A Maldição de Sangue - Dramione
2 Capítulo 2
Notas iniciais

Céu (Heaven — Banda Solence)
Eu quero te dar minha vida
Se você está se juntando a esse passeio
Eu poderia te contar meus segredos
Você só precisa deixar ir
Eu posso te dar minha alma
Você rasgou em pedaços?
E nós poderíamos subir
Ey oh nós contornamos
Continue subindo
E nunca para baixo
Nós nunca poderíamos parar
Meu sacrifício
Vou sacrificar
Eu acho que podemos alcançar o céu
Se nós passarmos pelo inferno, se passarmos pelo inferno
E confiar um no outro
A casa parecia um pouco mais deteriorada do que ela se lembrava. No estilo vitoriano, com varanda e um balanço, além de uma grande árvore frondosa, de frente para a janela do antigo quarto de Hermione, a casa dos Granger era uma das mais simples naquele bairro. O tom amarelo havia perdido o brilho e estava desgastado. O jardim precisava de um bom corte na grama e deveria ser removido alguns entulhos de madeira, restos das obras do pai de Hermione. Antony tentou reformar a edícula, que se localizava nos fundos da casa, mas não teve tempo, pois enfartou no início de outubro.
A cerca branca e baixa continuava ali, assim como em todas as casas daquela rua. Hermione empurrou o portãozinho de ferro e foi recebida pelo cachorro dos seus pais. Ozzy parecia mais velho do que quando ela havia deixado a casa. Era apenas um filhotinho quando foi embora. Nunca voltou para Nova Esperança, apenas sendo visitada pelos pais em Londres. Ozzy nunca veio junto. Ele da raça yorkshire, com os pelos bem curtinhos e pretos, com cinza, no focinho. Ele a cheirou, balançando o rabo peludo, parecendo desconfiado. Começou a latir, com a sua voz rouca e Hermione se abaixou, oferecendo sua mão, para ele cheira. Ozzy se aproximou, cauteloso e lambeu a palma dela. Parecia mais tranquilo, mas Hermione não havia conseguido a confiança dele. Ela pensou no que faria com Bichento, dividindo uma casa nova, com um cachorro que parecia marcar território. Eram coisas assim que irritavam ela e a tiravam da sua zona de conforto.
Ela subiu as escadas de madeiras, que rangeu sobre seus pés. Chegou na varanda e ficou de frente para a porta de madeira, de cor marrom. Precisava de um verniz e Hermione pensou que poderia ajudar sua mãe na reforma da casa. Tocou a campainha, ao invés da aldrava e esperou.
Não soube quanto tempo ficou do lado de fora, aguardando que sua mãe abrisse. Uma tempestade estava a caminho e o vento soprou forte. Hermione cobriu a cabeça com o capuz e ficou de costas para a porta, vendo seu carro, estacionado em frente a casa. Bichento estava dormindo quando saiu do carro. O que era muito bom. Ele não parecia estar agitado, pois era dócil. Algo chamou a atenção de Hermione, do outro lado da rua. Um homem caminhava com um capuz preto e um sobretudo, batendo nos joelhos. Ela logo reconheceu ser Malfoy, devido a tê-lo visto do cemitério. Seria possível ele ter caminhado a pé até ali? Eram vinte minutos de caminhada e Draco não era conhecido por andar sem seu carro conversível. Ele era esportista, isso era um fato. Corria pelo menos todas as manhãs e nos tempos de escola, era o melhor corredor, entre os rapazes. Ele virou o rosto e ela teve certeza de que a viu. Voltou a olhar para frente e continuou a caminhar. Hermione virou-se para a porta, levando um susto, ao ver sua mãe parada na soleira da porta, com os cabelos tingidos de loiros, amarrados em um coque bagunçado. Rosália sempre foi conhecida por ser sempre arrumada e muito bonita. Tinha cabelos lisos, sempre moldados com cachos ou com os melhores penteados da moda. Mas, ao que parecia, com a morte do marido, estava em um estado depressivo que a deixava sem forças para cuidar de si mesma. Estava pálida e vestia um roupão cinza, calças de pijama e pantufas. Ela olhou para filha, sem ao menos vê-la.
— Oi mãe — Hermione disse, se aproximando para a abraça-la.
Rosália deu um passo para trás. Hermione engoliu seco. O que estava havendo? É claro que por mais que seus pais tenham a visitado aqueles anos em Londres, eram visitas frias e formais, pois não gostavam das escolhas delas. Mas, sua mãe não era tão fria. Era mais amável e conversava mais que seu pai.
— Entre, Hermione — Rosália convidou.
Ela entrou na casa e se deparou com o chão de madeira, um pouco desgastado e fosco. Lembra-se nos tempos em que recebia seus amigos. O chão era tão brilhante e era sempre encerado, a cada quinze dias. Sua mãe contratava uma diarista para fazer toda a limpeza e é claro, ela sempre interferia e ajudava. Hermione observou que o corrimão da grande escadaria, que era conectada com o andar de cima, onde ficavam os seis quartos da casa, estava com a tinta marrom descascando e o piso precisava de um bom trato. Hermione sentiu pelo menos o ar quente da calefação da casa bafejar em seu rosto.
— Então — Hermione disse — Eu preciso descarregar as malas, mãe. Vou trazer Bichento, você sabe.
— Claro — Rosália disse, com os olhos azuis, distantes. Nem parecia ver a própria filha. Estava abraçando a si mesma, olhando para a janela, ao lado da porta, coberta com uma cortina branca — Seu pai vai chegar logo. Vou apenas dormir um pouco, tudo bem? Vou esperar ele.
Hermione mordeu os lábios. Sabia que a situação estava critica. Segundo sua tia Muriel, irmã da sua mãe, disse que ela estava em um estado catatônico, desde que o marido faleceu. Estava inconsolável, por vezes, chorando e as vezes, muda. Apenas uma vez disse ter visto Antony entrar no cômodo dela e deitar ao seu lado, na cama. Hermione pensou que não deveria ser tão grave, pois afinal, ela estava de luto. Era natural que pensasse sentir a presença do marido. Mas, se ela continuasse a insistir nisso, Hermione não sabia o que faria. Talvez, um terapeuta ou um psicólogo? Não seria tão ruim assim. Um profissional entenderia muito mais desses problemas do que Hermione, mas não que ela fosse deixar sua mãe sozinha.
— Mãe, você sabe que papai se foi, não sabe? — não era a pergunta certa a se fazer, pela careta de desgosto que Rosália fez, apertando mais os braços em volta de si.
— Seu pai não se foi, Hermione. Ele está vivo. Muito vivo — ela disse, contrariada — Vá buscar seu gato. Ele está assustado com o senhor Malfoy, que está do outro lado da rua.
Hermione franziu o cenho, um pouco assustada. Mas, é claro que sua mãe viu Malfoy passando. Não deveria estranhar. Contudo, acreditar que Bichento estava assustado com a presença do rapaz era demais.
— Está bem, mãe. Eu já volto. Talvez, possamos...tomar um chá juntas.
— Depois, querida — ela disse.
Hermione suspirou e foi até a porta e a abriu, saindo para a varanda. Realmente, Draco estava do lado do carro dela. E Bichento, não se sabe como, estava em cima do painel do carro. Hermione desceu as escadas, preocupada e um pouco furiosa com aquilo. Não que fosse culpa de Malfoy. Ela nem sequer olhou para ele. Seus olhos foram direto para Bichento, que estava com os pelos eriçados e soltava silvos. Destravou a porta do carro com a chave e seu gato recuou para trás, silvando. O que estava acontecendo com ele?
— Bichento — ela tentou chamar, com uma voz mais doce possível. Mas, sabia que estava tremula. Mas, Bichento parecia arredio. Ela mirou Draco, que parecia fita-la com um olhar estranho — O que você fez com meu gato?
— Nada. Eu só estava esperando você voltar, para conversar — ele respondeu, de forma natural. Mas, os olhos dele pareciam estranhos. A pupilas eram duas fendas preta. Os olhos estavam em um cinza profundo. As mãos dentro do bolso. Ela piscou algumas vezes, tentando compreender sem a visão dela tinha algum problema. Ela desviou o olhar para o carro — É melhor não tentar pegar o gato agora. Ele vai machuca-la.
´- É claro, depois que você o assustou — ela acusou.
Mas, como ele poderia tê-lo assustado? E como Bichento escapou da caixinha dele? O que mais intrigava ela era o fato de sua mãe saber que seu gato estava assustado. Mas, eram perguntas sem resposta, naquele instante. Ela resolveu seguir o conselho de Draco e fechar a porta do passageiro. Rumou para o porta malas, destravando com a chave e ele abriu. Começou a tirar as três malas enormes dela, de roupas. Viu uma mão passar ao lado dela e puxar uma, colocando-a no chão. Ela olhou para Draco, com um olhar irritado. Ele parecia calmo, quase pacifico. Muito diferente do garoto marrento que conheceu, anos atrás.
— Qual é seu problema? — ela quase gritou.
Ele a fitou, com a sobrancelha erguida.
— Eu não tenho problema nenhum, Granger. Só queria ajuda-la — ele respondeu — E posso levar para você até a porta as malas...
— Não, de jeito nenhum. Você e eu...- ela apontou para si mesma e para ele — Nunca vamos ser amigos, nem vizinhos, nem nada. Seu pai é um pirado e nunca vou me esquecer o que você fez. Nunca. Aquela noite de Halloween foi a pior coisa da minha vida. Agora....agora só vai embora! — ela aumentou o tom, na última frase.
Ele encolheu os ombros e parecia magoado. Seus olhos pareciam normais, naquele momento. Sem parecer ter duas fendas pretas, ao invés de pupilas. Ela quase se sentiu mal. Quase. Mas, continuou mantendo a postura dura e inflexível, com os braços cruzados sobre o peito.
— Está bem — ele murmurou e deu as costas ela.
Atravessou a rua e andou, do outro lado da calçada. Hermione soltou o ar que prendia. Estava tremendo, dos pés a cabeça. Nem queria se lembrar do passado. Nem dele. Nem de Lucius. Ela teve dificuldade para levar as três malas até a porta da casa da sua mãe. Precisou fazer três viagens, subindo e descendo as escadas da varanda, que protestavam sobre o peso extra. Percebeu que Bichento, depois da última viagem, havia entrado na caixinha dele. Talvez, estivesse calmo de novo. Ela cuidaria dele depois. Fechou o porta-malas, travando as portas e ligando o alarme. Voltou para a varanda da casa e abriu a porta. Puxou as três malas, até o hall de entrada e depois, voltou para buscar Bichento, que estava encolhido dentro da caixinha. Hermione tentou até mesmo fazer carinho nele, mas acabou conseguindo um arranhão no dorso da mão, que ardia a todo momento que puxava suas malas, escada a cima. Demorou tanto tempo para subi-las, que apenas se deitou na cama, em seu antigo quarto de dormir.
Era uma cama de solteiro, com lençol rosa e travesseiros com flores amarelos e fundo salmão. O quarto tinha um tom de rosa pastel, com algumas fotos dela e de seus amigos, na escrivaninha, recostado na janela, com cortinas amarelas. Dali, ela podia ver a árvore, que usava para se pendurar e aterrissar no chão, quando queria fugir para a casa de Gina Weasley, sua melhor amiga. E muitas vezes, fugia também para encontrar Rony, nos tempos de escola, quando namoraram. Ela se levantou da cama, sentindo novamente os dedos. Bichento havia saído da caixinha e cheirava todo o ambiente, um pouco desconfiado.
— Eu sei, amigo. Tudo aqui é novo.
Ela olhou para seu antigo closet. Abriu a porta de correr branca e viu ainda suas roupas, de quando tinha dezoito anos. Eram ultrapassadas e fora da moda. Mas, dariam um bom material para fazer roupas novas. Iria comprar outra máquina de costura e costurar. Usaria sua escrivaninha para desenhar novos modelos e vender roupas na internet. Era perfeito. Além de fazer seus desenhos habituais. Gostava muito de desenhar paisagens, animais, quase nunca seres humanos. Tinha muita dificuldade com a anatomia humana. Mas, se arriscava as vezes.
Hermione chegou perto da escrivaninha e pode ver os portas retratos, sobre a escrivaninha. Uma foto dela com Rony, outra dela com Harry e Rony. Uma com Gina e outra com Vitor, seu ex namorado. E havia uma que ela não se lembrava de ter tirado. Pegou o porta retrato, com as mãos tremulas. Era ela e Draco, no dia de Halloween. Ele abraçava ela pela cintura e beijava seu rosto. Estavam fantasiados de senhor e senhora abobora. Iria completar um mês naquela época, em que se tornaram amigos. Mas, tudo foi por água abaixo, naquela noite. Ela soltou o retrato, sentindo como se queimasse sua pele. Ficou com raiva, pois ainda sonhava com ele. Ainda sonhava com aquela noite. Um raio cortou o céu, a assustando e ouviu o barulho de chuva, do lado de fora. Ela pensou se Draco estaria bem, mas descartou o pensamento. Ele não importava mais.
Havia uma lata do lixo, ao lado da escrivaninha. Ela pegou o porta retrato, abriu o fecho de trás, tirou a foto e deixou na escrivaninha. Analisou bem a foto deles. O sorriso jovial do garoto. O sorriso dela. Os seus cabelos cacheados e castanhos, muito volumosos naqueles tempos, que não fazia tratamento químico, para deixá-los mais domados. A simplicidade das fantasias, de cor laranja. Os rostos pintados da mesma cor. Gina havia tirado a foto, com sua câmera fotográfica. Só ela sabia o segredo dos dois. Respirou fundo, olhou uma última vez para o rapaz simpático que ele se tornara, no final de setembro. Viu a casa que estava nos fundos. Era a mansão Malfoy, de cor branco mármore. Rasgou o meio da foto, separando ela dele e jogou no lixo as duas partes. O passado deve ficar no passado. Esse era seu lema.
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