A Maldição
4 Capitulo 4: Os Amaldiçoados 01! Acordando a Maldição Parte I
Notas iniciais
O Sonhador
O céu cinzento movido por uma ventania constante e fria também se fez presente em outro tempo, este cenário era palco de um acontecimento estranho e intrigante em um vilarejo há alguns séculos passados. Parecia ser uma noite como outra qualquer, iluminada por lampiões e velas, onde uma família esperava o sono se fazer presente enquanto conversavam sobre a colheita e as dificuldades de pagarem seus impostos exigidos pelo Rei e sua coroa, quando que de repente entra alguém às pressas e parecendo muito eufórico e desvairado, entusiasmado e ao mesmo tempo em que angustiado, completamente empolgado e alucinado, segurando em suas mãos um estranho objeto que apressadamente procura escondê-lo enfiando em uma sacola de pano que pega em um dos cômodos da sua modesta casa.
E quem trazia este estranho objeto em suas mãos e falava quase sem parar era Zakarias, que acabara de entrar na casa de seus pais, tentando lhes descrever o seu inusitado encontro e convencer sua família dos poderes mágicos e encantadores que testemunhou a poucas horas atrás diante da presença de um mago, alquimista ou até mesmo de um bruxo, na verdade ele sequer sabia de quem se tratava, o importante mesmo era o proveito que se podia tirar da situação independente de quem seja o protagonista e detentor da sorte que lhe cortou o caminho.
Zakarias era um jovem filho de camponês que a pouco havia se casado, e tinha uma linda menina chamada Ariela, estava ansioso por promover melhores condições de vida para sua família. O rapaz era ambicioso, tinha muita sede do poder, não entendia porque ele e os seus tinham que viver no esforço sobre humano enquanto os Lordes frequentadores da corte do rei viviam esbanjando riquezas e forjavam as leis de acordo com os seus interesses que muitas vezes estavam distantes das expectativas do povo. E ao longo dos anos percebeu que jamais iria conseguir fazer parte da tão sonhada corte, pois por mais que trabalhasse pouco lhe sobrava, não tinha nenhum influente conhecido que pudesse lhe arrumar acesso ao reino dos covis, enfim, estava até então designado e destinado ao total anonimato, morreria do mesmo modo que veio ao mundo, sem nenhum grande propósito. Porém agora, havia uma oportunidade, caída do céu, por intermédio de um anjo, de um mago, de um feiticeiro, alquimista, seja lá quem for eis a grande oportunidade que resolveu visitá-la naquele momento. E assim, eufórico ele não poupava esforços para convencer a todos.
– Mãe, A Senhora não entende! Isso pode ser o fim de todas as nossas privações!
Sua mãe contrariada responde:
– Hora Zakarias! Por Deus! O que eu fiz para que você meu filho tivesse um pensamento tão simplista e preguiçoso?
Zakarias irritado responde a sua mãe.
– Preguiçoso?! Meu Deus! Não acredito que esteja ouvindo isso. — Sua mãe o interrompe com um tom de voz desafiador.
– Não foi para isso que lhe criei meu filho. Para que fique ai sonhando com mágicas e feitiçarias. Vá trabalhar de verdade para trazer sustento a tua filha e mulher. Tenha vergonha meu filho e pare de sonhar acordado. Você não desiste de ser o bobo deste povoado? Crie juízo meu filho, agora você é um homem com uma família para sustentar e não mais um jovem bobo e sonhador.
Assim como entrou Zakarias saiu da casa de sua mãe. Sua permanência com sua mãe durou o suficiente apenas para que ele lhe contasse o que havia acontecido e como já se esperava, receber toda a reprimenda que se faria necessária para o momento na visão de sua mãe, embora ele neste momento, novamente pensava ter encontrado a solução final para os seus problemas.
Zakarias corria meio sem destino, sem saber ao certo a aonde ir. Com ele apenas o objeto estranho com aqueles dizeres mais estranhos ainda escondidos daquela sacola de pano e junto a tudo isso uma missão ainda mais estranha e sem sentido que era de encontrar mais dois seguidores em menos de vinte e quatro horas, apenas mais dois que concordassem em acionar e desafiar o destino do tempo, tinha arrepios em pensar que todos seus sonhos de uma vida inteira estavam há uma distância de poucas horas, dependendo apenas de encontrar mais dois corajosos visionários, bem, diante disso ele presumiu que não poderia ser dois qualquer.
Ofegante Zakarias entrou no recinto assustando todos que ali estavam reunidos, ele procurava o amigo Jozhias.
– Viram Jozhias? Digam-me, onde está Jozhias? Pergunta um ansioso e aparentemente atrapalhado Zakarias.
– Ele deve estar na Taberna. Ele ainda não voltou para casa. — Responde Katarina, a mulher de Jozhias.
– Meu Deus Katarina. Você não dá limite a este homem. Ele vai dormir lá?
– Hora Zakarias, me espanta muito logo o Senhor me falar sobre limites! Já que é o Senhor que tem a fama aqui neste povoado de ignorar todos, sejam eles quais forem! — Provoca uma já irritada Katarina.
– E Jasmim? Onde está Jasmim? — Pergunta Zakarias.
– O que queres com Jasmim Zakarias? — Pergunta um senhor em um tom de voz aborrecido, que se levanta vagarosamente da mesa onde todos os presentes estavam sentados e reunidos. E continua:
– Já não chega atormentar meu filho com suas ideias lunáticas e agora queres fazer o mesmo com a minha frágil Jasmim? — Confronta-lhe o pai de Jasmim.
Diante desta argumentação inesperada e inusitada Zakarias solta uma risada carregada e diz:
– Frágil! Jasmim frágil? Não me faça rir. Talvez ela seja mais firme e forte do que todos nós juntos. Não me faça acreditar meu caro Senhor que não conhece absolutamente nada sobre sua própria filha. Doce sim, mas frágil?
Um breve silêncio imperou por instantes naquele recinto iluminado por velas e castiçais. No entanto podia-se se perceber o sentimento que reinava naquele ambiente que estava próximo a se tornar hostil. Zakarias era considerado pelo povoado como um sonhador lunático, que procurava de todas as formas uma vida fácil, estava sempre metido em alguma confusão, sempre com planos mirabolantes, estratégias de poucos esforços com grandes recompensas. Porém era uma pessoa adorável, de boa fala, conquistador, sedutor, e com um ar de inocência que contagiava a todos. Talvez por estas características serem bem latentes em sua personalidade é que o povoado não o levava muito a sério e fazia vista grossa para as suas atrapalhadas aventuras. Em função disso muitas vezes foi poupado de castigos pelas autoridades do povoado, mesmo quando dividiu a masmorra da torre com marginais e bandidos impiedosos, até mesmo ali, foi protegido de longe pelos soldados da guarda. Todos no povoado gostavam de Zakarias embora nem sempre estivessem dispostos a ouvir suas ideias um tanto quanto incomum de como conquistar triunfo rapidamente, mas na família de Jozhias e Jasmim havia um rancor, magoas e certo medo de que Zakarias influenciava muito mais do que deveria os irmãos Jozhias e Jasmim. A relação destes três era algo muito forte, quase que inexplicável para os padrões da época. Tanto o pai como a esposa de Jozhias, a jovem Katarina não gostavam nada da amizade entre Zakarias e Jozhias, até porque estes passavam grande parte da noite juntos na taberna, divagando sobre o futuro, sonhando com suas vidas e de como transformá-las. Então o silêncio foi interrompido pelo sedutor e atrevido Zakarias.
– Sim. Sem dúvida. A frágil Jasmim deve estar bebendo com Jozhias na taberna e dando uma lição naquele bando de desocupados que devem estar tentando lhe impressionar. — E com esta frase saiu rindo até ser novamente interpelado por Katarina.
– O que carregas consigo ai nesta sacola Zakarias, é para beber durante o caminho, não aguenta esperar que seja até a taberna? — Questionou Katarina em tom sarcástico mesmo sabendo que a bebida não era nem de perto um problema para Zakarias.
Ele parou de andar, ficou por um instante parado de costas talvez decidindo se diria ou não algo sobre o que carregava, provavelmente ponderando o quanto eles acreditariam ou não na sua magia. E logo percebeu que não seria com eles que teria a sua aprovação, então apenas deixou algo no ar e de novo instigando a provocação virou-se vagarosamente para a mesa onde todos estavam ali sentados, reunidos e esperando por uma resposta e disse:
– Isto aqui? — Levantou a pequena sacola diante de seus olhos e a fitou-lhe com um olhar profundo e esperançoso e logo em seguida continuou — O que levo aqui escondido? — Pensou por mais alguns segundos e então respondeu: — Ela é a passagem para a nossa libertação minha cara e adorável Katarina, apenas isso, ela lhe dará uma nova condição, um novo lar, uma nova perspectiva. Ela simplesmente lhe dará. — E saiu rindo alegremente enquanto os membros daquela família se entreolhavam em ar de espanto, desaprovação e uma certa preocupação, o que afinal aquele adorável mas pouco confiável rapaz estava aprontando novamente.
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