A Marquesa

3 Selva de Concreto


sso é um absurdo! – Disse minha mãe. Os raios da aurora lhe conferiam um tom pálido assombroso, ela me encarava como se eu fosse uma estranha, uma pessoa que estivesse invadindo sua casa, por exemplo.

Passei todo o percurso de volta de Greenwich Park até a Casa Watson’s, pensando em como iria contar a novidade para minha mãe e especialmente no momento certo em que faria esta proeza. Assim que ficamos a sós, contei sobre minha repentina mudança.

— Você me privou todo o conhecimento de analogia, filosofia, artes, entre tantos outros, tive que ser minha própria instrutora, ao invés disso, me ensinou somente como ser uma boa esposa. – Disse eu enfaticamente.

— Se você ir morar com o Sr. Holmes, será considerada pela sociedade como uma amante do mesmo, ninguém irá entender que ele te servirá como mestre de ensinos, nem eu mesma entendo! Perderá sua reputação, sua dignidade e manchará o nome da família, por isso, se passar por aquela porta Joan esquecerei de que um dia foi minha filha. – Mary falou com o tom de voz alto e os olhos cheios de lágrimas.

Não consegui encarar aquele olhar, me senti como se naquele instante fosse meu pai, inventando desculpas para sair de casa, Simon e eu sabíamos que ela foi desposada não legalmente, com processos e papéis, meu pai não a deixaria a mercê de comentários maliciosos, mas ele já não fazia parte de nossa vida há muito tempo. Também não esperava que a conversa tomasse rumos tão drásticos, queria falar algo, queria dar a última palavra, pedir desculpas ou apenas abraçá-la, entretanto, tudo o que fiz foi caminhar em passos lentos rumo ao meu quarto.

Era uma decisão difícil de fato, caminhando pelo corredor, observei cada objeto e canto da casa guardando em minha memória todos os detalhes, ultrapassei a porta do meu quarto e comecei a separar tudo o de mais essencial para por dentro da mala, aquele era o ponto de partida para uma nova vida.

Baker Street não era tão longe e quase não me dei conta do discorrer da pequena viagem, com uma mala somente, desci da carruagem e assenti para o cocheiro como despedida, seu olhar estava entristecido. O barulho era insuportável e atravessar a ruela foi imprevisivelmente difícil. Ao encontrar o número 221, me deparei com uma casa imponente, uma escada que levava para a entrada principal e dois andares, tive em mente um lugar menor. Deixei minha mala no chão e bati na porta, tudo parecia silencioso, olhei para as janelas e não havia nada, parecia que ninguém estava em casa. De repente ouvi um sussurro:

— É realmente necessário?!

Havia alguém naquela casa, sentia minha testa franzindo e pensei na possibilidade de que o dono quisesse retirar o seu convite.

— Sr. Holmes. – Chamei uma, duas, três vezes esmurrando a porta.

Virei meus olhos para rua e percebi que nenhuma atenção estava direcionada a mim, era ótimo, pois o que iria fazer era considerado ilegal, não cheguei até aqui para me deparar com uma porta fechada, concluí. Retirei da mala um grampo de cabelo e moldei-o em forma de L, com a unha parti cada ponta em duas deixando-o com o aspecto de desfiado, olhei para a fechadura; a maior parte das fechaduras possuía entre 5 e 7 pinos, está não parecia tão simples, mas também não tão sofisticada, delicadamente coloquei o grampo e comecei a girar, certo tempo depois, ouvi um “click” e a porta se abriu.

Sherlock Holmes estava sentado numa cadeira, a poucos metros da porta, ao seu lado estava uma mulher loura com o corpo bem definido, pisquei várias vezes sem acreditar que ele estava todo aquele tempo ali e não pôde abrir a porta.

— Excelente. – disse ele – o ideal é 3 segundos, mas 5 minutos para uma iniciante é um grande feito. Sra. Hudson, nossa visitante deve estar com fome, me deve cafés da manhã na cama por uma semana.

— Não é justo – falou ela – não sabia que ela teria coragem de fazer isso em pleno centro de Londres.

— Por favor, estou no recinto, não precisam falar de mim como se não estivesse presente – disse com raiva – simplesmente poderia se levantar e abrir a porta, não acha?

— Faz parte dos ensinamentos – Holmes levantou da cadeira e pegou a mala da minha mão – achei que iria trazer mais coisas.

Dei de ombros e comecei a analisar a casa, depois da entrada havia uma escada que levava para o segundo andar e outra porta de vidro que dava passagem para a sala de estar, que estava repleta de livros e folhas pelas paredes, pela mobília e também no chão, não era um lugar organizado nem esperava que fosse. Uma batida na porta tirou-me completamente dos meus devaneios.

— Capitão, chegou antes do esperado. – Falou Holmes.

Era o mesmo homem que estava no escritório, quando chegamos com o rapaz ferido em Greenwick Park, ele me reconheceu também já que disse:

— Watson é um prazer revê-la – me estendeu a mão – sou Tobias Gregson, capitão da Scotland Hard, Sherlock me falou muito de você.

Fiquei em dúvida sobre o que ele falou sobre mim, nos conhecíamos há apenas um dia, não havia muito a ser contado.

— Me impressionou com os seus conhecimentos de medicina – continuou – não esperava que uma dama fosse capaz de ter tais conhecimentos. Sherlock veio ontem até mim e me pediu para que eu lhe desse a vaga de consultora de investigação no departamento policial.

— Está me oferecendo um trabalho? Como detetive? – Perguntei incrédula.

— Não é bem um trabalho, já que faço por prazer, sem remuneração. – Disse Holmes. – É mais um aprendizado sobre a capacidade humana.

— Terá que ver cenas de crimes e cadáveres, tudo o que você não enfrentou até o dia de hoje, creio que não será um problema. – O capitão falou.

— Estou surpresa não com criminosos e pessoas mortas, mas por vocês oferecerem esta vaga a uma mulher. Todas as mulheres de Londres que estão trabalhando ou são como governantas ou são como escritoras. – Disse eu.

— Você não é igual às outras! – Os dois falaram quase em uníssono.

Depois dos detalhes concluídos Holmes fechou a porta e me encarou.

— Bem-vinda a Scotland Hard, detetive Watson.

Meu sorriso se alargou nos dois cantos da boca e tive a certeza de que aquela foi a melhor decisão que já tomei na minha vida.

Notas finais
Naquela época chamar as pessoas pelo primeiro nome significava expressar relações de intimidade. E o nome do pai biológico da Joan Watson não foi falado na série, por isso tomei a liberdade de criar a minha própria versão sobre ele. Agradeço a Ana Oliveira por esta informação. Até o próximo capítulo!