Não era como se não conhecesse aquela boate. Draco já fora um assíduo frequentador, em seus tempos de faculdade, com seus amigos e conhecia o dono. Niall, para os conhecidos. Para aqueles que não o conheciam sua identidade, era apenas Dark. O nome do local era Dark, então, todos se referiam ao dono com aquele codinome. Ele era filho de um magnata e Draco sabia quem era ele era de fato. Niall era filho de Alexander Arrow, um homem que comandava uma empresa farmaceutica e já teve alguns negócios com Lucius, fornecendo drogas cintéticas para a alta sociedade da Europa. Não era algo que Draco quisesse fazer parte, por mais que Arrow insistisse em continuar os negócios com a família Malfoy. Niall ainda tentava trazê-lo para seu lado, para o lado obscuro da boate. Não se comparava as boates de grandes cidades, que escondiam seu lado sombrio e escuso, mas atendia uma parcela da alta sociedade que buscava diversão e flertava com o perigo. Draco era um desses garotos que buscou isso, por um tempo, mas percebeu que estava perdendo rendimento nos seus estudos e resolveu sair daquele submundo, buscando se aperfeiçoar na sua profissão. Niall é claro, ficou descontente em perder um cliente assíduo e tentava sempre trazê-lo de volta. Era irônico ter que voltar ali, depois de anos, a pedido de Pansy, que era uma das clientes vips do lugar.

Draco puxou Hermione pela mão, a conduzindo por uma escada, que só quem era cliente vip tinha acesso. Ele entrou com uma pulseira, que havia ganhado na entrada, por causa de Pansy. O segurança deixou que Hermione entrasse com ele, como acompanhante, já que o nome dele abria muitas portas. Ela seguiu calada. Parecia alheia a tudo, envolvida pelos sons e cheiros diferentes do local. Eles chegaram ao terraço, depois de dois lances de escada. O local era coberto com um teto de vidro e havia uma porta que dava acesso à parte descoberta. Havia sofás e mesas espalhados. Alguns casais estavam sentados, se beijando, bebendo e jogando cartas. Eram jovens e até mesmo pessoas mais velhas que ele. Ele reconheceu alguns dos jantares beneficentes que participou e dos eventos de caridades. Alguns apareciam na galeria de arte que ele tinha em conjunto com Nicolas. Draco fingiu não vê-los, pois não queria estragar sua noite, precisando ser falso com eles. Detestava a todos, pois viviam das aparências. Não que Draco não precisasse usar máscaras, mas aquela noite ele estava cansado para isso.

Ele guiou Hermione pela cintura, para a parte descoberta do terraço e tirou seu blazer, pois sabia que estava frio para ela ficar sem um casaco. Colocou sobre ombro dela e se afastou. Estava apenas de camisa longa, de botões, na cor branca. Ele já sentia o frio por estar ali, mas não queria voltar para dentro, nem pensar.

— Draco, por que você me trouxe aqui? — ela perguntou, puxando o blazer para se cobrir — Queria me beijar, como os outros casais estão fazendo?

Ele sorriu, de forma maliciosa. Realmente desejava muito, mas não queria o beijo dela, sem que ela desejasse o mesmo. Temia que se tentasse algo, estragaria tudo, que tirasse sua chance de libertar a si mesmo. Além do medo de fazer com que ela o odiasse. Não, ela teria que pedir. Teria que sentir desejo por ele e amor. Era disso que precisava.

— Eu adoraria, mas não vou beija-la — Ela parecia ter murchado a expressão, o que o agradou muito — Não essa noite – acrescentou.

— Há, claro. Como se eu fosse deixa-lo fazer isso — ela disse, mas não parecia convincente.

Ele estava conseguindo ultrapassar as barreiras dela. Estava exultante, desejando que o momento certo chegasse. Não suportava mais a distância entre eles. Foram anos pensando nela e até mesmo, odiando aquele sentimento. No momento em que a viu no cemitério, falando com o pai dela, sentiu todo aquele turbilhão de sentimentos confusos e percebeu que ainda a amava, mesmo não desejando aquilo. E soube que seria ela, ela quem colocaria fim a sua maldição.

— Duvido que você me diga isso, daqui alguns dias. Vou fazer o impossível para que me deseje, assim como a desejo, Hermione. Não pode fugir do que sentimos — ele disse, convencido daquilo. Sabia que ela sentia algo por ele. Mesmo que pouco, mas estava ali, através das camadas de raiva e dor. Tudo fora causado por ele, mas ele repararia. Não iria desistir dos dois como fez anos atrás.

Ela riu dele, deliberadamente.

— Me trouxe aqui para apenas me seduzir? — ela provocou. Sua voz parecia demonstrar agrado.

Ele sorriu.

— Eu realmente não vim para isso. Sendo sincero, detesto esses lugares — ele respondeu, desviando o olhar dela para a rua asfaltada e vazia. Não havia qualquer movimentação de carros aquele hora. E o frio se intensificava, deixando ele anestesiado — Eu quero saber se você gostaria de ir comigo para outro lugar? Você lembra-se do chalé, perto do lago?

Ele a fitou, procurando alguma surpresa, algum vislumbre que ela se lembrava daqueles dias em que os dois jogavam conversa fora, assistiam a filmes, jogavam vídeo game e principalmente, desenhavam. Hermione sempre fora muito boa em representar paisagens. Ele gostava de cada desenho dela e havia guardado o que ela deixou no chalé. A casa pertencia a ele, de herança. Era seu lugar favorito naquela cidade. Era onde podia se recordar de tudo e de Hermione. Passou anos sem entrar no chalé e contratou uma empresa de limpeza, para fazer a manutenção do local, sempre que fosse necessário. Mas, depois de um tempo, passou a ficar mais naquele lugar, que se tornou seu santuário.

— Eu não sei se é uma boa ideia — A voz dela se tornou falha. Ela não olhava para ele, mas para rua.

— Por favor, venha comigo. Eu prometo não fazer nada. Só não quero que a noite acabe — ele pediu.

Poderia acabar irritando Pansy, mas precisava daquele tempo com Hermione. Depois explicaria a sua amiga, que estava com a mulher que sempre amou. E se Pansy não quisesse mais falar com ele, pouco importava. Ao menos Theo entenderia. Fazia alguns anos que ele se tornara uma pessoa mais racional e parou de implicar com os outros. Apenas seguia o caminho dele, com os negócios do seu pai e tentava fazer com que Pansy seguisse seu exemplo, mas ela se portava como uma adolescente.

— Minha amiga, Luna, está aqui. Não posso deixa-la sozinha — Hermione tentou arranjar mais uma desculpa, ainda sem fita-lo.

— Podemos leva-la junto. Não precisa abandona-la – ele tentou convencê-la — Então, o que me diz?

Hermione estava relutante, o que era normal. Mas, Draco não iria desistir. Quanto mais tempo passasse ao seu lado, era mais tempo para fazê-la reconsiderar sobre o passado.

— Está bem — ela disse, em suspiro.

Ele sorriu, a puxando pela cintura e plantando um beijo em sua bochecha. Ela fitou com um misto de riso e irritação.

— Vamos procurar a Luna, então — ele disse, guiando-a pela cintura, para a saída do terraço.

Eles passaram pelo terraço coberto, sendo seguido por olhares avaliativos. Eles seriam assunto em breve, o que deixaria Narcisa muito irritada. Ela desejava que seu filho fizesse um bom casamento e Hermione estava fora de cogitação. Não tinha dinheiro e sua família estava na ruína há anos. Era apenas pessoas de classe média, algo que seus pais não viam com bons olhos, para um casamento. Isso diluiria a fortuna deles com o passar do tempo e das gerações. Mas, Draco estava pouco se importante com isso. Um dia ele estaria morto e teria perdido a chance de encontrar a felicidade. Não seria o dinheiro e o prestigio que estaria buscando, mas experiências agradáveis, do lado de pessoas que valiam a pena. E Hermione valia tudo isso para ele.

Eles desceram as escadas, de mãos dadas. Ele sentiu a pele dela em contato com a sua e estava satisfeito por tê-la de novo. Parecia que era tão fácil estar com ela, assim como anos atrás. Tudo era fácil com Hermione e ele havia complicado tudo. E no momento, ela era cabeça dura para complicar a situação para eles.

Draco avistou Luna na pista, dançando com um rapaz. Hermione soltou a mão dele e se esquivou, por entre a multidão de pessoas. Draco tentou fazer o mesmo caminho, mas estava difícil de chegar até ela. Foi puxado para o lado, por outra mão e deu de cara com Pansy. Ela o fulminava com os olhos.

— Onde você estava Draco? — ela perguntou, o puxando para uma mesa.

Astória, Theo e Nicolas, além de outras pessoas que estudaram com eles, estavam presentes.

— E aí cara? — Nicolas disse, com um braço apoiado no ombro de Astória — Achei que nem ia ver você hoje.

— Nem eu sabia que viria, para ser sincero — Draco disse, passando a mão pela nuca.

— Logo vai vir o bolo. Senta ai, Draco — pediu Theo, com os olhos suplicantes.

— Eu não posso. Eu encontrei uma pessoa. Uma pessoa importante.

— Quem é essa pessoa? Chama ela pra cá — Pansy disse, com a voz autoritária — Não quero que você suma do meu aniversário, igual das últimas vezes.

— Pansy, não posso trazer ela, pois você é mal educada — Draco disse, sincero, sem se preocupar com o olhar assassino que a amiga deu.

Nicolas gargalhou, assim como algumas pessoas na mesa.

— Eu não sou mal educada. Minha educação esta reservada a pessoas do meu círculo social — Pansy disse, entredentes — Qual é seu problema hoje, Draco?

— Meu problema é que você sempre tenta me manipular, Pansy. E já estou cansado disso. Cansado dos seus joguinhos. Eu vou atrás de Hermione.

— A pobretona da Granger? – ela perguntou — Está atrás de você — Pansy disse, com a voz venenosa.

— Hermione? — Nicolas se levantou, parecendo avido em vê-la.

Draco iria acertar seu amigo, em dois tempos, se ele tentasse algo. Ele se virou, para encontrar Hermione ao lado de Luna e um rapaz que Draco não reconhecia. Tinha cabelos loiros escuros.

— Hermione, por favor, não dê atenção a Pansy, por favor — Draco pediu — Eu quero ir com você.

— Você não mudou mesmo Draco — Hermione disse, com raiva, balançado a cabeça e dando as costas a ele.

— Hermione, por favor — Draco tentou avançar, mas foi segurando pelo braço. Pansy o fitava em advertência — Qual é seu problema, porra? Me larga!

— Se você for, esqueça-se de mim e Theo — ela ameaçou.

— Luna, me ajuda. Fala para ela que estou indo — Draco pediu, com os olhos suplicantes.

Luna assentiu e saiu com o rapaz de mãos dadas, indo atrás da amiga. Draco aproveitou para se soltar de Pansy, com raiva. Ele não avistou Nicolas na mesa e entrou em pânico. Logo seu amigo chegaria a Hermione e tudo estaria fadado ao fracasso.

— Pansy, para de ser estraga prazeres, ok? Eu vou com Hermione. O que fizemos no passado com ela foi errado. Foi tudo seu plano. Me manipulou e maquinou um jeito de me afastar da garota que eu sempre amei. Então, se você não quer falar comigo, eu quero se dane.

Pansy abriu e fechou a boca. Parecia pasma.

— Draco, vai lá, eu cuido da Pansy — Theo disse.

— Obrigado, de verdade. Até logo Pansy. Se me ignorar, sabe que nossa amizade sempre valeu mais para mim. Eu sempre me importei mais com você, do que com o próprio Theo e Blásio. Se quer fazer isso comigo, então eu não tenho mais nada a dizer.

Ele não esperou resposta dela e saiu de perto da mesa, tentou passar pelas pessoas, o mais rápido que podia. Podia ouvir Pansy berrar de raiva. Mas, pouco se importava. Hermione era seu destino, sempre foi. E ele iria atrás dela.

*-*-*-*-*-*

Hermione conseguiu achar o estacionamento da boate e pode respirar um pouco. Recostou-se na parede e sentiu um perfume adocicado no ar. Ficou assustada, quando viu Nicolas Linford, parar a sua frente, com um sorriso amigável. Vestia calça branco gelo, camisa azul escura, uma gravata preta e o paletó na mesma cor da calça, que estava sobre o ombro.

— Eu sinto muito por minha amiga, Hermione — ele disse, sincero — Eu não sabia que ela poderia ser tão grosseira assim.

— Não há problema algum, senhor Linford — ela tentou ser formal. Não queria aproximação com ele, mesmo ali sendo só meros conhecidos.

— Por favor, senhor Linford é meu pai. Eu sou somente Nicolas — ele disse, com um sorriso — E para os amigos, Nick. Já a considero uma amiga.

Ela engoliu seco. Não queria amizade com pessoas da alta sociedade. Já tivera problemas demais com Draco.

— Nicolas, não me leve a mal, mas só quero ir embora — ela disse, puxando o celular do sobretudo preto e procurando o aplicativo do Uber.

— Eu levo você em casa — ele disse, solicito — Posso deixa-la em segurança e...

— Hermione, que susto — disse Luna, aparecendo no estacionamento, caminhando até ela, de mãos dados com Rolf — Vamos, eu te levo pra casa. Só vamos esperar Draco, ele quer falar com você.

Nicolas fitou Luna, como se ela tivesse duas cabeças. Parecia um pouco espantado.

— Eu não quero falar com Draco. Quero ficar longe dele hoje. Cansei de ser tratada como lixo — ela retrucou, irritada — Não estrague sua noite por mim, Luna. Pode ficar com Rolf. Eu vou pegar um Uber.

— Eu levo você, Hermione — Nicolas tentou, mais uma vez.

— Não, obrigada — Hermione não fez questão de olha-lo, enquanto digitava seu endereço no aplicativo, com força excessiva.

— Eu duvido que você consiga um motorista agora, Hermione — Nicolas disse, parecendo não entender que ela não desejava ir com ele.

— Hermione, espera o Draco, por favor — pediu Luna, olhando para Nicolas, com irritação — E o senhor pode ir agora. Minha amiga está bem e vai para casa com Draco.

Nicolas a fitou, com um olhar pasmo.

— Eu somente estava tentando ajudar. Conheço Hermione, afinal. Eu mesmo ofereci uma vaga de assistente para ela — ele disse, parecendo um pouco desconfortável com o olhar intenso da jovem.

Rolf apenas sorria de lado, vendo toda aquela situação e percebendo que tudo ficaria ainda mais complicado. Ele só precisava levar Luna para casa, em segurança, antes que ela se metesse mais na vida dos amigos.

— Eu não acho que ela precise — Luna disse, entredentes.

Nicolas estava um pouco irritado com a garota loira e sua forma de tentar se meter em seus planos. Enquanto isso, Draco corria para chegar até o estacionamento, onde viu Luna se dirigir. Ele os encontrou no estacionamento em uma cena estranha. Luna brigava com Nicolas, que tentava se defender e Hermione digitava furiosamente do celular dela. Rolf tentava acalmar a namorada, puxando-a para si.

Draco se recostou na parede, ao lado de Hermione, olhando para ela. Hermione levantou os olhos do celular e o fitou com um misto de magoa e alivio.

— Vamos para o chalé, Hermione? Por favor — ele pediu, tentando ser o mais gentil possível.

— Eu...er...- ela parecia confusa.

— Eu juro que não tenho nada haver com o que Pansy disse. Eu já te pedi perdão pelo que houve no passado. Só me perdoa, por favor.

Ele implorava fervorosamente que ela o compreendesse. Ela assentiu, de leve.

— Isso é um sim? — ele perguntou, tocando na mão dela.

— Sim, eu vou com você – Draco suspirou, aliviado. Ele acreditou que seria mais difícil para convencê-la a ir com ele.

Eles se despediram de Luna, que sorria e havia parado de discutir com Nicolas. Ele parecia ter contornado a situação, convidando-a para ver o seu vernissage. Como Luna gostava de arte, aceitou. Mas, ainda olhava para o rapaz, com um olhar desconfiado.

Draco apenas deu aceno para Nicolas, que o fitou um pouco diferente daquela vez. Draco não sabia, mas os dois começavam a ter rachaduras em sua relação de anos. E parecia que isso iria piorar com o passar do tempo. Mas, Draco estava alheio a isso, apenas pedindo um Uber até o chalé.

Quanto a Hermione, ela poderia ter ido com Nicolas até a casa dela, mas, de fato, preferia ir na companhia de alguém conhecido. E no fundo, queria conversar com Draco. Deixou que ele a abraçasse, como sempre faziam. Logo o carro chegou e eles entraram no carro. Aquela noite seria diferente? Ela não saberia dizer. Mas, se sentia segura com Draco e havia se esquecido disso. Fazia tantos anos que sentia solitária, que se deixou levar, para ficar com ele, aquela noite.