes a retiraram juntamente com Lady Katerina e o jovem que não estava ferido.
Agachada ao lado do sofá desatei o nó do curativo que havia feito e comecei a apalpar toda a extensão do ferimento.
— Não está quebrado. – Disse sob os olhos de Oren, Holmes e seu acompanhante.
— O corte é muito profundo terei que saturá-lo. – Falei novamente.
— Por acaso sabe fazer isso, Joan? – Perguntou Oren.
— Sua mãe disse que ela tem um ótimo bordado, não será difícil para ela. – Holmes falou antes que eu pudesse responder.
Abri o estojo que estava ao meu lado, retirei de lá uma agulha e uma linha preta mais espessa, olhei para os cavalheiros que retiraram todas as coisas de cima da mesa principal e transportaram o corpo do homem para lá.
— O que vai fazer? — O paciente perguntou.
— Vai fazer você melhorar. – Eu disse calmamente.
Sherlock Holmes imobilizou o braço ferido do homem com as duas mãos enquanto meu irmão dava várias doses de uísque para que servisse de amenizador, o acompanhante de Holmes já havia se retirado. Passei a linha pela agulha e comecei a saturar o machucado, ignorando os gritos altos do jovem e rapidamente o ferimento estava tampado, retirei outro pedaço de tecido e fiz uma espécie de curativo, terminando com o procedimento.
— Acho que vou vomitar. — Oren falou correndo em direção a porta.
Olhei para Sherlock Holmes que estava com o mesmo olhar de confusão e perplexidade de mais cedo.
Sherlock se abaixou pegou a tesoura e cortou outro pedaço de tecido do meu vestido que mais parecia um uniforme de um soldado em guerra, me entregou para eu poder limpar minhas mãos. Retirou o lenço do seu bolso e começou a limpar a agulha e colocá-la no estojo.
— Gostaria de expandir seus conhecimentos Watson? Gostaria de ir morar comigo?
Claramente não era um pergunta muito convencional, encarei seu rosto. Não o conhecia, não sabia o que poderia acontecer se concordasse com sua proposta, mas sabia que estava cansada de minha vida atual, cansada da mesmice e aquelas três letras saíram tão facilmente que fiquei abismada.
— Sim.
— Amanhã, 221 Baker Street.
E saiu com um andar triunfante e um cachimbo na boca.
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