A Maldição Silenciosa
16 Pelo bem de muitos
Notas iniciais
— Ah não, não, não... Não pode ser... — lamentou em sussurros a caçadora.
— O que foi, tia Maria? — A menina perguntou preocupada.
Maria virou-se para June assim que foi questionada.
Se eles descobrirem que ela está tão bem quanto eu... Não, isso não pode acontecer. Ela deve ser a chave para tudo isso... Por que mais eu estaria aqui...?
— Tia Maria?
— J-june. Eu vou descer. Fique aqui, está bem?
— M-mas por quê? — questionou de olhos arregalados — Tem gente vindo aqui?
A mulher assentiu: — Faça o que eu pedi. Não saia daqui até que essa gente tenha ido embora. — Maria disse num tom sério e apontou para o lugar de onde a criança permanecia.
A caçadora pegou o candelabro e levou consigo para fora. Desceu com pressa as escadas de madeira e deixou o objeto numa estante próxima. Acelerou os passos em direção ao saguão principal. De longe pôde ouvir a porta bater. Eram eles.
Às vezes sacrifícios precisavam ser feitos, tudo para o bem maior. Maria entendia isso muito bem; viu isso ocorrer na vida dos outros e na própria várias e várias vezes. Era o tipo de pessoa que ‘vivia pelo próximo’. Mas não era todo mundo que tinha aquela coragem como ela. Maria era como uma leoa que fazia de tudo para proteger a sua "cria" ou aqueles que precisavam de ajuda. Mesmo não recebendo o devido reconhecimento — do qual não fazia questão — ela agia como poucos e dedicava-se como ninguém.
Todavia, ela ainda era um ser humano, e como todo, tinha seus defeitos. Defeitos dos quais tentava não deixar evidentes.
Bateram à porta novamente. Isso a fez acordar para a realidade. Ela balançou a cabeça e retornou com seus passos. O caminho para o saguão parecia interminável.
— Já vai, já vai! — A voz falou baixo, mas audivelmente.
Quê?
Era uma voz feminina. Assim que a caçadora a ouviu seu coração começou a acelerar. Era uma das freiras.
— Irmã Abigail, o que fazes aqui? — questionou a caçadora, enquanto descia rapidamente as escadas — Devia estar descansando!
— Eu posso suportar, jovem Maria. — respondeu convicta a senhora de idade baixa, um pouco fortinha e de rosto redondo — Fico contente que as outras irmãs estejam descansando, porém eu consigo aguentar a carga do trabalho
— Espere...! — Maria estendeu o braço para que a freira não caminhasse mais para próximo da porta — Irmã, não vá. P-pode ser perigoso... D-deixe que eu atenda.
— Por quê, Maria? Há algo errado? — A senhora fez um gesto com as mãos, seu rosto estava visivelmente confuso.
E novamente bateram à porta. A caçadora estremeceu por dentro, e o coração não parava de bater rápido...
— Céus, Maria, está começando a me assustar! — Preocupada, Irmã Abigail levou as mãos ao peito.
— Acalme-se, por favor. — Maria disse num tom sério para não piorar a situação. Em seguida tocou em seus braços gentilmente e a encarou nos olhos — Volte, fique com os outros e deixe-me falar com eles. Diga que... tudo ficará bem.
Era tão fácil dizer aquilo. Mas no fundo até mesmo ela temia ferozmente o que aconteceria no futuro.
A freira continuava a encarar a caçadora com um olhar preocupado. Queria retrucar e pedir mais explicações a ela, porém sabia que Maria não o faria. Às vezes ela era teimosa demais.
Disfarçando um sorriso confiante, Maria se despediu da freira que, a passos delicados, deixou-a, fazendo seu caminho de volta à enfermaria.
— Olá.
Ao abrir a porta Maria logo deu de cara com um homem branco, de quase dois metros de altura. Forte, de cabelos raspados, tinha uma expressão ameaçadora. Estava sério, e chegou a erguer uma sobrancelha quando deu de cara com a mulher.
— O-o que fazem aqui? — perguntou ela um pouco hesitante, mas no fundo já sabia a resposta.
— Senhorita, viemos checar o local para saber se há pessoas saudáveis. — respondeu secamente com sua grossa voz. Ele aproveitou o curto espaço de tempo para analisar o corpo e reações de Maria.
— Todos aqui estão doentes. — Respondeu de uma vez. Ela também aproveitou para observar aquele homem que mais parecia outro mercenário. Perguntou a si mesma como estariam os homens contratados por Christopher — O que os... senhores estão fazendo com os que estão bem?
— Estamos separando-os dos demais para que não se contaminem. Não sabemos a procedência desta moléstia e por isso o melhor é evitar maiores problemas. — Ele fez uma pausa, encarando-a constantemente — Pelo visto a senhorita não aparenta sofrer mal algum.
Ele já deve saber...
— Por acaso seu nome é Maria?
A caçadora cerrou os punhos instintivamente. O homem não deixou de perceber aquilo, parecia ser o tipo de pessoa que estava preparada para qualquer peculiaridade ou hostilidade.
Por dentro, a mulher estremecia por completo. Tinha medo, muito medo do que estava prestes a acontecer, mas sabia, também, que se não fizesse algo não teria respostas. Sacrifícios precisavam ser feitos.
— Sou eu quem vocês procuram. — Ela emitiu as palavras convictamente — Mais ninguém.
— Ah! — Aquela reação foi cortante — Então é você quem dizem ser uma bruxa. — A voz dele era sugestiva. Aquilo arrancou um calafrio da caçadora.
— Não sou uma bruxa. — A mulher franziu as sobrancelhas — Tampouco a verdadeira responsável por essa moléstia.
— Certo. Bruxa ou não, vamos resolver isso logo. — Assentiu e falou como se não desse a mínima pelo comentário adicional dela — Venha conosco. — Ele estendeu a mão direita. A voz dele soou fria; Maria teve um pressentimento que o que viria adiante não seria bom.
Após alguns segundos sem resposta, o homem franziu as sobrancelhas. Ficou irritado pela não resposta. Ela apenas o encarava como se hesitasse em deixar acatar ao seu pedido.
— Vamos. Agora. — Seu tom parecia de ameaça.
Maria engoliu em seco. Definitivamente aquele homem não estava para brincadeiras, tampouco paciência. Se não "obedecesse" àquela ordem, com certeza teria problemas. E a questão maior não tinha a ver com ela, e sim com o orfanato.
A caçadora olhou para trás uma última vez. Respirou fundo. Se tomou aquela decisão foi por causa daquelas crianças, das freiras... e por Adrian.
— Está bem.
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O meio-vampiro cerrou o punho esquerdo e olhou para ele. Apertou-o com força. Não estava em suas melhores condições (já esteve em piores), mas era o suficiente.
Adrian tinha um pressentimento ruim. Maria estava longe e o perigo estava perto. Podia sentir isso correr em sua espinha e em sua mente. Algo ruim poderia acontecer se ele não fizesse nada, era sempre assim. O mal sempre triunfava quando os bons homens não faziam nada.
A fada assistia ao mestre em silêncio a uma curta distância. Estava apreensiva com a situação dele e temia muito por sua vida.
Ele tocou o chão com os seus pés e se esticou para a esquerda a pegar as botas. As calçou com um pouco de lentidão. Em seguida, se levantou com cuidado e pegou a camisa. Olhou para a marca em seu braço e se irritou com veemência. Se fosse como o pai, destroçaria o responsável por isso assim que descobrisse. Mas isso não tirava o fato que carregava uma raiva descomunal.
Alucard vestiu a camisa. Quando o fez, se tratou de encarar a familiar que estava quieta o tempo todo.
— Obrigado. — falou rigidamente, mas para a familiar fez a diferença.
— Estou a seu dispor, mestre.
Ela não teve tempo para relaxar após ver uma pequena melhora no estado de seu mestre. De uma hora para outra o meio-vampiro congelou e manteve seu olhar fixo ao nada.
— M-mestre! O que houve?! — Angustiada, a Fada voou para perto dele.
— Maria. — Ele fez uma pausa — Problemas.
— Hã?
Alucard se voltou subitamente a ela, o que a fez estremecer.
— Maria está com problemas.
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