Notas iniciais
Hoje estou inspirada. Não estranhe se eu demorar para postar depois kkkkkk

Atrás da porta cor de sangue (Behind The Crimson Door — Banda HIM)
Cobri a carcaça do tempo com flores
Para mandar o cheiro da culpa para o túmulo
Ateei fogo nos pensamentos mais obscuros
E assisti às cinzas subirem até os portões do Paraíso
Nos escondemos atrás da porta cor de sangue
Enquanto o Verão é assassinado pelo Outono
Vivos atrás da porta cor de sangue
Enquanto o inverno canta:
"Seu amor será minha morte"

A chuva parou de cair, depois de duas horas. Hermione revirava seu antigo quarto, nesse período, procurando lembranças do seu passado. Encontrou dentro do closet um baú, com fotos polaroid e uma câmera polaroid. Ela sentou no chão, com a câmera e fitou aquele objeto antigo com saudosismo. Amava fotos com câmeras antigas. Tirava muitas com seu pai, quando criança e adolescente. Tudo mudou para os dois, quando ela completou dezoito anos. Quando ela quis fugir da sua cidade com Vitor Krum e seguir em frente. Esquecer de Draco e de Lucius. Do que viu na mata. Fechou os olhos. O sangue espalhado, o cheiro acre ainda invadia suas narinas. Ela abriu os olhos, tensa. Largou a câmera e resolveu dar atenção as fotos dentro do baú. Eram tantas fotos, desde que era pequena, até seu aniversário de dezoito anos. Sua formatura, seu primeiro beijo com Rony. O primeiro beijo de Harry com Gina. Passou o dedo indicador nas fotos, feliz por aquele passado tão bonito. Tudo ali cheirava a naftalina e mofo, mas eram fotos queridas para ela. Uma foto chamou sua atenção na pilha, feita no chão e ela a pegou. Era uma foto sua, sentada na varanda, com um vestido branco, com a cintura estilo império, com mangas curtas. Ao seu lado, Draco olhava para ela, com os cabelos arrepiados e loiros. Trajava roupas pretas. Sempre de roupas pretas e elegantes. Com uma camisa preta, de botões, calça preta jeans e tênis preto de lona. Ele olhava para ela com paixão. Ela deixou a foto dentro do baú. Aquela ela não conseguia rasgar.

Encontrou diários do seu tempo de adolescência. Pegou um deles, de capa de couro rosa. Abriu e folheou. Encontrou corações com o nome dela e de Rony. Riu, sozinha, vendo aquilo. Era tão tola assim? Provavelmente era. Mas, era muito feliz. Rony teria sido um ótimo marido. Ela nem sabia como ele estava atualmente. Haviam parado de se falar, quando ele descobriu que ela era amiga de Draco Malfoy. Ninguém na cidade gostava daquela família. Os acusavam de serem assassinos frios e cruéis. De ter esquema com o prefeito da cidade, que na época quem era o prefeito era Barnaby Nott. Que qualquer obra feita pela empresa Malfoy, na cidade, eles recebiam a mais por isso. Acusavam eles de corrupção e de serem desleais nos negócios. Mas, todos respeitavam eles, pelo medo. Era quase como se fossem da máfia, mas eles eram discretos, provavelmente. Hermione revirou os olhos, ao pensar quanta bobagem aquelas pessoas diziam. Contudo, ela era testemunha de algo estranho, isso era fato. E nem queria pensar nisso. Fechou o diário e deixou no baú. Pegou outro, que tinha o desenho de uma borboleta e abriu. O que estava escrito chamou sua atenção imediatamente.

“Hoje parece que Draco está para me perseguir. Como ele ousa pegar minhas canetas? Aquele idiota.”

Hermione riu, com gosto. Draco era tão infantil assim? As próximas páginas eram dedicadas ao loiro, discorrendo sobre formas de mata-lo. Ela até mesmo pensou em joga-lo da ponte, que ficava perto da escola em que estudavam. Na verdade, muitos alunos queriam fazer isso, por causa da forma que Draco era visto, como o rei dentro da escola. A família tinha ações na bolsa, e uma empresa de engenharia, que era sempre contratada pela prefeitura. Não havia nem chance para abrir uma licitação, o que era o mais correto se fazer quando se fazia uma obra. Ela revirou os olhos. Estava bem visível porque todos na cidade odiavam eles. Eram os mais bem sucedidos e circulavam na alta sociedade. Não ficavam somente naquela cidade, mas rodavam por toda Inglaterra e Europa.

Hermione encontrou outro trecho interessante no diário. Era do tempo emq ue Draco pareceu mudar seu comportamento. A escola havia terminado, ela se formou e terminou com Rony, naquela época.

“Todos os dias ele passa em frente à minha janela e atira uma pedrinha. Ele simplesmente abre o portão de ferro e passa, como se fosse meu dono. Ele quer conversar o tempo todo comigo. Às vezes, eu dou atenção, mas em outras vezes, fecho a janela com força e volto a desenhar. Hoje desenhei seu rosto. Seus traços estão ficando marcantes. Por que ele precisa ser tão bonito? Por que seus lábios são tão vermelhos? Ele é tão pálido. Harry já o acusou de ser um vampiro. O que de fato não pode ser. Primeiro, porque um vampiro não anda sobre a luz do sol. Segundo que vampiros não existem, certo?

Queria saber por que ele continua jogando as pedrinhas na minha janela. Por que ele parece ser tão insistente.

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Voltei. Eu sai com ele hoje e nem acredito. Ele me disse que meus cabelos são bonitos. Dá pra acreditar nisso? Ele disse que eu era uma vassoura, no terceiro ano. Como posso acreditar nele agora? Se bem que eu estou lavando meu cabelo e fazendo hidratação. Dicas de Gina. Rsrsrs.

Mas, falando sério, hoje eu notei que os olhos dele pareciam estranhos. Mais cinzas, sabe? E suas pupilas pareciam fendas. Estou ficando louca? Talvez. Ele não parou de me encarar, enquanto eu desenhava. E até tirou o caderno da minha mão. Eu juro, eu juro mesmo que ele ia me beijar. Como sou idiota. Ele não me beijou nenhuma vez. Apenas conversou comigo, como se fossemos íntimos.”

Aquele altura da leitura, Hermione fechou com força o diário. Colocaria fogo naquilo, em breve. Colocou dentro do baú tudo que encontrou e o fechou. Ficou com as mãos em cima da madeira, sentindo o coração acelerado e os olhos rasos. Não queria se lembrar de nada daquilo. Tudo começara depois da formatura. Agora ela se lembrava. Ele parecia outra pessoa. Alguém interessado nela. Mas, ele nunca estivera. Era tudo uma mentira. Tudo uma aposta. Ela riu consigo mesma. Deveria parar de sonhar com contos de fadas. Foi o que sempre fez. Com Vitor, fora infeliz e sabia que nunca iria encontrar o amor, por mais que isso parecesse possível. As pessoas, com o tempo, mostravam o que eram e achavam enfadonhas suas relações, se desligando aos poucos, com o passar dos meses e dos anos. Então, simplesmente traiam, mentiam, machucavam. Ela se considerava uma pessoal leal, é claro. Firme em seus propósitos. O que era difícil encontrar em uma pessoa. Nem todos pensavam como ela, como sua mãe e seu pai. De que o casamento ou até mesmo a união entre duas pessoas, mesmo que não abençoadas por Deus, deveria ser levada muito a sério. E deveria ser respeitada até o fim da vida, ou até que não houvesse mais aquela ligação que tinham no começo. Ela pensou que Vitor poderia ter dito que não a queria mais. Seria tão mais fácil. Ela seguiria o caminho dela e ele o dele. E então não teria encontrado as fotos em um site de fofoca e nunca teria sido tratada com desrespeito por seus colegas de faculdade. Estavam fazendo chacota com ela. Hermione entrou em depressão, naquela época. Precisou fazer terapia para se recuperar e odiava Vitor por isso, por tê-la exposto ao ridículo. Por que simplesmente não disse que não a queria mais? Tudo seria tão mais fácil.

Hermione escutou o miado de Bichento, parecendo reclamar atenção. Ela o pegou no colo e acariciou seus pelos, mas ele se remexeu, parecendo querer fugir dos seus braços. Ela o colocou no chão e lembrou da comida dele. Pegou dentro de uma das suas bolsas o pote de ração dele e o saco de ração. Colocou o pote, com a ração dentro, ao lado da cama e pegou outro pote para água. Abriu a porta do quarto, rumando para o banheiro, que era ao lado e notou que os azulejos estavam maltratados. Era em tons brancos, com flores. Aquele banheiro precisava de uma limpeza urgente. Hermione fez uma careta. Só faria isso depois. Pegou água da torneira e voltou para o quarto, deixando o pote com água ao lado da ração. Bichento já atacava a comida, com avidez. Ela se sentiu mal por tê-lo negligenciado.

Com a porta aberta, escutou o piano do seu pai ecoar. O piano de parede ficava na sala de estar, no andar térreo da casa. Sua mãe deveria estar tocando. Ela saiu do quarto e passou pelo corredor, descendo as escadas. Estava animada para vê-la tocar. Quando estava chegando na sala, o som havia parado. Ela entrou e pode ver sua mãe sentada, lendo um livro. Fora tão rápido a troca de afazeres? Jurava que escutara o piano sendo tocado, até quase o momento de entrar na sala.

— Oi mãe – Hermione disse, animada por vê-la sentada, sem roupão. Estava com uma calça jeans, camisa rosa de manga comprida e os chinelos sobre os pés.

Rosália levantou a cabeça, fechando o livro. Ainda tinha um olhar inexpressivo, como se estivesse apática. Tia Muriel havia avisado que sua mãe havia consultado um psiquiatra, por insistência dela. Será que ela estava tomando os remédios?

— Hermione, sabia que seu pai esteve aqui? – ela perguntou.

Hermione fez uma careta de desgosto. Ela iria continuar com aquilo?

— Mãe, tem certeza disso...é que...- como ela poderia argumentar?

— Eu juro que estava. Não escutou a música preferida dele? Era ele quem tocava no piano – ela disse, com um sorriso sonhador.

Hermione esfregou a mão na testa. Ao que parecia, sua mãe estava delirando. O que a preocupava muito. Mas, em todas as famílias, haviam aqueles problemas e cada um enfrentava seu inferno pessoal. Sua mãe estava passando por isso e precisava de ajuda. E não ser julgada por isso. Resolveu ir por outro caminho, ignorando o que ela disse.

— Mãe, que tal eu fazer um chá? Está frio e queria muito assistir tv com você e comer biscoitos – ela disse, com um sorriso afável, quase treinado.

Isso pareceu despertar o interesse de Rosália. Ela sorriu e seu rosto se iluminou.

— Lembro do tempo que você era bem novinha – ela disse, parecendo ver através de Hermione – Você era tão doce, querida. Me abraçava pelas pernas, onde fosse. E você adorava tomar chá com...

— Com biscoitos – Hermione completou, com um sorriso enorme. O afastamento entre elas estava diminuindo e isso aliava seu coração – Então, vou fazer o chá e pegar os biscoitos. A senhora ainda deixa aqueles caixas de biscoitos guardados na despensa?

Era comum sua mãe comprar bolachas dentro de caixas de metal, decorados. Era algo só deles. Os biscoitos era açucarados e colocados empilhados, um em cima do outro, até forrar a caixa. E ainda vinham com forminhas de papel. Os biscoitos eram de vários formatos. Alguns eram quadrados, outros redondos, outros com furos no meio, outros em formato de coração. E realmente, eram deliciosos.

— Sim, querida – ela respondeu – Traga o chá e os biscoitos. Vou colocar um filme para nós vermos na tv.

Hermione assentiu, animada. Poderia ter um final de tarde tranquilo com ela. E poderia tratar o assunto do falecimento do seu pai, com calma, sem causar grandes traumas a sua mãe. Ela caminhou para a cozinha, que era oposta a sala. Passou pelo hall de entrada e encontrou o lugar bagunçado, com amontoados de louça na pia. Suspirou, cansada. Aquilo daria muito trabalho. Ela tentou não pensar na arrumação que teria de fazer na casa e apenas esquentou água no fogo e procurou na dispensa as caixas dos biscoitos. Para sua surpresa, encontrou uma e não estava vencida. O que a deixava muito feliz, pois estava morrendo de fome. Abriu a caixa, sentindo o cheiro familiar do biscoito e do açucarado. Sua visão periférica captou um movimento e ela automaticamente se virou, mas não viu nada. Seu coração saltou pela boca. Ela pensou que poderia se Bichento passando, mas não havia sinal do gato. A chaleira apitou, a deixava mais nervosa. Começou a dar risada sozinha, pois acreditava estar dando atenção demais para o que sua mãe disse. Mortos nunca voltavam. Era algo cientifico. Não era possível que seu pai tivesse voltado, é claro.

Ela procurou um jogo de chá nos armários superiores, em cima da pia e deu graças a Deus por encontrar um. Eram de uma cor azul bebê. Preparou o chá preto e deixou dentro do bule. Encontrou uma bandeja de inox e colocou as xícaras, colheres, um bule com leite, que encontrou na geladeira e um açucareiro. Colocou a caixinha dos biscoitos do lado e torceu para não derrubar tudo no caminho.

Voltou para a sala e encontrou sua mãe entretida com um filme de romance. Era sobre um casal de jovens apaixonados. Ele era um americano e ela uma francesa. E se conheceram dentro de um trem, em Paris, com escala em Viena. Aquele filme tinha tudo para ser perfeito. Ela sorriu e colocou a bandeja em cima da mesinha de centro e sentou-se ao lado da sua mãe. Estava tão entretida que não reclamou que Hermione fizesse o chá para ela, com três torrões de açúcar. Bem doce, do jeito que ela gostava. E adicionou leite. Entregou para ela a xícara e fez o dela, de forma igual. Pegou um biscoito dentro da caixa e saboreou o açucarado. Às vezes olhava para sua mãe, que parecia concentrada e alegre. Até mesmo sorria e ria, conversando com Hermione, como se nada de errado estivesse acontecendo.

— Queria que seu pai estivesse aqui conosco – ela disse, de repente. Mas, não ficou triste. Não demonstrou tristeza.

Hermione engoliu seco.

— Eu tenho certeza que ele não gostaria desse filme – Hermione brincou.

Rosália assentiu.

— Não mesmo. Ele não gostava de romances, apesar de ser tão doce, quando tocava o piano, Mione. Seu pai era um homem romântico, apesar de querer ver filmes preto e branco.

Hermione sorriu, ao pensar no seu pai. Ele apreciava Frank Sinatra, filmes antigos, até mesmo mudos. Algo que entediava Hermione, por demais. Mas, ela assistiu todos eles com seu pai, até mesmo os de faroeste. Sentiu falta dele, de repente. E segurou as lágrimas. Não iria chorar. Nunca chorava, ora essa. Continuou o filme com sua mãe e quando terminou, Rosália ressonava no sofá, com Bichento em seu colo. Hermione sorriu para aquela cena.

O celular dela vibrou, no bolso da jaqueta de couro. Ela o pegou e tocou na tela, digitando a senha. Era uma mensagem de um número desconhecido.

O que senti mais falta era ver seus cabelos, sabia? Uma pena que você fez questão de me ignorar. Passo amanhã na sua casa, Granger. E você não terá como fugir, como fez doze anos atrás.

Hermione engoliu seco, querendo atirar o celular no chão. Como ele se atrevia? Realmente, poderia esgana-lo. Nunca iria deixa-lo entrar de novo em sua mente e em seu coração. Nunca mais.

Notas finais
O filme citado é Antes do Amanhecer. Recomendo muito ver =).