Não era algo tão simples dormir em outra casa, mesmo que fosse a mesma casa que se morou anos atrás. Hermione tentava conciliar o sono, mas o vento do lado de fora parecia produzir sons estranhos, como se fosse um lamento. Ela levantou da cama, ainda sonolenta, além de cansada da viagem e percebeu que a janela estava com a cortina aberta. Foi até a janela, colocando a mão na cortina, quando acreditou ter visto um movimento do lado de fora. Uma sombra passou pelo jardim, próximo a árvore. Ela engoliu seco, sentindo medo. Ela sabia que era tolice, pois poderia ser um gato passando, ou o cachorro da sua mãe, Ozzy. Contudo, Ozzy dormia dentro de casa. Ela observou mais um tempo o jardim, ainda se lembrando da época em que Draco a visitava a noite, apenas para conversar. Eles ficavam no jardim, sem que seus pais soubessem, sentados na cama, com as cobertas dela. Passavam horas assim. Nenhum dos dois havia decidido que faculdade fazer, depois da formatura e aproveitavam as férias juntos. Era tão estranho pensar que tudo aquilo que teve com ele iriam terminar de forma tão trágica.

Hermione saiu de perto da janela, depois de fechar as cortinas, sabendo que não havia visto nada estranho do lado de fora, muito menos Draco. Eles não se falavam há anos e por mais ele quisesse uma reaproximação, ele sabia que o motivo do afastamento dos dois foi causado por seu pai e por ele mesmo, ao dizer certas coisas que a magoaram muito. Ela apenas voltou para cama e dormiu, finalmente.

—*-*-*-*-*-

Ela se sentiu estranha, como se estivesse mergulhando profundamente. O ar começou a faltar em seus pulmões. Parecia que iria perder a consciência, quando sentiu algo a arrastar. Ela não via nada, apenas escuridão total. Estava tão bom ali, simplesmente não existindo. Mas, a forçaram a viver novamente. Ela expeliu água, sentindo o ar voltar aos seus pulmões. Alguém tentava falar com ela. Alguém a chamava, com uma voz dolorida. Ela sentiu uma pressão grande sobre o peito e algo empurrar ar sobre sua boca. Abriu os olhos, lentamente, depois de expelir tudo que tinha dentro de si. Estava diante de Draco. Ele estava encharcado. Atrás dele, o rio corria. A ponte que conectava a escola estava ao longe. Ela percebeu que estava deitada sobre um gramado enlameado. Sentiu o toque de Draco em seu rosto. Ele a olhava aliviado.

— Eu te peguei, Hermione. Nunca vou deixar que nada de mal aconteça com você, nunca!

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Hermione acordou se sentindo desorientada. Estava em um novo quarto, um novo ambiente. Era somente isso que se lembrava. Tocou a base da garganta, sentindo a garganta dolorida. O sonho era tão estranho. Empurrou a memória para longe, levantando da cama e percebendo que Bichento estava deitado aos pés da cama, encolhido. Parecia um novelo de lã laranja. Ela abriu a cortina e percebeu que o dia estava nublado. Parecia tão frio e estranho. Ela queria muito ficar na cama, mas precisava trabalhar. Primeiro, iria preparar o café da manhã da sua mãe e depois, iria acessar o site, para ver se havia entregas a serem feitas. Então, procuraria um emprego, afinal, sua mãe não trabalhava mais e precisavam manter a casa e pagar as despesas.

Ela saiu do seu quarto, vestida com um roupão e pantufas. Ainda eram oito horas da manhã. Naquele horário, sua mãe estaria de pé, mas, como tia Muriel havia dito, sua mãe dormia até muito tarde e não queria se alimentar. Como uma pessoa poderia mudar tanto em duas semanas? Era o caso de Rosália, que parecia outra mulher, depois que seu marido morreu. Hermione respirou fundo, contendo a ansiedade. Ela apenas pensava consigo mesma que iria conseguir reerguer sua mãe. Tinha que conseguir.

Desceu as escadas e notou que sua mãe realmente não estava acordada. Nem deveria ficar surpresa, seria assim todos os dias, até que conseguisse superar o luto.

Lavou toda a louça acumulada e deixou água para ferver. Iria fazer um chá para ela e sua mãe, pois era a única coisa que tinha para tomar. Depois, passou um pano na cozinha e nos móveis. Bichento ficou parado na porta de entrada da cozinha, observando tudo com seus olhos treinados.

— Ei, você não pode me julgar. Estou tentando meu melhor aqui — ela disse ao gato, como se ele estivesse desaprovando seu trabalho.

Depois que deixou tudo limpo na cozinha, deixou o chá preto pronto. Procurou na dispensa algo para comer. Não havia nada, apenas a caixa de biscoito inacabada. Foi até fruteira, para ver se havia alguma fruta, mas estavam estragadas. Hermione queria gritar com sua mãe estar sendo tão negligente, mas apenas respirou fundo, contando até dez. Deixou o bule de chá na bancada e guardou a louça lavada. Teria que sair para ir ao mercado, infelizmente.

Subiu as escadas, apenas para trocar de roupa. Saiu da casa pela porta dos fundos. Notou que o quintal estava mal cuidado e a edícula ainda para ser reformada. Estava com telhado coberto com lona. O que significava que o local devia estar molhado devido à chuva. A edícula era usada por seu pai para guardar ferramentas e para usar como local de trabalho. Ele adorava carpintaria e marcenaria. Construiu alguns móveis que estava na casa e o balanço da varanda. Hermione ficou feliz em ainda se lembrar disso.

Ela deu a volta na casa e foi direto para o carro. As ruas estavam desertas e úmidas, devido a chuva da noite passada. Havia poucas janelas abertas na vizinhança. Ali, sempre fora silencioso. Hermione destravou a porta do carro com a chave e entrou. Usou o para-brisa para limpar o resquício de água no vidro frontal. Deu partida no carro e percorreu as ruas. Logo pode ver o movimento de pessoas indo e vindo. Uma chamou sua atenção. Tinha cabelos ruivos e longos, segurando uma criança de cabelos negros pela mão, indo na direção contrária a que ela fazia. Estavam na calçada e parecia que a criança estava indo para a escola, devido a bolsa em suas costas. Hermione sabia que era ela. Parou o carro no acostamento, com o coração aos pulos e atravessou a rua, sem ver se vinha passando um carro. Tentou alcançar a criança e a mãe.

— Gina, Gina! — ela chamou.

A ruiva virou para trás e estacou. O menino de cabelos negros também virou, olhando para Hermione com curiosidade. Tinha os mesmos olhos verdes de Harry. — Sou eu Gina, Hermione.

A ruiva estava surpresa de ver Hermione a sua frente, mas logo seu rosto se tornou uma carranca.

— Não acredito que você tem a capacidade de falar comigo depois de anos! — ela disse com o tom um pouco mais alto, demonstrando decepção.

Hermione engoliu seco. Ela sabia que havia errado ao sair às pressas de Nova Esperança. Nem ao menos disse onde morava para os amigos. Na verdade, a única pessoa que gostaria de ter mantido amizade era com Gina, mas nem isso conseguiu. Teve medo que Harry não permitisse a amizade, além de eles contaram onde ela estava para Lucius ou Draco. Depois do que testemunhara, o melhor era se manter anônima. Não sabia do que Lucius era capaz. Sabia que Draco não era assim, perigoso, mas ele não poderia fazer nada por ela.

— Gina, eu sinto muito. Se soubesse o motivo de eu ter sumido todo esse tempo...eu... — estava engasgada com as palavras.

Gina a fitou com escárnio.

— Mãe, quem é ela? — o menino perguntou, olhando para Hermione.

— Ninguém, Alvo, vamos para escola — ela deu as a Hermione, puxando a criança.

Hermione sentiu o coração se apertar por ver a indiferença da sua única melhor amiga. Que na verdade, não era mais. Contudo, ela não desistiu, tentando alcança-la.

— Gina, por favor, me escuta.

A ruiva continuou a andar.

— Gina!

— Não há o que falar, Hermione. Você fez seu caminho quando decidiu abandonar seus amigos. Não sabe o quanto eu, Harry e Rony sofremos com sua indiferença.

— Rony nunca sofreria com isso, quando ele decidiu simplesmente me tratar mal por ser amiga de Draco. E Harry muito menos!

Gina continuou andando, apressando o passo, quase fazendo Alvo cair na calçada.

— Mãe, esta machucando – o menino disse.

— Desculpe querido – ela falou. Olhou de canto para Hermione, que não desistia de persegui-la. Alguns vizinhos passavam por elas, olhando-as com curiosidade – Eu não quero ter essa conversa com você agora, Hermione. Estou levando meu filho para a escola.

— Então me deixe leva-los – ela ofereceu, na intenção de continuar aquela conversa.

— Não mesmo – Gina era orgulhosa e não deixaria que a ajudassem – E outra, no momento que você deixou essa cidade, passou a não existir para nós. Agora, vá embora. Volta para aonde quer que tenha vindo!

Hermione estacou o passo, se sentindo rejeitada. Os olhos embaçados. Viu a ruiva se afastar cada vez mais, com o filho que tinha as pernas muito curtas. Devia ter por volta de oito anos de idade. Hermione soluçou, de repente, sentindo toda sua força ser tirada dela. Foi o mais depressa possível para seu carro e se trancou lá, dando vazão para seus sentimentos represados. Sabia que havia cometido um erro, ao ter saído da cidade daquela maneira. Apenas não imaginava que seria tão ruim assim e que estaria sozinha, literalmente. Sua mãe não estava bem, seu pai estava morto. Sua melhor amiga estava indignada com razão. Ela só queria nunca ter voltado para aquele lugar.

Uma batida na janela a despertou e ela olhou para o lado, se assustando ao ver um rosto muito familiar. Baixou o vidro e se deparou com Harry, com uma roupa de policial e um distintivo.

— Bom isso é uma surpresa em tanto. Jurava que não poderia ser você – ele disse, mirando ela com seus olhos verdes esmeraldas.

Estava com a barba despontando do queixo e do maxilar e seus cabelos estavam finalmente domados. Os óculos redondos não existiam mais, provavelmente usava lentes de contato. Ele havia mudado muito. O tempo o deixou muito bonito e charmoso. Gina tinha sorte de ter se casado com seu amigo de infância e isso aqueceu o peito de Hermione. Pelo menos, eles tinham uma família.

— Olá Harry – ela disse, com a voz tensa – Veio me multar?

Harry riu, jovial.

— Eu não vim. Mas, sugiro que tire seu carro em breve. Essa é uma vaga para apenas uma hora – ele disse, sorrindo – Saia do carro, por favor. Quero vê-la melhor.

Hermione abriu a porta, quando Harry se afastou. Estava tremula e não sabia onde colocar as mãos. Harry a analisou, de cima abaixo, com um olhar sério.

— Parece que não mudou nadinha – ele brincou.

— Conta outra Harry, até você mudou – estava gostando da forma que ele estava quebrando o gelo entre os dois, depois de tanto tempo sem se falar.

Ele sorriu, ladino.

— É, realmente, posso dizer que estava mais bonita com esse cabelo. O que fez nele?

Ela tocou a massa dos seus cabelos, mais domados e comportados.

— Apenas cuidados básicos – ela respondeu.

— Bom, bom – ele disse, com as mãos dentro da calça social cinza. Parecia que o silêncio iria tomar conta e se tornar constrangedor, quando ele disse: — Eu estava esperando que você chegasse. Sua tia, Muriel havia me deixado a par. Temos muito que conversar.

Hermione sentiu o estomago embrulhar, de repente. O que eles teriam para conversar? Talvez, sobre onde ela estava. Mas, nada tão sério, quanto o olhar dele sugeria. A atitude amigável de Harry também a pegou, desprevenida. Eles haviam brigado, quando ele descobriu seu envolvimento com Draco. Era bem visível que Harry era um inimigo declarado da família Malfoy, depois das investigações feitas com relação a mortes dos pais de Harry. Eles morreram por circunstâncias suspeitas, depois de que o pai de Harry tentou romper a sociedade que tinha com Lucius, na empresa de engenharia que tinha em conjunto. A mãe e o pai de Harry morreram em um acidente de carro, quando Harry ainda tinha apenas dez anos. E Hermione o trouxe para sua casa, depois da escola e disse que ela e seus pais seriam sua nova família. Desde então, eles se tornaram inseparáveis.

— O que precisamos conversar? – Hermione perguntou, quando Harry não disse mais nada.

— Eu preferia que viesse até minha casa, Hermione – Harry respondeu, sem transparecer nada – Vai precisar saber sobre as circunstâncias quanto à morte do seu pai. E não queria falar aqui, diante de olhares curiosos.

A cidade tinha um sério problema com fofoqueiras. Havia muitos aposentados e senhoras por ali, que gostavam de uma boa fofoca. E ainda mais quando se tratava do trio, Granger, Potter e Weasley. Ainda mais quando eles se envolviam em confusão, relacionada à Malfoy.

— Não posso ir, Gina, ela...não me quer por perto.

— Se quer a verdade, ela ficou arrasada, Hermione. Eu também. Muito, na verdade – ele demonstrou pela primeira vez decepção no olhar – Eu não imaginava que seriamos esquecidos tão fácil. Que nos abandonaria para ficar com um jogador e morar em Londres.

— Você sabia onde eu estava? – Hermione perguntou, tensa – Eu tentei explicar a vocês meus motivos, mas tive medo...eu tive...

Harry segurou a mão dela, fazendo-a parar de falar. Tinha um olhar compreensivo.

— Seja o que tenha a colocado para fora dessa cidade e que teve medo de voltar, acredito que eu saiba do que se trata. Mas, não vamos falar sobre isso agora. Espero você na minha casa, às seis da tarde.

Hermione assentiu, aliviada. Sabia que quando voltasse, não poderia fugir do interrogatório. Nem ao menos de Lucius. Mas, graças a alguma força superior, ele estava a sete palmos do chão. Onde ele deveria apodrecer e ter seu julgamento. Se existia um inferno, ela esperava que ele estivesse lá.

— Está bem. Você está na mesma casa? – ela perguntou.

Harry havia herdado a casa dos pais e seus tios a ocuparam, até ele completar dezoito anos. Foram anos difíceis, cheio de intrigas e ofensas. Anos em que Harry passou fome e tudo de ruim que uma criança nunca deveria passar. Os tios foram acusados de maus tratos por Arthur Weasley, pai de Rony e Gina. E ele mesmo se encarregou de cuidar do garoto, até que Harry se formasse e conseguiram expulsar os Dursley da casa.

— Sim – ele respondeu, não demonstrando nada além de um sorriso afável – Nos vemos lá, Hermione. Preciso saber se você ainda é a mesma garota do interior, ou metida da cidade.

Hermione riu. Eles se despediram, um aperto de mão, pois parecia que abraços já era um passo muito grande para se dar diante do abismo que se formou entre eles durante os anos incomunicáveis. Ela entrou no carro, em seguida e seguiu para o mercado mais próximo. Ao estacionar, não imaginava que encontraria Pansy Parkinson e Thedore Nott, de mãos dadas. Hermione fingiu não vê-los e passou por eles. Contudo, parecia que aquele dia não seria seu dia de sorte.

— Olha, olha – Pansy falou com desdém – Se não é a pobretona da Hermione Granger.

— Pansy, pare, estamos no estacionamento do mercado – Theodore disse, de voz baixa, mas Hermione conseguiu escuta-lo.

Hermione se virou, encarando Pansy com indiferença. Cruzou os braços, esperando os mesmos insultos que ouvia todos os anos. Cabelo de vassoura, sabe-tudo, pobretona e a vadia do Potter. Esse era o preferido de Pansy, que acreditava que os dois tivessem um caso.

— Parece que você não conseguiu o que queria, Granger – ela ignorou o namorado ou marido. Hermione não sabia o que aconteceu entre os dois. Pansy continuava com os mesmos cabelos negros, cortados rentes na nuca, com máquina zero e na altura do queixo. Já Theodore, estava com os cabelos castanhos e com alguns pontos grisalhos, nas têmporas. O tempo fez bem aos dois, que pareciam ainda mais bonitos do que nos tempos de escola – Soube que seu namorado, Vitor Krum a traiu tanto. Deve estar cheia de galhos – ela indicou com a cabeça. Hermione ignorou a alfinetada. Não era como se amasse Krum – É por isso que voltou? Por que não tem um tostão para se sustentar?

— Pansy, por Deus – Theodore tentou puxa-la pela mão.

Pansy parecia ter gravado os saltos pretos no chão.

— Não mesmo, Theo. Ela vai me ouvir. Se não fosse pelo amante dela, a droga do santo Potter, meu pai não teria sido preso!

Isso interessou muito Hermione, que aguçou a audição.

— Seu pai foi preso, querida Pansy? – ela perguntou, com falsa amabilidade. Pansy a encarou com os olhos fulminantes – Todo mundo sabia que seu pai era corrupto, Pansy. Era só questão de tempo.

— É Nott para você. Não lhe dei o direito de me chamar pelo nome! – ela trovejou.

— Ó é mesmo? Nott? Cada vez mais descendo seu nível. Sim ofensas Theodore, você sempre foi o melhor Nott da sua família.

— Granger, saia daqui. Eu posso não querer brigar, mas não vou segura-la se continuar a provocação – Theodore disse, com raiva, segurando Pansy pela cintura.

Hermione deu de ombros e entrou no mercado, pelas portas automáticas. Sentiu-se vingada, pela primeira vez. Ainda conseguiu ouvir Theodore dizer a sua esposa que ela não precisava ser presa de novo por agressão. Hermione riu baixinho. Fez as compras no mercado, com muita tranquilidade. Até mesmo sua mãe ligou, perguntando onde ela estava. Hermione a deixou tranquila, dizendo que estava no mercado. Iria deixar a dispensa cheia. Principalmente com potes de geleia de amora, que eram os preferidos da sua mãe. Ela passou no caixa e se surpreendeu ao ver Luna Lovegood, uma garota que estudava com ela no colégio. Luna era conhecida por ser mística e acreditar em espíritos e tudo que fosse relacionado ao sobrenatural. Ela olhava para a tela do computador, enquanto passava a compra e embalava. Parecia não ter notado Hermione ali. Colocou uma mecha de cabelo loiros atrás da orelha e disse:

— Mais alguma coisa, senhorita...? – ela levantou os olhos azuis, para encarar Hermione e ficou boquiaberta.

— Oi Luna – Hermione disse, com um sorriso.

— Ah, meu Deus, eu sabia que minha intuição não iria falhar. É você mesma – ela disse, entusiasmada – Eu pensei em você todos esses anos. Sabia que estava sofrendo onde estava. E que veio por seu pai...eu sei que parece loucura, mas...

— Luna, querida, foque nas compras — O dono do mercado veio para perto dela. Era seu pai, Xenofilio Lovegood – Desculpe-me senhorita. Luna adora muito conversar e se esquece...- ele também arregalou os olhos quando viu Hermione – Filha, não é que você tinha razão e Granger iria aparecer no meu mercado?

— Eu disse, não disse? – Luna sorriu.

Hermione ainda mais. Era bom ver os Lovegood. Luna conteve a ansiedade e embalou todas as compras. Elas trocaram os números de telefone e Hermione prometeu que iria passar na casa dela, depois das sete da noite, já que havia combinado de ver Harry às seis horas. Saiu do mercado, que parecia estar fazendo muito sucesso. Era um mercado grande e focava muito em produtos importados e naturais, ao estilo de Luna Lovegood. Hermione sorriu, ao entrar no carro com as compras. Ao menos, alguém ainda gostava dela naquela cidade. E era Luna, que sempre foi um pouco rejeitada por todos na escola, até pelo grupo o qual Hermione fazia parte.

—*-*-*-*-*-

— Aquele seu amigo, como é nome dele mesmo...- Rosália disse, pensativa, mexendo na panela. Estava fazendo um molho de tomate para o macarrão – Draco Malfoy, esse mesmo. Ele veio aqui procurando por você, quando você estava no mercado. Ele deixou flores para você. Coloquei na água – Hermione olhou para as rosas brancas, sobre o jarro. Não iria tacar fogo no presente, mas essa era sua maior vontade.

Hermione revirou os olhos. Ela apostava que Draco veio para tentar faze-la ficar calada quanto ao pai dele, não por uma suposta paixão por ela. E se ele pensava que ela iria esquecer o que aconteceu, estava bem enganado. Lucius estava morto. Não causava mais problemas, mas iria contar tudo a Harry. Tudo o que aconteceu com Amélia Bulstrode, no Halloween. Todas acreditavam que ela havia desaparecido. Seu corpo nunca foi encontrado. Mas, Hermione sabia muito bem o que havia acontecido. Apenas teve medo de contar, medo de ficar na cidade.

— Mãe, não quero que a senhora converse com Malfoy – Hermione pediu, enquanto preparava a salada em uma travessa – Ele é perigoso. Um cara ruim.

— Não acho isso. Ele tinha uma aura especial – a mãe dela discordou e olhou para Hermione – Você esta com uma aura cinzenta, querida. Está triste?

Hermione respirou fundo, para conter a vontade de retrucar sua mãe. Nunca acreditou naquelas bobagens de auras. Não sabia que sua mãe também acreditava nisso.

— Mãe, desde quando você acredita nisso?

— Desde sempre. É que eu nunca disse. Eu vejo querida. Desde pequena – Ela voltou a mexer na panela, cantarolando – Eu estava bem triste, querida. Eu sinto muito por causar tanto trabalho. Mas, é tão bom ter você aqui em casa.

Hermione se condoeu por isso e abraçou sua mãe pelas costas, beijando a bochecha dela.

— Mãe, não se preocupe. Vamos superar o que houve – Hermione disse.

— Vamos sim. Posso não ter seu pai como antes, mas tudo vai ser melhor agora, com você aqui, querida.

Hermione ficou aliviada a ver que sua mãe não tocou no nome do pai, como se ele estivesse vivo. Ao menos isso ela não teria que se preocupar. As duas almoçaram juntas, depois, na cozinha e limparam a casa. Depois, Hermione correu para o quarto, para comprar uma máquina de costura. Precisava urgente. Em suas pesquisas, não encontrou uma que pudesse ser entregue no seu endereço. Suspirou, desanimada. Estava com uma entrega de roupas para dali duas semanas. Precisava urgente da máquina e de tecido. O que iria fazer?

Depois, procurou anúncios de emprego, mas não havia um anuncio para trabalhar em alguma escola por ali. Precisaria fazer contatos, para ser contratada. Sua mãe bateu na porta, depois de um tempo, enquanto Hermione tentava pensar em uma alternativa para conseguir dinheiro.

— Entre mãe – ela disse.

— Filha, o que esta fazendo aí trancada? – Rosália perguntou, com a porta entreaberta.

— Procurando um emprego. E onde encontrar uma máquina de costura para comprar. Mas, acho que vou ter que procurar pela cidade, né?

Parecia que Nova Esperança não havia aderido ao meio digital. Quase não havia sites de empresas que ela encontrasse no Google. Teria que rodar a cidade procurando um armarinho e uma loja que vendesse a máquina. Não deveria ser tão difícil, é claro. Ainda se lembrava de como se localizar por ali.

— Ah, querida não se preocupe – Rosália disse – Eu vou reabrir o consultório de dentista. Não precisa se preocupar com emprego. Apenas foque na sua loja de roupas.

— Mas, mãe, a senhora perdeu a renda do papai. Vai precisar de toda a ajuda possível...

— Querida, se quer mesmo ajudar, soube que precisam de uma assistente em uma galeria de arte, no centro da cidade. Abriu faz pouco tempo e esta vendendo quadros de artistas independentes. Acho que você vai gostar.

— É, pode ser – Hermione disse, dando de ombros – Então, vou sair para procurar a máquina de costura e ver esse emprego.

— Faça isso, querida — ela sorriu – Agora, pode me ajudar com o jardim? Está uma bagunça no quintal e não tinha vontade de mexer com isso.

Hermione assentiu e se levantou da cadeira, fechando o notebook em cima da escrivaninha. Ajudou sua mãe, a tarde toda. O trabalho era um pouco mais pesado do que imaginava. Precisaram arrastar madeira velha para frente de casa, além de cortar a grama e tirar ervas daninha. Depois, abriram a edícula, que estava com tudo encharcado, devido à chuva.

— Vou ter que chamar alguém para consertar esse telhado, filha – Rosália disse, olhando para o estrago que estava no teto. Era possível ver a lona que cobria o telhado – Já sei até quem poderia fazer isso.

— Quem mãe? – Hermione perguntou.

— Aquele seu amigo, Ronald Weasley – ela respondeu.

— Não, mãe, não, não mesmo – Hermione ficou em desespero, só de pensar em ver Rony novamente. Ele deveria odiá-la ainda, depois de terem terminado no ensino médio.

— Está bem, vou ver quem chamar. Mas, ele parece tão confiável. Ele tem a própria empreiteira dele, acredita? Ótimo com construção civil.

— Bom pra ele mãe, mas não quero ele aqui – ela cruzou os braços sobre o peito.

— Ó, esta bem querida.

Sua mãe nem parecia à mesma mulher que viu no dia anterior. Parecia ter florescido. Mas, logo dava os sinais de estar ficando apática. Quando era cinco horas, ela disse que iria tomar um banho e deitar.

— Mas, já mãe?

— Sim, querida. Esse dia foi cansativo – ela respondeu – Aproveite para sair com os amigos. Aposto que eles sentem sua falta.

Ela não queria contar que na verdade, somente Luna parecia animada pela sua volta. Quando sua mãe subiu as escadas, Hermione aproveitou para tomar um banho também e trocar de roupa. Apenas chegou se estava tudo bem com sua mãe, que já estava deitada na cama. Ela estava deitada, no meio da cama, com os cobertores a cobrindo e abraçando um travesseiro. Sentiu pena dela, por ter perdido o marido tão cedo. Engoliu seco e resolveu que era hora de sair e saber o que Harry queria dizer sobre a morte do seu pai.

Hermione dirigiu, com o coração opresso. O céu já estava escurecendo, mesmo sendo seis horas da tarde. As ruas estavam quase vazias. Algumas pessoas passeavam pela calçada com seus cachorros, outras voltavam do trabalho. Alguns carros estavam passando. Hermione passou pela mansão Malfoy. Surpreendeu-se por vê-la igual, sem parecer nem um pouco deteriorada. Até mesmo, parecia mais moderna. Era uma das poucas casas que tinham portões altos, naquele bairro. Ela seguiu adiante, sem parar. Não iria ficar recordando do seu tempo dentro daquela mansão e como fora tratada mal. Talvez, Narcisa fosse um pouco mais educada, é claro, mas era visível que ela queria seu filho casado com Astória Greengrass e não andando com a pobretona da Granger.

Depois de vinte minutos, Hermione chegou a casa Harry. Era uma casa rodeada por pinheiros, em frente a um lago. Era uma casa de madeira, muito moderna, com janelões. Ela parou o carro ao lado de um carro de polícia. Devia ser o carro de Harry. Ela saiu do carro, travando as portas e acionando o alarme com o controle e viu a vista do lado. Era lindo. Havia até um deck, onde estava amarrado um barco de pescaria. Próximo ao deck, dois meninos brincavam com carrinhos, no chão. Tinham cabelos negros, com os de Harry. Hermione ficou comovida ao ver aquela cena. Quanto ela havia perdido da vida do amigo? A porta da frente se abriu e ela viu Harry, agora, vestido com roupas de civil. Calça jeans, cardigã quadriculado e tênis de lona. Até seus óculos redondos haviam voltado. E a sua frente, uma menina ruiva, pequenina, corria para perto dos meninos.

Harry viu Hermione, parada, atônita.

— Três filhos, senhor Potter? – ela perguntou, em um tom jocoso.

— Eu disse que queria um time de futebol, mas Gina iria decepar minha cabeça – ele respondeu.

Ela não pode deixar de rir e isso contagiou seu amigo.

— É bom ver você, Hermione. Senti muito sua falta. É muito desleal comigo – ele disse, em tom de brincadeira, mas parecia chateado.

— Harry, eu sinto tanto...eu sinto...

— Está bem. Vamos parar por ai. Tenho noticias para dar. E acho que você precisa de uma bebida agora.

— E Gina? – ela temia ver a amiga e Gina a rejeitar.

— Gina concordou em recebê-la, desde que ela não tenha que falar com você.

— Nossa isso é muito reconfortante – Hermione ironizou.

— Ei, eu tentei – Harry levantou as mãos para cima – Sinceramente, ela quer me matar por isso. E por causa de você, estou sem sexo por duas semanas.

— Não quero ouvir detalhes – Hermione tapou os ouvidos.

Harry gargalhou. Parecia que os dois voltaram aos mesmos termos. Aquela amizade simples e sincera. Ele a convidou para entrar e ela percebeu que a casa continuava do mesmo jeito. Com os móveis da família Potter, a mesma lareira na sala enorme, com piso de madeira muito bem tratada. Fotos da família estavam espalhadas pelas paredes da sala. Havia até mesmo do casamento de Harry. Gina estava com um vestido branco de noiva, no colo de Harry, que trajava um terno preto. Eles pareciam muito felizes. Hermione passou o dedo indicador pela foto na parede, se sentindo mal.

— Hermione, sente-se — Harry convidou — Eu amo essa foto — ele falou, olhando para foto na parede, enquanto Hermione se sentava na poltrona. Ele se sentou no sofá, com uma garrafa de scotch. Um whisky escocês. Serviu dois copos de cristal e entregou um a Hermione. Ela pegou e sentiu o aroma, tomando um gole.

— Então, o que tem a morte do meu pai, Harry?

O rosto dele transpareceu toda a tristeza que sentia, ao dizer algo que Hermione nunca imaginou que iria ouvir.

— Eu sinto muito, Hermione. Seu pai não morreu de causas naturais, mas foi assassinado.