A Maldição do Cisne

2 Voltando ÀS Origens


Maríade olhava para a fachada da universidade com um ar sarcástico. Não só os prédios continuavam os mesmo, como as pessoas com suas conversas fúteis e a mania de grandeza. Claro, haviam aqueles que estavam quietos, ouvindo uma música ou lendo um livro, mas obviamente eram apontados como antissociais, ou algo assim.

Bufando, ela caminhou em direção ao prédio de sua aula. Estava, de certa forma, entusiasmada com sua “nova vida”. Conseguir completar seu curso de artes plásticas, conhecer pessoas diferentes... Okay, nada de conhecer pessoas diferentes. Mar as considerava desprezíveis. Mesmo os mais quietos.

Por que pensava assim? Talvez por seu passado, por ter sido condenada por um erro que, em sua concepção, não era seu. Apenas havia dado o azar de nascer em uma família amaldiçoada. Se fosse com outro, apostava que não haveria nenhum tipo de punição. Era tão injusto que sua pequena infração tivesse resultado em tanto sofrimento. Muitos desses jovens que agora conversavam alegremente sobre suas férias e com quantos estranhos haviam transado provavelmente cometeram pecados muito piores, e saíram impunes.

Era por isso que Mar não fazia questão de conhecê-los. Olhar para seus rostinhos e saber que uma vida regada a futilidades nunca era o suficiente, a deixava enfurecida. E, como não poderia matá-los nem nada parecido, mantinha o que Eleanora chamava de “distância saudável”.

Vivia uma vida solitária por causa disso. A chamavam de amargurada, ingrata, pois poderia estar morta ou pior – velha. Sim, algumas de suas tias eram tão vaidosas que tinham a cara de pau de dizer que ser eternamente bonita era uma dádiva, não um castigo. Já ouvira até mesmo boatos dizendo que uma delas roubara o homem da irmã apenas para se transformar.

E, mesmo com esse tipo de gente em sua família, ela ainda fora a pior de todas. Suas penas eram negras. Não marrons, cinzas, azuis escuras. Sua podridão, como Eleanora dizia, era a mais profunda. Ela costumava dizer que esse tipo de alma não tinha salvação. Que era fadado a viver como uma sombra, sempre a espreitar a felicidade das pessoas pronta para destrui–la.

Talvez ela estivesse certa. Realmente Mar não suportava a felicidade dos outros. Não era merecida. Ela sempre viveu à sombra dos outros. Sempre a invisível, nunca boa o suficiente. Sempre dando o seu melhor e nunca tendo o reconhecimento. Enquanto Hell cantava ao som do piano, Mar calejava as mãos no mármore, fazendo suas esculturas, procurando a perfeição. Hellina ganhava as flores e os elogios: oh! Que menina talentosa! Com essa voz doce ela encanta até mesmo os mortos, não é, Julien?. A ela, Maríade, restavam as críticas: e você, querida? Não sabe fazer nada? É tão feio uma dama de mãos calejadas! Mulheres foram feitas para tarefas delicadas, tais como bordar e pintar, não essas tarefas árduas, como esculpir pedra. Julien concorda comigo.

Toda vez que lembrava dos olhares de desprezo, seus olhos brilhavam em vermelho e seu rosto era coberto pelo negro. O negro de sua alma, de sua podridão. Fora por causa daquele tipo de coisa que fizera o que fizera. O desespero e a dor foram sua recompensa, mas não era o suficiente. De certa forma, ela pagara pelo erro deles. Não se arrependera, apesar das circunstâncias, mas muita coisa deveria ser consertada ainda.

Seu dia passou repleto de reflexões. Estar em Pardais novamente trouxe-lhe lembranças dolorosas. Lembranças da época em que sua mãe apenas a advertia para ficar quieta e escondida. Que assim seria melhor. Não havia explicações. Quando recebia aquele tipo de crítica, não havia ninguém para sair em sua defesa. Eleanora a olhava como quem dissesse “eu te avisei para ficar escondida”. Sem elogios, sem cuidados. Mar não tivera mãe, naquele tempo. E, depois, quando tudo desandou, Nora, como a tratavam os íntimos, resolveu tentar se aproximar.

— Você passou a vida inteira fingindo que não existo, e agora decide ser mãe de verdade? – perguntou a jovem Mar de vinte anos, logo que recebeu a maldição.

— Queria protegê—la, Maríade! Pensei que se fosse dura contigo, as coisas seriam diferentes, que a maldição não recairia sobre seus ombros. Me desculpe, me enganei. Sei que errei. Porém, agora quero consertar as coisas.

— Tarde demais.

E assim mãe e filha pararam de se falar. Foram dez anos de silêncio, até que Mar resolveu que seria mais útil manter algum contato. Vai que precisasse de alguma coisa, não? Pelo menos elas se tratavam com certo respeito.

Apesar de Eleanora ser vários anos mais velha que Mar, para todos na cidade elas eram irmãs. Nora cometera seu erro crucial aos dezenove anos, onde parou no tempo. Quando ela chegou a Pardais, grávida de Mar, se escondeu até que a criança se tornasse “adulta”, ou mais precisamente, entrasse em idade casadoira. Assim poderiam ser as irmãs de Pardais, órfãs de pais, e ninguém desconfiaria da idade dela.

Alguns planos foram modificados com a chegada de Hellina, sua sobrinha. Ela prometeu à sua irmã que cuidaria dela e assim fez. Até o dia em que Julien apareceu. Ele prometera cuidar de Hellina com sua vida, se fosse necessário. De fato, fez. Pelo menos até que sua mente fosse apagada e ele esquecesse da existência de todas as pessoas da família e se mudasse, recomeçando sua história com outra mulher.

Mar tinha que admitir que riu muito no dia em que Hell chegara para Julien e o abraçara, dizendo que tudo estava bem, que poderiam recomeçar outra vez, e ele a olhou como se visse uma estranha, o que, de fato, ela tinha se tornado. Maríade teria apreciado mais, se não tivesse sido “convidada a se retirar” de Pardais pelos guardiões da cidade, bruxos de uma família antiga que conhecia a maldição do cisne.

Depois disso, Mar e Eleanora foram migrando de lugar em lugar, nunca parando. Pelo menos conheceram boa parte do mundo, presenciou momentos históricos, acompanhou as tendências da moda como ninguém. É, até que não foi um completo desperdício esses cem anos.

Como o tempo passou rápido, pensou Mar, ao notar que já estava na última aula do dia. Talvez o seu estado nostálgico tivesse contribuído para que não percebesse o tempo passando. Bem, era até melhor assim. Quer dizer, a menos que lembranças ruins perpassassem sua mente. O que era o caso, mas um sofrimento pelo outro. Estava bom. Nada que ela não esperasse.

Quando já estava achando que sua vida iria ser monótona, eis que surge algo para alegrar seu dia.

Hellina.

Sim, seus cabelos castanho-claros eram inconfundíveis, sempre amarrados na mesma trança simples, alguns fios caindo pelas bochechas, pois, de tão liso, nenhuma borrachinha prendia. O rosto doce, quase sereno, contemplava o horizonte de forma saudosista. Os olhinhos mel tinham um brilho esmorecido pelas perdas.

Olhando-a bem, Mar não duvidava nada que Hell fosse a mais pura dos cisnes, o Cisne Branco. Aquele ar de bondade e inocência quase infantil cativava a todos. Menos a ela, claro. Os sorrisos meigos da morena a enchiam de raiva, pois com ele, Hellina conquistava tudo o que queria. E as migalhas eram de quem? Até mesmo o amor de Eleanora Hell havia conquistado, embora a senhora negasse até a morte.

Bem, agora que o amado cisne de sua mãe estava ali, se divertiria um pouco.

…

Na hora da saída, Mar fez questão de esbarrar na prima.

— Oh, desculpe – falou suavemente Hell, até que viu quem havia encontrado.

Mar observou-a perder a cor, ficar vermelha, roxa e então aos poucos lágrimas foram escorrendo pelas delicadas maçãs do rosto da garota. Contemplou a reação exagerada e fraca de Hellina com uma satisfação quase mórbida, embora não achasse ser o suficiente.

— Olá, priminha. – Sorriu “simpática”.

— M-mar.

— Eu mesma. Então, como vai a vida?

— P-por que está aqui?

— Tsc tsc... Você não respondeu minha pergunta! Como vai sua vida perfeita? A minha está uma droga desde que você resolveu impor sua presença desagradável há mais de cem anos. E te digo que continua piorando.

O tom de Maríade era tão calmo que ela poderia estar perguntando como foram as férias, não a atiçando, abrindo as feridas da outra.

— A c-culpa não foi minha! Eu também fui amaldiçoada! Em vez de morrer, como eu queria, fui obrigada a viver sabendo que o meu amor passou a ser de outra. É um castigo para mim também – falou tudo rápido e quase suplicando.

Mar não se comoveu. Esse era o mal das pessoas. Se deixar levar por pouco.

— Não. Se atreva. A dizer que foi castigada. – Deu a maior ênfase que foi capaz às suas palavras ríspidas. – Seu maravilhoso destino está lá, brilhante. Cheio de amor e uma família feliz. O meu está traçado na miséria e na trapaça por sua culpa. Então não ouse se fazer de vítima. Porque o seu teatro não me engana. – A dureza em seus olhos mostrava a maldade que todos apontavam.

Hell não respondeu. Seus olhos se encheram de compaixão pela “ruiva amargurada”, o que deixou Mar fervendo de fúria. Mas ela sabia. Um dia Hell encontraria alguém. Talvez até mesmo ali, em Pardais, lar do seu primeiro amor e do algoz de Maríade. E ela faria de tudo para que a prima sentisse um milésimo do que sentiu. Nem que para isso tivesse que matar a população de Pardais e ser expulsa para sempre.

Porém, para isso dar certo, ela deveria ser cautelosa. Não poderia deixar que Hell soubesse que ainda a odiava. Provavelmente seria fácil convencê-la de que havia mudado. A idiota acreditava no melhor das pessoas. Sempre.

— Oh, desculpe. – Baixou a cabeça para que Hellina não visse o veneno escorrendo por seus olhos. – É que ainda é muito difícil para mim, mesmo após tantos anos. Estou tentando melhorar, mas volta e meia o pior de mim é liberado.

Quando olhou nos olhos de Hell, suas íris negras estavam marejadas. O que, para ela, era escárnio, para Hellina pareceu sofrimento.

— Oh, prima. Eu sinto muito. Entendo o que sente e juro que tentarei quebrar a maldição. Por nós duas e o resto da família!

Quando ela tentou se aproximar de Mar, a ruiva deu um passo para trás, as mãos escondendo o rosto, que se cobria de penas negras e ostentavam olhos vermelhos brilhantes.

— Eu ainda não gosto de você. Disse que estou tentando melhorar, mas não sou tão benevolente – sua voz saiu abafada pelas mãos, suavizando o tom ríspido.

— Sinto muito – Hellina sussurrou.

Mar apenas assentiu, ainda sem tirar as mãos da face. Seus dentes arreganhados pela audácia da morena em tentar demonstrar solidariedade quando a verdadeira culpada era ela.

— Tudo bem. Vamos fazer o seguinte: eu não te faço nada. Mantenho distância até que aprenda a conviver com isso. Mas você também não pode se aproximar. O primeiro contato será feito por mim. Entendeu?

Calma o suficiente e querendo que ela pudesse ver a “sinceridade” em suas palavras, Mar encarou os olhos mel com determinação. Um pouco surpresa, percebeu que o cisne em Hell devia ter sentido sua fúria, pois a mesma penugem que cobria sua pele quando estava com ódio, ou mesmo raiva, estava despontando no rosto da doce mulher. A diferença é que, por Hellina ter uma pele clara, não ficava tão evidente, pois suas penas eram do branco mais puro existente. A pureza residia em sua alma.

Quem diria que justo elas representariam o clássico Cisne Negro/Branco?

...

Quando chegou em casa, sua expressão estava tão vazia que assustou Eleanora. Elas se olharam por alguns segundos e Mar subiu, ignorando a mãe. O dia foi cheio de recordações indesejáveis, o que a deixou injuriada com Nora.

— O que aconteceu, Maríade?

Atirada na cama de barriga para cima e contemplando as estrelas falsas desenhadas no teto, Mar a ignorou. Eleanora rosnou, com raiva, seu rosto perfeito de uma jovem de dezenove anos da alta sociedade assumiu a forma de uma cabeça de cisne de plumas azuis marinho e com olhos vermelhos. Ela sempre fazia aquela cara para assustá-la quando criança. Bem, agora Mar era uma menina crescida.

— Não adianta fazer essa cara. Você não me assusta mais. E a minha vida não é da sua conta, Eleanora.

— Se você não se lembra, Maríade, estamos no mesmo barco. Se algo acontecer, também vou pagar.

— Não se preocupe que vou me certificar de que não saia prejudicada, maman. – Sorriu irônica para a mulher parada na porta.

— Idiota! Eu não estou falando disso. Sou sua mãe! Qualquer coisa que te aconteça me atinge indiretamente.

Mar bufou, desdenhosa.

— Até parece que caio nessa, maman. Mas já que faz questão, encontrei Hellina.

Eleanora ficou em silêncio por uns segundo, digerindo a informação.

— E então?

— Nós entramos em um acordo de “distância saudável”. E eu disse que, quando estivesse pronta, a chamaria para conversar. – O sorriso bonito de Maríade nem de longe era reconfortante.

— Isso vai dar muito errado, Mar. Muito errado – a Cisne Azul exprimiu seus pensamentos.

— É isso que eu quero, maman.