Hermione passou a semana inteira tentando conciliar seu trabalho de costura e nos cuidados de sua mãe. Rosália parecia muito instável ainda e por mais que tenha se recuperado da gripe, não saia de casa. Havia desisto de ir até o consultório. Várias vezes ela apontava para a janela de estar e dizia que Lucius estava esperando, do lado de fora. Hermione simplesmente não entendia aquilo. Como uma pessoa morta poderia causar tanto medo? E como ela poderia estar assombrando sua casa e sua mãe? Bom, apenas o lado de fora. Rosália havia dito que o que Luna fez para proteger a casa havia dado resultado imediato, deixando Lucius para fora. Hermione cada ficava mais preocupada com essas afirmações e pensava se deveria levar sua mãe a um psiquiatra. Teria de levar também, Luna, se ela estivesse seguindo aquela ideia de que sua mãe enlouquecera. Mas, infelizmente, parecia que algo estava errado. Ela poderia não admitir que Lucius estava ali, mas, algumas vezes sentiu uma sensação estranha ao sair de casa. Um incomodo no peito e um frio que a perseguia. Até mesmo o seu carro parecia não querer pegar naquelas vezes que tentava sair. Jurava ter visto pelo retrovisor seu pai, a fitando com preocupação. Estaria enlouquecendo? Era uma pergunta que ela não saber responder.

Rony estava terminando o telhado da edícula, na sexta-feira. Ele as vezes entrava e conversava com Rosália e trazia Ted junto. A relação dele com Hermione não era tão ruim, a princípio. Ele trocava meia duzia de palavras, mas sempre que ela tentava se aproximar, ele se afastava. Até que no final do trabalho dele com o telhado, Hermione conseguiu quebrar o gelo. Ela estava na cozinha, preparando um assado com legumes e o chamou para almoçar. Ele entrou, aceitando pela primeira vez o convite para um almoço. Rosália e Rony conversavam a mesa. Ted estava ao lado de Hermione e comia avidamente a comida, parecendo muito contente. Hermione observava o quanto sua mãe parecia a vontade ao lado do ruivo e parecia feliz pelas visitas. Agia normalmente, como se não tivesse tido alguns ataques de pânico pela manhã, ao sair na sacada do quarto. Os dias para ela tinha sido desgastantes e Hermione se preocupava com isso. Ela mal tocava na comida e parecia sempre alerta.

— Então, Ted vai trabalhar com você, na sua firma, quando tiver idade? — perguntou Rosália.

— Bom, se ele realmente quiser, eu o ensinarei melhor o ofício. Mas, Ted se distrai muito com jogos de celular — Rony zombou, olhando para Ted com um sorriso.

O menino ficou com as orelhas vermelhas e fingiu não ouvir.

— Ele é um menino ainda, mas vai aprender, não é mesmo, Ted? — Rosália perguntou, com um olhar maternal.

— Hum, sim senhora — ele confirmou, com um aceno e colocando o garfo com carne na boca, desviando o olhar para o prato.

— E como está Gina, querido? — ela perguntou a Rony e isso chamou a atenção de Hermione. Ela não sabia nada sobre Gina.

Harry trocava mensagens com Hermione, por celular e passou uma vez em sua casa, na semana. Eles ainda estava quebrando o gelo, depois de tantos anos sem se falar. E Hermione conversou sobre as suspeitas que tinha, quanto a Lucius ter matado seu pai. Harry havia dito que não poderia afirmar nada, mas que Lucius sempre teve um comportamento estranho. E mal saia de casa nos últimos anos. Não era visto em eventos, nem jantares sociais e saia sempre de carro. Harry sabia disso, pois sua maior fonte de informação era Luna. O pai dela fazia parte da alta sociedade, mesmo sendo um excêntrico. Mas, isso não afirmava as suspeitas dos dois. Para ele, o que era mais curioso era ter achado o corpo de Lucius perto do pai de Hermione e ter sangue em sua boca. Harry não sabia afirmar o que significava aquilo, mas era algo suspeito para ele, de fato.

— Ela está bem. Trabalhando meio período do jornal da cidade. Com as crianças, ela não consegue continuar com sua carreira de jornalista de forma integral.

— Ela poderia trazer Lily, Tiago e Alvo para cá. Eu adoraria ajuda-la com isso. Eu ficava tão feliz quanto ela vinha até minha casa. conversávamos tanto — ela disse, saudosa. Os olhos estavam distantes, lembrando do passado. E Hermione se sentiu culpada. O que mais perdeu em todos aqueles anos, ao ter se distanciado da sua família e amigos? — Bom — Rosália pigarreou — Eu vou descansar um pouco. Hermione querida, você cuida da louça?

— Sim, mãe — ela assentiu.

Viu que o prato da mãe estava com metade da comida intocada, mas ao menos, ela havia comido um pouco. Rosália levou o prato e o copo para a pia e saiu da cozinha. Rony e Hermione se olharam e o ruivo desviou o olhar. Ted saiu da mesa, dizendo que iria ao banheiro e já voltava. Deixando os dois completamente sozinhos. Hermione queria perguntar tantas coisas a Rony. Mas, se supreendeu ao ouvir ele falar primeiro.

— Gina ficou muito triste quando você foi embora — ele disse, olhando para ela, com seus grandes olhos azuis. Eram meigos, quando jovens. Agora, estavam sérios demais. Sua expressão era endurecida. Talvez, os sorrisos estivessem destinados a outras pessoas, não a ela que havia abandonado os amigos — E eu também fiquei, mas nós havíamos brigado e era normal que você não se despedisse. Mas, Gina não teve uma despedida sua ou uma ligação. Nem ao menos você disse para onde foi. Era presumível que a melhor amiga soubesse de tudo, mas Gina não sabia. Ela veio a saber pela sua mãe, onde você estava. Rosália havia dito que você saiu as pressas para se casar com Vitor e residir em Londres. Onde, ela nem sabia. E Gina ficou muitos dias ao lado da sua mãe. Gina e ela estavam inconsolávies. Minha irmã acreditou que seria madrinha do seu casamento — Hermione engoliu seco, se sentindo mal. Saiu da cidade como um furacão, tentando esquecer as humilhações, as ameaças. Saiu por medo e por raiva da família Malfoy. Se afastou dos amigos, pois acreditava que eles estariam melhor sem ela. E pelo fato que tinha medo de que Lucius soubesse onde ela estava. Agiu de formal irracional e perdeu pessoas importantes da sua vida — Eu não sei o que houve com você, Hermione. E posso dizer que, pelo menos o que nós soubemos da sua vida, você não foi feliz com Krum. Então, por que não nos ligou de volta? Por que não nos disse onde estava todo esse tempo? Eu não pergunto por mim, mas por ela. Gina sofreu com seu silêncio e ver minha irmã sofrer não é algo que eu gosto. Isso aumentou minha raiva por você. Eu não sei se consigo ser seu amigo, não pelo fato do que houve no passado, nem por causa de Malfoy. Mas, por ver Gina sofrer.

Hermione ficou calada, sentindo o coração doer por ter feito sua melhor amiga sofrer. Ela não tinha desculpas para o que fez. Mas, poderia tentar explicar isso a Rony. O mesmo que tentou com Harry.

— Eu tive meus motivos, Rony. Eu não sei se você conseguiria entender...Eu tive medo de muitas coisas e sai dessa cidade com raiva de algumas pessoas. Posso lhe dizer que meu problema foi com Malfoy — ela disse. Rony assentiu, sem julga-la, mas ainda não era amistoso. Era frio e distante.

— Você poderia ter dito isso a ela. Deveria tentar. Gina apesar de estar ressentida, ainda sente falta de você — ele aconselhou e se levantou. Ted entrou na cozinha novamente — Eu agradeço pelo almoço Hermione. Agora precisamos ir. Nos vemos outro dia. Podemos marcar alguma coisa — ele parecia um pouco constrangido. Hermione se levantou, sentindo-se esperançosa.

— É claro. Quando quiser Rony. Eu adoraria.

— Bom, bom. Eu já vou indo — ele disse, saindo pela porta dos fundos, da cozinha. Hermione o acompanhou.

Ela se despediu dele e de Ted, no portão e entrou novamente em casa. Ao menos, seu antigo amigo havia tentado conversar com ela. Ela gostaria de ter a mesma sorte com Gina.

*

— Tem certeza que isso vai funcionar, Luna? — Hermione perguntou.

Estavam no bosque, perto da casa de Luna. Ela observou que era necessário fazer uma intervenção com um grupo maior de pessoas, para conter o espirito de Lucius. Além de ser parte amaldiçoado, era vingativo. Hermione escutou tudo que sua amiga disse, tentando não parecer incrédula. Mas, para ela, o que iriam fazer, na lua cheia, não teria diferença alguma. Eram crenças, rituais antigos. Ela iria respeitar, mas se não funcionasse, recorreria à ajuda de um psiquiatra. Talvez, precisasse internar sua mãe, para que ela pudesse se recuperar. Devia estar em choque ainda, com a morte do marido. Hermione somente não fez isso, porque não queria que sua mãe ficasse em uma clinica psiquiátrica, se recuperando. Ela queria ajuda-la de outra forma, com terapias não invasivas, sem o uso de medicação.

Hermione observou as mulheres que chegavam, adentrando o bosque, vestidas com roupas brancas. O frio era intenso, mas elas não vestiam casacos. Elas usavam vestidos brancos, longos, que cobriam seus pés, com mantos no mesmo tom, sobre os ombros. Assim com Luna e Hermione, que tremia de frio, batendo os dentes. O ar que se respirava se tornava vapor, saindo de suas bocas, criando um ambiente estranho, nada reconfortante. Luna parecia à vontade, olhando para as mulheres que chegavam, formando um circulo. Eram doze mulheres. Desconhecidas para Hermione. A não ser por sua tia Muriel.

— Olá, querida – ela disse. Tinha cabelos castanhos, lisos, caindo em ondas suaves sobre os ombros. Parecia uma fada da floresta.

Hermione abriu e fechou a boca. Nunca soube que sua tia cultuava a deusa da lua e que da Wicca. Aquilo estava ficando cada vez mais estranho para Hermione.

— Tia? Como...- ela estava confusa, sem entender o que estava acontecendo.

— Tentei ajudar sua mãe, da melhor maneira que pude querida. Fizemos muitas orações à deusa, para liberta-la. Algo está muito errado e iremos descobrir hoje. O bom é que você veio. É da família. Terá muito mais força e energia para ajudar. Não tenha medo do que acontecer aqui, essa noite. E não saia do circulo. Não solte a mão das suas companheiras.

Hermione queria perguntar do que sua tia estava falando. O que iria acontecer àquela noite? Luna e uma jovem de cabelos ruivos, grandes e cacheados pegaram de um saco, que sua tia trouxe. Dentro dele, havia pedrinhas brancas, que foram posicionadas em um circulo grande, formando um pentagrama. Luna havia explicado sobre a proteção que precisariam ter aquela noite.

As mulheres montaram uma fogueira, para iluminar o local e iluminar o caminho delas, conforme Luna explicava. Elas também queimaram alecrim e arruda, no fogo da fogueira, passando a fumaça em cada uma, para protegê-las e limpa-las nas energias negativas.

Uma mulher de cabelos negros e cacheados se juntou ao grupo, depois que o ritual fora completo e disse:

— Irmãs, demos as mãos nesse momento, pedindo a deusa a proteção e orientação. Limpem suas mentes de pensamentos negativos, apenas pensando no bem coletivo. E não soltem as mãos umas das outras, não importa o que acontecerá essa noite – Segundo Luna, ela era líder do grupo e a mais sábia delas. Seu nome era Tessa.

Não parecia bom. Seria mesmo seguro fazer aquele ritual estranho? Hermione se recusava a acreditar que qualquer coisa fosse acontecer. Não acreditava em nada que fosse sobrenatural. Sempre teve o pensamento racional e nunca partiu do campo da intuição. Suas escolhas eram baseadas na lógica. Estar ali, aquela noite, era um passo muito grande para ela, que não acreditava em nada daquilo. E se havia perigo, por que aquelas mulheres insistiam nisso?

— Hermione, respire fundo e não pense em nada agora – Luna disse, estendendo a mão – Pense apenas no bem coletivo e peça a deusa para ajuda-la com sua mãe.

Hermione assentiu e segurou a mão gelada da amiga. As mulheres se posicionaram dentro do círculo, com as mãos unidas. Hermione pensou na deusa, mesmo não acreditando nela. E pediu em seu intimo que sua mãe pudesse ficar bem e se recuperar do seu problema. Nunca na vida Hermione fez uma prece, a não ser que fosse forçada pela própria mãe. Mas, naquele instante, pensou nela com carinho, lembrando-se dos momentos felizes que tiveram juntas, antes de ir embora daquela cidade.

Tessa começou a entoar um cântico. Era sobre proteção e reverenciado a deusa da lua. As mulheres seguiram o ritmo da música e Hermione se sentindo contagiada, cantando com elas. Sentindo-se livre pela primeira vez em sua vida. Apesar do frio, do corpo enrijecido, ela começou a se sentir quente e sob a luz da lua e da fogueira próxima, sentiu algo novo e diferente no ar. Não pensou em mais nada, apenas sentindo o ambiente. O ritmo da música aumentou e elas começaram a girar dentro do círculo, uma puxando a outra. Era estranho e renovador. Era uma música ritmada e diferente. Elas giraram rapidamente, cantando. Depois, elas começaram a desacelerar e ficaram paradas. Hermione até mesmo fechou os olhos, sentindo-se bem e alegre. Segurava a mão de Luna e de outra jovem. Sentia a segurança de estar ali. Não tinha medo.

Então, se ouviu uma respiração profunda, seguido de um lamento. E depois, um grito furioso. Hermione sentiu os pelos do corpo se arrepiarem e abriu os olhos. Umas das jovens, ao lado de sua tia, estava com o queixo no peito e se remexia, tentando soltar o braço de Muriel e Tessa. Elas seguraram firme na mão da jovem e começaram a entoar outro cântico. Esse pedia a proteção da deusa e que seus caminhos fossem iluminados.

— Me soltem! Eu ordeno que me soltem! – ela gritava, com uma voz estranha. Parecia fora de si. Hermione observou tudo, não compreendendo o que de fato estava acontecendo. Sentiu o medo tentar dominar seus sentidos, mas não iria se permitir a isso. Iria presenciar o que estava acontecendo ali, mesmo que não compreendesse. Teria tempo de perguntar a Luna, depois.

Todas ignoraram, cantando. Hermione se juntou ao coro de mulheres e a jovem caiu de joelhos. Tia Muriel e Tessa não se deixaram cair e ainda seguravam a mão da jovem.

— Por que sou prisioneiro? Quem são vocês? – a jovem que estava de joelhos perguntou, de olhos fechados, com uma carranca.

— Está aqui para ser levado. Não poderá mais interferir no mundo material – Tessa respondeu, calmamente, segurando a mão da jovem – Está interferindo na vida de uma pessoa livre que ira arcar com as escolhas que fez. Deve parar sua vingança, pois ela lhe trará mais mal do que pensa.

A risada ecoou da jovem, como um deboche ao que Tessa disse.

— Acaso sabe quem sou? Do que sou capaz? Nenhum grupo de mulheres feiticeiras ira me prenderem. Suas amarras não tem poder sobre mim, que sou soberano. Conheço as leis da magia antiga. E também, sei muito bem do meu livre arbítrio. Não podem me prender por muito tempo aqui, com seu magnetismo. Se eu não escolher partir com seus amigos, eu não sou obrigado a nada. Então, me soltem, ou pagaram o preço por ter me desafiado.

— Sabemos dos seus direitos. Mas, está interferindo no equilíbrio de uma vida. Esta usando seus conhecimentos para tirar a vida de uma pessoa, que só o criador da vida pode tirar. Ficara preso, pois nós não permitiremos, nem nossos amigos irão permitir que circule livre por aqui mais. Tentaram ajuda-lo a seguir adiante, mas se esse não é seu desejo, não iremos permitir mais sua interferência no plano terreno. Ainda terá de arcar com as consequências dos seus atos nefastos sobre essa cidade. Todas as mortes de causou. Não aumente mais suas dividas.

A jovem continuou a rir, sem escutar o que Tessa dizia. E de repente, o silêncio tomou conta da floresta. A jovem que estava tomada por algo que Hermione não sabia perdeu a consciência e teria caído no chão se não fosse por Tessa e tia Muriel. Tessa rezou a deusa, pedindo para que todo mal fosse levado e que o espirito que ali esteve, pudesse ter paz e que se arrependesse do mal pratico em vida e em morte. Pediu a proteção a ela e a permissão para encerrar o ritual. Depois, liberou a todas para soltarem as mãos e saírem do circulo, de costas. Hermione soltou a mão das duas jovens e saiu do circulo, conforme foi solicitado. Sentia todo o corpo arrepiado, como se uma descarga elétrica tivesse passado por seu corpo.

Ela observou Tessa tocar com a palma da mão a testa da jovem desfalecida. Estava com ela sobre seu colo, no chão de terra. Murmurava algo inteligível, olhando para o céu. Depois de um tempo a jovem despertou, com um soluço, sendo abraçada por Tessa. Hermione pode escutar claramente que ela viu um homem com um corpo animalesco. Parecia um lobo, com dentes afiados. Ele queria sugar o sangue dela e de repente, tudo ficou escuro para ela. Quando viu, estava fora do corpo, vendo todas as mulheres do círculo e o homem de formato animalesco, ao lado do corpo dela, falando com Tessa. Hermione não conseguia compreender como aquilo poderia ser meramente possível. Não seria o poder da sugestão e da imaginação daquela jovem?

Tia Muriel se aproximou de Hermione, que ainda observava a jovem conversando com Tessa, dentro do circulo.

— Está confusa, minha querida? – ela perguntou, pousando a mão no ombro de Hermione – Eu sei que tudo isso é novo para você. E que eu deveria ter compartilhado o saber dos antigos.

Hermione olhou para sua tia, ainda confusa com todas aquelas informações novas. Nunca participou de um ritual mágico. Nem qualquer outro. Fugia da igreja nos domingos, também, quando seus pais iam. Não era adepta a assuntos espirituais.

— Eu não compreendo o que se passou aqui, tia – ela disse – Não faz o menor sentido.

— Aquela jovem – Tia Muriel disse – Loretta, estava dando passagem para uma comunicação de um espirito revoltado, amaldiçoado e que perdeu a forma humana. Tornou-se um monstro, que suga a energia vital de suas vitimas. No mundo material, a energia vital e o sangue. E no espiritual é o ectoplasma que todos emitimos. Uma energia que molda nossos corpos espirituais e que permitem ser feito a cura de pacientes doentes e desenganados. Vê como Tessa coloca a mão sobre a cabeça de Loretta? Ela esta passando uma energia calmante, através do magnetismo do próprio corpo — Hermione franziu o cenho, ainda mais confusa – São muitas informações, por hora, querida – Tia Muriel apertou o ombro dela, com carinho – Mas, ainda será difícil conter esse espirito.

— E quem é ele? – Hermione perguntou.

— Não sabemos ainda se é o espirito que atormenta sua mãe. Ele não deu seu nome. Acreditamos que possa ser ele, pela descrição que Luna nos passou do que viu na casa da sua mãe. Continuaremos com os rituais, até que ele perda sua força. Ele será aprisionado, para não causar mais mal a ninguém.

— Então, não acabou? – Hermione perguntou receosa.

— Infelizmente, ainda não – ela respondeu, com pesar- Ele será aconselhado mais uma vez, por nossos amigos. Nós não interferimos no livre arbítrio de ninguém. Mas, esse caso é muito delicado e especial. Esse espirito vingativo devera ser contido, ou causara mais danos a todos nós.

Hermione assentiu. Por mais que não acreditasse, havia algo errado. Sua intuição gritava que nada estava bem. Que ela deveria ficar em alerta, apesar do seu lado racional lutar contra tudo que viu e ouviu aquela noite. Hermione, depois de conversar com sua tia e ela prometer visita-las, partiu com Luna, em sua caminhonete. E ganhou um colar, com uma pedra preta. Uma turmalina negra, em formato de pingente. Era pequena em sua mão, passada por um cordão preto. Luna explicou que era para proteção de sua mãe. Que fora feita em um ritual especifico para repelir energias negativas e espíritos que tentassem causar mal a ela.

— Depois, eu irei passar na casa da sua mãe e limpar o sal grosso. É preciso descartar em água corrente, devido às energias nocivas. E limpar sua casa com sal grosso, para limpar todo o ambiente espiritual. Eu vou fazer isso com você, amanhã.

— Luna, você é demais. Apesar de tudo isso ser confuso para mim, para ser sincera – Hermione confessou.

— Eu sei que é – Luna disse, sem desviar os olhos da estrada.

A luz do farol captou algo na estrada e Hermione se assustou, ao ver uma pessoa atravessando.

— Luna, freia. Tem alguém vindo.

Luna se assustou e pisou com força o pedal e as duas quase bateram com a cabeça no vidro, sendo seguras pela sinto. A luz do carro iluminou uma figura. E parecia muito com a viúva Malfoy. Hermione respirou fundo, ainda tonta, pela adrenalina que sentiu percorrer seu corpo. Soltou o sinto, com as mãos tremulas e saiu do carro. Desceu pela lateral, pulando da caminhonete e se aproximou de Narcissa Malfoy. Uma mulher que não via há anos.

Ela parecia desorientada, com uma camisola preta e os olhos vidrados. Os cabelos loiros estavam soltos, sobre os ombros e o que assustou Hermione era a adaga em sua mão direita e o sangue e seus lábios. Aquilo não poderia ser nada bom. Luna desembarcou do carro, se aproximando delas e estacou.

— Isso é sangue? – Luna perguntou – Na boca dela?

— Infelizmente parecesse ser – Hermione respondeu e olhou para Narcissa e percebeu que ela ainda não estar desperta. Parecia em transe. Ela tocou o braço da senhora, que não fez nada, apenas fitava além dela – Senhora? A senhora está bem?

Ela não respondeu. Pensou no que fariam com ela. Se ela estava em posse de uma arma branca, o certo era chamar a policia. Algo logico, que Hermione seguiria sem pestanejar, ainda mais sobre a evidencia de sangue. Alguém deveria ter sido brutalmente ferido e poderia ter morrido. Mas, ela não fez isso.

Ela puxou o celular do casaco e discou o número de Draco. Ele atendeu no segundo toque.

— Hermione, está tudo bem? – ele perguntou.

— Er...Draco, eu estou com sua mãe – Hermione disse.

— O que?

— Ela está...hum...aqui perto da casa de Luna – Hermione observou os pés dela, descalços. Poderia ela ser sonambula? Hermione pensou, consigo mesma – E parece desorientada.

— Meu Deus – Draco disse, com a voz assustada – Ela está bem? Por favor, fique com ela ai eu vou busca-la.

— Ela está bem sim, Draco. Tenha calma – Hermione pediu, com a voz mais doce possível, mesmo assustada com a situação de Narcissa – Eu vou leva-la até você. Estou de carro com Luna.

— Hermione, você...faria isso por mim? – ele perguntou receoso. E parecia temoroso. Sua voz estava tremula – Por favor, cuide dela. Ela é tudo que me resta.

— Sim. Farei isso por você, Draco – Hermione disse.

— Obrigado...eu...

— Está tudo bem. Vou desligar ok? Para coloca-la no carro. Chegarei em dez minutos — ela prometeu.

— Ok. Obrigado, de verdade.

Ela desligou o telefone, com a sensação dolorosa de ouvir a voz de Draco, pela primeira vez, vulnerável. Desejava tirar a dor dele. Poder abraça-lo. Mas, primeiro, ajudou Narcissa a entrar no carro, que a seguiu, sem demonstrar qualquer resistência ou reação. Ela abriu a porta da parte de trás da caminhonete e retirou a adaga da mão dela e colocou dentro da bolsa. Sabia que estava fazendo tudo errado, comprometendo provas, mas aquela era mãe de Draco. Uma mulher que fora gentil com Hermione, anos atrás. E era a única parente viva dele. Poderia estar irritada com Draco, magoada e desconfiada. Mas, não queria que ele sofresse.

Luna dirigiu, em silêncio, olhando pelo retrovisor várias vezes, um pouco tensa. Parecia assustadiça.

— O que será que houve com ela? – Luna perguntou, em voz baixa – Eu estou com medo, Hermione. E se ela for como Lucius? Um lobo, ou sei lá o que possa ser.

— Eu não sei Luna. Ela parece estar em estado catatônico. Não deve ter consciência do que fez – Hermione tentou argumentar, ignorando a parte da pergunta fantasiosa que Luna fez. Recusava-se a acreditar em pessoas que se transformavam em animais.

— Eu espero que esteja bem desorientada. Eu não quero morrer hoje – Luna disse, com a voz temerosa – E se isso acontecer eu vou culpar você, Hermione.

Hermione acabou sorrindo, mesmo a situação não permitindo isso. Para alivio das duas, elas chegaram a frente à mansão Malfoy, em dez minutos, sem incidentes. Draco estava do lado de fora, com um longo sobretudo perto. Ele se aproximou do carro e Hermione saiu, ajudando a tirar Narcissa do banco do passageiro. Ela continuava em um estado estranho, em que não dizia nada ao que perguntavam, nem resistiu a ser levada para a mansão. Hermione seguiu, com a bolsa no ombro, pois iria mostrar a Draco a adaga e contar o que presenciou, quando encontrou a mãe dele. Por enquanto, ele só agradeceu a ela e não notou o sangue na boca dela.

— eu vou entrar com você – Hermione disse – Luna, pode ir pra casa.

— Tem certeza? – ela perguntou – Você a leva, Draco?

— Sim...é claro – ele respondeu, abraçando a mãe pela cintura.

— Ok, vejo vocês depois – Luna disse, entrando no carro e saindo da entrada da mansão.

Draco usou o controle para abrir os portões de ferro e guiou a mãe dele pelo caminho. Ela andava ao lado dele, de forma lenta.

— Meu deus, o que houve com os sapatos dela? – ele perguntou confuso.

Pegou-a no colo e entregou o controle a Hermione, pedindo que ela fechasse. Ela fez isso e os acompanhou, passando pelo caminho de pedras, circulando a fonte de água, com querubins e subindo as escadas de mármore. A casa era um tom branco gelo. Enorme, no estilo georgiano. Ela abriu a porta para ele, que estava destrancada e eles entraram no saguão. O piso era mármore branco. Havia um lustre enorme, elétrico, pendido no teto, com as luzes ligadas. Uma enorme escadaria guiava para o andar de cima, com um tapete creme, decorando. O corrimão eram em tons dourados, como se imitasse um palácio. Draco subiu com a mão dele, para o andar de cima e Hermione o seguiu. Não iria embora enquanto não contasse o que aconteceu.

Depois que ele deixou a mãe dele no quarto dela, sobre a cama, Hermione o chamou para fora do quarto. Ele a acompanhou, com um olhar cansado.

— Por mais que eu goste que você tenha vindo Hermione, eu gostaria que você fosse para casa, agora – ele disse – E o que tiver de falar, podemos conversar depois.

Hermione abriu e fechou a boca. Ele estava sendo gentil, ao falar, mas ela se sentiu preterida. E magoada.

— Eu só queria ajudar, Draco. Eu...eu encontrei sua mãe na estrada, com isso – ela pegou dentro da bolsa a adaga. Com a ajuda do local que estava iluminado, ela pode ver a lamina suja de sangue. Seu estomago se retorceu ao ver aquilo. Draco olhou para a adaga, mordendo os lábios, mas não parecia nada surpreso – E a boca dela, Draco, está coberta de sangue. Eu não sei...eu não sei o que pode ter acontecido com ela. Ela se atravessou a rua, sem olhar. Parecia desorientada. E eu achei que deveria saber. Eu iria até a policia, por causa da adaga, mas eu pensei...eu nem sei o que pensei.

Ele assentiu, lentamente, sem olhar para ela, apenas fitando a adaga.

— Eu poderia ficar com isso? – ele pediu, estendendo a mão para a arma.

Hermione entregou a ele, mesmo relutante.

— O que vai fazer Draco? Sua mãe não parece nada bem. E pode ter ferido alguém. Ou até mesmo se ferido.

Ele respirou fundo. Fechou e abriu os olhos. Segurando a adaga, ele analisou a lamina e depois olhou para Hermione, com ar exasperado.

— Hermione, eu gostaria de poder confiar em alguém. Contar o que está acontecendo...eu tenho medo – ele confessou, respirando fundo – Eu poderia confiar em você?

Hermione sentiu o estomago apertar. Não parecia bom o que ele estava prestes a dizer a ela.

— Eu...isso tudo tem haver com seu pai, Draco? – perguntou ela.

Ele assentiu.

— Tenho muita raiva do que ele fez comigo Draco. E pelo que já presenciei. Não sei se sou a pessoa mais indicada, mas...- ela olhou nos olhos dele. Viu o homem desesperado diante de si. Não havia como não sentir compaixão por ele. Poderia ser o pior errado de a sua vida tentar ajuda-lo. Ele poderia ter matado alguém, ter feito algo terrível, mas ela não podia acreditar que ele tivesse feito isso. Ele parecia bom. Pelo menos, era o que deixou transparecer. Resolveu pela primeira vez confiar no seu instinto e disse: — Pode confiar em mim Draco. Eu não contarei nada do que aconteceu aqui hoje. Nem o que você me contar, agora.

Ele soltou o ar que parecia prender. Hermione segurou a mão livre dele, apertando. Ele levou ela aos lábios, beijando o dorso.

— Precisamos de um local melhor para conversar. Vamos até a minha sala.

Ela o acompanhou. Não sabia o que estava prestes a ouvir, mas ao menos, uma parte do segredo ela já sabia. De que Lucius era o assassino de Amélia Bulstrode.