A Maldição do Cisne

8 A MALDIÇÃO DO Cisne


Já havia se passado possivelmente uns cinco minutos. Mar não entendia o que Bastien ainda fazia ali, mas apesar da frieza do anoitecer se sentia aquecida pelo olhar maravilhado em seu rosto.

Lentamente, Bastien foi se aproximando, quase hesitante. Suas mãos se erguendo, como se quisesse sentir a maciez das penas entre seus dedos. Mar deu dois passos para trás, incapaz de falar e temendo que o som de seu cisne o assustasse a ponto de fazê-lo correr. Apesar da incerteza do momento, ela queria que o encantamento que ele demonstrava ao olhar para sua forma amaldiçoada, que ela antes tanto abominava, fosse mais do que apenas momentâneo.

— Mar... – Ele deu um passo à frente, ao vê-la se afastando. Sua voz não passava de um sussurro. – Você está tão linda...

Mar piscou, seu coração acelerado, e deixou-o se aproximar, o que ele fez com prazer. Sem pressa, Bastien diminuiu o espaço entre eles e passou a mão primeiro pela cabeça, olhando fundo em seus olhos, parecendo apreciar a textura das penas e os brilhantes olhos de sangue, para sua surpresa.

Suas mãos desceram pelo pescoço, seu olhar seguindo o caminho de seus dedos. Bastien riu baixo, ainda acariciando.

— Engraçado... essa forma combina tanto com você. – Mar piscou, maravilhada com a confissão inesperada. – Majestosa; poderosa e sombria.

Mar baixou sua cabeça, roçando no pescoço e rosto de Bastien, como quem pede carinho, dizendo com as palavras que naquele momento não poderia pronunciar, que sua aceitação havia feito ela feliz, realizada.

Os dois caminharam calmamente até a borda do gramado, Bastien não soltando as penas de seu longo pescoço mesmo durante o curto trajeto. Eles se sentaram lado a lado, o silêncio já parecendo natural e certo.

E até o amanhecer, ficaram ali, se tocando. Se olhando.

Então Mar descobriu que aquele seria seu Felizes para Sempre.

...

Hell caminhou pelas ruas da cidade, ignorando tudo à volta. Sua cabeça fervilhando com lembranças de um passado distante e outro recente, onde mesclava felicidade plena e desespero. E desesperança. E tristeza.

Ela sempre tentou compreender e perdoar sua prima. Pobre Mar. Não teve pai, e sua mãe, embora tenha sido muito boa para Hell, era rígida com a própria filha, tentando prevenir erros que talvez fossem inevitáveis. Mar cresceu se sentindo preterida por isso.

Hellina andou e andou até parar ao lado da casa que Bastien ocupava, em frente àquela que um dia fora dela e de Julien, o grande amor de sua vida. Era enorme, espaçosa, pois queriam muitos filhos. A fachada branca era elegante e romântica. A casa era um sonho de um casal apaixonado que o destino separou.

Não havia mais lágrimas para derramar, mas a tristeza, antes esmagadora, agora era apenas infinita. Para ser sincera, Hell estava feliz pela prima, por poder ter sentido o amor de um homem, mesmo com um coração tão amargurado. Ela mesma tentou e tentou se apaixonar, tentou encontrar qualquer coisa em Bastien que remetesse ao seu amado, mas sentia que estava destinada à solidão após o abandono de Julien.

Ela se aproximou da entrada e sentou-se nas escadas que levavam à porta, pensando no que teve. Na horrível noite que fora obrigada a encarar os olhos do homem da sua vida e encontrar a indiferença, o olhar de um desconhecido. A vida perfeita que teve. A aprovação dos Sens, a paixão desenfreada que os levou a fazer um bebê que seria amado e mimado antes do casamento. A cegueira para tudo ao redor, por estar tão radiante com sua vida cor de rosa.

Havia uma certa culpa em Hellina ao pensar nessa época. Enquanto ela alcançava seus objetivos, Mar descia ladeira abaixo, sendo a solteirona, a chacota da cidade. Desprezada, mesmo tendo um talento incrível para fazer e apreciar coisas bonitas. Sua própria mãe concentrada na vida de Hell. Se ela tivesse sido mais complacente, se tivesse sido menos egoísta, talvez Maríade tivesse compartilhado sua felicidade e tudo aquilo não teria acontecido. Talvez elas estivessem mortas e naquele instante só existissem seus netos e bisnetos, a viver também em seus mundos perfeitos, com futuros brilhantes.

Mas não.

A realidade era muito diferente.

Uma realidade onde Hell não tinha nada para amar. Onde Maríade não tinha liberdade para ser feliz com um homem que a havia escolhido e onde mãe filha eram tão distantes quanto duas montanhas. Um soluço seco escapou por seus lábios.

— Olá, meu nome é Julien Sens. Quem seria a bela senhorita? – O homem mais lindo do mundo abordou a jovem distraída com as flores de primavera. Seus cabelos loiros cor de ouro brilhavam ao sol e seu sorriso poderia cegá-la, de tão branco.

Foram pouquíssimas palavras, e ela fora conquistada.

— Mãe, pai, essa é Hellina, minha Lin. A mulher com quem pretendo me casar e ser feliz para o resto da vida.

O dia em que ele havia apresentado ela a seus pais... até aquele momento, passados muitos anos, seu coração ainda acelerava. Hell estava com medo de sua sogra não gostar dela, de que houvesse alguém para atrapalhar aquele amor intenso e juvenil.

— Prima Nora, Mar, esse é Julien! – falou radiante.

Eleanora sorriu para a alegria de Hellina e cutucou Maríade, que fazia questão de ignorar a presença deles. Ao ser cutucada, ela apenas olhou com desprezo para o casal e acenou, voltando sua atenção para a pequena escultura em suas mãos.

Aquele poderia ter sido o prelúdio para o fim.

— E você, Maríade, não pretende se casar? Nunca ouvimos falar de suas habilidades em costura ou dança, ou quão bom é seu trabalho doméstico, para te indicar a um dos homens da família – comentou a mãe de Julien.

Mar riu debochadamente.

— Eu não nasci para ser empregada de nenhum idiota. A senhora pode engolir suas indicações. Não preciso de ninguém.

Todos a olharam horrorizados, inclusive Hell. Ela realmente falara aquilo? No dia, Hellina sentiu raiva, pois sua resposta poderia convencer Elaine, sua sogra, de que sua família não estava à altura dos Sens. Tempos depois, seu coração doía por sua prima ter se sentido eternamente inadequada.

— Não seja uma invejosa, Maríade! – gritou Nora, cheia de raiva. Seu rosto tomado por penas azuis escuras como o céu noturno. – Sua prima irá se casar e você será madrinha! Irá sorrir, comprar um presente! Ela tem um homem que a ama por que não é desprezível como você! Aprenda com ela a ser uma mulher de verdade.

Nunca antes ou mesmo depois o Cisne Branco viu tanta mágoa e dor em Mar como naquele dia. Foram as palavras ditas e a pessoa que havia dito que abriram um rasgo do tamanho do mundo em Mar. As lágrimas encheram os olhos pretos dela, e logo a revolta tomou o lugar. Mar direcionou todo seu ódio para Hell, que assistia à cena. Antes ela estava feliz que sua tia estava ali por ela, pedindo que sua filha não fosse egoísta e que a apoiasse; mas percebeu seu erro ao sentir em seus ossos quão ferida sua prima ficara.

Hell olhou para o vestido jogado em sua cama. Ela não podia acreditar que aquilo estava acontecendo faltando apenas duas semanas para seu casamento. Grávida! Para ser honesta, ela estava mais do que radiante, pois ela e Julien planejavam ter, pelo menos, oito filhos e ali estava o primeiro.

Mas o que os outros diriam? Sua sogra certamente não aprovaria, era muito correta em relação as tradições. Bom, enquanto mantivesse em segredo, tudo estaria bem. Duas semanas não fariam seu bebê tão evidente em seu ventre.

Ela pegou o lindo vestido de noiva e bailou, em estado de êxtase pelo quarto. Passado o terror inicial da descoberta, tudo estava perfeito. Cada um de seus sonhos estavam se realizando no momento certo. Sua vida de princesa estava apenas começando. E com um príncipe.

Logo após, Maríade entrara no quarto e Hell inocentemente contara sobre sua gravidez e como acreditava que Julien ficaria feliz e como tudo estava maravilhoso, com seu casamento se aproximando e o primeiro filho chegando.

Mar havia apenas acenado, sem expressão. Ela parecia tão vazia quanto uma boneca, mas aquilo não contagiou Hellina, em um estado de espírito alto demais para ser posta para baixo.

Então, dois dias depois, quando Hell foi até a casa que seria dela depois de casada, seu ninho de amor com Julien, onde haviam cedido à paixão e entregado seus corpos um ao outro, Maríade apareceu. Interrompendo a animação do casal à notícia da família que se formaria.

— Nossa, mas que belo casal... felizes com o idiotinha que está para nascer... – Ela andou pelo quarto mobiliado, passando a mão pelas portas ornamentadas e uma cômoda pintada com ouro. Quando ela olhou diretamente para eles, Hell sentiu o coração parar. Era a cara do puro mal. – Olha, que interessante... Vocês querendo um bebê, formando uma família, sendo “felizes para sempre” de verdade... me digam: o que sobra mim?

Os dois não responderam. Julien colocou o corpo de Hellina atrás do seu, fazendo Mar rir. Mas logo sua risada se tornou um berro de fúria. Uma fúria vinda de seu âmago.

— E EU? O QUE SOBRA PARA MIM? OS RESTOS? NÃO! NEM OS RESTOS, TUDO PARA A PERFEITA HELLINA E SEU AMADO JULIEN! VOCÊS TERÃO SUAS VIDAS PERFEITAS E EU VOU FICAR AQUI! SENDO DESPREZADA E HUMILHADA POR TODOS! QUANDO SERÁ A MINHA VEZ DE SER AMADA? NUNCA!

Maríade se jogou contra Julien, arranhando seu rosto, presa em sua espiral de ódio, sem perceber que quando empurrou ele, Hell havia sido jogada contra o criado mudo e caído de barriga no chão. Ela não notou o grito de pavor da prima.

Nem o sangue.

Mar não percebeu a inércia de Julien, os olhos vazios de quem teve uma vida apagada da sua. E saiu correndo para casa, deixando uma mulher caída, chorando, sem entender o que estava acontecendo.

— Julien, mon amour! Me ajude! – suplicou, ainda atirada no chão, assustada com a rapidez com que um momento feliz tornou-se um pesadelo. – Estamos perdendo nosso filho, por favor!

No entanto, ele não ouvia mais.

A memória de sua primeira transformação ainda a assombrava. O sangue ainda manchava suas pernas, mas outro tipo de dor assolava o resto de seu corpo. Uma coceira em seus braços, que estavam cada vez mais cobertos por uma penugem branca. Suas pernas mudando para um tom alaranjado e encurtando. Seu tronco ficado mais pesado, seu rosto alongando, assim como seu pescoço. A tortura dos ossos se adaptando.

Parecia que ela estava envolta em névoa, seu cérebro não aceitava nada do que estava acontecendo. Julien parecia em transe, sentado na cama, olhando para o nada. O coração de Hellina ainda se apertava ao lembrar do olhar horrorizado e das palavras que a feriam até hoje.

— Quem é você? O que é você?

E, depois... bom. Sua tia parecia não mais se importar com o destino dela. Estava mergulhada no pesar, se afogando na miséria da filha e na própria culpa. Por causa de seus erros, sua Maríade não mais aceitava seu conforto, nem nada dela. Mar estava em choque ainda e Hellina queria apenas estar lambendo as próprias feridas.

Muitos e muitos anos depois, Hell ouviu falar da família de Bastien e como ela poderia quebrar a maldição. Ela tentou com tudo que tinha. Mais uma vez ignorou os sentimentos da prima, achando que estaria ajudando, se quebrasse a maldição. Será que Bastien perderia a memória? O destino seria tão cruel com Mar? Tão irônico?

A luz do luar tocou o rosto pálido de Hellina.

Ali ela passou a noite. Cantando, como seu Julien gostava. Chorando pela crueldade do destino.

Chorando as escolhas que fez.