A Magia do Submundo
1 Traição de Sangue
Notas iniciais
Estou aqui com uma nova história, centrada em seres sobrenaturais. Bem, não vou me demorar aqui. Este primeiro capítulo é curto, mas os próximos provavelmente serão maiores
O príncipe fungou irritado, olhando para o grande palácio e também para o cenário desolado com desprezo.
O céu era vermelho como sangue, e as nuvens pareciam feitas da fumaça que precedia o incêndio. O cheiro de enxofre era forte e estava impregnado no lugar. Naquele plano, não havia sol ou lua, apenas um céu eterno que nunca se alterava.
Em meio a essa paisagem, um enorme palácio de mármore negro erguia-se imponente. Cheio de torres, pontes e caminhos que transformavam o castelo do Rei do Inferno em um labirinto do tamanho de uma pequena cidade.
Ao longo do caminho, o príncipe podia ver os demônios. A maioria deles eram criaturas deploráveis de corpo e espírito, com poder menor do que um bruxo ou bruxa, inúteis na visão do príncipe. “E ridiculamente desagradáveis de se ver”, pensou consigo mesmo o príncipe.
Ele caminhava sozinho, e todos os demônios afastavam-se quando ele passava. Mas essa era uma reação comum aos demônios daquele lugar, desde que Lúcifer guiou os Príncipes Demoníacos contra Satanás, dois séculos antes. “Agora demônios de vários tipos vivem aqui”, pensou Asmodeus com desprezo. “Os demônios do orgulho nunca se afastariam de mim covardemente.”
Havia duzentos anos, Lúcifer e os Príncipes Demoníacos, ao lado dos Arcanjos, investiram contra Satanás. A aliança entre anjos e demônios pegou o Grande Mal de surpresa, e finalmente ele fora derrotado.
Asmodeus fungou novamente. Naquele momento, em sinal de paz, caminhava com uma casca humana. Era alto e excepcionalmente belo, com um corpo bem definido. O Príncipe da Luxúria possuía longos cabelos cor de vinho e olhos cor de âmbar. Não possuía barba, e não aparentava ter mais de vinte e cinco anos. Vestia um sobretudo preto de couro de demônio, e por baixo uma camisa vermelha e uma calça jeans azul. Era a roupa que usara da última vez que fora para o mundo humano.
Asmodeus finalmente chegou aos portões do Palácio da Meia Noite. O Príncipe Demoníaco aguardou até que um demônio surgiu para vê-lo. Parecia um gato, mas com o dobro do tamanho, olhos vermelhos e dentes afiados como facas.
O príncipe olhou o gato com desprezo. “Lúcifer… quanta arrogância! Mandar um demônio do primeiro ciclo me escoltar”, pensou ele irritado.
Asmodeus foi guiado pelo castelo. Um tapete vermelho com quatro finas linhas douradas cobria o chão. Retratos de demônios poderosos e armas macabras ficavam nas paredes do castelo. Asmodeus pôde reconhecer dois ou três de seus antigos generais nos retratos. Parou momentâneamente no retrato de uma bela mulher. “Lilith, queria que pudesse estar aqui para ver o dia em que uma nova era surgirá”, pensou o Príncipe Demoníaco.
Asmodeus finalmente chegou ao topo de uma das torres principais, onde o gato miou e se desfez em sombras. O Senhor da Luxúria esperou poucos segundos e continuou avançando. Subiu uma escadaria de vinte degraus e finalmente estava no topo da torre.
Era um espaço vasto, com um teto sustentado por vinte colunas de mármore. Não havia nada naquele lugar, exceto um homem de pé, no meio do lugar.
— Lúcifer.
— Asmodeus.
Lúcifer virou-se para olhar o príncipe. Era ainda mais alto que Asmodeus, com cabelos prateados, curtos e bagunçados. Seus olhos tinham um tom alaranjado e brilhante, e ele possuía uma barba bem feita que rodeava seus lábios.
O Rei do Inferno vestia uma armadura branca pequena, que parecia não adicionar quase nada à sua altura. Mesmo assim, adequava-se perfeitamente ao corpo de Lúcifer. Por cima dela, ostentava um manto vermelho sangue.
Lúcifer sorriu minimamente ao ver Asmodeus.
— Meu velho amigo, os dias da chama da mudança se aproximam — anunciou Lúcifer. — Eu convoquei todos os outros Príncipes Demoníacos, mas como sempre você foi o primeiro a chegar.
— Vossa Majestade, acredito que não consiga entender o motivo desta reunião — disse Asmodeus, cuidadosamente. — Poderia me esclarecer?
— Mas é claro — concordou o Rei do Inferno. — Eu acho que, em breve, deveremos finalmente estabelecer a paz com os humanos.
Era tudo o que Asmodeus precisava ouvir. Após a derrota de Satanás, Lúcifer assumiu o comando supremo do inferno. Quando ele estabeleceu a paz com os anjos, Asmodeus fez de tudo para acreditar que seu senhor planejava uma traição. “Mas ele não planeja isso”, percebeu ele finalmente. “Meu senhor deseja a paz.” Asmodeus suspeitava disso havia décadas, e demonstrou ser o mais leal possível a Lúcifer desde então.
Lúcifer virou-se para a cidade demoníaca, cruzando os braços atrás das costas.
— Aproxime-se, Asmodeus — ordenou o Rei. Asmodeus assim o fez.
— Milorde, o que deseja?
— Olhe para a paisagem à sua frente. Diga-me, o que você vê?
Asmodeus olhou para a cidade. Uma construção imponente, porém macabra e aterrorizante. Podia ver demônios fracos andando pelas ruas, alguns matando e torturando outros ainda mais fracos. Ainda ao longe, via planícies cinzentas, montanhas negras e vulcões.
O Príncipe da Luxúria encarou seu suserano, que observava o horizonte, como se estivesse em transe.
— Eu vejo uma cidade habitada por seres cruéis, fracos e impiedosos, que não se importam com nada além da destruição — respondeu Asmodeus.
Lúcifer assentiu, pensativo.
— Eu pretendo mudar is…
— Mas — cortou Asmodeus —, os humanos são ainda piores.
O Rei do Inferno ficou em silêncio quando ouviu isso. Ele ergueu a mão e encarou a palma da própria mão. Por fim, voltou à sua postura anterior.
— Vejo que eles chegaram — comentou Lúcifer.
Quando Asmodeus olhou, outros dois Príncipes Demoníacos surgiram. Eles, no entanto, não usavam a casca humana. Mamon, o Príncipe da Ganância era enorme, uma criatura de três metros com uma cauda longa. Suas escamas douradas cobriam todo o seu corpo, e ele possuía quatro grandes braços com garras negras. Seu focinho longo e chifres que projetavam-se para trás davam-lhe um aspecto de um dragão. Seus olhos eram amarelos, e seus dentes da mandíbula superior projetavam-se para fora.
Belzebu, o Príncipe da Gula, lembrava uma mistura de insetos e aracnídeos. A parte inferior de seu corpo era como uma aranha gigante, e a superior era como um híbrido de humano e escorpião. A cabeça dele, no entanto, era como uma mosca. As antenas dele possuíam pontas vermelhas.
— Mamon, Belzebu — cumprimentou Lúcifer, sem se virar. — Que bom que estão aqui. Aproximem-se e me digam o que veem.
— Me perdoe, Lorde Lúcifer — sussurrou Asmodeus —, mas eles não estão aqui a seu pedido.
Lúcifer arregalou os olhos quando sentiu algo atravessar seu peito. Quando olhou para baixo, viu a mão de Asmodeus, banhada em sangue — seu sangue — saindo de seu peito.
O Rei do Inferno rugiu, e uma energia sombria saiu de seu corpo, fazendo Asmodeus recuar para junto dos outros dois Príncipes e fazendo o chão da torre rachar. Lúcifer olhou para seus senhores do inferno, sem expressão.
— Asmodeus… Belzebu… Mamon… o que significa isso?
— Lorde Lúcifer — quem respondeu foi Mamon. — Perdoe-me ter que te contar, mas não concordamos com a maldita paz que você tanto parece desejar.
Lúcifer olhou para os outros dois.
— Concordam com Mamon? — Os dois outros príncipes concordaram, fazendo Lúcifer suspirar. — Muito bem. Sinto dizer-lhes, mas me deixa desiludido imaginar que vocês acreditam que podem me matar. Muito bem, vos mostrarei a diferença entre um Príncipe Demoníaco e o Senhor Supremo de todos os Infernos.
Os três príncipes se prepararam para a batalha, aquela que definiria o rumo do mundo demoníaco.
*
Ele observava com ódio a cena que ocorria.
De todas as quatro entradas da cidade Averam, centenas ou milhares de demônios de diversos ciclos invadia. Além dos demônios invasores, alguns dos demônios que viviam na cidade voltaram-se contra seus irmãos, iniciando o Massacre de Averam.
Muitos demônios eram trespassados, mutilados, torturados e pisoteados enquanto os invasores avançavam. Os demônios do orgulho de Lúcifer eram os principais defensores da cidade, e uma verdadeira carnificina era feita.
Enquanto o homem de armadura completa — incluindo um elmo com chifres — cerrava os punhos, furioso, ouviu barulhos atrás de si. Quando se virou, dois demônios surgiram. Grandes bestas semelhantes a ursos bípedes.
O cavaleiro voltou-se totalmente para eles.
— A traição dos príncipes Asmodeus, Mamon e Belzebu são imperdoáveis — anunciou o cavaleiro, friamente.
Ele direcionou o olhar para o maior dos ursos, e este explodiu, como se fatiado de dentro para fora. O outro urso assustou-se e não viu o punho do cavaleiro acertá-lo, despedaçando seus ossos e mandando-o para longe, rasgando o solo do submundo pelo caminho.
O cavaleiro lamentava, mas havia sido advertido de que, se uma revolta ocorresse, deveria abandonar Lúcifer para proteger seu bem mais valioso. Furioso, o cavaleiro deu as costas ao Palácio da Meia Noite — de onde uma intensa chama foi disparada para o céu — e correu em direção ao seu destino.
— Azazel! — gritou uma voz atrás dele. Quando se virou, deparou-se com um belo homem jovem de cabelos negros e olhos azuis. — Asmodeus, Mamon e Belzebu estão lutando com Lorde Lúcifer!
— Belphegor, nossas ordens são claras — rosnou Azazel, o cavaleiro da Ira. — Devemos abandonar o inferno agora!
— Mas…
— Você sabe que existem coisas que vale a pena defender… — proferiu Azazel, deixando claro que não mudaria de opinião. — Vamos logo! É o seu dever protegê-lo também!
Desolado, Belphegor acompanhou Azazel. O Pecado da Preguiça e o Pecado da Ira atravessaram a fronteira das terras de Lúcifer, buscando pelo lugar que garantiria sua sobrevivência. Azazel pensava nas pequenas crianças que precisaria defender. Ele sabia que, um dia, o olhar dos Príncipes traidores se voltaria para ele e Belphegor. “Neste dia, estarei pronto”, prometeu Azazel a si mesmo.
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