Explicar o inexplicável não era algo fácil para Draco. Ele precisava lidar com muitas perguntas e omitir muitas informações, inclusive sobre quem ele era de fato. Todos na cidade já desconfiavam de que algo estranho acontecia por ali, em toda lua cheia. Infelizmente, para ele e para os habitantes daquele lugar, era algo que não poderia ser parado. Simplesmente pelo fato de sua família ter um acordo muito específico, para ter poder e estabilidade. Se simplesmente cortassem essa ligação mágica, perderiam tudo, pois tudo veio com um preço. O sangue. Draco evitava pensar nisso. Como todo seu patrimônio foi construído. Tudo aquilo, de fato, nem era seu. E quando seu pai morreu, foi um alívio em tanto. Se ele queria continuar com o legado da família? Não mesmo. Não queria ter ligação com tudo que dizia a família Malfoy. Sua mãe estava em desespero por causa disso. A lua cheia se aproximava e era necessário fazer a oferenda de sangue, para aplacar os deuses. Draco estava mais inclinado em pensar que era o próprio diabo. Ele tinha alternativas, é claro. Havia construído seu próprio império, através da exposição de obras de artes, vendendo para os ricos, sem precisar de uma gota de sangue maldito. Além, é claro, de ter sua própria empreiteira. Era algo pequeno, nada grandioso como os negócios da família Malfoy. O único problema que um império não terminava em um dia. Seu declínio viria aos poucos e ele deixaria que tudo que foi construído caísse por terra. Não se preocupava mais com os envolvidos e não tinha nada a perder se os deixasse a míngua. Apesar de seus esforços, é claro, para se desligar de todos os abutres, eles batiam em seu escritório.

O problema da lealdade, quando se comprada, poderia acarretar problemas. E parecia que ele teria que pagar pelos erros do seu pai, pela forma que encarava a lealdade para com seus sócios e amigos. E estava prestes a ver um desses homens e ter que passar minutos desagradáveis ao lado de Alec Nott. Pai do seu amigo, Theodore Nott.

— Senhor Malfoy — Alec entrou, mesmo que sua secretária, Barbara Dawson, tivesse sido avisada que Draco não desejava ser interrompido — É bom ver você meu rapaz. Acreditei que iria para reunião dos investidores, da Construtora Malfoy.

Draco respirou fundo. Aquela não era uma conversa que desejava ter.

— Senhor Nott — Draco disse, apertando a mão estendida do senhor, de cabelos grisalhos, quase brancos. Tão parecido com Theo, com olhos azuis intensos — Eu havia comunicado que não faria parte dessa empresa — Alec franziu os lábios, em claro desagrado — Eu tenho meus negócios a tocar. E com o falecimento do meu pai, espero que possam dar andamento a tudo que diz respeito a Construtora Malfoy — ele deu um sorriso afável, demonstrando todo seu controle emocional.

Alec apertou as mãos, sobre a barriga protuberante. Parecia enfurecido por dentro.

— Bom, eu não posso tocar a empresa, sem o herdeiro. E afinal, o senhor é o herdeiro — ele enfatizou — Isso está no testamento. De que o senhor precisa tomar conta dos negócios.

— Eu entendo perfeitamente, senhor Nott — Draco disse, sabendo muito bem que jogo Alec queria jogar — E já havia informado ao advogado que não teria qualquer relação com os negócios da família Malfoy.

— Como ousa fazer tal coisa, rapaz? Quer destruir a todos nós? — Alec demonstrava toda sua ira, enquanto falava. Estava com o rosto tingido de vermelho.

— Cuidado com o tom que usa comigo, senhor Nott. Eu não faria isso se fosse o senhor — Draco disse, em um tom baixo e frio. Mas, ameaçador. Ele podia ver o peito de Alec subir e descer, pela contrariedade — Não há impedimentos para continuar com os negócios da construtora. Vocês e os investidores podem fazer o que quiserem, até trocar o nome. Eu não me importo.

— Você não tem juízo. É só um maldito moleque — Alec esbravejou — Acha mesmo que vai sobreviver, com essa sua empresa de construção civil? O nome da família Malfoy tem renome. É conhecido, respeitado. Como acha que os clientes vão ficar ao saber que a empresa não está sendo presidida por um Malfoy? — Draco não fez de responder a pergunta retórica — Deixe-me te dizer o que vai acontecer, vão parar de fazer negócios com nossos. Então, em alguns meses, perderemos vários contratos. Até a empresa falir. Você não em noção do que pode acontecer conosco? É um efeito em cascata. Vai nos destruir.

Draco respirou fundo, claramente irritado. E sabia que isso poderia acontecer. Mas, estava pouco se importando.

— Terão meu apoio, mas eu não faço negócios dentro dessa empresa e nenhuma que tenha o nome Malfoy. Eu tenho meus próprios negócios para tocar. Não quer dizer que vou deixa-los sozinhos. Se precisarem de mim em um evento, estarei lá, com prazer. Agora, por favor, peço que se retire. Tenho um cliente em vinte minutos.

Alec parecia que iria explodir. Olhou uma última vez para Draco.

— Não pense que isso acabou, Draco. Eu e você ainda nos veremos, em um futuro próximo. Guarde minhas palavras.

— Anotado, senhor Nott — Draco brindou o homem com um sorriso cínico.

Alec bateu a porta com vidro, com força excessiva ao sair. Por pouco, ela não teria quebrado. O telefone tocou logo em seguida.

— Senhor Malfoy...eu...sinto...muito — era a voz da secretária dele.

— Não se preocupe, Barb, está tudo bem. Ele simplesmente a ignorou e entrou?

— Si...sim senhor — ela respondeu.

— Fique descansada — Draco disse — Peça apenas para que o senhor Rivers entre em seguida, sim? E traga café, por favor. Com adoçante.

— Si...sim senhor — ela respondeu, como se fosse um disco riscado.

Draco desligou o telefone e ficou sorrindo. Ele gostava de ser afrontado, pois assim colocava as pessoas em seus devidos lugares. Afinal, ele era um Malfoy. Ele gostava de mostrar seu poder e influência. Sua empresa estava crescendo, apenas por causa do seu nome. E quanta o do seu pai, realmente poderia perder clientes. Levando muitos investidores a saírem da empresa e homens como Nott perderiam tudo. Não que ele não fosse dar uma chance dentro da sua empresa, mas tudo seria do seu jeito. Para Draco, acabou o tempo em que seu nome abria todas as portas e se não abrisse, seu pai compraria quem ele queria que fizesse o que desejava. Draco acabou reproduzindo muito do comportamento arrogante do seu pai, comprando amigos e influenciando a todos, com sua manipulação. Foi somente quando conheceu uma garota, que percebeu que nada precisava ser daquele jeito. E fora o momento em que percebeu que queria mudar, apenas por causa dela. E com o passar dos anos, por causa de si mesmo e por sua mãe. Ela não merecia nada do sofrimento que passava. Muito menos o homem que Lucius se tornava. Cada vez mais irracional e perdido em seus próprios esquemas. Recebendo pessoas estranhas em sua casa, que pareciam ser do crime organizado. Draco só temia o momento em que precisava enfrentar essas mesmas pessoas. Já havia recusado a entrada daquelas pessoas em sua mansão e contratado guarda costas, para o caso de que algum desses homens quisesse entrar. Até o momento, estava em paz. Mas, não sabia até quando.

Em seguida, teve a reunião com o prefeito, o senhor Rivers. Como sempre, ele queria o serviço da construtora do seu pai, não a dele. Draco teve que explicar mais uma vez a forma que trabalhava e que não faria um orçamento astronômico para reformar uma rodovia. A obra era metade do valor que o prefeito queria que colocasse no orçamento, algo que seu pai fazia com prazer, pois eles dividiam o dinheiro, roubando dos cofres públicos. Rivers parecia muito contrariado e saiu do escritório do mesmo modo que Alec Nott. Draco pensava se valia a pena mesmo continuar naquele ramo, mas estudou engenharia civil e era aquela área que gostava de atuar. O que faria para se sustentar? Vender obras de artes de pintores famosos e também, desconhecidos era algo que dava lucro, mas isso era algo que começou com Nicolas. Era algo que ele amava fazer, pois havia se formado em artes visuais e era um pintor promissor. Ele mesmo vendia seus quadros, que eram muito visados pela alta sociedade.

O telefone tocou mais uma vez, tirando Draco dos pensamentos dele.

— Senhor Malfoy, o senhor Linford está aguardando para falar com o senhor. Peço para ele entrar?

— Por gentileza, Barb. Obrigado. Sem café dessa vez. Traga aquele Chandon para nós e duas taças.

— Sim, senhor.

Em seguida, Nicolas entrou na sala. Seu amigo tinha um porte garboso, com cabelos loiros dourados, olhos azuis claros. Tinha um corpo atlético, que deixava as mulheres deslumbradas. Vestia um terno cinza, com uma gravata azul marinho.

— Então, pela sua cara, não foi nada boa sua tarde – ele disse, com um sorrisinho.

— Não, não foi Nicolas. Não como a sua – Draco respondeu, respirando fundo e se levantando da cadeira giratória. Esticou as pernas e os braços – Sente-se, Nick. Temos muito que comemorar com a nossa nova galeria de arte.

Nicolas sentou-se na cadeira de couro preta e logo em seguida, Barbara entrou com uma bandeja, com o champanhe e a duas taças. Ela deixou na mesa e saiu, não sem antes ser avaliada por Nicolas.

— Pare de secar a minha secretária. Você dormiu com as três últimas e isso me causou uma tremenda dor de cabeça – Draco ralhou, com um olhar enviesado.

Nicolas riu. Era realmente algo que ele fazia. Não se preocupava com quem saísse, desde que fosse bonita.

— Ela é maravilhosa, Draco – ele desenhou as curvas dele, no ar, com as mãos, deixando Draco mais irritado — O que quer que eu faça? Tenho olhos. E ruiva? O que você estava pensando em contratar uma ruiva? Elas são fatais.

Draco respirou fundo, controlando a raiva. Passou a mão pela testa.

— Eu a contratei pela competência, não por sua beleza, Nick. E você, trate de ficar bem longe dela. Ela tem um namorado. E que por acaso é policial. Tenho certeza que ele vai ensina-lo a não mexer com a mulher alheia.

Nicolas sorria, de lado a lado e se reclinou no sofá, à vontade.

— Ah, que medo. Mas, eu não terei culpa se ela cair no meu colo.

— Vamos mudar de assunto, ok? – Draco pediu, quase sem paciência para lidar com o amigo. Nicolas assentiu – Me fale como foram essas semanas na galeria? Nós faturamos muito? Encontrou uma assistente? Soube pelo menos, pelo jornal, que a galeria estava cheia.

Nicolas assentiu.

— Sim. Faturamos muito, meu amigo, assim como em Londres. Aqui parece que há muitas famílias ricas. Eu nem acreditava nisso, quando você insistiu em dizer que havia. E encontrei uma assistente sim. E Draco, posso dizer que estou apaixonado.

Draco gargalhou. Era típico de Nicolas dizer que estava apaixonado por alguém.

— Ah, é? – ele disse, abrindo a garrafa de champanhe. Draco pegou as duas taças em cima da mesa e serviu uma para si e uma para Nicolas – Vamos fazer um brinde ao nosso novo empreendimento. Que venham mais.

— Com certeza virão – eles brindaram e beberam.

— Então, me diga – Draco recostou na escrivaninha – Quem é a mulher que você contratou? Só espero que não tente envolve-la, Nick. Já foi um problema isso em Londres.

— Ah, eu estava pensando em me casar com ela, cara. Pensa em uma mulher inteligente, madura e sexy. Ela tem cabelos cacheados e castanhos. Um castanho quente – ele falava de olhos fechados, com uma expressão de deleite. Draco não conseguia parar de rir – Para, cara. Estou falando sério.

— Claro, com quantas você sonhou em se casar? Deixe-me ver, teve aquela em Paris – Draco enumerava com os dedos, enquanto falava – Outra em Viena. Outra em Londres, ah, teve aquela de Milão. Essa foi a pior. Ela queria matar você.

— Ah, nem me lembra. Nem sei o nome dela, para te dizer – Nicolas deu de ombros – Mas, essa realmente mexeu comigo. Ela nem me deu atenção. Cara, como ela é gostosa e linda. Aqueles olhos cor de âmbar. Não dá pra acreditar.

Draco riu, balançando a cabeça.

— Você já me disse que se apaixonou por uma garota, assim, desse jeito. Ainda fica suspirando por ela – Nicolas disse, contrariado.

— Realmente, sim – ele concordou triste. Não havia como recuperar a confiança de Hermione, não depois do que ela presenciou.

— Quem raios é ele, Draco?

— Prefiro não falar sobre isso, Nick. É passado. Ela é muito importante para mim e não quero que você diga o nome dela. Vai que dá azar.

— Tsc, eu não dou azar. Mas, já que você não perguntou sobre a mulher que roubou meu coração, vou te dizer.

— Então diga – Draco deu de ombros, desinteressado.

— O nome dela é Hermione.

Draco quase se engasgou com o champanhe.

— O que disse?

— O nome dela é Hermione Granger, cara. Você tá bem?

Draco estava se sentindo enjoado. Não poderia ser sua Hermione. Se fosse, ele estaria prestes a cometer um assassinato.

— Eu estou me sentindo um pouco enjoado, só isso – ele respondeu – Como disse que era o nome da mulher?

— Hermione Granger, cara. Algum problema? – Nicolas parecia preocupado.

— Não é nada. É só que...quando ela vai começar a trabalhar com você?

— Amanhã. Vai ter outro evento. Por quê?

— Acho que vou aparecer por lá. Conhecer a jovem que arrebatou seu coração.

— Claro. Mas, eu a vi primeiro sei como é – Nicolas parecia um pouco arredio.

— Não se preocupe com isso.

É claro que poderiam existir outras Hermiones Grangers no mundo, mas só uma tinha olhos ambarinos. E era isso que estava deixando Draco nervoso. Ninguém sabia, mas ele precisava dela. E tê-la perdido, há doze anos, foi o pior erro da sua vida. Depois que ela se foi, ele descobriu o que ele era. E descobriu sua maldição de sangue. E que a sua vida somente dependia de Hermione Granger. Então, ele precisava correr contra o tempo, para tê-la de volta.