Maríade estava se sentindo estranha. Confusa. O desgosto normal que a acompanhava, tudo bem, mas também havia resquícios de riso e um fundinho de tristeza. Nunca havia deixado esse tipo de sentimento a abater, afinal, se afundar não faria tanta diferença, considerando a maldição. O grande dilema estava nos motivos pelos quais ela estava daquela forma.

Naquele dia, Mar havia sentido como seria sua vida, se não pertencesse àquela família, se não pertencesse a outra época. Uma tarde de risos na faculdade, um menino bonito lhe cortejando. Um futuro brilhante pela frente. Ela se sentiria sortuda pela atenção, retribuiria seu esforço, seus beijos. Ela se sentiria livre para amar e ser amada, para se juntar às festas, às brincadeiras.

Ela teria uma vida perfeita.

No entanto, aquilo era apenas um sonho, o sonho lindo que ela seguraria, pois até então motivos para sorrir foram poucos. A aula de escultura da semana passada ainda fazia seu estômago embrulhar, só que de um jeito muito bom. Quantas vezes havia se divertido de forma inocente e despreocupada? Nem em sua infância conseguia buscar uma memória dessas.

Ainda jogada no sofá, Mar ria de leve, lembrando. A memória eclipsava os sentimentos ruins, a fazia sorrir. Era realmente ótimo que sua mãe tivesse saído com Hellina — algo sobre comprar uma roupa para seduzir Bastien. Riu mais forte ao lembrar do início do dia, na hora da saída, ao vê-lo cantar em alemão na frente de todos. Dieu! Que momentos preciosos!

Mar continuou a rir sozinha, até que ouviu uma grande comoção. Eram vozes gritando claramente sem se preocupar se estavam incomodando alguém. Ela não sabia para onde iam, e estava com preguiça de levantar, mas o barulho começou a ficar impossível de ignorar. Ao olhar a janela, seu queixo caiu.

Bastien, rosnou.

A praga francesa e sua manada de adolescentes sem cérebro estavam realmente invadindo seu quintal com garrafas de cerveja?! A recordação agradável que dominava seus pensamentos segundos atrás acabou no momento em que os delinquentes cruzaram a porta de sua casa.

— Bastien! – gritou. – O que é isso, maudit?

Sens gargalhou, e pelo modo como o fez, ficou claro que já estava um pouco bêbado.

— Não seja assim, Mar. Já que nunca vai à nenhuma festa, trouxe essa para você.

Dito isso, ele abriu caminho para seus amigos passarem. Mar estava sem reação, àquela altura. Um som foi conectado à tomada e logo a música alta preencheu o lugar. O cheiro de cerveja e outras bebidas chegaram ao seu nariz, e tudo que ela fez foi encarar o rosto sorridente de Bastien.

— Enlouqueceu? – perguntou mais calmamente do que esperava. Talvez pelo fato de não ter mais o que fazer mesmo.

— Não. Hoje você parecia triste – puxou-a pela cintura para o meio da sala vazia; os outros haviam afastados os móveis, e começou a se mexer no ritmo da música, fazendo-a acompanhá-lo. – O que melhor do que uma festa para agitar as coisas?

Mar fechou a expressão.

— Desde quando me conhece o suficiente para deduzir isso? – Tentou se afastar, mas ele não deixou.

Bastien aproximou sua boca do ouvido dela, falando baixinho:

— Eu poderia definir cada emoção sua só olhando nos seus olhos.

Mar prendeu a respiração. Fechou os olhos e sorriu de lado sem ele perceber.

— Treinando para seduzir Hellina? Esse papo brega de olhar nos olhos colaria muito com ela.

Bast riu e beijou seu pescoço exposto pela camisa de verão.

— Esqueci quão anti-romantismo você é. Desculpe. – Ele a fez rodopiar e voltar para seus braços. Mar sentiu como se estivesse voando em forma de Cisne. Se assustou com o pensamento. – O que acha de “não preciso te conhecer para te animar com uma rapidinha ali no canto, gostosa”?

Maríade riu alto, assustando alguns dos jovens ao redor. Resolveu deixar de lado.

— Vulgar demais, mon amour. Eu gosto de classe, lembra?

Ele concordou, seu rosto em uma expressão sensual. O copo de bebida em sua mão quase esquecido.

Mar não conseguia desviar os olhos, a atração pulsando pelo seu corpo na batida da música que flutuava ao seu redor. Tinha muita gente no lugar, conversas e vozes altas. E tudo que o terrível Cisne Negro queria era beijar a boca do insolente francês que a conduzia. Apesar do que dissera, não havia elegância ou classe naquele momento. Estava quente, e a casa lotada contribuía para um efeito estufa. Maríade não gostava de bebida, mas o hálito de Bastien era muito sedutor. Era suor e uma loucura que ela nunca experimentara.

Mar piscou.

E seu desejo se realizou.

A boca de Bastien se encontrou com a sua. Estava gelada e, apesar da excitação do momento, havia delicadeza, suavidade em seus lábios. Bastien parecia querer aproveitar cada segundo daquilo. O beijo rápido de seu primeiro encontro não havia sido suficiente para aplacar sua fome dela. Nem a dela por ele.

E eles fizeram durar aquele instante intenso. As línguas se entrelaçando, provando os sabores, as texturas. As mãos dele deslizando pela cintura dela, as dela presas nos cabelos surpreendentemente sedosos. Os narizes se tocaram também, a respiração soprava no rosto do outro. Era diferente, mas não havia estranheza. Mar achou que havia entendido a magia de beijar alguém de quem se gostava. A culpa não conseguia a atingir enquanto as mãos de Bastien deslizavam em seu corpo.

Quando se separaram, sorriram. Era como se estivessem compartilhando um segredo.

O melhor deles.

E, assim, continuaram a se divertir. Mais beijos foram trocados, mãos bobas, mas nenhum foi como aquele do início. Foi uma tarde louca. Como os bailes de princesa, mas com menos elegância, menos suavidade.

Porém, exatamente como no baile da Cinderela, havia um toque de recolher.

E o de Mar era o pôr do sol.

— Bastien – puxou sua camisa para chamar sua atenção. Ele logo percebeu a seriedade dela e enrijeceu a postura. – Preciso que vá embora. Agora.

— O que? Porque? O problema é sua irmã? Posso falar com ela.

Mar começou a sentir o Cisne, havia percebido tarde demais a hora. Seus pelos começaram a arrepiar. Era o crescimento das penas. Ela tentou segurar a transformação.

— Não. – O nervosismo ficou evidente. – Por favor, Bastien. Eu estou te pedindo. Preciso que partam. Agora.

Bastien fez uma cara preocupada, ela nunca pedia por favor.

— Tudo bem, mas podemos ajudar a arrumar a bagunça que fizemos.

Mar fechou os olhos abruptamente, pois sentia-os brilhando em vermelho. Tentou conter mais uma vez a mutação.

— Não precisa – insistiu entredentes. Se segurar era doloroso.

Bastien ergueu a cabeça dela, tentando fazê-la olhá-lo. Ela piscou para ele. Bastien endureceu a mandíbula, mas assentiu.

— Estamos indo.

Ele apenas deu-lhe um selinho e desligou o som, já anunciando o fim da festa, apesar dos protestos. Mar rapidamente se moveu para fora do caminho. Ela tinha certeza absoluta que ele havia visto seus olhos rubros, a cor viva do sangue neles, mas se negou a confirmar. Iria fingir que nada havia acontecido, seria melhor.

Tão inesperadamente quanto veio, o povo se foi. A essa altura, Mar ofegava, sentindo as penas despontarem. Deixou o Cisne vir, sabendo que teria perguntas a responder mais tarde.

…

Depois da festa, Mar não viu mais Bastien. Era difícil admitir que ele realmente sabia algo sobre ela. Era uma tremenda prova o fato do rapaz saber a hora de recuar. Aquilo, infelizmente, a prendia mais. O maldito seria um bom psicólogo.

Havia se passado três semanas, era recesso na faculdade. Ouvira tanto de sua mãe e Hellina. Críticas, verdades, acusações. Apesar de sentir cada palavra mais do que deveria, ela fez a habitual cara de desdém e aguentou cada segundo, para mais tarde remoer e, então, deixar para lá. A verdade era que havia fracassado quanto a isso.

Sentia a pena de Eleanora de longe. Mar acreditava que ela sabia, ou imaginava, o que a filha sentia, mas então recusava o pensamento. Mesmo que fosse verdade, sua mãe nunca fez nada, realmente. O mundo caía ao redor, pois sua convicção de deixá-lo livre para Hell cada vez mais enfraquecia.

Deveria continuar afastando Bastien? Ele claramente não queria Hell.

Se não se afastasse, porém, que futuro teria com ele?

A maldição não apagaria sua memória, se cedesse às suas investidas?

Eram muitas dúvidas.

E nenhuma resposta.

No primeiro dia de aula, Mar começou mal. A bruxa Imogen logo lhe abordou, veneno saindo por seus poros, sua expressão tão maliciosa que lhe causava arrepios. No entanto, manteve a postura.

— Só vim para lhe dar um aviso, Maríade Thomps. Será o último. Afaste-se de Bastien Sens. Minha família permitiu sua estadia aqui para que a maldição fosse quebrada e finalmente nos víssemos livres de sua abominável existência. Hellina está a um passo de conseguir. De fato, já teria conseguido, se não fosse sua insistência em tentar seduzir o Sens. Se não deixar que eles fiquem juntos, será chutada para fora da cidade para sempre e amaldiçoada outra vez.

Tudo aquilo havia sido dito no mesmo tom de voz, tornando a ameaça mais real. Mas Mar não se alterou. Para aquele tipo de pessoa, qualquer piscada era sinal de fraqueza.

— Não me diga o que fazer.

Virou as costas e saiu.

Aquele era um dia bastante especial. A turma de psicologia faria uma apresentação de pré TCC para todos no campus. Bastien estaria lá, e Mar não poderia perder, apesar de não estar se sentindo bem com a abordagem de Imogen. Queria vê-lo, e iria.

Já era final da manhã, hora de ir para o auditório. Uma pequena multidão se dirigia para lá, todos muito entusiasmados. Parecia que os futuros psicólogos eram promissores. Mar não duvidava.

Quando começaram as apresentações, ela comprovou. Alguns dos trabalhos tinham conteúdo bastante interessante, boas fontes, análises pertinentes. Outros, contudo, abordados de forma bastante infantil. Quanto as temáticas, variava entre as de caráter mais séria, de cunho mais científico e outros mais pessoais. Diferentes, como cada pessoa que apresentava.

Mar estava sentada tão na frente quanto possível, sem deixar na cara que estava ali para assistir Bastien. Pulou na cadeira quando as luzes se apagaram e uma foto sua de perfil apareceu projetada.

“As 10 faces dela”

Bastien entrou no palco, segurando o microfone e sorrindo.

— Olá. Bom dia para vocês – começou calmamente, parecendo à vontade ali. – Meu nome é Bastien Sens e meu trabalho vai contemplar as diferentes facetas do ser humano, esse ser complexo, que nem Freud conseguiu explicar. Meu objetivo é demonstrar que o mais fechado de nós pode ser tão diverso por dentro quanto qualquer outro. Meu objeto de estudo nesse semestre foi Mar Thomps, estudante de artes plásticas desta universidade. – Ele fez uma pausa para procurá-la, logo se deparando com sua figura catatônica. Ele vivia a surpreendendo. Porém, desta vez, não era uma surpresa boa.

A imagem mudou. Era ela chegando no primeiro dia de aula, seu nariz empinado, Os cabelos longos amarrados em um rabo de cavalo. Mar parecia poderosa e esnobe.

— Bem, nós, seres humanos, somos inconstantes. Seres cheios de sentimentos e atitudes. Vivemos nos contradizendo. Podemos ser frios, e no segundo seguinte sorrir de forma meiga, dependendo dos estímulos que recebemos. Não vou entrar nessa questão. O que me interessa é a mente humana, não o cérebro. – Bastien desenvolveu, eloquente. – A minha apresentação começa com o primeiro dia de aula. A mulher mais metida da Universidade de Pardais. Postura altiva, olhar de desdém… Desde a primeira vez que vi Mar, fiquei intrigado. E a cada dia ficava mais e mais encantado, seduzido pela atitude dela. Podia alguém ser frio o tempo todo e ainda ser humano? Então, me dediquei a desvendar os mistérios dessa patricinha nariz-em-pé. – Ele piscou para ela.

Mar sentia seu coração parando. Bastien não podia. As consequências seriam desastrosas. Mas ele não tinha essas preocupações, era ignorante sobre maldições e maldades. Como pará-lo?

A imagem mudou de novo. Ela estava sentada na mesa mais distante da praça de alimentação, um café e um prato com um doce e um salgado em sua frente. Um close no seu rosto.

— 1. A mesma mulher que esnoba a todos adora doces. – E mostra seu rosto feliz como o de uma criança ao morder o generoso pedaço de chocolate. Mar não sabia que fazia essa expressão ao comer seus chocolates.

A imagem mudou.

— 2. Ela gosta de gatos também. – Bastien aponta para uma foto dela fazendo carinho em um dos gatos de rua.

Novo slide.

— 3. Todos temos dias ruins, nossa rainha não é exceção. – Mar sentada na calçada de sua casa com um cotovelo apoiado na perna, para sustentar sua bochecha, seus olhos estavam baixos. Quando havia sido isso? – 4. A rainha do gelo também sente raiva, minha gente! – Mais uma vez, ela com um de seus muitos olhares exaltados para Bastien. Ela tinha certeza de que era para ele que mostrava o dedo do meio. – 5. Ela sabe ser sexy como ninguém, sabiam? – Os cabelos soltos voando, um meio sorriso, um olhar enviesado.

A garganta dela se fechou. Inferno. Maríade sentia o olhar da bruxa em suas costas. Pela visão periférica observava Hell, na segunda fila, com as mãos sobre a boca.

— 6. A mocinha inteligente também se frustra. – Pincéis sendo atirados no chão, quando ela achou estar sozinha. – 8. A mulher competitiva. – Foto dela apostando corrida contra Hell durante as olimpíadas universitárias, só para não deixá-la ganhar e se exibir para o Sens. – 9. Implicante, hein? – Uma montagem dela segurando um dos presentes que ele deu, uma pulseira com o nome “Regina George” falando “Já ganhei coisa melhor”. – E, finalmente, a melhor faceta de todas. A mais bonita, mais rara e, talvez, mais pura: a Mar doce, capaz de roubar mil corações com um sorriso.

Um desenho. Mar tinha certeza de que era no dia da festa. Era como ela olhava para ele. Um sorriso pequeno, mas tão sincero quanto ela era capaz, talvez mais. Era como se fosse um sorriso dele.

O Cisne estava sufocando. Ele havia mesmo entrado nela. Observado cada detalhe. O que ela gostava, o que não gostava. Ele realmente podia olhar em seus olhos e ditar cada uma de suas emoções.

— Eu poderia usar mais mil fotos e desenhos, falar mais mil faces dela. Sem decoreba, apenas por ter procurado olhar mais atentamente. Podia chamar ela no palco e descrever cada sentimento nesse momento. Mas não é o objetivo. O que quero dizer aqui é que cada ser humano é único, mas dentro dele existem milhares de outros. E essa diversidade dentro de nós, o que nós permitimos ou não que vejam, é o que nos torna evoluídos. O que faz de nós especiais. Não importa a fortaleza que somos por fora.