A Magia do Submundo
9 O Cemitério
Notas iniciais
Na noite anterior, Luna Silverstone teve certa dificuldade em dormir. Pensava nas coisas que ocorreram na floresta com verdadeira preocupação. O que aquilo significava? Como Jason espantara o Corruptor? E como este simplesmente sumiu?
Aquilo ocupou algum tempo do sono da mestiça. Ela estava curiosa, e condenava-se por isso. Ela própria foi a primeira a dizer a Soren para esquecer isso. Niel, seu pai, concordara com ela!
Então por que Luna, que nem possuía relação direta com isso, não conseguia simplesmente esquecer?
Outra coisa passou pela cabeça dela. Em um momento, o Corruptor obedecera o garoto. Quando ele ordenou que ela fizesse algo, a própria Luna lutou contra um súbito desejo de atender ao pedido dele. “Eu faria qualquer coisa? E se ele me pedisse p-para…” Seu rosto corou. Ela sentiu-se furiosa. “Pare de pensar nisso! Ele é só um bruxo inútil! Pare de pensar nele desse jeito…”
Constantemente, Jason Godren tinha pensamentos parecidos em relação à garota de cabelos negros. Naquela noite, porém, seus pensamentos estavam em outro local. Em um cemitério relativamente próximo à sua escola.
“Vai fazer dois anos”, pensara Jason. “Dois anos que você morreu, Owen.”
Era praticamente seu irmão. Originalmente, eram apenas Jason e Owen. Eram melhores amigos, praticamente irmãos aos olhos de qualquer um. Depois Robert veio, e depois Bianca.
Então, ele falecera, deixando um buraco no coração de todos, mas ninguém sentira mais que Jason e sua mãe, Selena.
Owen, até onde sabiam, nunca conhecera os pais. Vivia com o velho Sellon, um vendedor de frutas de aspecto desagradável, mas extremamente gentil, que cuidara dele. Entretanto, Owen também passava grande parte de seu tempo na casa de Jason, o que contribui ainda mais para que até Selena visse os dois como irmãos. Por isso, a perda dele também fora um golpe duro para a Torre.
Faria dois anos. Dois anos que Jason perdera um irmão.
*
Quando amanheceu, Jason levantou-se sem grande disposição. Após fazer todas as suas necessidades, foi ver sua mãe, mas vira apenas um bilhete dizendo que também demoraria a chegar em casa naquele dia.
Selena acompanhara o filho da primeira vez. Nesta segunda, provavelmente descontaria sua raiva nos demônios da cidade.
Após ser levado por Duncan Livesking até o colégio — até seu tio estava mais silencioso do que o normal —, Jason achou Luna esperando-o na entrada. Olhava para ele, sem entender exatamente o motivo de sua aura deprimida, mas entendendo que havia algo de ruim.
Aproximou-se e segurou sua mão.
— Não fique deprimido demais — brincou Luna, sorrindo divertida. — Se ficar assim por muito tempo, não terá nenhuma chance contra mim no treino de hoje.
— Eu já não tenho chance contra você de qualquer jeito — resmungou Jason.
Os dois seguiram juntos até acharem Robb e Bia no local de sempre. Sentavam em um banco. Também pareciam deprimidos, não tanto quanto Jason, mas ainda deprimidos.
— Oi — cumprimentou Luna, percebendo que tentar animá-los seria inútil e até um pouco rude.
— Oi — respondeu Bia, sussurrando.
Robert olhou para Jason.
— Jay, depois da aula, iremos direto para lá?
— Eu irei. Não precisam vir comigo.
— Pare de falar merda — ralhou Bianca. — Ele era nosso amigo também. Vamos todos juntos. Se formos separados, ele talvez fique nos enchendo o saco quando encontrarmos ele de novo.
Jason sorriu de canto. Realmente, Owen brigaria com eles se ficassem separados.
O sinal bateu, e eles foram para a sala de aula. As aulas pareciam entediantes para Jason. Ele estudara o conteúdo das próximas aulas antecipadamente, pois sabia que àquele dia não conseguiria prestar muita atenção ao que seus professores diziam.
Após um dia de aula incrivelmente longo, finalmente as aulas acabaram. Assim que todos saíram, restando apenas Robb, Bia, Luna e Jay, o professor Harry olhou para eles.
— Não fiquem assim — disse o professor. — Como o Owen ficaria se visse vocês assim? Ele daria um tapa na cara de cada um de vocês.
Owen também fora o primeiro a tornar-se amigo do professor Harry, antes mesmo de Jason.
O homem sorriu para eles.
— Lembrem-se que a morte não é o fim. É apenas o começo. Não deveriam ficar tristes, pois eu tenho certeza que ele está no Céu agora, cuidando de vocês com um sorriso no rosto.
Após aquelas palavras, os quatro saíram.
Quando deixaram os portões do colégio para trás, seguiram na mesma direção que a casa de Robert. Andavam pela calçada pouco movimentada, enquanto infinitos carros passavam ao seu lado.
Viraram esquinas depois de esquinas, e Luna teve certeza de ter visto o mesmo fusca azul umas sete vezes, e então chegaram, aparentemente, onde queriam.
Tratava-se de um campo cercado por muros de pedra. O pequenino portão que dava acesso ao cemitério estava semiaberto, o que indicava que havia mais pessoas ali.
Entraram. Fileiras de lápides marcando os nomes de diversas pessoas enchiam o local. Os quatro já sabiam onde o túmulo de Owen ficava.
Foram até ele. Seu nome estava marcado. Owen Dunkelheit.
Jason foi o primeiro a ajoelhar-se à frente do túmulo, seguido de Bia e Robb logo após. Trocaram palavras com o túmulo, em um estranho gesto humano que Luna não conseguiria entender.
As palavras eram belas, mas eram inúteis, pois Owen não poderia ouvi-las. Mesmo assim, todos sentiam o peso em seu peito diminuir quando colocavam aquelas palavras para fora.
Após um tempo, os três pareciam ter dito tudo o que queriam. Luna sequer havia percebido que já havia se passado mais de uma hora. Olhava admirada para aqueles três humanos, pois nunca presenciara aquele tipo de cena.
Robert e Bianca levantaram-se, olhando para Jason.
— Vamos?
— Eu… Eu vou ficar aqui mais um pouco — sussurrou o bruxo, e os outros dois assentiram.
Após Robb e Bia irem embora, Jason ajoelhou-se novamente diante do túmulo de seu “irmão”.
Luna olhou ao redor. Percebera que as outras pessoas que anteriormente estavam no cemitério já haviam saído. Também notou que, junto de alguns túmulos, havia flores.
Jason percebeu o olhar dela.
— Owen odiava esse costume — dissera ele. — Não gostava da ideia de arrancar flores para presentear os mortos. Dizia que o amor era algo que não precisava demonstrar com objetos. Eu sempre disse a ele que as flores nunca foram uma mera tentativa de demonstrar amor de modo físico, mas ele nunca aceitou. Então, nada de flores para ele.
— Como ele era? — perguntou Luna, após o silêncio.
— Era uma ótima pessoa. Ele era inteligente e esforçado, incrível em todos os sentidos — respondera Jason. — Fossem nos esportes, fossem nas matérias escolares, fossem fazendo atividades do cotidiano. Ele era dedicado e incrível em tudo. Se eu tivesse que dizer a maior qualidade e o maior defeito dele, seriam os mesmos. Ele sempre colocava os interesses e desejos dos outros acima dos dele. Claro, no mundo em que vivemos, isso não é de todo bom.
Ficaram em silêncio por um momento, sendo o vento o único som que era produzido.
Neste momento, Luna sentiu algo. Uma presença assustadora e poderosa. Sombria.
— J-Jason…
— Também senti — revelou o garoto, levantando-se e tirando o cilindro negro da mochila. — Demônio?
— Sim, mas de um nível mais alto. Eu diria que quinta classe.
— Perfeito — comemorou Jason, friamente. — Estou com vontade de descontar um pouco da minha raiva hoje.
Os dois então correram em direção à presença assustadora que emanava. Se fosse mesmo um demônio de quinta classe, era bem acima da média.
Estava a quase vinte metros do cemitério, parado no meio do nada, olhando para cima. Era alto e musculoso, possuindo pele vermelha como vinho. Possuía uma cauda e longos cabelos cor de palha que caíam às costas. Seu rosto era verdadeiramente demoníaco, com chifres longos curvados para trás e um par de olhos amarelos e brilhantes.
O demônio olhou para eles. Não parecia haver expressão naquele olhar.
— Talvez seja melhor eu cuidar dele — avisou Luna. — A presença dele é bem forte. Não tanto quanto a minha, claramente.
Realmente, a presença que Luna emanava quando estava transformada era muito acima da presença daquele demônio. Mesmo assim, Jason balançou a cabeça.
— Deixe-me cuidar dele. Sinto que preciso.
Luna assentiu.
Jason então estendeu o cilindro para a frente, e logo este transformou-se em um longo bastão negro. O bruxo girou o bastão e encarou o demônio. Este não parecia especialmente impressionado com ele.
Jason atacou. Antes que o demônio se movesse, Jason disparou um pulso telecinetico que desequilibrou a criatura. O bruxo então mirou o bastão no demônio e deu um golpe nele. O demônio cambaleou, mas então olhou novamente para Jason.
O punho da criatura atingiu o garoto com força, e ele fora mandado para o chão. O demônio abriu a boca, e nela começou a concentrar-se uma esfera de chamas. Porém, antes que a esfera atingisse Jason, uma parede de espadas em posição vertical colocou-se entre Jason e o demônio.
As chamas que o demônio disparou dissipavam-se assim que tocavam o escudo. Enquanto protegia Jason, Luna sentia algo errado com aquele demônio.
Jason rolou para o lado, puxou o demônio em sua direção e o bastão, agora com uma ponta de lança, perfurou a barriga do demônio. Do ferimento, vertia um líquido negro.
O demônio inclinou a cabeça como um cão, e logo golpeou Jason com força, afundando o garoto no chão.
— … Ce… — murmurou o demônio.
Definitivamente, Luna estava com a suspeita de que aquele não era um demônio verdadeiro. Não um demônio que fora criado ou transformado no Inferno.
O demônio vermelho olhou para Luna e disparou uma bola de fogo na mestiça. Esta apenas criou uma lança e disparou contra a esfera flamejante, criando uma pequena explosão de chamas.
Quando a fumaça sumiu, o demônio não estava mais lá. Luna inclinou a cabeça.
— Onde você está?
— C-Ce…
Luna girou, cruzando os braços à frente do corpo e bloqueando o punho do demônio. O impacto fez com que o solo rachasse. A cauda do demônio moveu-se como um chicote e atingiu Luna na têmpora, mandando-a de encontro ao chão após voar por metros.
A mestiça levantou-se, irritada.
— Olha a audácia desse bicho. Mas eu vou te partir em dois agora.
— Ce… Cecí…
Jason surgiu atrás da criatura, desferindo diversos golpes no demônio que apenas defendia-se com a cauda. Luna já estava transformada em um demônio, com seus cabelos negros tornando-se brancos, seus olhos verdes tornando-se vermelhos e pequenos chifres surgindo em sua cabeça.
O demônio vermelho desviou de outro ataque de Jason.
— Cecí… Cecília… — murmurava o demônio.
— O quê?
— Onde… Cecília…?
Luna só precisou daquilo. Surgiu entre Jason e o demônio, segurando o bastão do bruxo enquanto parava o punho do demônio vermelho com facilidade assustadora.
— O que foi? — perguntou Jason, surpreso com a interrupção.
— Há algo errado com este demônio… Guarde esse bastão.
Jason assentiu, ainda um pouco confuso, e o bastão reduziu de tamanho novamente. Luna olhou para o demônio, que não havia se movido desde aquele momento.
— Cecília. Quem é Cecília…? — perguntou a mestiça.
— Onde… Cecília…?
— Cecília… E-eu vi um túmulo no cemitério. S-seria…?
O demônio não respondeu. Ficou olhando para Luna com um ar interrogativo. A meio-demônio destransformou-se e segurou a mão enorme do demônio. Então, ela olhou para Jason.
— Acho que ele é uma das pessoas que o Corruptor transformou em demônios.
— Ele pode criar demônios desse nível?
— Não deveria poder. Provavelmente este daqui não foi criado usando somente o Corruptor.
Então Luna olhou para o demônio de novo.
— Venha.
Jason decidira não contrariar. Tinha certeza que a mestiça sabia mais sobre aquilo do que ele.
O demônio não demonstrou resistência. Seguiu Luna sem demonstrar nenhuma emoção, positiva ou negativa. Após percorrerem o caminho que levava ao cemitério, Luna certificou-se de que estava vazio e então puxou o demônio pelo cemitério. Jason apenas seguia-os, hesitante.
Luna parou diante de um túmulo a uma pequenina distância do de Owen. Nele, era possível ver o nome “Cecília Gehart”.
— Ce… Cecíli-aa. — O demônio colocou a mão na lápide, e lágrimas negras escorreram de seus olhos amarelos.
Tanto Jason quanto Luna estavam impressionados. Luna já havia dito que os demônios transformados perdem todas as suas memórias importantes de sua vida como humano, mas não parecia ser o caso daquele. Era algo completamente diferente de tudo o que eles já haviam visto ou lido sobre.
O demônio olhava para o nome da falecida, chorando.
— Filh… lhaa… Ce…
— Era sua filha?
O demônio não respondeu. Continuou chorando.
Ouviram um barulho. Quando olharam para trás, viram Selena e Alice olhando para eles de olhos arregalados.
— O que é isso? — murmurou Selena. — Sentimos uma presença enorme…
— Era ele — confirmou Jason, mostrando o demônio vermelho.
— O que estão fazendo…?
— Venha aqui, senhora Torre — pediu Luna. — Você também, senhorita Alice.
As duas bruxas aproximaram-se, ainda em guarda alta. Quando chegaram, ouviram os murmúrios do demônio com espanto.
— I-isso não deveria ser possível.
O demônio ficou clamando pela filha por mais tempo, até que olhou para Luna e Jason.
— O… Obri… O-obrigad-o.
O demônio então começou a derreter, e todos afastaram-se. Logo, as partes derretidas do demônio começaram a transformar-se em chamas, e depois em poeira que começou a ser levada pelo vento.
Jason olhou para Luna, confuso.
— O que diabos foi isso?
— Eu… não sei…
Os quatro ficaram olhando para as cinzas do demônio que eram espalhadas e aos poucos tornavam-se invisíveis.
Próximo a eles, sentado apoiado em uma árvore e ocultando completamente a sua magia, o mascarado de manto negro que mandara os cães infernais contra Jason olhava tudo sorrindo.
— Hum… Até que deu certo. Mas eu não queria isso. Então meus demônios podem se lembrar do passado e até morrer deste jeito? Nha. Vou ter que melhorar isso. E você é maldosa, senhorita Luna. Fica dando os créditos do meu trabalho ao seu Corruptor. Eu vou te perdoar. Por ora.
O mercenário do submundo então pulou da árvore e foi embora, teorizando sobre como poderia aprimorar seus demônios artificiais.
*
Jason olhava para a enorme pedra que sua mãe quisera que ele levantasse dias atrás. E, quanto mais olhava aquela enorme rocha, mais frustração sentia.
Aquele demônio destruiu Jason ainda mais. Não apenas por mal ter tocado nele e já ter feito-o de fraco, como pelo fato de não ser simplesmente uma besta sedenta por sangue. “Não posso reclamar. A Luna foi uma das primeiras que conheci. Eu deveria imaginar que acabaria de frente com demônios que não querem simplesmente destruir tudo.”
Mas aquilo irritava o rapaz. Como poderia, agora, simplesmente matar demônios? Como saberia se eles poderiam ou não ser salvos? Naquele momento, a ideia de machucar demônios e condená-los sem ter certeza se poderiam ser purificados era assustadora.
Luna falara muito da Irmandade da Bruxaria. Claro, era uma mestiça, então talvez fosse afetada pela sua opinião pessoal, mas, aparentemente, a maioria das bruxas mata e condena qualquer tipo de criatura, independentemente se o demônio matou ou não alguém enquanto estava no mundo humano.
“Mas o que isso importa?”, perguntara ela, sarcástica. “Somos apenas monstros. Criaturas malditas que não deveriam existir. A-as bruxas acham que gostamos disso. A maioria gosta, claro, mas para outros demônios esta sede de sangue é simplesmente terrível. Jason, não me olhe com essa compaixão. Você nunca saberá como é andar em meio aos humanos, sentindo o sedutor cheiro de sua carne, de seu sangue. Não sabe o que é ter a vontade de matar e estraçalhar tudo o que te incomoda, ou pior: realmente matar e estraçalhar.”
— Tem razão, Luna. Eu não sei. Mas juro que irei me esforçar para entender.
Também pensava em outra coisa. Pensava no Corruptor, e no tal Culto Carmesim. Eles ainda estavam por aí, em algum lugar, e Jason estava determinado a encontrá-los e pará-los. Queria ajudar sua mãe, e mostrar que podia ser útil para alguma coisa.
E por que conseguira parar o Corruptor? E por que Luna ficara tensa quando pedira a ela para revelar a ele o que pensava? E por que diabos todos diziam que ele deveria esquecer? Se podia comandar o Corruptor, isso não deveria ser algo bom? Aquele poder era seu, então qual o porquê de o estarem escondendo? E por que não podia falar a Selena?
Eram dúvidas demais, dúvidas que preenchiam a cabeça de Jason.
O garoto estava tão imerso em seus pensamentos que nem havia visto aquilo. Não havia visto que conseguira erguer a grande rocha, e também não percebera quando despedaçara-a e esmagara-a.
Selena, que estava observando o filho, suspirou. Não sabia por quê, mas os pensamentos de Jason estavam tão confusos que ela não conseguira lê-los com precisão. Mas entendia que algo preocupava o filho; que algo irritava e frustrava o filho.
Decidindo que ele precisava, Selena apenas aproximou-se dele e abraçou-o.
— Você não pode fazer tudo sozinha — murmurou Jason, ainda abraçado à sua mãe. — Não pode ficar se arriscando sozinha.
— Não estou sozinha. Alice está comigo. Lily também, mas você ainda não conhece ela. O que importa é: sou sua mãe, e sou uma Torre. Não precisa se preocupar comigo. Não estou com a mira de um Príncipe Demoníaco na cabeça. Você está.
— Isso não é certo. Você deve estar com um alvo muito maior que eu.
Selena não respondeu. Sabia que algo estava para acontecer. Sentia isso. Só não sabia o quê.
*
Luna Silverstone caminhava em uma área menos movimentada da grande cidade de Fairyshall. Poucas pessoas andavam por lá, e, quando andavam, procuravam sair o mais rápido possível.
Toda essa má reputação daquele bairro fora espalhada por demônios que não caçavam humanos, para que pudessem utilizar aquele lugar como sede de distribuição de alimento. Era a salvação para pessoas — demônios e meio-demônios — que não queriam assassinar seres humanos.
Naquele dia, seu pai, Niel, não podia ir até lá. Luna sabia que ele estava cuidando de algo mais importante. Algo que poderia impedir o avanço de Mamon.
Luna entrou em um sobrado branco. Não havia muita mobília e não havia nenhuma decoração, também. Quando aproximou-se de uma parede vazia e nem um pouco suspeita, Luna recitou:
— Demonstre-me o Orgulho proveniente da Estrela da Manhã.
A porta foi substituída por um contorno vermelho e prateado que revelou um túnel de terra que passava pelo subterrâneo.
Luna entrou no túnel, e suas pupilas modificaram-se, adequando-se à pouca luz do túnel. A garota então avançou. Andou em linha reta por um quarto de hora até chegar a uma bifurcação. Seu pai alertara-a a usar o lado esquerdo, e assim ela fez.
Após mais quinze minutos andando, finalmente saiu do túnel subterrâneo. Encontrava-se, agora, a uma enorme sala branca com teto cinzento. Obviamente não possuía janelas, pois estavam debaixo da terra.
Assim que a viu, um homem com jaleco branco acenou.
— Srtª Silverstone. Agraciado estou com vossa resplandecente presença.
Luna olhou para sua jaqueta de couro, franja cobrindo o olho e sua aura de poucos amigos. O homem pareceu observar isso também.
— Ok. Não tão resplandecente assim.
— Chega de papo, peste. Tô aqui pra pegar um pouco de comida. Você sabe, meu pai tá meio ocupado.
— Claro que entendo. O Sr. Silverstone é um homem ocupado. Mesmo assim, aguarde aqui. Guardei um pouco para os meus clientes mais antigos, afinal, foi o seu pai que começou com esta distribuição de comida.
Luna assentiu, sentou-se em uma cama que parecia de um consultório médico e esperou. Via o sangue fresco pelo local, e soube que algum mestiço havia precisado do doutor novamente.
O homem voltou trazendo uma sacola feita de um tecido que nenhum humano reconheceria, pois fora feita com a casca de uma árvore encontrada apenas no submundo, estranha a qualquer ser humano.
Luna pegou a sacola e olhou para o doutor.
— Obrigada, peste.
— Não agradeça, Srtª Silverstone.
Só de raiva, agradeceu mais três vezes.
Após passar meia hora andando no túnel de volta, Luna voltou ao sobrado. No caminho, passou por um homem baixo e magro, meio corcunda, de cabelos oleosos. Não sabia o porquê, mas aquele homem a fez sentir-se desconfiada. Entretanto, provavelmente era apenas mais uma pessoa que queria receber comida da “peste”.
Saiu do sobrado e tomou o caminho de volta para casa. No caminho, porém, quanda passava por um prédio em construção, sentiu algo estranho. Uma presença.
A mesma presença que sentira três noites atrás, quando esteve diante do único demônio que, embora fosse inferior a ela, deixava-a com medo. O Corruptor.
Luna arregalou os olhos. “Aqui?”, pensou ela. “Mas… por quê?”
Seria possível que fosse realmente o Corruptor? Luna sabia que ele não fora encontrado na caverna quando Selena e Alice invadiram-na. Mas então, por que estaria em um prédio em construção?
Luna não podia descobrir naquele momento. O Corruptor faria com que ela perdesse o controle de sua meia humanidade, e o fato dela segurar aquela carne seria o suficiente para fazê-la perder o controle.
Mas diria a Jason. E, talvez, a senhora Torre. Eles decidiriam o que fazer ou não.
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