A Maldição de Sangue - Dramione
11 Capítulo 11
Apesar de estar estressada, Hermione aproveitou para começar seu trabalho na costura das roupas que haviam sido solicitadas pelo seu site. Granger's Clothing era sua marca. Seu pai ficou tão orgulhoso quando ela escolheu o nome da família para abrir sua empresa. Ele não se cabia de alegria. Mas, seu entusiasmo não o trouxe de volta para perto dela. E Hermione, sempre atarefada, não havia percebido que isso doía em seu peito. Apenas quando estava sozinha em seu apartamento, depois de dar aulas na universidade, que percebia sua solidão. Vitor era um namorado um pouco frio e distante e os dois se entendiam daquela maneira. Ela pelo menos compreendia o afastamento. Não era sempre que pensava nele, na verdade, quase nunca. Seu coração ainda pertencia a Draco e Vitor, depois de cinco anos morando sobre o mesmo teto que ela, a traiu e quando ela descobriu, através do site de fofoca, ele afirmou que estava sendo negligenciado por ela. Que Hermione mal o tocava. Ela pensou que fosse verdade, enquanto costurava as roupas, no quarto que montou para ser seu ateliê de costura. Realmente, agiu daquela maneira, sem demonstrar amor ou afeto por Vitor. Será que fez o mesmo com seus pais, durante anos? Não saberia dizer. Mas, sentia o amargor por ter falhado com eles. Até mesmo com o Vitor. Ele ainda enviava mensagens, perguntava se ela estava bem e se precisa de dinheiro. Ele fez isso a partir do momento que saiu do apartamento que os dois dividiam, mas ela nunca aceitou nada. Conseguiu se sustentar com o emprego de professora estagiária, mais a mesada que seus pais enviavam. E depois, a universidade a contratou por tempo integral e o site de roupas deu certo. Ela não precisava de nada, muito menos de Vitor. Mas, ele sempre insistia em ajudá-la. Ele disse que pelo menos deveriam ser amigos, algo que ela não fez questão de ser. Odiou ele por ter sido traída. E não iria perdoa-lo. Hermione percebeu que fora muito rancorosa. O que não fazia bem para si mesma. Em algum momento, mandaria uma mensagem a Vitor, agradecendo por ele oferecer ajuda. Ou, talvez não. Não sabia se iria conseguir engolir o próprio orgulho.
Hermione estava colocando a etiqueta dentro da blusa, com pedrinhas estilo Spike, quando a campainha tocou. Já passava das duas da tarde e ela já havia terminado boa parte das peças. Faltava algumas e embala-las para a entrega. Conseguia fazer tudo sozinha, pois a loja não era tão grande e entregava apenas dentro da Inglaterra. E quase sempre seus clientes eram de Londres.
Ela saiu do quarto e desceu as escadas. Viu Bichento deitado nas escadas, parecendo dormir, mas ele estava atento aos passos da dona e ficou com a orelha em pé ao vê-la passar. Ozzy, o cachorro yorkshire, estava no pé da escada, deitado e fez o mesmo. Ao que parecia, eles estavam tendo um convivo ameno. Por enquanto.
Hermione abriu a porta da frente e se deparou com Luna e um rapaz que viu na escola, no último ano do ensino médio. Ela não lembrava o nome dele. Luna, como sempre, trajava vestes soltas. Calça sarja, de cor verde musgo, um top branco e jaqueta cor creme, com touca de pelinhos. Nos pés, alpargatas. Os cabelos loiros estavam trançados de lado e ela usava apenas um brinco de filtro de sonhos, de tamanho grande. Já o rapaz ao lado dela vestia calça jeans clara, jaqueta de cor caqui fechada com zíper e tênis de escalada. Tinha cabelos loiros escuros, cacheados e grandes olhos castanhos e doces. Faziam um belo par. E realmente eram. Estavam de mãos dadas. Então, Hermione deduziu que deveria ser namorado dela. Uma pena para Neville Longbottom, que era apaixonado por ela, no ensino médio.
— Oi Lu, que surpresa — Hermione disse, muito feliz por ver a amiga. Ao menos Luna não a rechaçava — Entra, por favor.
— Não estou atrapalhando? — ela perguntou, de modo preocupado — Se estiver, eu volto depois.
— De modo algum. E seu amigo é bem vindo, também.
Ela sorriu e o rapaz também. Parecia tímido. Hermione se afastou da porta e deixou os dois entrarem. Guiou eles para a sala e os três foram acompanhados por um Ozzy farejador e Bichento, que fez questão de sentar na poltrona de couro marrom, que pertencia ao pai de Hermione. A lareira já estava acesa naquele cômodo, o que era reconfortante, devido ao frio que fazia do lado de fora.
Luna apresentou o rapaz, que realmente era seu namorado. Era Rolf Scamander, um professor de biologia do ensino médio. E ele estava estudando para poder trabalhar com biologia marinha e se mudaria em breve para o litoral. E Luna iria junto com ele. Ela não tinha uma profissão, de fato. Mas, gostava de desenhar e pintar, assim como Hermione. Ela vendia seus quadros pela internet e gerava um bom lucro.
— Então, todos esses anos vocês estão juntos? — Hermione perguntou.
— Sim, desde que terminamos o ensino médio — Luna disse, sentada no sofá de dois lugares, ao lado de Rolf — E finalmente vamos nos casar.
Rolf ficou vermelho. Era tímido e parecia ter dificuldade em se comunicar com estranhos.
— Que maravilha. Meus parabéns — Hermione disse, sincera.
— E você, Mione. Soube que Draco vem procurado falar contigo — Luna disse.
— Ah...er...como soube? — Hermione não queria tocar no tome de Draco, mas ele parecia um fantasma, a perseguindo aonde fosse. E Luna acabou descobrindo sobre os dois, quando os viu andando pelo bosque, perto da casa de Draco, quando os dois ainda eram amigos.
— Um passarinho verde me contou — ela disse, com um sorriso matreiro.
— É minha mãe, não é?
A mãe de Hermione sempre contava muitas coisas as amigas dela e parecia não ter deixado de fora aquela informação.
— Sim. Mas, ela teve uma boa causa. Estava preocupada, pois Draco havia a tratado tão mal, anos atrás. Ela queria saber se ele havia mudado para melhor.
Hermione revirou os olhos. Ele nunca iria mudar. Seria o mesmo garoto rico e mimado.
— E como você vai saber disso, Lu? Você nem anda nos mesmos círculos sociais que ele.
— Sim, é verdade. Mas, eu sinto que ele mudou, Hermione. Na verdade, ele nunca quis magoar você, posso sentir isso.
Hermione analisou o rosto da amiga. Ela parecia concentrada, como se estivesse vendo algo. Rolf não parecia incomodado com a forma de a namorada agir. Parecia até mesmo acostumado.
— Lu, não me leva a mal, mas não quero falar dele, ok? Eu já estou cansada da interferência dele na minha vida.
— Tudo bem, eu entendo — Luna disse, sem se abalar — Mas, apenas saiba que tempo dele está acabando. Logo a transformação dele estará completa.
Hermione franziu o cenho. Luna parecia divagar como se estivesse em transe.
— Luna, o que quer dizer com isso? Que transformação?
Luna parecia não ter ouvido.
— Luna? — ela olhou para Rolf, que não estava surpreso com isso — É normal ela ficar assim?
— Bom, ela as vezes entra em transe — ele respondeu, sem parecer brincar com o assunto — Ela quase não se lembra, quando está nesse estado alterado de consciência.
— Que? — Hermione exclamou, sem entender.
— Deixe que ela explique depois. Eu mesmo demorei para acreditar em forças sobrenaturais. E sou muito cético no assunto. Mas, tudo que ela diz acontece.
— Hum...- Luna resmungou, piscando os olhos — Alguém disse alguma coisa?
— Você disse algo estranho Luna. Algo como o tempo de Draco estar acabando. O que queria dizer? — Hermione por mais que não acreditasse no lado místico de Luna, estava curiosa.
— Eu não me lembro bem. Mas, parece ser algo bem sério — Luna respondeu, voltando a sua expressão normal e calma — Na verdade, se você levar em conta o quanto a família dele é sombria, ele já vive uma situação miserável. Ninguém divulgou sobre a morte do pai dele, mas está circulando o rumor que o pai dele estava andando pela mata, procurando uma vítima. Não é de hoje que acreditam que o pai de Draco pudesse ser um lobisomem ou vampiro. Ele era estranho, muito pálido e assustador. Estão acreditando que ele foi morto por algum morador da cidade. Então, Draco está com a cabeça cheia de problemas. Muitos rumores e a família sendo alvo de chacota. Ele mesmo confessou estar cheio disso, para mim, no mercado.
Hermione estava descrente quanto a parte fantasiosa. Mas, sobre a morte dele, Harry já havia afirmado que alguém o matou, mas Draco não quis levar adiante a investigação e a polícia não encontrou provas que apontasse um suspeito.
— É verdade que estão dizendo que o pai de Draco foi assassinado? — ela instigou Luna.
— Sim, Mione — ela confirmou — Realmente estão dizendo isso. E parece que foi motivo de vingança pessoal. Eu sinto a obscuridade na família Malfoy. Então, pode ter sido alguém que quisesse cobrar uma dívida. Pobre Draco — ela disse, com o rosto constrito — Ele tem muitas coisas a deixar para traz. Um legado de obscuridade para romper. Ele tem uma luz especial, sabe? Apesar do pai que teve.
— E como tem tanta certeza disso, Luna? — Hermione perguntou, tentando não ser irônica. Mas, era uma tarefa difícil.
— Eu sinto isso quando o vejo, Hermione. E a aura dele é azul. Não há vermelho, não a morte ou mácula dentro dele. Mas, o pai dele era mergulhado em uma aura negra, manchada de sangue. Não era nada agradável.
Hermione forçou a vontade de não revirar os olhos e dizer bobagens para a amiga. Ela acreditava nisso e era sua crença. Não poderia debochar ou mostrar o quanto aquilo era irracional. Ela se baseava em fatos. E os fatos apontavam ao menos para o fato de que Lucius era perigoso. Isso não poderia ser negado.
— Entendo – Hermione disse, sem se comprometer.
— Ah, e seu pai ainda não se foi, Hermione – Luna disse, séria – Precisa providenciar que ele se vá. Algo está o segurando aqui. Ele precisa ajudar. Se você quiser, eu posso falar com ele. Posso vê-lo, diante do piano. Contudo, não consigo ouvi-lo.
Hermione sentiu um arrepio estranho percorrer seu corpo. Olhou por trás do ombro, com a nítida impressão de que sentiu a presença do pai. Até mesmo seu perfume. Mas, quando se virou, não havia nada ali. Era só poder da sugestão. Não poderia acreditar, no entanto, que Luna estivesse mentindo. Ela parecia bem sincera. Apesar disso, sua mente racional tentava encontrar outra resposta concreta.
— Luna, eu não acho uma boa ideia falar com ele, sabe? – ela disse, um pouco nervosa. Não gostava da ideia de fazer uma sessão espirita dentro da casa dela – Acho que é melhor deixar assim.
— Está bem. Se precisar, sabe que posso ajudar – Luna se dispôs.
— Eu, prefiro...eu não quero falar sobre isso – Hermione engoliu seco.
— Está bem, mas se puder deixar alguns incensos acesos na casa, vai espantar energias negativas do local. Até mesmo, acender uma vela para seu pai. Ele vai encontrar seu caminho, se você guia-lo.
Hermione apenas assentiu, automaticamente. Não acreditava naquilo e não faria nada do que ela estava pedindo. Só não diria isso para ela, para não magoa-la. Depois do assunto desagradável, sobre fantasmas, Luna teve a ideia de elas se encontrarem no bar do centro da cidade de Nova Esperança. Hermione não estava desejando confraternizar.
— Sabe o que é, eu acho melhor não – ela sabia que naquele lugar, todos os jovens da alta sociedade da cidade frequentavam. E Luna tinha passe livre, pois seu pai era um homem relativamente rico.
— Vamos, vamos, por favor. Convence ela Rolf.
— Eu não vou forçar ninguém, Luna. Ela precisa ir por vontade própria.
Hermione passou a gostar de Rolf. Ele sabia respeitar o espaço pessoal dos outros, ao contrario de um certo loiro, que parecia querer inferniza-la. Luna fitou o namorado e Hermione com tristeza.
— Eu quase não tenho amigas, Mione. E Gina está muito ocupada com os filhos – ela disse. Seu olhar parecia de um cachorro que caiu da mudança. Os olhos grandes e azuis dela denotavam toda a tristeza que sentia. Hermione acabou se convencendo, apenas pelo modo que ela a olhava. Estaria perdida, se Draco descobrisse o efeito daquele olhar.
— Está bem.
— Ahhh, não acredito! – Luna se animou – Então, passo pegar você amanhã, as sete, ok?
— Tá bom – Hermione suspirou.
Depois que conversaram amenidades, Luna foi embora com seu namorado e Hermione continuou trabalhando em suas costuras. Até que recebeu uma ligação de um número desconhecido. Quase desligou, mas atendeu. Poderia ser algo importante.
— Alô – ela disse.
— Olá, Hermione – era a voz aveludada de Nicolas Linford, o dono da galeria de arte do centro – Está ocupada?
— Não...não – ela respondeu. Se sentia estranhamente tímida ao falar com ele – Em que posso ajuda-lo?
— Em muitas coisas – ele respondeu, em tom estranho. Hermione não sabia identificar se ele estava sendo irônico, ou falando a sério – Eu gostei da sua proatividade, Hermione. E já que está disposta a me ajudar, tenho um evento para esse final de semana, na galeria. São pelo menos duzentas pessoas no local. Preciso contratar o buffet, os fotógrafos, avisar a imprensa e uma transportadora, para levar os quadros que estão no meu apartamento em Londres, para a galeria. Será que você consegue fazer isso para mim?
Hermione relutou bastante em responder. Era um trabalho de organizadora de eventos. Não que ela não soubesse fazer aquilo. Estava acostumada em negociar com fornecedores, com prazos e com a logística. Mas, o tempo era bem apertado. Faltava três dias para o evento e algo poderia sair errado.
— Hum...er, claro. Mas, o senhor sabe que falta pouco tempo, não sabe?
— Eu sei, eu sei – ele disse, parecendo chateado consigo mesmo – Eu devia ter pensando nisso antes, mas tenho muitos compromissos. Pode me ajudar com isso, Hermione, por favor?
Ela respirou fundo, tensa.
— Está bem, eu posso.
— Ah, você é incrível, Hermione. Tenho certeza que vai conseguir. Então, até mais. Por favor, apenas me envie uma mensagem assim que tudo estiver ok. Tudo bem?
— Sim, senhor – ela respondeu, em tom profissional, evitando entrar no clima efusivo de Nicolas.
— Por favor, nada de senhor. Apenas Nicolas – ele pediu – Até breve, Hermione. Ah, eu quero que você peça que seja faturado tudo no nome de Nicolas Linford. Eu vou enviar para você o numero do meu cartão de crédito e o código dele. Ok? Aproveita e compra um vestido formal, mas algo que a valorize. Preciso que você esteja vestida como se fosse para um baile de gala, ok? Então, pode gastar o dinheiro que o vestido for. Não precisa me consultar.
— Ahn...mas, por que? Não posso apenas vestir uma roupa social preta? – ela não estava gostando da ideia de gastar o dinheiro dele, muito menos vestir uma roupa tão requintada.
— Porque você é minha assistente. E precisa estar à altura do evento – ele respondeu – Não se preocupe com o que for gastar Hermione. Você tem passe livre.
— Está bem, então. Eu envio a mensagem quando tudo estiver pronto – ela disse ainda confusa com o modo tão confiante de Nicolas. Ela poderia ser uma vigarista que ele nem perceberia.
— Ok. Vou pegar você as sete, no sábado, ok?
— Ok.
— Até mais, Hermione.
— Até, se...Nicolas.
Hermione desligou o telefone, se sentindo estranha. Aquilo tudo era demais para ela. Não sabia se daria conta do que ele pedira. Passou um tempo procurando os fornecedores para fazer o evento e descobriu que o nome Linford abria muitas portas. Ela conseguiu em tempo recordo tudo que ele precisava para o evento e pediu para a transportadora ir até a casa de Nicolas, localizada em Mayfair, Londres. Depois das cinco da tarde, quando conseguiu parar de trabalhar, enviou a mensagem para Nicolas, informando que tudo estava certo para o evento. A mensagem dele veio em seguida.
Eu disse que você conseguiria, não disse?
Já me conquistou com sua agilidade.
Não se esqueça de comprar o vestido, por favor. E como disse, pode gastar o dinheiro, sem problemas.
Hermione achava estranha toda à efusividade dele. Não estava acostumada com um chefe assim. Nem teve tempo de pensar nisso, pois ainda tinha muito trabalho a fazer. Conseguiu se concentrar apenas por meia hora, em seus pedidos de roupas, quando sua mãe abriu a porta do quarto.
— Hermione, por que o telhado esta inacabado? – ela perguntou, sem estar alterada, apenas curiosa.
Ela estava ainda vestida com as roupas de trabalho, com o acréscimo de um jaleco branco.
— Oi mãe – ela respondeu, levantando os olhos da maquina de costura e desligando o equipamento – Houve um pequeno problema.
Rosália arqueou a sobrancelha, parecendo esperar uma resposta. Hermione não queria ter que falar que atrapalhou serviço de Rony. Ela simplesmente apontou uma falha. Não podia aceitar que um menino fosse machucar, tentando aprender um oficio que ainda era muito jovem para se incumbir.
— Hum...Eu percebi que Rony trouxe um garoto para trabalhar com ele e apontei as falhas dele, em seu trabalho. Ele não usava capacete e nem deveria estar com aquela criança com ele.
Rosália sorriu.
— Hermione, você não muda mesmo – ela balançou a cabeça – Mas, agora, quem vai consertar meu telhado? Ele não quer voltar é isso? Conheço o seu temperamento. Ele deve ter fugido por causa disso.
— Bom, eu só disse a verdade – Hermione protestou um pouco irritada. Ela não era temperamental. Só enxerga as coisas com mais clareza e racionalidade – E ele disse que volta amanhã. Mas, se ele estiver ainda cumprindo seu trabalho de forma arriscada, vou contratar outra pessoa para fazer o serviço.
Rosália riu.
— Está bem, Hermione. Desde que o telhado esteja consertado, eu fico feliz.
Ela estava fechando a porta do quarto, quando Hermione a chamou de volta.
— Mãe, você...você passou bem o dia? – era uma pergunta delicada demais para fazer, mas precisava saber.
— Sim, foi...ameno – a mãe dela respondeu, com um olhar distante – É estranho voltar ao trabalho, quando não tenho seu pai. Sinto que vou ficar sobrecarregada também. Vou precisar de uma secretária. Os clientes lotaram minha agenda.
— Isso...é...ótimo – Hermione disse, contente. E aliviada por ver sua mãe voltando ao normal. Ela até mesmo pensou em alguns meses voltar a Londres. Se tudo estivesse bem, é claro.
— Bom, vou deixa-la trabalhando. Quer jantar depois?
Hermione sorriu, alegremente. Tudo estava voltando ao normal.
— Sim, mãe. Adoraria.
*-*-*-*-*-*-*-*
Hermione estava dormindo, profundamente, quando escutou uma pedrinha bater contra o vidro da janela. Ela acordou um pouco assustada. Não sabia que horas eram, mas a lua estava no céu, crescendo, com seu brilho prateado. Ainda devia ser de madrugada. Ela checou o relógio, debaixo do travesseiro e ainda eram duas da manhã. Resolveu voltar a dormir, pois estava cansada. Havia trabalho até tarde, confeccionando as roupas. Até mesmo sua mãe ajudou e ela disse que Hermione precisava pegar leve, ou teria algum problema no ombro e nas mãos. Contudo, Hermione não sabia fazer isso. Quando iniciava um projeto, era difícil tirar a atenção dela do que estava fazendo.
Fechou os olhos, prestes a dormir, quando escutou mais uma vez o mesmo barulho. Ela bufou, já antevendo que estava por trás do barulho. Saiu da cama e abriu a janela. Podia ver a sombra de Draco, perto da árvore.
— O que você quer? – ela perguntou ríspida.
— Ver você – ele respondeu.
— Já disse para parar de me perseguir. Vou pedir um pedido de restrição contra você. Chega dessa palhaçada – ela fechou a janela, sem esperar resposta e voltou para cama.
Estava com o coração acelerado, talvez, pela excitação de vê-lo ou por simplesmente estar irritada. Ou talvez, as duas opções. Deu uma risadinha, para si mesma, pensando o quanto Draco parecia um adolescente apaixonado. Ora, ele tinha trinta anos. Não tinha vergonha? Já devia estar casado, com filhos. Como ela deveria. Mas, os dois estavam solitários, sem suas almas gêmeas. Perdidos no mundo, como estrelas errantes. Sem propósito, ou rota fixadas para suas vidas.
Ela fechou os olhos, com esse pensamento e escutou a janela se abrir. Pulou da cama, sentando. Draco entrava pela janela. Estava sentado no parapeito.
— Mas, que diabos...?
— Fala baixo – ele sussurrou – Não quer acordar sua mãe, quer?
— Por todos os deuses! – ela disse, se levantando. Chegou bem próxima a ele. Draco já havia aterrissado no quarto e fechou a janela atrás de si – O que você tem nessa sua cabeça de ameba?
— Você – ele respondeu, rindo baixo – E minha cabeça tem muitos pensamentos inteligentes, outros obscuros, outros sobre você e eu, nessa cama.
Ela ficou ruborizada. Como ele tinha a capacidade de revidar e de maneira tão pouco lisonjeira? Fazendo insinuações que nem deveria, é claro. Ela abraçou o próprio corpo, ciente que estava só de camisola. Não que ele pudesse ver muito. O quarto estava mergulhado na escuridão, apenas sendo iluminado pelas luzes dos postes e o luar.
— Draco, eu quero que você vá embora, por favor – ela pediu – Precisa parar com isso. Eu não quero ver você ou falar com você – ela se afastou dele, indo para a porta, mas ele a segurou pela cintura – Quer me soltar?
— Não, não posso Hermione – ele disse, com a voz rouca, beijando os cabelos dela. Ela sentiu que iria derreter em seus braços – Não faz isso comigo. Não me afasta desse jeito.
Ela se soltou dele, com facilidade, mesmo seu corpo suplicando para abraça-lo. Nem sabia como era estar em seus braços, mas parecia que seu corpo entendia bem o que fazer.
— Draco, precisa entender que nunca vai haver qualquer chance de darmos certo – ela disse, veemente, se apegando na raiva que sentia dele. Mas, o motivo parecia quase tolo, depois de como ele pediu perdão a ela, pelo que fizera no passado – Eu não quero ter que explicar de novo isso a você. Meus motivos eu já disse, ontem.
Ele suspirou e tomou o rosto dela, entre as mãos. Tão próximos, ela podia distinguir um pouco as feições dele. Até mesmo sentir sua respiração quente tocar sua pele.
— Então, não me diz. Apenas me deixe entrar na sua vida de novo – ele implorou, beijando o canto da sua boca. Ela tentou afasta-lo, empurrando o pelo peito, com as mãos espalmadas, mas ele a puxou pela nuca – Por favor, me deixe beija-la.
Hermione desviou o rosto de novo e ele bufou.
— Por que esta me recusando, sendo que você também me quer? – ele perguntou, com a voz exasperada.
— Porque eu não te dei meu consentimento – ela disse, séria, tentando se soltar dos braços dele, mas ele a abraçou com força, beijando a testa dela – Para de fazer isso, Draco. Está sendo desgastante conversar com você.
Ela negava para si mesma, que gostava do seu carinho. E que nunca se sentiu tão envolvida com Vitor, como estava se sentindo com Draco.
— Por favor, me deixe abraça-la. Ao menos isso – ele pediu.
Ela assentiu e passou os braços em volta da cintura dele, sentindo ele a apertar contra si. Era bom ceder ao menos uma vez ao que queria. Ao menos, o que seu inconsciente queria.
— Hermione, por que não me dá uma chance? – ele perguntou, no ouvido dela – Eu amo você e eu sei que você ainda me ama.
— Não é tão simples – ela respondeu, com a voz dolorida – Não é tão simples perdoar o passado. Muito menos esquecer o que você fez. Você beijou Pansy. Você me ridicularizou, Draco.
— Eu sei...eu fiz tudo para afastar você...eu só queria proteger você. Precisa entender isso.
— Não, não preciso – ela se negou a entender – Não sei por que nunca veio atrás de mim, depois de tudo. Simplesmente ficou anos sem falar comigo. Por que agora sou tão importante?
— Você sempre foi importante. E por isso mesmo que me afastei. Não era seguro estar com você, mas agora, podemos ficar juntos. Eu posso te fazer feliz – ele segurou o rosto dela, beijando a bochecha dela. Ela suspirou – Por favor, me deixe fazê-la feliz.
— Por que nunca foi sincero comigo, Draco? Por que simplesmente decidiu me magoar? – ela perguntou, pois não iria aceitar aquela desculpa. Ele a humilhou, na frente da garota que ela mais odiava na escola. Aquilo não se apagava facilmente – Poderíamos ter resolvido qualquer problema que te impedisse de ficar comigo, se você se abrisse comigo. Mas, agora é bem tarde. O que me dói saber, é que você não confiou em mim. Não quis me contar seus segredos. Nem mesmo admite que seu pai fosse o problema que impedisse de nós ficarmos juntos!
Ele respirou fundo, parecendo tremer. Abraçou-a mais forte, sem machuca-la. Ela se deixou embalar por seus braços, pois no seu intimo, queria muito ser consolada por ele.
— Hermione, eu sinto muito por isso...eu fiz tudo errado... eu sei...mas, pode me perdoar? Pode entender que eu não tinha controle sobre minha vida?
— Isso eu posso entender, mas você mostrou que eu não valia tanto a pena assim, Draco. Simplesmente desistiu de lutar, quando percebeu que não poderia ficar comigo.
— Eu não desisti. Eu protegi você – ele disse, com certa indignação na voz. O abraço começou a se afrouxar e Hermione sentiu que algo estava estranho entre os dois, de repente. Apenas se soltou, abraçando a si mesma, tremula – Eu fiz de tudo para cuidar de você. Eu sei que optei por magoa-la, mas eu sabia que se contasse a verdade, você faria tudo para tentar consertar. E não havia conserto. Não havia escolha, Hermione. Eu não poderia simplesmente contar tudo a você. Eu não tinha controle sobre minha vida e você se colocava em perigo constante. Acha que não sei como afrontou meu pai? – ele tomou folego, respirando fundo. Sua voz demonstrava toda sua irritação – Acha que não sei o que tentou fazer contra você? Eu não sou cego, Hermione. Eu sei que ele te ameaçou, tentou te comprar. E quando não conseguiu, ele veio até mim e jurou mata-la, se eu continuasse com nossa relação. Nós éramos apenas amigos, mas ele sabia muito bem onde tudo isso iria parar. Porque Hermione, eu não queria ser só seu amigo. Eu queria ser seu namorado, seu esposo. Queria envelhecer com você. Eu só não podia suportar que meu pai pudesse machuca-la.
Hermione assentiu se sentindo estranha por ouvir tudo aquilo. Ela sabia de tudo isso, do que Lucius era capaz. Mas, ouvir isso de Draco era diferente. Era como se pudesse ver melhor a realidade do que passou com eles. Entretanto, ainda havia a mágoa encalacrada em seu peito. A Hermione adolescente ainda se sentia usada e humilhada. Ainda via Draco beijar Pansy, ainda escutava as palavras duras dele. Infelizmente, Hermione não sabia perdoar.
— Eu não quero mais ouvir você, Draco. Acabou. Tudo que tínhamos acabou naquele dia em que você me pediu para ir embora. Se seu pai não tivesse morrido, continuaríamos na estaca zero. Nada teria mudado. Você só se tornou forte, quando ele se foi. Só tomou rédea da sua vida agora. Mas, não dá mais tempo para consertar o passado. E eu não quero isso. Eu quero simplesmente viver minha vida, sem a sombra da família Malfoy sobre mim.
— Tem certeza disso, Hermione? Você esta certa disso? – ele perguntou, com a voz séria.
— Sim. Eu já me decidi há anos, Draco. Só vai embora – ela pediu.
Ele ficou em silêncios, por alguns segundos excruciantes. Ela não queria simplesmente dar adeus ao seu passado, mas era necessário. Nunca poderia perdoa-lo. Mesmo ele explicando todos os seus motivos.
— Er... eu não gostaria de ter que descer pela árvore...você...só pode abrir a porta para mim? – ele quebrou o silêncio que parecia sufoca-los.
— Claro.
Ela pegou seu roupão, que estava no chão, vestiu e amarrou na cintura. Rumou para a porta do quarto, sentindo a presença dele a uma distância respeitosa. Mas, estava claro que eles se desejavam. Era palpável e ela sentia por todo seu corpo a vontade de estar em seus braços. Apesar disso, apenas seguiu pelo corredor, descendo as escadas e abrindo a porta da frente para ele. Ele passou por ela e saiu, para a varanda. O frio era intenso do lado de fora.
Ele olhou uma última vez para ela, para desaparecer no quintal. Hermione escutou o portão de ferro ser aberto e depois fechado. Ela engoliu seco, sentindo as lágrimas quentes descerem por suas bochechas. Mas, era o que ela queria afinal, vê-lo ir embora da sua vida. Apesar disso, por que seria coração parecia se partir ao meio?
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