A Marquesa

8 Com amor, Irene Adler


aquela noite em Baker Street, estava deitada em minha cama, quando ouvi o som de uma respiração ofegante, nem sequer abri os olhos, temendo espantar a pessoa que obviamente seria Sherlock Holmes, já que não havia mais ninguém no sobrado, se aproximou calmamente da cama e passou sua mão direita no meu rosto, colocando um fio de cabelo no lugar, eu estava fingindo que dormia, mas as batidas de meu coração estavam tão rápidas que o som delas traria desconfiança a Sherlock, tentei me acalmar, pois queria sua companhia durante toda a noite e ele realmente sentou em uma poltrona no quarto e me observou dormir.

Agora ali estava eu, sentada perto da lareira, com uma xícara enorme de café sem saber notícias de Sherlock, por aproximadamente vinte dias, repassei nossas conversas para tentar descobrir se eu dissera algo errado, procurei algum bilhete pela casa e relembrava mil vezes aquela noite que fora a última em que nos vemos, tudo isso não deu em nada. O único ponto positivo da situação é que me revelei uma ótima detetive sem ele, continuei consultando os policiais e vivendo minha vida normalmente, mas éramos parceiros e sempre algo ficava faltando quando eu concluía um caso.

A noite do casamento de Oren foi fantástica, me lembro de quando Sherlock beijou a minha mão, me puxou para o salão e me embalou bem próximo dele, me olhava com uma intensidade diferente e se não fosse os maus comentários e os sussurros nada discretos, eu gostaria de repetir aquela noite por mais de cem vezes. Por ventura, não podia me apegar ao passado e precisa procurar a felicidade para o meu futuro.

Levantei da cadeira, fui até meu quarto e coloquei um dos meus vestidos me arrumando lentamente, por dias não fazia isto, por causa da correria, mas os crimes deram uma trégua na cidade de Londres. Jennifer Hudson chegaria a pouco e nós duas iríamos transformar a casa em um local decente para se morar.

— Sabe o que pensei quando colocou os pés aqui pela primeira vez? – Falou ela depois de termos arrumado três cômodos da casa.

— Que era uma tola, por não saber arrombar a porta. – Eu disse sorrindo.

— Não, pensei que era uma dama mimada, que queria enfrentar a família saindo de casa, mas simultaneamente me ocorreu a ideia de que Holmes não daria nem confiança para uma pessoa assim e fiquei ansiosa para saber o que você tinha de diferente. – Hudson dobrava calmamente a roupa de cama.

— É verdade que sou filha de um marquês, mas a vida que eu levava não é nada comparada a esta. – Estava de pé observando-a.

— O que quero dizer é que nunca vi Sherlock trazer alguém aqui, nem sua própria família, você complementou a vida dele e te confesso que só o vi uma vez antes desta forma.

Uma quantidade absurda de perguntas se alojou em minha cabeça e não quis revelá-las, gostaria de conhecer Sherlock por mim mesma e não com alguém me contando. Conhecê-lo pouco a pouco, descobrindo seus medos, suas ansiedades e até coisas fúteis como sua cor preferida.

Entramos no quarto de Sherlock, que era sem sombra de dúvidas, o lugar mais bagunçado da casa, tudo possuía um tom neutro e roupas estavam por toda a parte. Começamos a arrumar e fiquei por conta da escrivaninha, que possuía muitos papéis, livros, penas e tinteiros por cima e dentro das gavetas notei que uma delas fazia um barulho estranho ao fundo e com a unha levantei o pedaço de madeira que escondia cerca de cinquenta envelopes de cartas, olhei para Jennifer e lhe disse que uma forte dor de cabeça havia começado e me sentia muito indisposta para continuar a limpeza, tentei ocultar os cinco envelopes que estavam por cima, coloquei a madeira sobre os outros e sai do recinto.

Se continuasse rodando, certamente formaria um buraco no chão, despejei as cartas em cima da cama do meu quarto e ponderava se o que iria fazer era certo. Minha mente dizia que não, porém minhas mãos formigavam para tocar aqueles papéis e começar a lê-los.

Não me contive e pequei a primeira que pela data era a mais recente.

Veneza, Itália, 25 de agosto de 1881

Meu Querido Sherlock Holmes,

O silêncio da noite me apavora. Tenho que falar com você, com os meios que estão ao meu alcance. Você habita em cada centímetro do meu ser que hoje em dia é movido por dois sentimentos discrepantes: a tristeza e a esperança. Nunca é tarde demais, não sei o que acontece na sua vida, para que tenha me tratado daquela forma na carta anterior. Andamos distantes, isto é um fato, mas nunca a distância atrapalhou o nosso amor.

Uma lágrima escapuliu do meu olhar, nem precisava ler o restante da carta, para saber, onde provavelmente Sherlock estava nos vinte dias de seu suposto desaparecimento, não deveria estar ligando, já que não existia nada significativo entre nós; entretanto, um sentimento de possessão e inveja daquela mulher consumiu o meu corpo, senti que ficava vermelha de raiva e não sabia que era tão egoísta. Sherlock nem era um objeto para ser denominado de meu. Em contrapartida, continuei lendo a carta para saber onde tudo aquilo iria dar.

Eu ofereço a você agora, um sentimento ainda mais intenso, um coração inteiramente seu. E mesmo que a frequência de nossas cartas, não sejam as mesmas, do que há cinco anos, venho a Londres esperando uma palavra, um olhar ou apenas um gesto, pois eles serão o bastante, para decidir se você tem o mesmo sentimento por mim ou não. Minhas mãos tremem ao escrever esta carta e a finalizo com a mesma incerteza de nosso futuro do que quando a iniciei e agora aguardo ansiosamente por sua resposta.

Com amor, Irene Adler

Procurei rapidamente uma cadeira para me sentar, Sherlock estava em Londres, com aquela mulher e Hudson disse não com as mesmas palavras que ele só se sentiu completo duas vezes na vida, uma comigo e a outra com Irene Adler, não sentia algo tão devastador como esta mulher, mas Sherlock despertava o melhor que havia em mim. Abri rapidamente as outras quatro cartas e passei os meus olhos enfatizando trechos como.

Querido — Melhor noite da minha vida — Não há nada igual ao nosso romance — Irene Adler...

Desci até o primeiro andar e Jennifer não estava mais lá nunca havia feito aquilo, me sentia péssima e abri uma garrafa de vinho e bebi no gargalo mesmo, era a primeira das muitas que beberia naquele dia.

Notas finais
Queridos leitores, deem as boas vindas, a Moriarty!