Hermione ainda se sentia enjoada por ouvir o que Harry dissera a ela, em sua casa, dois dias atrás. Nesse meio tempo, fez uma entrevista de emprego, para trabalhar em uma galeria de arte. A galeria de arte Linford. O dono da galeria era um rapaz muito jovem e bem humorado. Fez tantas perguntas para ela, e não parava de encara-la. Mas, percebeu que seria um ótimo emprego. Iria trabalhar apenas nos eventos que tivessem na galeria. O restante do tempo, ela estava fechada. Os eventos aconteciam apenas nos finais de semana e às vezes, por uma ou duas semanas. Ela estaria recebendo um salário muito bom e que poderia ajudar nas despesas da casa, mesmo que sua mãe não abrisse o consultório de dentista.

Apesar da noticia boa, ela ainda não conseguia compreender como seu pai poderia ter sido assassinado. Harry havia explicado o motivo de suas suspeitas, o que a deixou ainda mais preocupada e com raiva. Ainda se lembrava da conversa dos dois e tentava entender o motivo para isso ter acontecido justamente com sua família.

Flashback

— Você tem certeza do que está falando, Harry? Isso é muito grave. Minha mãe disse que meu pai enfartou, então, não pode ter sido assassinado.

— Infelizmente, sua mãe mentiu para você, Hermione. Mas, não foi dessa maneira – ele disse, com pesar – Eu o encontrei inconsciente, na mata, Hermione. Ele estava com a garganta rasgada. Não foi uma faca, mas por dentes afiados. Poderia ser um animal, mas a mordida bate muito com a de um humano, segundo o médico legista. Sua mãe pediu para que não abrisse nenhum inquérito. Estava em estado de choque, na verdade. Parecia preocupada com algo. No mesmo dia, encontramos o corpo de Lucius Malfoy na mata. Ele havia levado um tiro. Não sei o que pode ter acontecido, sinceramente. Mas, o corpo dele estava há quinhentos metros do seu pai. Tudo é muito confuso e ainda estou tentando compreender o que houve.

Hermione ficou atônita. Não poderia ser verdade. E realmente, não fazia o menor sentido seu pai ter sido atacado por animal. E o que Lucius Malfoy fazia na mata? Ela estava tremula, pensando no que viu anos atrás, perto da casa de Draco. Um ritual, sangue sendo derramado. Lucius com a boca ensanguentada. O cheiro acre do sangue. Tudo aquilo estava a apavorando.

— Lucius Malfoy fez algo estranho, há doze anos, Harry. E parece que ele tentou o mesmo com meu pai, mas alguém o matou – ela tremia dos pés a cabeça. Temia que sua mãe tivesse feito isso. Se ela havia escondido o fato de que seu pai havia tido a garganta dilacerada, algo havia de muito errado – E por que ele foi enterrado, Harry? Por que não há um inquérito policial?

Harry respirou fundo, massageando as têmporas.

— Houve, há duas semanas. Mas, o médico legista constatou que poderia ser um animal que fez isso. E Draco Malfoy não deixou que chegassem perto do corpo do pai. Ele pagou para que não tocassem no corpo do pai dele, Hermione. Ele destruiu todas as provas cremou o pai. Então, estamos de mãos atadas. Não temos provas e a policia não pode fazer nada. A família dele é muito poderosa.

— Como...como o corpo de Lucius estava...? Ele...ele tinha sangue em sua boca?

Harry arqueou a sobrancelha.

— Sim. Ele tinha. E parecia um pouco estranho, com dentes afiados. Garras nas mãos – Harry parecia abismado com esse fato – Nada disso faz o menor sentido. Por que você acha que ele poderia ter sangue na boca, Hermione?

Hermione respirou fundo. Engolindo o ar. Tentando entender o que poderia ser isso. Será que Lucius era louco e fazia aquilo, por puro sadismo?

— Eu o vi fazer isso, com Amélia Bulstrode – Hermione respondeu – Há doze anos.

— Por Deus, Hermione. Você está achando que ele pode ter feito isso com seu pai?

— Sim, eu acho que sim.

Fim do Flashback

Hermione ainda não se conformava com o fato de Draco ter pedido para o corpo do seu pai não ser tocado. Era tanto medo de que todos descobrissem a senilidade do próprio pai? Medo de que seu nome fosse manchado? E a injustiça que aconteceu com sua família? Nunca seria reparada? Ela estava com raiva, muita raiva. E queria confrontar Draco. Queria fazê-lo pagar por isso, já que Lucius já estava morto. Ela queria muito confrontar a própria mãe. Entender os motivos para ela esconder o fato de que seu pai fora assassinado. De maneira estranha e peculiar, mas fora assassinado.

Contudo, não a confrontou. Notou que sua mãe estava muito quieta e abatida. Apesar de sair da cama, sempre que Hermione levantava e seguia com a rotina normal, era visível que estava lutando para manter a fachada. Talvez, se Hermione não estivesse ali, sua mãe teria definhado e morrido de desgosto. E isso aumentava ainda mais a irá de Hermione, contra Draco. Como ele pode deixar seu pai impune? Seria possível que Draco fizesse parte disso? Hermione ficava enfurecida somente de pensar nisso.

O estranho era o fato de que ele havia se mostrado alguém tão gentil, depois que terminaram o ensino médio. Na verdade, ela precisava ser sincera. Ele estava mudado, antes do ensino médio terminar. Parecia persegui-la para todos os cantos do colégio, tentando conseguir sua atenção. Flertando, tentando envolve-la. Os dois nunca ao menos trocaram um beijo, durante aquele tempo. Apenas palavras e conversas trocadas. Mensagens enviadas. Um conhecendo quem era o outro. Ela passou a respeita-lo e ver que ele era um garoto solitário, que comprava a atenção dos outros. Tentou fazer o mesmo com ela, mas Hermione se recusou a fazer aquele papel. Então, o ensinou que não era necessário comprar ninguém, para se ter amigos de verdade. Seria possível que o mesmo garoto profundo que ela conhecera anos atrás, pudesse estar por trás da morte do seu pai? Tinha horror a pensar nisso. A Hermione adolescente ainda se agarrava a imagem de um Draco bom, que apenas teve uma educação péssima. Ela estava um conflito interno. Pois, não sabia se deveria odiá-lo ou ter pena dele.

Hermione caminhou pelo centro da cidade, depois de deixar o carro no estacionamento. Procurava uma loja de armarinho e uma loja que vendesse a maquina de costura que precisava. Estava muito ansiosa para fazer as entregas de roupas. E feliz pelo novo emprego. Gostou muito de Nicolas Linford. Ele parecia ser muito simpático. Ela só não esperava que ele fosse um babaca com o passar do tempo. Torcia para que não. Trabalhar uma galeria de arte era algo muito interessante e enquanto não pudesse lecionar, faria aquele trabalho. Iria apresentar os quadros para os clientes, informar preços, fechar a venda, cuidar do caixa, ajudar com a organização do evento junto aos fornecedores contratados e supervisionar o local. Era algo que Nicolas já fazia, mas ele se sentia sobrecarregado e precisava de alguém para fazer isso por ele. Ele disse com aquelas palavras:

— Eu preciso brilhar nesses eventos, Hermione. Não trabalhar, entende?

Ela acabou rindo disso e ele nem ao menos ficou irritado com ela. Apenas deu um sorriso enorme e não parava de encara-la. Ao se recordar disso, ela percebeu que havia uma tensão sexual ali. E já percebeu que isso não acabaria bem para ela. Não queria se envolver com o chefe. Mesmo que ele fosse lindo, como um deus grego. Estava fora de cogitação.

Hermione encontrou o armário que precisava, comprando tecidos, fio para costura, fio de tricô, botões, zípers, lantejoulas, entre outras coisas, para compor as peças de roupas estilizadas. Pagou tudo com os lucros da loja e perguntou a vendedora se ela sabia onde encontrar uma loja que vendesse máquina de costura.

— É na outra quadra, querida. Quer que eu mande entregar suas compras em sua casa?

— Sim, por favor.

Ela passou o endereço e seguiu para a loja, que a vendedora deu o cartão. Andava tranquilamente, vendo o local estava movimento das pessoas. Não era como Londres, é claro. Mas, mesmo assim podia ver que havia mais pessoas novas na cidade e que nunca vira. E se sentia tranquila, por não ver conhecidos, nem ser reconhecida. Apenas manteria contato com Luna, Harry e tentaria conseguir a confiança de Gina, que fez questão de não falar com ela, por mais que Harry insistisse. Ela estava chegando na loja, quando viu Draco atravessando a rua, com um terno bem cortado, na cor azul metálico. Seus sapatos eram de couro preto e deviam ser tão caros quanto o terno. Com certeza, devia ser um Armani, pela forma que se ajustava ao seu corpo esbelto, com elegância. Ela respirou fundo. Nunca o viu daquele jeito, no modo empresário e ainda, com um rosto mais velho e bonito. O tempo só o fez ficar muito mais atraente. E não ter mais aqueles traços infantis, da adolescência. Seu rosto era oval, mas tinha traços marcantes no maxilar.

Hermione se forçou a entrar na loja e evitar analisa-lo. Precisava se lembrar do quanto o odiava agora e sempre. Contudo, não teve a menor chance. Ele entrara juntamente com ela.

— Hermione, que bom ver você por aqui – ele disse. E parecia um pouco ruborizado.

Ela o fitou, com indiferença. A vendedora da loja parecia atônita ao ver Malfoy em sua loja.

— Veio comprar também uma maquina de costura, Malfoy? — ela debochou e foi até o balcão, ignorando ele – Senhorita, poderia, por favor, me mostrar suas máquinas de costura.

— Sim, sim, senhorita – ela disse, nervosa.

Parecia estar intimidada com a presença do rapaz. O que não era para menos. O que um Malfoy faria em um estabelecimento como aquele, onde vendia maquina de costura e tecido?

— Eu vim falar com você. Faz anos que não nos vemos, Hermione. Não seja tão arredia – ele disse, atrás dela.

Estar tão perto dele a fazia tremer. Além de ansiar pelo seu toque. Quando eram amigos, ele sempre a abraçava beijava seu rosto. Nunca seus lábios, pois ela nunca permitiu. E parecia algo estranho, mas ele mesmo admitiu que era tímido demais para tentar qualquer coisa. Ele poderia ter se mostrado ao mundo que era forte, mas por dentro, era um garoto assustado. E atualmente, um homem muito convencido do seu poder pessoal, isso ela não tinha duvida.

— Eu não quero conversa com você, Malfoy. Acho que nem precisamos falar sobre isso, pela forma como seu pai me ameaçou.

A vendedora retesou ao ouvir isso.

— Hermione, aqui não – ele pediu, em voz baixa.

— Então saia, ou vou fazer um escândalo, de proporções imensas. E então, você vai sofrer tudo que me fez passar, na escola – ela piscou para ele.

Draco estava vermelho de raiva. Até seu pescoço estava com o tom rosado. O que era um deleite para Hermione.

— Muito bem, vou aguardar ali fora. Mas, hoje você não escapa Hermione. Precisamos mesmo conversar.

— Ah, claro. Como se eu fosse trocar mais do que insultos com você.

Ele respirou fundo, contrariado.

— Nós passamos do tempo de escola, Hermione. Você havia me perdoado. Eu pedi desculpas a você. O que mais você quer agora?

— Você deve achar que tenho memória curta, não é? – ela retrucou, irritada – Saia, agora. Ou vai ver do que sou capaz.

Ele apertou os punhos e o maxilar e saiu. Hermione respirou fundo e viu pela vitrine que ele estava olhando para ela. Só que dessa vez, com um sorriso insolente. Ele iria enlouquecê-la, em breve. Por que teve que voltar, era o que se perguntava, enquanto a vendedora, trêmula, mostrava os equipamentos de costura para ela.

Infelizmente, por mais que ela quisesse fugir do passado, ele parecia voltar a tona, na forma de Draco Malfoy, um homem enigmático e talvez, possivelmente, o homem que encobriu a morte do seu pai.