A Marquesa

19 05 Motivos para Matar


noite estava impregnada com um estado onírico, eu via algo místico em todo o anoitecer; sentir que as pessoas a sua volta estão protegidas em suas camas dava-me uma pequena satisfação. Não era muito tarde, mas as chamas das casas nas ruas que passamos já estavam apagadas.

Em contraste, a Village House possuía um ar imponente e a luminosidade estava presente nos quatros cantos daquela bela mansão. Ficava bem próximo a Casa Watson´s e me lembro de brincar com Oren no lago que ficava ao fundo da residência. Max Morstan me esperava na porta principal vestido com trajes de gala e em um rápido momento estava frente a frente a ele.

— Tinha certeza absoluta que era um jantar informal. – Falei franzindo levemente a testa fazendo graça.

— Por favor, me acompanhe senhorita. – Ele estendeu o braço para me levar até a sala de jantar que estava impecavelmente decorada.

No centro da mesa, um belo buquê de flores erguia-se majestoso, nunca tinha visto aquelas flores e já estive em inúmeros jardins.

— O que são estas flores? – Disse eu indicando.

— São peônias. – Max pegou uma e colocou em minhas mãos – Na China é considerada como símbolo de riqueza, de boa fortuna e de prosperidade. Já no Japão, simboliza sorte e atitude masculina. Tentei cultivá-las aqui, mas precisa de pleno sol algo que é praticamente impossível em Londres.

Pedi para que ele contasse mais sobre o seu trabalho e ele relatou as viagens que tinha feito, seu amor por flores e os planos que tinha para o futuro. Foi gratificante ficar apenas ouvindo, pois quando eu abria a boca sempre saiam expressões como: “Igual a Sherlock...”, “ Me lembra do dia que Sherlock...” e eu não gostaria de soar como uma ópera com músicas repetidas.

— O lugar que mais amo é os Estados Unidos da América, você gostaria de ver como as pessoas são mais tolerantes e como é um país livre e propenso a mudanças. Estou partindo para lá, logo após a solução deste caso. – Continuou ele.

Concluí que a conversa com Max Morstan era fluída e eu não precisava medir as palavras quando estava junto a ele. O jantar estava sendo agradável, fora o enjoo repentino que senti do peixe, estava tarde e tivemos que nos despedir.

Dizem que levamos 7 minutos para dormir, e que nos primeiros seis minutos e cinquenta e nove segundos, nossa cabeça automaticamente reproduz todos e cada um dos momentos vividos ao longo do dia. E que no último segundo, aparece à pessoa que tenha te feito feliz naquele dia. Finalmente, o cérebro permanece com o mais importante, com o que mais você tenha gostado e transmite em forma de sonhos. Naquela noite dormi com a imagem de Max Morstan e de Sherlock Holmes.

Despertei cedo no outro dia e Sherlock e Kitty já estavam acordados, após o café, Kitty me surpreendeu ao entrar no quarto e trancar a porta.

— Quero que você não tire conclusões precipitadas sobre aqueles papéis. – Informou ela diretamente.

— Se por “conclusões precipitadas” você queria dizer se revelei para alguém, fique despreocupada, ninguém sabe e creio que é desnecessário as pessoas saberem, é pessoal e seu.

Ela molhou os lábios e descobri que era uma mania. Estava mais bonita e seu cabelo ruivo possuía um brilho inigualável.

— Sei que deve estar se perguntando – Continuei – o porquê de eu e Sherlock te ajudarmos mesmo não sabendo quem você é, mas confie em nós, vamos ajudá-la.

— Obrigada. – Disse ela e foi embora.

Capitão Gregson nos aguardava em sua sala, o policial que encontrara o recibo estava em outra mesa, provavelmente fora promovido, o que me satisfez, pois era sinal que tinha descoberto alguma coisa.

— Bom Dia, Watson e Holmes. – Saudou ele estranhando a presença de Kitty – O papel encontrado ontem era um recibo da Real Ferro e Aço, Marcus e o policial Forks descobriram através da logomarca. Estamos nos encaminhando para lá daqui a pouco.

— Capitão – Falou Kitty nos surpreendendo – sou Kitty Winter e se puder me dar o prazer de ajudá-lo na investigação, seria ótimo, posso reconhecer os rostos ou qualquer coisa que necessitarem.

— Seja bem-vinda a equipe Kitty Winter, precisaremos sim da sua ajuda.

A Real Ferro e Aço era um enorme galpão com funcionários por toda a parte, o barulho era ensurdecedor e os trabalhadores estavam sem proteção nos ouvidos. O dono nos encaminhou para o cubículo bagunçado e Kitty balançava negativamente a cabeça, dando sinal que não o reconhecia.

— Por acaso conhece Del Gruner? – Perguntou Marcus Bell.

— O nome não me é familiar, não conheço este cavalheiro. – O chefe forçou a testa de tal modo que suas sobrancelhas formaram uma linha única.

— Com licença. – Disse Sherlock – O espaço está muito apertado para nós quatro, eu e Kitty aguardaremos lá fora.

Assim que os dois saíram continuei:

— Encontramos este papel com o nome da sua empresa em um prostíbulo, se o senhor não sabe quem é Del Gruner algum de seus funcionários saberão.

A sala se transformou em um vai e vem de pessoas constantes, eu e Marcus perguntávamos para os funcionários se conheciam Gruner enquanto o patrão deles estava sentado em outra cadeira, visivelmente desconfortável, fiquei chocada com a tentativa de jogar a culpa em seus funcionários. A cada “não” eu dirigia olhares de soslaio para ele.

Parecia que horas e horas se passaram até eu ouvir Sherlock gritando pelo corredor.

— Saiam da frente, saiam, abram espaço! – Entrou no recinto como uma tempestade fazendo todos nos se levantarem – Acabou o espetáculo, o senhor conhece sim Del Gruner, encontramos isso no lixo e não me vá dizer que não sabia que um dos seus clientes utilizava isso em mulheres indefesas.

Kitty carregava o objeto com repúdio, era o ferro utilizado para marcar as costas das mulheres, parecia um modelo semelhante ao original.

— Acompanhe-nos a Scotland Hard, senhor Horst. – Finalizou Marcus.

Mais tarde descobrimos que o Sr. Horst não só tinha ligação com Gruner como utilizava algumas das mulheres como brinquedo para seus funcionários mais competentes. Disse que devia retribuir a eles o trabalho e fez o ferro para Del como parte da negociação. O Sr. Horst foi preso e sua pena foi reduzida relativamente, pois nos deu pistas sobre onde Gruner poderia estar e rapidamente nos dirigimos àqueles lugares.

Arthur Morstan chegou com sua equipe e nos dividimos, eu esperava que encontrássemos Del e fizéssemos ele pagar por tudo que fez. Chegamos a uma hospedagem próxima a Tower Bridge e vimos que a reserva de Del Gruner fora cancelada no dia anterior, mas não perdemos a oportunidade de vasculhar cada canto do quarto onde estivera mesmo sem encontrar algo valioso.

Este mesmo azar não estava presente na outra equipe. Quando chegamos ao departamento policial Arthur Morstan nos informou uma possível pista.

— Fomos até ao lugar que Del Gruner utilizava para suas reuniões, uma minúscula sala na periferia de Londres, e encontramos um bilhete de um cocheiro informando uma dívida pelos 65 quilômetros rodados na noite anterior, calcularmos o lugar que daria 65 quilômetros a partir dali e descobrimos um endereço, Rodovia 49, desativada há doze anos.

Deixamos nossa investigação para o dia seguinte, Del não tinha para onde fugir, pois uma viatura foi mandada para a única saída que a rodovia possuía.

Em Baker Street todos pareciam exaustos e logo fomos dormir esperando que o dia seguinte fosse o desfecho para todo aquele caso. Sentindo-me mal, desci até a cozinha e em cima da mesa havia algo estarrecedor.

05 Motivos para matar Del Gruner:

Por acabar com a esperança que eu tinha do futuro.

Por fazer eu e 33 mulheres passarem por inúmeras humilhações.

Por me lançar em um mar de sofrimento.

Por me afastar da minha família.

E por último, por ele ser um assassino, manipulador e agressivo por não deixar marcas apenas no meu corpo, mas, sobretudo, na minha alma.

Quando encontrarem esta carta provavelmente eu já terei matado Del Gruner. Peço desculpas antecipadamente, vocês não teem culpa se eu me tornei um monstro.

Agradeço por tudo,

Kitty Winter.

Notas finais
Algumas informações: — As casas que eram alugadas no século XIX não possuíam a nomeação com o sobrenome da família. Ou seja, Village House era uma casa alugada para Arthur e Max Morstan e desta forma, não possuía o sobrenome deles, por não ser um patrimônio particular. — As peônias só são cultivadas na Ásia e no oeste da América do Norte, por isso Watson afirma nunca ter visto uma flor daquela antes. — A Tower Bridge é um ponto turístico de Londres e Sir Arthur Conan Dyle já o colocou em alguns de seus contos, este atrativo também aparece em 007, O Retorno da Múmia, O Diário de Bridget Jones, O Mudo não é o bastante e claro, Sherlock Holmes, onde situações inusitadas acontecem no local. Muito Obrigada a Ana Oliveira pela recomendação e por todo o apoio através das capas. Amei cada palavra *-* Sem mais delongas, agradeço a todos que acompanham!