A Maldição de Sangue - Dramione
10 Capítulo 10
Hermione não conseguia dormir com tranquilidade, depois que conversou com Draco. Ele parecia sincero e obstinado a conseguir seu perdão, mas ela não estava disposta a perdoar. Queria saber quem era o responsável pela morte do seu pai e não descansaria enquanto não provasse e conseguisse ao menos justiça quanto a isso. Ela já sabia em seu intimo que era Lucius. Tudo estava bem claro em sua mente, pelo fato de Harry ter lhe contado que encontrou o corpo de Lucius na mata, bem próximo a onde seu pai foi encontrado. Era algo que ele não deveria ter contado e ele pediu sigilo a ela. Por ser policial investigador, ele sabia de muitas coisas. E tinha acesso a algumas coisas dentro da delegacia. Infelizmente, por sua mãe se negar a abrir um inquérito policial, o corpo do seu pai não foi bem examinado e pelo médico legista ter constatado que poderia ser a mordida de um animal, eles não continuaram com o caso. A cidade era pacata e prezava muito pela falsa segurança que tinha. Havia poucos crimes e se havia, a policia apenas analisava superficialmente todos os casos. Então, não houve um exame mais detalhado no corpo de Antony. Não coletaram impressões digitais, nem mesmo a saliva do suposto animal que o mordeu no pescoço. Se pudesse bater aquela informação, com o que eles tivessem de Lucius Malfoy, seria perfeito. Contudo, era necessário que aquela cidade tivesse a informação de cada cidadão arquivada, como tipo sanguíneo, entre outros dados. Com Hermione duvidava que tivesse pelo fato Lucius ser um homem influente que poderia muito bem se negar a dar qualquer informação sobre si mesmo. E com certeza, o sistema da polícia naquele local não deveria ser tão avançado quanto em cidades grandes.
Ela voltava a estaca zero, para descobrir o assassino. Se tivesse como ter alguma amostra de sangue, ou de saliva, poderiam analisar no laboratório da policia. Harry poderia conseguir acesso, com certeza. Mas, o corpo de Lucius foi cremado, além do fato de ter que exumar o corpo do seu pai. O que sua mãe não gostaria, nem um pouco. Hermione respirou fundo, virando a cabeça no travesseiro, cheia de pensamentos, tentando solucionar o dilema daquela investigação. Não era que fosse uma especialista. Ela só partia do que já conhecia e de séries policiais. Talvez, não fosse nada fácil ter acesso aquilo tudo que ela imaginava em sua cabeça. Poderia ter muitos empecilhos no caminho. E se conseguisse exumar o corpo do seu pai, coletar a saliva ou sangue de Draco, sem que ele percebesse, o que era praticamente impossível e usar o laboratório da polícia, talvez, eles nem tivessem aqueles equipamentos para fazer esse tipo de análise. Que era feita por um policial forense. Não parecia nada fácil montar aquele quebra cabeça intrincado.
Ela lembrou-se do seu pai, com a aparência saudável, com vestes elegantes. Mas, muito triste. Ele não estava nem um pouco preocupado com a morte, em seu sonho. Apenas com o fato de sua mulher estar sofrendo. O que o fazia sofrer. Hermione se sentiu um pouco culpada. Mesmo sendo um sonho, já percebeu que estava negligenciado seu dever com a sua mãe. Deveria mesmo se preocupar tanto com a morte do seu pai? Será que estava mesmo preocupada com isso ou com o fato que queria, desde sempre, uma forma de atingir a família Malfoy, mais principalmente Lucius? Eram perguntas que ela não gostou de fazer a si mesma. E não queria admitir. No fundo, ela estava mais preocupada em se vingar de Lucius pela forma como foi tratada e pela forma apressada que precisou sair da cidade. Por mais que fosse devido a Vitor, seu ex-noivo, ela fez isso para se proteger. Porque sabia que Lucius era perigoso. E ele já havia oferecido dinheiro para que ela se afastasse do filho. Então, estava um passo de fazer algo ofensivo, como tentar contra sua própria vida. Ele não disse isso, mas deixou bem claro que ela deveria se afastar, ou sofreria as consequências. De início, ela não deu atenção alguma as ameaças dele. Apenas continuou com sua vida. E Draco não parava de visita-la. Até que um dia, Draco simplesmente apareceu com Pansy, no parque em que iriam se encontrar e a beijou. Hermione viu a distância e com certeza ele não a tinha visto chegar. Aquilo foi demais para ela aguentar. Sentiu seu peito se rasgar ao meio. Percebeu que amava aquele garoto, mesmo eles nunca tendo realmente trocado um beijo sequer. Ela se sentiu traída, mesmo sabendo que não tinham nada. Ao invés de ir embora, ela o confrontou, com seu gênio forte falando mais alto.
— Achou mesmo que eu iria gostar de você? Você é uma pobretona, Granger — ele dissera. Pansy ria, escandalosa.
— Pobre da Granger. Achou mesmo que Draco iria dar atenção a você? Eu não acredito que você confiou nisso — Pansy desdenhara dela, com um sorriso ferino — Eu nem acredito que você passou meses ao lado de Draco. Você é muito mal — ela olhara para o loiro, com um sorriso cumplice — Nunca imaginei que iria conseguir ficar com a sabe-tudo pobretona. Ninguém a quer. Ela é feia e desengonçada.
Hermione não queria se lembrar do que veio a seguir. Mas, ela bateu em Pansy, com a mão aberta, no rosto da garota. As duas entraram em uma luta corporal, uma puxando o cabelo da outra. Draco teve que aparta-las e enxotou Hermione. Ela nunca iria se esquecer do olhar frio que recebeu dele. Do desdém com que foi tratada. Ali fora o estopim para aceitar se casar com Krum. Ela já conversava com ele há anos, desde que tinha catorze anos e ele dezessete. Então, seguiu com ele, para fora daquela cidade. Para conseguir algo bom em sua vida. Não era pelas ameaçadas veladas de Lucius que ela foi embora, de fato. Mas, pela rejeição que sofreu. Por Draco simplesmente a ter humilhado. Isso, ela nunca esqueceria.
Quando Hermione percebeu, o dia raiou no horizonte e ela tinha os olhos cheios de areia. Não havia dormido nada, apenas remoendo o passado, que parecia persegui-la a cada esquina. Mas, era bom ter se lembrado de tudo. A próxima vez que encontrasse Draco, não deixaria seu amor falar mais alto. Iria deixar que a raiva que acumulou dele, por anos, falasse mais alto. Iria ignora-lo, pois sabia muito bem que a indiferença doeria nele. Mas, com certeza, ele não sofreria nada. Ele era mimado e só não queria perder seu brinquedo. Enquanto ela, bom, ela estaria lambendo as próprias feridas, por ainda amá-lo profundamente.
A exaustão finalmente tomou conta do corpo de Hermione e ela dormiu, profundamente. Parecia mergulhar de novo, como se estivesse perdendo o ar. Mas, era uma sensação bem vinda. Ela não precisava mais se preocupar com seu pai, com nada que a deixasse triste. Nem com sua pobre mãe. Ou com Draco. Ou com o fantasma de Lucius. Tudo iria se acabar ali, naquela escuridão reconfortante. Era como se estivesse sendo abraçada, envolvida. O ar não era algo que precisasse, mas começou a arder seus pulmões. Não, sentir o peito comprimido não era nada bom. Lutou para respirar. Lutou para não morrer. Morrer não era algo que gostaria, de fato. Havia tantas coisas que queria fazer ainda. Mas, percebeu que não havia nada a ser feito. Sua vida era inútil, no fim das contas. Contudo, ela nunca pediu isso, nunca pediu para morrer. Não era uma covarde. Lutou, de novo e de novo, buscando pelo ar, que não vinha. Então, quando estava prestes a desfalecer, alguém a puxou. Sentiu a massagem cardíaca em seu peito. O ar ser empurrado pela sua boca. Cuspiu água. Espera, era um sonho ou realidade? Abriu os olhos, vendo diante de si o rio, a ponte que conectava com a escola e Draco, olhando para ela com seus olhos cinza, com a tempestade que se avizinhava. Sentiu o cheiro da grama molhada, sentiu a umidade por todo seu corpo. O cheiro de terra era forte. Sentiu seu corpo inteiro dolorido. Mas, o que a reconfortava era que ele voltou para ela. Ele disse que nunca gostou dela, mas ali estava ele, tocando seu rosto, beijando sua face. Chorando. Ele estava realmente chorando ou era a água que caia de seus cabelos platinados?
— Eu te peguei, Hermione. Nunca vou deixar que nada de mal aconteça com você, nunca!
— Por que você disse...- ela tossiu. Sentia a garganta e o peito ardendo, pela quantidade de água que engoliu – você disse que nunca gostou de mim...
— Eu...Hermione...eu amo você...mas, você precisa ir embora...eu não posso...- ele tinha uma expressão dolorida. Seus olhos estavam avermelhados. Ele parecia estar prestes a desabar sobre ela.
Ao longe, Hermione viu uma figura se aproximando, vindo em direção a eles e ela não conseguiu ficar acordada. Sentia tanto sono. Apenas fechou os olhos, mergulhando no vazio. Quando os abriu novamente, sentiu um colchão macio embaixo do seu corpo. Alguém tocava seu rosto.
— Hora de levantar, dorminhoca – Hermione abriu lentamente os olhos, encarando sua mãe. Ela estava vestida para trabalhar. Com suas melhores roupas. Vestia uma camisa de botões na cor branca, com gola, um blazer preto por cima e os cabelos estavam fixados em um coque. Seus olhos estavam maquiados com uma sombra clara e lápis. Um batom rosado e usava brincos de perolas, que ganhou no aniversário de casamento, há pelo menos dez anos atrás.
— Mãe...a senhora...está...linda – Hermione se levantou, sentando na cama – Onde vai tão arrumada?
— Trabalhar – Rosália respondeu, com um sorriso afável – E deixei café na bancada da cozinha. Você esta fazendo isso por mim há alguns dias e me senti uma mãe relapsa. Preciso cuidar da nossa casa. E agora que você está aqui, me sinto útil – ela respirou fundo. A dor ainda estava contida em seus olhos azuis – E você é meu bem mais importante agora. Tudo pela família. É isso que vou fazer.
— Mãe...eu...- ela tentou dizer algo, mas estava com a voz embargada.
— Está tudo bem, Mione – ela disse, com um sorriso amplo, que não chegou aos seus olhos – Vá tomar café, querida. Espero que fique em casa hoje. Ronald esta consertando o telhado. Eu volto por volta das cinco e meia, está bem?
Ela se levantou da cama e caminhou até a porta. Estava com uma saia tubinho, preta e saltos agulha, envernizado, em tom preto. Nem parecia que sua mãe estava sofrendo pelo luto. Mas, quem visse seus olhos e prestasse bem a atenção, veria a dor que ela sentia. E que a consumia por dentro.
— Ah, esqueci de avisar – ela disse, com a mão na maçaneta da porta – Luna ligou para cá, procurando por você. Ela disse que viria fazer uma visita espiritual. O que ela quer dizer com isso?
— Eu não faço ideia – Hermione respondeu confusa. E queria rir. Era a cara de Luna mesmo.
— Bom, se ela trazer mais paz para essa casa, já serve de consolo. Até logo querida.
Sua mãe saiu, deixando a porta aberta. Bichento saiu em seu encalço, desaparecendo no corredor. Isso a lembrou que o gato havia a arranhado na mão. Olhou para seu dorso. Estava avermelhado e com três riscos verticais. Iria dar uma bronca em Bichento depois. Achou estranho o fato de ele ter medo de Draco. Quando ele vinha em sua casa, ela não tinha gatos, então, não tinha um parâmetro para entender o temperamento do seu gato, que parecia sempre dócil e amável.
Hermione resolveu levantar da cama e seguir com sua rotina diária. Escovar os dentes, tomar um banho, colocar uma roupa confortável, para o frio, além de seu colocar com pedrinha de zircônia. Havia ganhado de presente de Natal, do seu pai. No último Natal que passou com ele. Engoliu seco, incomodada. Lembrar-se do seu pai, a fez recordar do sonho que teve com Draco e com o afogamento. Eram lembranças que pareciam ter voltado. Algo que não a incomodava, há anos. Resolveu abrir seu notebook, em cima da escrivaninha, liga-lo e escrever sobre aquilo. Seu passatempo preferido quando mais nova era escrever diários. Algo que parou com o tempo. Todos seus diários estavam ali, naquele quarto, dentro do closet, intocados. Faria um novo, com suas novas memórias, de uma mulher adulta e independente.
Depois que escreveu, abriu seu site e viu que tinha novos pedidos e que todo seu trabalho estava sendo acumulado. Respirou fundo. Pegou seu celular e ligou para a loja de armarinho e para a loja que vendeu a máquina de costura para ela. Nos dois estabelecimentos, as vendedoras informaram que Draco havia levado os produtos, informando que iria entregar na casa dela. Hermione ferveu de raiva. O que ele pensava que estava fazendo?
Ela enviou uma mensagem grosseira para ele. Não queria ligar. Apenas exigiu que ele devolvesse suas coisas, ou ele perderia a cabeça. A resposta dele não veio, o que a deixou com mais raiva ainda. Então, ela fez algo que não queria, ligar. Ele atendeu no segundo toque.
— Uau, bom dia, Hermione – ela escutou a voz dele. E todo seu corpo se arrepiou ao ouvi-lo.
— Bom dia só se for para você, Malfoy. O que pensa que esta fazendo com as minhas compras?
— Calma, estressadinha – ele disse, rindo – Eu mandei entregar em sua casa. Não se preocupe. Eu queria ser gentil com você, afinal, as duas lojas informaram que só entregariam amanhã.
— Está mentindo. Por que tem que se meter em minha vida?
— Eu não estou mentindo – ele insistiu – Pergunte a loja, se quiser. Logo vai estar ai suas coisas, meu amor. Não sabia que você tinha uma loja online de roupas. Eu poderia ser seu investidor, se quiser.
— Não quero nada de você. E espero que minhas coisas sejam devolvidas, hoje ainda – ela desligou, com raiva, respirando fundo. Como ele havia se atrevido a se meter em seus negócios?
Ela percebeu que sua barriga estava roncando e precisa urgente comer. Saiu do quarto, ainda sentindo o estresse percorrer seu corpo e desceu as escadas. Chegou à cozinha e encontrou panquecas empilhadas, no prato, em cima do balcão. Ao lado, um copo de suco de laranja e frutas vermelhas, ao lado das panquecas. Puxou a cadeira alta, sentando-se de frente para o balcão e comeu, sentindo o gosto da cobertura de mel. Sentia-se muito feliz por ter sua mãe de volta. Não sabia que sentia saudades da comida dela.
Começou a escutar o barulho de batidas no telhado, do lado de fora e lembrou-se de Rony. Logo sua animação se esvaiu. Ela não queria ver ele. Temia ser tratada mal, assim como foi tratada por Gina. E por mais que Harry tivesse sido solidário com ela, com relação à morte do seu pai, ele também não falou mais com ela. Mas, não podia desanimar. Havia acabado de chegar à cidade.
Depois de tomar o café, lavou a louça e guardou no armário. Deu apenas uma leve espiada pela janela da cozinha, para ver o trabalho que Rony estava fazendo. Ele estava em cima do telhado, ajoelhado, sobre uma tabua de madeira, enquanto colocava as telhas. Sua escada estava apoiada na parede na edícula. Ele estava com um rapaz, conversando. Um ajudante. Não reconhecia o garoto. Tinha cabelos vermelhos e era pequeno demais para aquele serviço. O que Rony estava pensando que estava fazendo? Ela saiu pela porta da cozinha e viu o menino. Devia ter uns quinze anos, ou doze. Ela não sabia, realmente.
Hermione pigarreou, para chamar a atenção dos dois. Eles pararam de conversar e a olharam. Rony parecia um pouco desagradado. O menino olhou para ela, sem reconhecê-la. Mas, ele parecia muito com sua professora de artes, Nymphadora Tonks. Seria possível ser o filho dela?
— Ronald, que bom vê-lo – Hermione disse, o mais amável possível. Ele não respondeu nada – Presumo que esse seja seu ajudante. Qual é o nome dele?
Rony ficou calado. Estava carrancudo. E Hermione, sem muita paciência.
— Sou Ted Lupin, senhorita – o menino respondeu.
— Eu sou Hermione Granger. Muito prazer em conhecê-lo, senhor Lupin – ela disse. E achou estranho falar daquela maneira tão formal com o garoto. Ele tinha o mesmo sobrenome do diretor da escola em que ela estudava. Remo Lupin. Ela achou aquilo estranho – E você esta trabalhando para Ronald?
— Na verdade, sou uma aprendiz...- Rony lançou um olhar enviesado para o garoto – O que foi?
— Eu te trouxe para me ajudar, não para ficar conversando – Rony respondeu, um pouco ríspido – E se nos der licença, Hermione, temos muito o que fazer agora.
Ela ferveu por dentro. Ele virou as costas para ela e continuou a martelar. Ela pigarreou de novo e ele bateu mais forte com seu martelo.
— Eu não posso acreditar que vai ser grosseiro dessa maneira, Ronald Bilius Weasley.
Ele parou de martelar e a fulminou com o olhar.
— O que você quer? – ele perguntou, se virando para ela – Por que está me perturbando? Estou tentando trabalhar aqui.
— Eu só quero saber o que uma criança faz em cima do telhado, sem segurança alguma – ela disse, com seu tom de advertência. Ele bufou diante disso – Onde está o capacete para vocês dois, hã? E se vocês caírem? E isso é trabalho escravo, Rony.
— Não me chame de Rony. Não é mais Rony para você. E se continuar me perturbando, eu vou embora! Não se meta nos meus negócios!
Ele parecia enfurecido, de repente. Hermione quase se encolheu. Quase. Mas, ela era corajosa. Havia enfrentando Lucius Malfoy, ora essa.
— E você, não grita comigo! – ela esbravejou – Sabe que está errado! Quer matar o garoto?
— Quer saber, Hermione? Vá para o inferno! – ele largou o martelo com força, que rolou para o lado e caiu do telhado, produzindo um baque – Diga a sua mãe que não vou terminar o serviço hoje. Amanhã eu volto. E se você continuar me infernizando, não vou fazer porcaria nenhuma!
— Faça conforme a segurança do trabalho orienta Ronald! Você sabe que esta agindo completamente errado!
Ele a ignorou, guardando seus materiais dentro de uma bolsa e cobrindo o telhado com a lona. Desceu as escadas e Ted o acompanhou, descendo com dificuldade. Hermione quase viu o garoto ir para o chão, pela oscilação da escada. O garoto se aproximou dela, com um sorriso doce. Vendo ele de mais perto, podia ver que seus cabelos eram ruivos, quase vermelhos. E seu rosto era sardento. Devia ter doze anos, pela altura.
— Me desculpe rapaz. Mas, não quero que você se machuque – ela disse, querendo se justificar ao garoto.
— Não tem problema. Eu não me machuque. Sei andar pelo telhado. Sou pequeno e leve, também. Faço isso com tio Rony em todos os serviços dele.
Hermione franziu os lábios, contrariada. Aquilo não era certo. Rony fechou a escada com força excessiva, fazendo os dois pularem e lançou um olhar intenso para Hermione. Não era nada bom aquele olhar. Ele seguiu com a escada, contornando a casa. Hermione o seguiu, assim como pequeno Ted, que pegou o martelo do chão e colocou dentro da bolsa de ferramentas e a seguiu.
Rony colocava a escada em cima da caminhonete, estacionado ao lado da casa de Hermione. Ted correu para o automóvel, com a bolsa em suas mãos. Parecia pesada, mas ele a arrastava, como se fosse um homem feito. Hermione suspirou, balançando a cabeça. Viu Rony entrar na caminhonete, sem olha-la e Ted entrar, com a bolsa, que Rony puxou da mão dele. Ted acenou para Hermione, antes que Rony arrancasse com a caminhonete dali.
— Pelo visto, ele ainda me odeia – ela disse, suspirando desalentada.
Antes que ela pudesse voltar para dentro de casa, outro carro estacionou na rua. Uma van. Um rapaz saiu do banco do motorista e abriu o porta-malas. Descarregou uma caixa grande e sacolas. Colocou em um carro de armazenagem. Seguiu para a casa dela.
— Você é a senhorita Granger? – ele perguntou.
— Sim, sou eu – Hermione já sabia o que poderia ser.
— Essa caixa e as sacolas são para a senhorita – ele disse – Onde posso descarregar?
— Lá dentro – ela apontou.
Deixou-o entrar e pediu para colocar em um dos quartos vazios, no andar de cima da casa, com as sacolas. Assinou a folha da entrega do produto e o rapaz da transportadora foi embora. Hermione revirou os olhos. Era típico de Draco tentar ser útil, mesmo não precisando. Logo a campainha dela tocou novamente e ela viu outro entregador, com uma cesta de café da manhã.
— Sim? – ela disse, um pouco irritada.
— Tenho uma entrega para senhorita Hermione Granger. Ela está?
— Sou eu – ela respondeu ríspida – É essa cesta? Sabe de quem veio?
— Não sei não, senhorita. Mas, tá ai no cartão – ele colocou na mão dela a cesta e foi se afastando.
— Ei, espera, eu quero devolver.
— Senhorita, não tem como devolver. Eu estou cheio de entregas agora.
Ele saiu, pisando duro, parecendo muito contrariado com Hermione. Era seu dia para que todos a tratassem mal?, ela pensou. Ela levou a cesta para dentro e colocou na bancada da cozinha. Pegou o cartão e leu.
Querida Hermione,
Eu espero que desfrute desse café da manhã e se lembre dos momentos que passamos juntos.
Inclusive, quando eu mesmo preparei suas panquecas e ovos mexidos.
Você amava minha comida, eu sei muito bem.
E eu amo você.
Com amor, Draco.
Hermione piscou, algumas vezes, atônita. Ele só podia estar de brincadeira. Ligou para ele, do seu celular, mas ele não atendeu. Recebeu uma mensagem em seguida, de que ele estava em uma reunião e que ligaria em breve. Ele teve a cara de pau de enviar um coração na mensagem. Iria trucida-lo, quando o visse. O que faria com aquela cesta, agora? Bom, ela pensou consigo mesma, comer não faria mal a ninguém.Uma manhã turbulenta
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