A Maldição do Cisne
7 Partida
Bastien observou Maríade levantar abruptamente de seu assento e sair do auditório. Apesar de saber que a ruiva era imprevisível, não pôde deixar de sentir certa decepção, por um momento. Ignorando o enorme burburinho que preencheu o espaço, seguiu Mar até o estacionamento. Quando notou que não a alcançaria, correu, segurando-a pelo braço.
— Mar! O que houve? Não gostou da apresentação? – Sorriu.
Mar ainda estava de costas para ele, parada, com a cabeça baixa, parecia tremer. Bastien notou a textura de sua pele nua ficar cada vez mais áspera e se assustou, mas não soltou seu aperto.
— O que você fez?! – Maríade parecia transtornada, ele não entendia de onde vinha essa raiva que emanava de sua voz.
— Uma apresentação inspirada em você. – Apesar da surpresa, tentou ser racional, em meio à descompostura dela. – Você me inspira. As coisas que vivemos me inspira.
Subitamente, Maríade virou para ele e Bastien deu um passo para trás, em choque.
Seus olhos naturalmente negros tinham se tornado de um vermelho vivo, o vermelho que ele se convenceu de que havia apenas imaginado antes. Seu rosto fora tomado pelo que parecia uma penugem tão negra e brilhante que o desestabilizou.
— O que você fez! Arruinou nossas vidas! Tudo por um capricho idiota? Você queria tanto assim me conquistar?! Você arruinou tudo! Tudo!— Maríade berrava, insana, tomada por uma emoção que Bastien jamais presenciou em ninguém. Nem parecia perceber que sua aparência já não era a mesma.
Ele arregalou os olhos, ainda preso na visão surreal de sua face inumana. A mágoa em seu tom não podia ser mais clara.
— Capricho? Arruinei? Arruinei o que?! Você acha que perdi meu tempo mostrando que me importava com você por capricho? Sua estúpida, menininha arrogante e rancorosa! – Bastien agora gritava verdades em sua cara, Já insensível à face estranha que o encarava. – Eu podia ter escolhido Hellina, ela teria me dado valor! A verdade é que morre de inveja da sua prima, mas não suporta que os outros gostem de você, porque se odeia também! Se não quer o meu amor, que vá para o inferno, sua ingrata. Desgraçada!
— AMOR? – berrou Mar. Seus olhos vermelhos pareciam molhados, mas naquele momento ele não dava a mínima. – O que sabe sobre amor?!
Bastien a encarou por longos segundos, uma eternidade, quase, e finalmente decidiu que cansou de tentar, ferido pelas palavras e pela situação. Ele havia feito de tudo. Achou sinceramente que havia tocado seu coração, mas todos os outros estavam certos. Maríade era de pedra. Uma puta sem sentimentos. Nenhum dos momentos entre eles haviam sido real.
— Aparentemente nada – respondeu seco. Estava esgotado.
— Ah, e, claro – Mar continuou, usando seu tom mais debochado. –, a Hell teria te dado valor...? ENTÃO VÁ VOCÊ E ELA PARA O INFERNO! NÃO PRECISO DE VOCÊS. NÃO PRECISO DO AMOR QUE PREZAM TANTO.
Bastien lançou-lhe um olhar de desprezo.
— Já vi que não.
E se foi, sem olhar para trás, sem reparar que a única espectadora, apesar das acusações em altas vozes que trocaram, era Imogen, a bruxa de Pardais.
...
Nora estava apreensiva em casa. Graças as notícias que Hellina repassava, estava por dentro dos acontecimentos. Embora não tivesse um relacionamento próximo da filha, conhecia Maríade, e podia jurar que ela estava sofrendo. O aperto em seu peito confirmava sem dúvidas que algo estava errado. Tanto, que suas coisas já haviam sido empacotadas, os móveis estavam sendo retirados, e ela esperava.
Maríade entrou em casa subitamente, o rosto branco, os olhos, porém, vermelhos e muito marejados. Mar era a cara do desespero, parecia perdida. As lágrimas não tardaram a cair, manchando o rosto bonito, que um dia foi coberto de arrogância e soberba. Nora entendeu de primeira, seu coração se encheu de tristeza pela filha, pela situação.
E, então, Mar gritou. Liberou o emaranhado de sentimentos que a corroíam, partindo ainda mais sua mãe, que nada podia fazer. Que, por saber que o que a filha mais almejava era sua vida humana de volta, concordou em ajudar Hell. Jamais imaginaria que o menino Sens seria tão determinado, e, pior, que conquistaria Mar a ponto de despedaçá-la dessa forma. O mundo era realmente cruel.
Quando Mar caiu ajoelhada no meio da sala vazia, cobrindo o rosto e abafando os soluços altos, Eleanora lentamente se aproximou e se abaixou ao lado dela, abraçando a filha, dando todo o apoio que nunca fora capaz. Havia errado, conseguia enxergar que, em sua tentativa de evitar que a filha cometesse os mesmos erros, a incitara a fazer pior. Falhara como mãe. E por muito tempo achou não ter conserto.
Mesmo depois do que pareceu um longo tempo, as duas continuaram ali, no chão. Em algum momento, Maríade aceitou o abraço e apoiou a cabeça no ombro da mãe, até que se acalmasse. Nora não pôde deixar de se sentir feliz e agradecer silenciosamente Bastien. Se não fosse por ele, não teria jamais a chance de abraçar e ser abraçada por ela. Era um pensamento mesquinho, que mãe gostava de ver sua filha assim? Mas, afinal, Eleanora era ou não um Cisne Sombrio?
De repente, bateram na porta. Nora pensou que se fosse Hellina, teria que pedir para que ela fosse embora, mas era uma visita ainda mais desagradável. Imogen. A bruxa claramente viera para tripudiar em Maríade, e por mais que quisesse impedir e apagar o sorriso horroroso que estava estampado no rosto sardento da adolescente, não podia.
Mãe e filha, após se recomporem um pouco, se puseram em frente à porta. As duas com uma postura de ferro, como quem espera uma sentença já silenciosamente anunciada. Imogen falou, olhando diretamente para Mar:
— Não gosto de rodeios. Você e sua mãe estão banidas eternamente de Pardais. Não podem pisar nas fronteiras sem serem bombardeadas por mil feitiços. Se quebrarem essa regra, serão amaldiçoadas novamente. – A bruxa não desviou os olhos de Mar; fez uma pausa. Nora quis arrancar sua cabeça. – Apesar de minha promessa, Maríade, não vou te amaldiçoar agora, em consideração ao seu sofrimento. – A zombaria era clara, mas não causou nenhuma reação externa nos dois Cisnes Sombrios. – No entanto, vocês têm 48 horas para partirem. Adeus.
Eleanora apertou os punhos. Sua expressão era de pedra, mas por dentro estava queimando. Olhou para Mar e viu a mesma feição. Partiriam dentro das 36 horas. Seria melhor assim, para as duas.
...
Mar olhou de cima da árvore em que estava empoleirada em forma de Cisne o casal fazendo o piquenique. Depois da partida da bruxa, ela se trancara em seu quarto por um dia inteiro, contemplando o teto, as paredes velhas. Refletindo sobre o que fazer. Queria falar com Bastien, mas não se sentia no direito. Porém, após o pôr-do-sol do dia seguinte, não resistiu. Ignorou a transformação e voou ao encontro dele, apenas para encontrar aquela cena. Seus olhos vermelhos que pareciam sempre tão frios e maldosos ardiam, tal era sua vontade de chorar.
Finalmente Bastien havia desistido dela e dado uma chance a Hellina. Embora quisesse esbravejar e colocar a culpa na prima e até mesmo nele, sabia que não poderia. Pela primeira vez assumiu a culpa pelo rumo do próprio destino. Bastien havia feito ela sorrir, havia feito Mar desejar o amor e os braços acolhedores de um homem. Dele. No entanto, por mais que ele tenha lhe proporcionado os melhores e mais memoráveis momentos de sua vida, ela o desprezou. Fê-lo correr para os braços de Hellina.
Como comparar o fim da maldição, a humanidade tão desejada anteriormente, com aquilo? Qualquer alegria que pensou ter com isso desvaneceu na dor de saber que humilhara e afastara o único que havia lutado por ela e, mais do que isso, inesperadamente ganhado seu coração.
Maríade soltou sem querer um pio longo e sofrido. Não conseguia derramar mais lágrimas, mas cantou seu amor perdido, finalmente compreendendo o sentimento da prima, a desesperança e vazio infinito. Sem querer presenciar algo que pulverizaria seu coração já despedaçado, o Cisne voou para casa.
...
Bastien mirava o horizonte sem nada ver. Estava no maldito piquenique com Hellina, mas não tirava os pensamentos de Maríade. Ela o havia humilhado após tudo que ele fez por ela. Todas as declarações. O que havia dado errado? Bastien sabia que Mar estava tocada, ela havia correspondido seus sentimentos, ele tinha certeza. Viu algo brilhar em seus olhos geralmente cheios de fantasmas e chegou a achar que sua última ação tinha sido o passe final para sua alma torturada. Estava errado. No entanto, ainda assim não pôde deixar para lá como gostaria e logo se viu perguntando a Hell:
— E Maríade, como está? – Seu tom de voz era despretensioso.
— Oh – exclamou Hell, surpresa pela pergunta totalmente fora de contexto. – Bem, eu acho. Ti- digo, prima Nora, a irmã dela, disse que ela ficou trancada no quarto desde ontem e não quis falar com ninguém. Mas Mar dificilmente se abala, ela é muito forte. Talvez esteja apenas trabalhando em alguma escultura nova.
Bastien deu de ombros, mas intimamente divagou sobre a informação. Estaria ela mal pelo que havia feito? Ligeiramente abalada, que fosse? Ele quis acreditar que sim, mas sua confiança nela havia sido seriamente danificada.
— Você não tem família, Hellina? – perguntou abruptamente.
Hell sorriu, com as maçãs do rosto vermelhas.
— Na verdade, apenas Mar e Eleanora mesmo. Você já conhece minha prima, mas vai adorar Nora!
Bastien conteve a vontade de revirar os olhos. Hellina estava tão animada com a chance recebida – chance que Mar havia tido de sobra e jogou fora, com direito à cuspida.
— Imagino que sim – respondeu. – Podemos marcar um jantar.
Quis se estapear por dizer tal asneira. Se sentiu culpado por usar a garota para se aproximar de Mar mais uma vez. Idiota. A ruiva não o queria, e ele precisava entender. A humilhação havia sido demais.
— Acho que não é uma boa ideia – Hell parecia encabulada por dizer aquilo. Bastien ficou intrigado.
— Por que não?
— Ah, elas não gostam de jantar.
O francês ficou calado, mas sua mente continuava trabalhando. Ele havia reparado que Maríade nunca saía à noite. Nunca. Seria por causa dos olhos vermelhos e das penas negras que imaginou que cobriam seu rosto? Ela estava sempre agindo estranho, como também sua prima. Bem, era melhor esquecer aquilo. Imaginação ou não, eles não eram nada, nem seriam. Ele não teria porque se preocupar.
— Mas podemos jantar só nós dois – sugeriu Hellina timidamente, um corar gracioso tingindo sua face.
Bastien comprimiu os lábios, desgostoso. Como era possível que ela ainda tentasse? Ele sabia que aquilo estava longe de ser um sentimento profundo e honorável, como o amor. Desejando que fosse a última vez, começou:
— Hellina, escuta, eu não estou interessado em você. E você sabe disso, não é burra, apesar do que sua prima acha. Eu te vejo correndo atrás de mim e observo seus olhos procurarem por um sinal, por um homem que não existe. Odeio isso, e não sei porque foi justamente em mim que resolveu procurar esse... homem dos seus sonhos. – Ele fez uma pausa para deixar suas palavras penetrarem a mulher, que tinha lágrimas nos olhos; lágrimas de derrota. – Eu não conheço o segredo de vocês, mas imagino que seja algo bem sério para fazê-la correr atrás de um cara como eu. Uma mulher romântica e cheia de sonhos "apaixonada" à primeira vista por mim, por favor, né.
Ele balançou a cabeça chateado ao ver ela negar apenas por reflexo e continuou:
— Não quero te magoar, mas isso nunca vai acontecer. Então por favor, por favor, pare de tentar. Pare de me perseguir. Não vai levar a nada, só vai te ferir. Eu aceitei esse encontro apenas porque estava furioso com Maríade, mas foi um erro. Desculpe.
Dito isso, levantou-se, porém as palavras de Hell o impediram de fazer seu caminho.
— Mar vai embora. Amanhã.
Bastien ficou sem reação. Quando se recuperou, apenas disse:
— Bem, Mar deixou bem claro que eu não tinha nada a ver com a vida dela; mas obrigado por avisar.
E partiu.
...
Era manhã já e Bastien ainda não havia dormido, pensando na partida de Maríade. Era ridículo sentir-se assim, porém ele não podia evitar. Aquela maldita ruiva estava entranhada nele.
Não fizera nada o dia todo, passeando pela casa, pensando que nunca mais veria Mar, pois ela estava partindo. Queria mais do que tudo ir atrás e questionar tudo que havia acontecido, queria pedir que ela ficasse, mas já havia sido rechaçado o suficiente, então se contentou em pegar um livro para se distrair, tentar esquecer.
Já era final da tarde. Sua tática de distração não havia funcionado, então, querendo espairecer, Bastien resolveu sair de casa e, quando abriu a porta, se deparou com a dona de seus pensamentos.
O silêncio reinou por alguns instantes.
— Oi – começou ela.
Bastien não respondeu.
— Bem, já que não quer falar, falo eu. É melhor assim. – Ela tomou uma respiração funda. – Estou indo embora. Fui... expulsa pela segunda vez de Pardais. A primeira vez foi há 100 anos. As mulheres da minha família foram amaldiçoadas. Sempre de par. Eu arruinei o romance de Hellina, fiz ela perder um bebê e o amor da vida dela; agora sou forçada a vagar pelos séculos com o peso de minhas ações. Porque estou te contando isso? – perguntou, ao ver a expressão dele. –Primeiro, porque acho que já sabe... ou desconfia. E também porque eu apreciei a atenção que me dedicou todo esse tempo. Apesar de tudo, não fui indiferente a você, quero que saiba disso antes que eu me vá. Sinto muito por ter ferido seus sentimentos. Gostaria que eu pudesse retribuir sem ferrar ainda mais sua vida.
Ela parou seu discurso desenfreado, olhou-o por um tempo, mas quando fez menção de sair, Bastien falou, finalmente:
— Não entendi. Ferrar a minha vida? Mais ainda? Isso é por acaso algum termo dessa maldição? "A amaldiçoada não pode ser feliz". É isso? – Seu tom irônico foi usado para ferir.
Mar parou em seu caminho e olhou para ele. Bastien viu que ela não parecia bem, estava abatida, nem um traço do descontrole de anteriormente, nem da arrogância. Será que estava sendo tão difícil para ela dizer aquilo quanto era para ele ouvir?
— É. Mais ou menos isso.
Bastien balançou a cabeça, cheio de desprezo pela situação. Ela mais uma vez tentou ir embora.
— É só isso? – Novamente a voz de Bastien a impediu de seguir seu caminho. – Com que propósito veio aqui? Fale a verdade.
Ele estava sendo tão rude. Aquilo aparentemente inflamou o gênio dela.
— Quer saber de verdade? – A habitual petulância voltou. – Eu queria te falar que Hell não gosta de você, que está te usando, porque uma parte de mim não liga para as boas intenções dela e quer que você despreze ela como me despreza agora. Eu não suportaria saber que ficaram juntos depois de tudo que passamos. Meus outros motivos foram reais. Se queria saber o motivo desprezível, aí está. – Ela o olhou nos olhos ao dizer cada palavra.
Dessa vez, Maríade saiu andando sem olhar para trás.
— Vai fugir novamente – gritou ele, seguindo-a ao mesmo tempo que quis se estapear por mais uma vez estar correndo atrás.
Mar continuou seguindo a passos largos, mas mesmo assim estava difícil acompanhar. Bastien ficou com raiva e acelerou.
— É sempre assim, né, Maríade! Não liga para ninguém, vem com uma explicação ridícula e sem sentido, tentando me comover. Não vai funcionar! – Era tudo uma provocação, ela havia conseguido irritá-lo outra vez. Maldita!
Ela olhou para trás, contrariada. Logo seu foco mudou para o céu. Estava escurecendo. Mar ficou séria e começou a correr. Ele logo entendeu porque nunca a via depois do anoitecer. Devia fazer parte da tal maldição. Por um lado, ele acreditava na magia, por outro, não sabia se era possível. Mas iria descobrir.
Chegaram à casa dela, ele tentando alcançá-la, ela ainda a fugir.
— Mar! – gritou uma última vez.
— Bastien – falou ela, olhando para ele do meio da sala, que ele havia invadido. Estava tudo vazio, e ele supôs que fosse porque estavam partindo. – Vá embora.
Ele cerrou os dentes.
— Nem fodendo. Não aceito seus motivos nem suas desculpas. Quer me dar de mão beijada para Hellina assim? Se for embora eu vou ficar com ela para sempre. Sei que morre de ciúmes. – Ele respirou fundo, sem fôlego pela corrida. – O que está pensando, sua menina mimada? Acha que pode brincar com quem quiser? Eu não sou seu boneco!
— Não acho que seja meu boneco! – revidou no mesmo tom. – Faça o que quiser, fique com ela! Contei tudo porque achei que merecia saber, se acreditou ou não, não é da minha conta! Não estou pedindo que vá embora, estou exigindo.
Bastien perdeu a paciência e avançou nela, segurando-a pelos ombros, olhando bem fundo nos seus olhos. Última vez, disse a si mesmo.
— Por favor, Mar – sussurrou. – Me diga que o que achei que vi não era mentira. Você disse que retribuía meus sentimentos, mas fugiu. Seus olhos me dizem que gosta de mim, mas você me humilha e vai embora, me deixando para Hell. O que está acontecendo? Me explica. O que é essa maldição. Eu não posso enfrentar o que desconheço. Diga com todas as palavras que me ama, que eu vou lutar.
Mar começou a chorar. O sofrimento era genuíno.
— Eu não posso. Se eu disser, tudo vai ser apagado. Você não vai lembrar de mim, vai ser como se nada tivesse acontecido. Prefiro que se lembre de mim, mesmo que não fiquemos juntos, do que ser ninguém para você e ainda assim não ser sua.
— Vai desistir assim? – Ele estava muito magoado.
Mar pegou seu rosto com as duas mãos.
— Se a escolha fosse minha já tinha te sequestrado, mon amour. Não vou apagar quem é por um capricho, mesmo sendo essa menina mimada. Vá embora.
— Apagar quem sou? Estou cansado dos seus mistérios! – Bastien soltou os braços dela e tirou suas mãos de seu rosto.
— Se ficarmos juntos sua mente vai ser resetada. Vai ser como se eu nunca tivesse existido, você não vai se lembrar de mim, da Hell… vai ser como se nunca tivéssemos nos conhecido. E não posso suportar não ser ninguém para você depois de tudo que fez por mim. — Mar fechou os olhos, pela primeira vez aparentando ter seus 100 anos. Entredentes, concluiu: — Por isso preciso ir embora. Estou partindo hoje.
— Não, sua covarde.
Bastien deu um passo em direção a ela. Mar, então, fez algo inesperado. Ela se moveu tão rápido que ele quase não viu. Logo ela estava saindo pela porta. Ele não deixaria ela fugir novamente. Não!
No pátio traseiro, onde ninguém a não ser quem morava na casa pudesse ver, Maríade se virou para ele de olhos arregalados, as mãos estendidas, pedindo que ele se afastasse. Porém, era tarde demais. O sol havia se posto.
Diante de seus olhos, Bastien assistiu as roupas de Mar lentamente desaparecerem, enquanto sua pele ia escurecendo a partir do pescoço, abraçando os seios fartos e descendo pela barriga. O pescoço se alongou e a transformação que ele vira pela metade agora era certa: os olhos vermelhos, as penas brotando em sua testa e maçãs do rosto. Seus lábios não eram mais rosados, mas, sim, um bico laranja brilhante. Ela era majestosa. A noite era absorvida por suas penas sedosas.
E Bastien se viu mais uma vez apaixonado pela beleza de Maríade.
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