A Maldição do Cisne
1 PRÓLOGO
Mar olhava para o abismo à sua frente com o que só poderia chamar de tédio. Por mais que sentisse falta da cidade onde havia passado boa parte da sua infância, nada havia mudado muito. Todas as lembranças continuavam intactas no fundo de sua mente. Infelizmente. Claro, não poderia esperar que a natureza mudasse grande coisa no curto período de cem anos, mas a decepção era inevitável. As árvores continuavam floridas, o rio ainda seguia seu curso, o chão ainda parecia marrom com todas as folhas mortas que, mesmo àquela distância, ela sabia que estavam ali. Porém, a visão apenas trazia recordações dos momentos solitários.
Cansada da paisagem bonita, porém, para ela, vazia, Maríade levantou-se da beirada do penhasco e se jogou na imensidão, rumo à sua antiga casa. Que – surpresa! – também não havia mudado nada.
...
— Onde estava? – perguntou Eleanora assim que a filha cruzou a porta.
— Por que acha que é da sua conta? – Mar ergueu uma sobrancelha, debochada.
A mulher bufou com a resposta, mas logo sua expressão se tornou sombria.
— Não sei se vai gostar da notícia que tenho para dar. Para falar a verdade, eu mesma estou incomodada com a situação – sua expressão não se alterou.
Maríade estreitou os olhos negros para ela. A relação delas não era das melhores. Depois do "acidente", Mar não aguentava olhar para a cara da própria mãe sem se ressentir, embora, no fundo, sentisse pena. O destino fora cruel com sua família, sem dúvidas.
— Que situação?
Com um suspiro, Eleanora caminhou até o sofá antigo da sala onde se encontravam e sentou.
— Hellina está aqui.
Mar prendeu a respiração. O sangue subiu para a cabeça, o rosto bonito foi coberto por uma plumagem negra como noite e o preto de seus olhos virou vermelho sangue. O vermelho de seu ódio.
— O que ela faz aqui?
— Primeiro, se acalme. Só voltamos com a condição de que você se comportasse. Segundo, não tenho muita certeza. Parece que ela já está aqui há um tempo e está na mesma universidade onde se matriculou.
Mar apagou sua expressão, emputecida demais para falar qualquer coisa, e saiu da sala. Aquela vadia havia mesmo tido a audácia de voltar? Não que pudesse recriminá-la por isso em especial, uma vez que ela mesma havia jurado não voltar, mas já era esperado esse tipo de atitude do Cisne Negro da família. Agora, a pura Hell quebrando sua promessa? Hipócrita.
Já deitada na cama dura e antiga, Maríade começou a divagar sobre os motivos que levaram Hellina a se arriscar a retornar para Pardais, uma pequena cidade da França. Fossem quais fossem os motivos, Mar não gostava disso. Ainda mais se tivesse que ser sua colega, como provavelmente seria, sendo sortuda como era, e, é claro, considerando o número ridículo de alunos que uma faculdade em uma cidadezinha de interior teria.
— Não esqueça que estamos sob regras rígidas, Maríade. – Eleanora invadiu seu quarto, a advertindo.
Levantando uma sobrancelha, Mar a olhou:
— Não entendi.
Com uma expressão rabugenta, a bela mulher retrucou entredentes:
— Não seja cínica. Amanhã você volta a estudar e não há a menor dúvida de que fará da vida dela um inferno, se puder.
— Se tem tanta certeza de que farei – a garota foi sentando lentamente –, porque veio dar esse "aviso"? Ou seria uma ameaça?
— Eu fiquei muito tempo fora por causa da confusão que criou, Maríade. Não quero o exílio definitivo dessa vez.
— Vai tentar me impedir?
Não que Mar estivesse pensando em fazer alguma coisa, mas sua mãe estava certa. Por mais que dissesse a si que não gastaria energia com a doce Hellina, não suportaria sua presença sem tentar castigá-la por seu martírio.
— Não acho que vá fazer diferença eu tentar ou não te impedir. Só seja discreta. Entendeu? Se quiser matá-la, faça. Mas que tudo pareça com um "infeliz acidente".
Maríade revirou os olhos para Eleanora. Ela não estragaria tudo assim, também sentia falta da cidadezinha, embora odiasse as pessoas que moravam nela. Já viveu em cidades grandes, isso a fez valorizar a calmaria e a beleza natural de Pardais mais do que nunca. As pequenas florestas e penhascos que tantas vezes explorou na infância traziam um pouco de paz para sua alma perturbada.
— Pode deixar. Ah! – Mar parou a mãe que já estava saindo – E pode ficar tranquila. A morte é pouco para fazê-la pagar por tudo que nos fez.
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