A Marquesa
11 Jogo de Máscaras

om certeza estava em um dos livros de ficção policial de Edgar Allan Poe ! Assim que descobrimos que o próximo destino de M era Lambeth foi elaborado um engenhoso plano para pegarmos nosso serial Killer de uma vez por todas e dar fim em seu plano diabólico. Durante o dia policiais disfarçados pediram para que toda a população ficasse em casa durante o anoitecer, sem divulgar em jornais, para não causar alarde. Em cada esquina tinha uma carruagem da polícia e tudo era tão tenso que parecia que algo iria explodir.
Sherlock roía as unhas, um hábito que não havia percebido nele, estávamos em pé um ao lado do outro encostado na parede da lateral de um prédio, já estava escurecendo e à hora decisiva se aproximando.
— Queria que este crime fosse como os outros – disse Sherlock – que eu e você resolvêssemos ele analisando papéis no sobrado e encontrando pistas, não gostaria que ele tomasse a extremidade que tomou.
Não poderíamos ficar ali parados esperando a polícia resolver tudo, M tinha sempre um horário padrão para começar a cometer seus crimes e este horário estava se aproximando.
Como se o fim do mundo estivesse para começar, um silêncio tenebroso percorreu as ruas de Lambeth e os policiais olhavam de um lado para o outro abaixados e escondidos em vários lugares, alertando a todos um sino começou a tocar e ficamos alertas, eu, Marcus e Sherlock nos entreolhamos e não pensamos duas vezes para iniciar nossa corrida.
O orfanato de Lambeth era o local que foi disparado o sino e também o lugar de mais fácil acesso em toda a cidade, policiais sem armas e uniformes aparentes começaram a rondar o estabelecimento, me surpreendi quando me virei e Sherlock me estendia uma arma colt 1860 que o departamento adquiriu há pouco tempo.
— Sherlock, não sei utilizá-la. – Disse pegando a arma mesmo assim.
— Não quero deixá-la fora dessa, Watson. – Falou ele rindo.
Apoiei minha perna direita no degrau da carruagem, levantei meu vestido e coloquei a arma na liga da meia – calça, Sherlock e Marcus tentaram disfarçar seu interesse quando levantei o olhar.
Atravessamos a rua parecendo os três mosqueteiros da rainha, eu devia mesmo ser uma psicopata, pois mesmo com todo o problema estava gostando da adrenalina da situação.
O orfanato possuía três andares e então tivemos que nós dividir, eles ficaram com os primeiros e eu com o último e assim que fiquei sozinha a situação não pareceu tão emocionante quanto era há alguns instantes. Caminhei e abri a primeira porta me deparei com várias crianças abraçadas e encolhidas em baixo de suas camas o olhar com terror que causou uma pontada de sofrimento em meu coração, levei meu dedo indicador nos lábios em sinal de silêncio e fechei levemente a porta. Os primeiros quartos estavam cheios, mas os outros vazios e sem móvel algum. Estava a alguns metros do final do corredor que levava a uma saída de emergência quando alguns passos me chamaram a atenção, encostei-me na parede mesmo sem nada para me esconder e peguei minha arma, uma freira saíra de uma sala, porém o andar dela me chamou atenção, um rebolado diferente e na sua mão direita um objeto... Era um pacotinho que reconheci muito bem por ser igual ao que Peter me deu na universidade, como a mulher não tinha notado minha presença, ela caminhava normalmente o que me deu tempo para me preparar.
Nunca havia tocado em uma arma e se tivesse a oportunidade não tocaria mesmo, mas agora era uma única chance e estava segura do que fazer. Não podia feri-la ela tinha que explicar muita coisa na delegacia, então notei um ferro de lamparina em altura mais baixa que iria ferir sua mão e alertar os policiais com o disparo, alinhei a arma e atirei, fazendo M desviar para o lado machucando sua mão no ferro, mas quando se virou impossibilitando de ver seu rosto pensei em ter visto aquela mecha de cabelo em algum lugar depois ela correu seguindo o caminho da saída de emergência. Tudo isso aconteceu em milésimos de segundos.
Caminhei para a sala que aquela mulher saiu e ouvi um grito desesperado de Sherlock chamando por mim, sua voz estava agoniada a um ponto que nunca ouvi. Empurrei a porta que estava entreaberta e a túnica branca da madre superiora estava mergulhada em sangue que saía de sua boca, numa folha encima da mesa em que o corpo estava apoiado à clássica letra M estava escrita aumentando a fúria pelo meu fracasso.
— E M ataca novamente. – Disse eu quando ouvi Sherlock e Marcus chegando à cena do crime.
Ainda naquela noite não houve nenhum outro assassinato e tentei ler um pouco para me distrair, uma tentativa falha por sinal, só pensava naquela mecha de cabelo que parecia tão reconhecível. A assassina conseguiu se safar dos policiais da área da saída de emergência ela era dotada de conhecimento de artes marciais também. Levantei e fui tomar um chá para pelo menos tentar dormir, fui ao banheiro daquele corredor que estava ocupado, provavelmente Irene estava ali, passei por ele e a porta não estava totalmente fechada, pelo espelho, ela tentava limpar um ferimento na mão direita (ou era minha mente pregando peças ou a realidade estava ali para todos verem) o machucado era do mesmo tamanho que notei na assassina, continuei descendo as escadas para não levantar suspeita.
Sherlock estava na cozinha e eles iriam jantar ou algo assim, estava tão transtornada que nem dei atenção aos seus comprimentos.
— Está muito calada, Joan. – Disse ele.
Droga! Sherlock sempre descobre algo diferente, porém não vê que está correndo perigo.
— Se quiser jantar conosco fique a vontade. Watson, o que está acontecendo com você? Está agindo estranho.
— Não se preocupe. — Falei ríspida.
— Olá Joan. – Escutei a voz estridente de Irene Adler – Não quer provar do vinho que eu trouxe é da Itália de uma adega antiga que encontrei lá.
Irene servia duas taças de vinho, seu machucado estava coberto por um vestido de manga comprida por isso não dava para ver e quando a mesma me olhou de soslaio tinha certeza de que ela era M, neste instante Sherlock levava a taça aos lábios e tudo que fiz foi tomar o objeto da mão dele e arremessá-lo com toda força no chão.
— Watson, por que fez isso? – Perguntou Sherlock espantado.
— Desculpe, estou cansada. Perdoe-me atrapalhar o jantar de vocês. – Falei dirigindo um olhar sarcástico para Irene.
— Minha presença não é bem- vinda aqui. – Ela se foi e Sherlock atrás dela.
Esvaziei o vinho jogando-o fora e subi para o meu quarto que teria a confirmação de minhas suspeitas, um bilhete que trazia a seguinte mensagem:
“No final, você não se lembrará das ações dos seus inimigos, mas sim do silêncio dos seus amigos."
Irene Adler ou M declarava abertamente uma guerra contra mim.
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