A Marquesa

7 Me concede esta dança?


u não acredito que Oren a convidou! — Exclamou Mary Watson, que estava de pé em meio à confusão que acontecia em sua casa, várias pessoas perpassavam de um lado ao outro carregando flores, vasos e muitos tecidos.

Com a proibição da mãe, Oren não pôde mais entrar em contato com a própria irmã e mesmo com a curiosidade aguçada, não poderia escrever sequer uma carta para ela, mesmo assim ele mandava algum cocheiro ou criado observar como estava à vida de Joan e principalmente se o Sr. Holmes a tratava mal. Sua mãe, estava determinada a não considerá-la mais como um membro da família e pior, esforçava-se para que nem o nome da mesma fosse pronunciado. Por isso, Oren sabia o que estava acontecendo na vida de Joan, mas ela por sua vez não sabia de mais nada que ocorria na Casa Watson’s. O primogênito, gostaria de ter a irmã ao seu lado, para assistir a primeira vez em que dançara com Gabriela, desejaria a sua aprovação na decisão de pedir a mão da amada e, não iria privar a mais nova de estar ao seu lado, no dia mais feliz da sua vida; o dia do seu casamento.

Estava sentada bem atrás de Sherlock, tentávamos nos desatar das cordas bem amarradas que a Sra. Hudson, com suas mãos firmes nos colocou, era um exercício de resistência, nossas investigações ultimamente mexiam com pessoas perigosas e poderosas, que com um estalar de dedos poderiam nos amordaçar ou até mesmo nos matar e devido a esses fatos, passamos os últimos dias praticando a defesa pessoal. Nossos movimentos frenéticos faziam com que a minha mão e a dele se emaranhasse, o que me arrancava sorrisos de lado.

— Desse jeito ficaremos aqui a tarde toda. – Disse Sherlock.

— O que estou fazendo? — Franzi a testa no mesmo instante.

— Me distraindo. — Falou ele.

Neste momento, a companhia toca e tenho que acelerar o processo para me soltar. A Sra. Hudson atende e traz o envelope para o local em que estávamos.

— Pode me dar, Hudson. – Falou Sherlock que havia se desamarrado.

— Se quiser eu mesma leio. – Disse querendo me exibir por ter conseguido me soltar com apenas alguns segundos de diferença dele.

— Quando vão parar com essas competições bobas? – Perguntou ela com um tom materno – A carta é para você Joan.

— Obrigada – Respondi – E só vou terminar de competir quando sair vitoriosa.

— Teremos muitas disputas pela frente, então. — Concluiu Sherlock.

O clima de descontração acabou, quando abri aquela carta, sim eu estava feliz por Oren, mas não imaginava como seria estar outra vez frente a frente com minha mãe, com certeza iríamos brigar, porém torcia para que a indiferença, fosse o sentimento dela, durante o dia do matrimônio do filho. Passei o envelope para Sherlock que o leu rapidamente.

— Irei com você. – Disse ele adivinhando minha ânsia em ver o meu irmão e meu medo de encarar o meu passado.

09 de setembro de 1881 já havia chegado e dentro da carruagem pude ver de relance a casa em que passei pelo menos 20 anos da minha existência, parecia um lugar para recordar e não o lugar em que havia chamado de lar. Meu coração pulsava e Sherlock me ajudou a descer do veículo, estava vestido elegantemente com os trajes masculinos da época, que se consistia em colete, botas, luvas e cartola, quando pisei no salão de entrada da casa, notei duas coisas que quase me fizeram girar nos calcanhares e voltar para Baker Street a) as pessoas pararam todas as suas atividades para me observar e b) me olhavam como se eu estivesse nua ou algo do tipo, Sherlock se aproximou de mim e disse.

— Quão tediosa a vida seria sem os nossos inimigos.

Todos os convidados estavam sendo encaminhados para a capela, a Casa Watson´s possuía uma capela própria, construída para atender as necessidades de minha mãe, que era um viúva, que tinha apenas duas alternativas de ocupação ou fofocar com suas conhecidas ou rezar e prestar maior parte do seu tempo à igreja, graças a Deus ela escolheu a segunda.

Oren estava torcendo as mãos de nervosismo e Gabriela estava deslumbrante, sentei na primeira fileira, mesmo com os olhares enviesados de minha mãe. O casamento realmente foi perfeito, com emoção e felicidade me fez pensar se algum dia aquilo aconteceria em minha vida.

Os noivos recepcionaram os convidados no salão e o baile estava prestes a começar, tinha muito tempo que não participava de um e minhas mãos começaram a suar. Os anfitriões anunciaram o início da valsa, Sherlock se pôs em minha frente e puxou delicadamente o cartão de danças, que estava amarrado em minha luva da mão direita, para colocar o seu nome, beijou minha palma e levantou o olhar para mim.

— Me concede esta dança, Srta. Watson?

— Certamente, Sr. Holmes.

A banda começou a tocar o Danúbio Azul e nos minutos iniciais concentramo-nos apenas na dança, de toques leves e alguns graves, ele dançava muito bem, a mesma coisa poderia se dizer para os meus compassos, pois fui educada desde cedo para impressionar os solteiros nos salões de baile.

— Deixaria você dormir em paz por uma semana se me contar os seus pensamentos? – Disse Sherlock.

— Seria maravilhoso, mas não acho que é muito válido, o que estou pensando.

— Apenas diga-me? – Disse ele curioso.

— Olhe em volta, este casal à direita, por exemplo, o homem nem olha para a própria acompanhante, está olhando para uma moça formosa no outro lado do salão e aquela mulher ali, sentada, conversando com a outra lhe mostrando suas joias, tudo me parece tão fútil. – Respondi a ele.

— É isso que fazemos observamos as pessoas. – Falou Sherlock olhando de forma diferente para mim. – E assim que começamos a observá-las concluímos que o mundo não é o melhor lugar para viver.

Observei também como Oren olhava para Gabriela, como se ela fosse à única mulher que importava, a mulher mais linda e sua âncora, dali em diante os dois seriam muito felizes com o amor que tem um pelo outro.

A música terminou e os recém-casados vieram até nós, Oren abriu os braços desde longe e me abraçou apertado, um abraço que me levantou do chão, Sherlock convidou Gabriela para a próxima dança e eu e meu irmão fomos para um lugar mais tranquilo.

— Está linda Watson. – Disse Oren – Como vai sua vida de detetive? Eu vi a matéria que você é citada no jornal. Você não está correndo perigo? Holmes te trata bem? Se não, agora mesmo colocarei ele para fora a socos e...

— Calma Oren, Sherlock me trata bem, não fez nenhuma investida se é isso que quer dizer, nossa relação é apenas uma parceria, uma amizade. – Falei.

— Pela forma que está olhando para você hoje não parece apenas isso.

— É ótimo ser detetive sabe, você aprende muitas coisas e começa a ver além. – Disse eu tentando mudar de assunto – Eu vou muito bem e são os perigos que me fazem melhorar na profissão.

A porta se abre e minha mãe faz uma entrada triunfal.

— Você não é bem vinda aqui! Muito menos o seu amante! – Diz ela.

— Não quero que estrague este dia maravilhoso. – Falou Oren – Holmes não é o amante dela e esta parceria está fazendo muito bem a Joan.

— Não comece a defendê-la. Eu sempre sonhei em ver você casada Joan, ver você bem perante a sociedade e não ser obrigada a ouvir cochichos pelas minhas costas e indiretas, por ter alguém sem reputação, tão próxima a mim.

Mary Watson tentava parecer superior, mas seu tom de voz era carregado de tristeza.

— Como disse, foi o que você sonhou para mim mãe e não os meus próprios planos, viveremos discutindo isso se você não colocar em sua cabeça, que o que as pessoas dizem não são verdades absolutas.

— Não me chame de mãe, você não é mais minha filha. – Mary disse e se retirou do recinto.

Oren me abraçou e, seguimos assim por vários minutos, até eu pedir para que ele aproveitasse o seu dia e que era uma honra estar ali. Dancei apenas mais uma vez com Sherlock e depois fui subjugada a acompanhantes que possuíam mãos bobas, dei graças quando a última valsa tocou.

— Você abriu mão de muita coisa para estar comigo. — Disse Sherlock quando caminhávamos para a carruagem.

— Não tive que sacrificar nada, Sherlock, fui buscar apenas um novo recomeço, isto que viu aqui hoje não é o lugar em que pertenço, meu lugar é na Scotland Hard contigo, Marcus e Gregson.

Entramos na carruagem e nos sentamos lado a lado, apoiei minha cabeça no ombro esquerdo de Sherlock, me sentindo cansada, este por sua vez segurou meu rosto virando-se para ele e me deu um beijo na testa, o beijo mais terno e que fez o meu corpo despertar, voltamos abraçados para o lugar que realmente era o meu lar.

Notas finais
Meus amores, desculpe não ter postado capítulo na semana passada, mas estava cuidando de problemas de saúde, pretendo voltar agora com a postagem semanal de capítulos. Alguns pontos deste texto precisam ser explicados: — Toda casa da Inglaterra do século XVIII e XIX possuíam nomes, assim uma pessoa quando, dava determinado endereço para outra, teria que falar o bairro, o nome da rua e o nome da casa. — Todas as moças solteiras tinham um cartão de danças, que era um papel com números e linhas, que registravam o número de dança da dama por noite e com quem elas haviam dançado, o cavalheiro assinava seu nome nele e só era permitido no máximo duas danças com a mesma pessoa e nunca poderiam ser duas danças seguidas. Ah! As moças tinham que ter autorização das mães para dançar tipos de dança que requeriam certa aproximação. —- Se quiser ver como era este cartão acesse: http://shdestherrense.com/home/wp-content/uploads/2014/08/616px-dance_card.jpg. —- Para ouvir Danúbio Azul pesquise por: http://www.kboing.com.br/orquestra-imperial/1-42757/ Ufa! Se você chegou até aqui obrigada e até mais.