Hermione resolveu tomar seu chá em paz, com sua mãe, na sala de estar. E claro, seus biscoitos açucarados preferidos. Iria descansar um tempo e depois desenhar. Era sua forma de aliviar a mente. Assim como resolver exercícios de matemática. Rony, quando ouvia ela dizer isso, pensava que Hermione havia batido a cabeça bem forte. Ele detestava essa matéria nos tempos de escola. Ela deu uma risadinha consigo mesma.

— O que é tão engraçado, filha? — sua mãe perguntou, ao seu lado, enquanto via um seriado de comédia, na Netflix, tomando seu chá da tarde.

— Ah, só estou lembrando de Rony. Sinto falta da amizade dele, sabe, mãe?

Era bom ter a amizade de sua mãe, novamente. Ela se sentiu tão sozinha em Londres. Apesar de receber ligações dela, ter suas visitas, e passar alguns natais ao seu lado, não era a mesma coisa. Se ela pudesse entender suas escolhas, seria tão mais fácil. Contudo, nem precisava tocar no assunto, afinal, sua mãe parecia muito feliz com sua presença.

— Ronald sofreu quando você partiu, querida — a mãe dela disse, mordendo um biscoito na ponta, esfarelando, deixando cair migalhas sobre o suéter rosa. Ela já o estava usando há quatro dias seguidos. Precisava falar sobre isso com sua mãe. Sobre trocar de roupas. Estava sendo um pouco complicado essa situação depressiva dela. Precisava de uma intervenção, mas não queria magoar sua mãe com seu comentário sobre o vestuário dela — E ele veio até a nossa casa, chorar, por ter perdido a única garota que amou.

Hermione engoliu seco, desviando o olhar. Se sentiu tão mal, que ficou com a visão turva. Pobre Rony, pensou.

— Eu sinto tanto mamãe — ela disse, com a voz embargada — Eu realmente gostava de Krum — O que não era uma mentira. Ela gostava do jogador. Fora um bom começo para ela, quando tentava esquecer de Draco. Afinal, eles nunca haviam se beijado e eram só amigos. Se ela gostava dele? Muito. Se o amava? De fato sim. Mas, guardava rancor por tudo que ouviu dele. E rancor do pai dele. Isso a fez lembrar da situação do seu pai, que fora assassinado. E aquele não era o momento certo para confrontar sua mãe. Sabia disso e se calou.

— Eu sei, querida. Eu e seu pai demoramos a perceber que você estava feliz daquela forma. E que não era o dinheiro que a faria feliz. Eu disse isso a ele. Mas, Antony era tão teimoso. Então, eu o confrontei, sabe? — Hermione assentiu com a cabeça, surpresa por sua mãe defende-la — Krum tinha muito dinheiro. Poderia lhe dar estabilidade, ora essa. Se a questão era dinheiro, o genro era perfeito. Mas, não era sobre isso, o problema. Seu pai estava condoído por ter perdido a garotinha dele. E por ela ter seguido um caminho diferente do qual ele havia planejado. O sonho dele era que você se formasse em Direito. Você sempre foi a melhor em debates, lembra? — Hermione ainda se lembrava da banca que precisou defender, em seus cursos extracurriculares. Competiu diretamente com Blásio Zabini. Que hoje era um advogado renomado em Londres.

— Sim, mãe, mas eu queria outras coisas. Você sabe que sempre gostei de moda e de artes. Fiz as duas coisas. Lecionei, tenho uma loja virtual. Minha própria marca de roupas. É algo pequeno, mas é só meu, entende?

— Claro que entendo querida. Eu sempre compreendi. Eu só...eu só não sei por que nos afastamos tanto — Rosália disse, com o olhar perdido, segurando a xícara de chá e o biscoito na outra mão — Eu não queria que isso tivesse acontecido, sabe? Você é importante para mim. Me perdoei se a negligenciei.

E ali estava algo que Hermione não gostava de fazer. Falar de sentimentos.

— Er...mãe, não se preocupe com isso. O importante é que estamos aqui agora, não é? — ela disse, com um sorriso forçado, mas sentindo a garganta apertada.

— Claro, é claro.

Elas passaram a tarde assim, juntos. Conversando sobre muitos assuntos, incluindo sobre o novo enlaço de Vitor Krum, com uma modelo escandinava. Hermione dava risada, enquanto via os sites de fofoca, com sua mãe, pelo celular. Vitor não mudava mesmo. Continuava o mesmo homem mulherengo. E ele teve a audácia de mandar uma mensagem a ela, perguntou se ela precisava de dinheiro.

— Acredita que ele teve a capacidade de me mandar isso, na semana passada? Eu sinceramente não sei o que ele tem na cabeça — ela desabafou com a mãe.

— Ah, querida, ele apenas se preocupa com você. Ele pode não ter sido um namorado perfeito, mas devia gostar de você.

Hermione nem queria pensar no caso de não gostar dela. Se ele agia daquele modo, gostando de uma pessoa, poderia ser muito pior, não gostando. No final da tarde, Hermione acabou se aconchegando mais no sofá, vendo um filme, com Bichento em seu colo e acabou dormindo.

Sonhava que estava ouvindo uma música clássica. Não, parecia muito mais com uma música ao estilo dos anos vinte ou trinta. Ela abriu os olhos e viu que estava ainda na sala de estar e percebeu que seu pai tocava o piano. Ela ficou animada por vê-lo. Não teve medo dele. Ele parou de tocar e olhou para ela. Ela procurou o rasgo em seu pescoço, mas não encontrou nada. Ele vestia um terno preto, com gravata borboleta e parecia até mais jovem, sem os cabelos brancos característicos. Os cabelos estavam escuros e cacheados com os delas. E seus olhos tinham um intenso brilho, em tom âmbar. Ele sorriu para ela, se levantando do banquinho, em frente ao piano de parede.

— Olá, querida. Que bom que acordou.

— Pai? Como o senhor...quero dizer...estou sonhando?

Ele não negou, nem respondeu a pergunta dela.

— Sonho ou não, está feliz em me ver? — ele perguntou.

— Estou, muito. Quero dizer, o senhor mal falava comigo, mas senti sua falta todos esses anos.

— Eu sei, Hermione — ele assentiu, com uma expressão de tristeza — Talvez, o orgulho tenha falado muito mais alto do que eu poderia imaginar.

— O senhor está aqui para resolver os problemas que deixou para trás? — Hermione perguntou. Já havia escutado de Luna de que os espíritos apenas voltavam para resolver questões pendentes. E se continuavam por perto, era por que ainda não tinham terminado suas questões com os vivos — O senhor quer justiça pelo que aconteceu? Por causa da sua morte?

— Eu não vim para isso — ele negou com a cabeça — Eu apenas gostaria que cuidasse de sua mãe. E peça para ela não me chamar. Não consigo partir, se ela ainda me segurar, querida. E em algum momento, todos nós vamos partir. Cedo ou tarde.

— Pai, me diga, quem matou o senhor? — ela ignorou deliberadamente seu pedido. Seu pensamento estava em desvendar a morte do pai e estava com sede de justiça — Diga-me, pai.

Ele não respondeu, esvanecendo no ar.

— Pai, por favor. Não vá embora...- ela viu o rosto dele sumir, por último, apenas com um olhar triste — Nem pude te dar um abraço.

— Hermione — escutou a voz de alguém a chamando.

Ela respirou fundo, abrindo os olhos, de repente. Estava na mesma sala. A diferença é que nada estava com aspecto enevoado. Sua mãe a fitava, com um sorriso.

— Vá dormir em sua cama. Já é tarde.

— Mãe, você viu...você...? — ela queria perguntar se sua mãe viu seu pai. Mas, não queria colocar mais coisas na cabeça dela.

— Vi o que? — ela perguntou, confusa — Acabei de chegar na sala.

— Ah, tá. Devo ter imaginado coisas — Hermione disse, com um sorriso forçado e se levantou do sofá.

Sua mãe não deu atenção e deu boa noite para ela. Hermione seguiu para seu quarto, com Bichento em seu encalço. Ozzy estava no corredor, do andar de cima e deu um rosnado para o gato. Bichento nem deu atenção, entrando com elegância, antes da dona, no quarto dela. Hermione riu.

— Ozzy zero, Bichento um. Quem vai mandar nessa casa? — ela falou para si mesma.

— Espero que seja eu quem mande nessa casa — sua mãe passou por ela no corredor — Chega de bichos mandando na casa.

Hermione caiu na gargalhada e abraçou sua mãe, dando boa noite. Elas se desvencilharam, dessa vez, sem constrangimento nenhum. Só mãe e filha trocando afeto. Hermione entrou no quarto e fechou a porta. Da janela, podia ver o céu escuro, com alguns pontinhos brilhantes. Não havia lua cheia ainda, mas ela estava crescendo no céu. Lua crescente. Ela olhou para o jardim e pode ver uma sombra passar e o barulho de algo sendo atirado na janela pode ser ouvido. Ela se assustou e se aproximou da janela. Não estava acreditando no que seus olhos viram. E iria mata-lo, quando descesse até o jardim. Como ele ousava tentar aquela técnica mais uma vez?