A Magia do Submundo
10 Ordem de Soberania
Notas iniciais
— Então você acha que coincidentemente achou o Corruptor enquanto ia buscar comida? — repetiu Jason, cínico.
Estavam no Salão de Baixo, um dia depois que Luna recebera comida na sede de demônios. A mestiça não sabia por que escolhera aquele garoto inexperiente para dividir suas suspeitas.
Luna bufou.
— Eu não disse isso. Não exatamente. Eu apenas senti uma presença demoníaca parecida com isso. Parecida com a do Corruptor — explicava Luna, meio envergonhada por não ter certeza do que dizia. — Não tenho certeza se era exatamente ele, mas me fez sentir a mesma sensação de algumas noites atrás. A-aquela sede de sangue…
— Nós podíamos ir verificar — sugeriu Jason, mas Luna olhou para ele com raiva.
— Nem pensar. Eu me sinto mal só de pensar em perder a humanidade novamente. Me recuso!
— Certo, eu disse errado. EU vou verificar se é mesmo o Corruptor. Eu nunca pediria para que você suportasse isso novamente.
— Que fofo. É uma pena que você também não vai. Vou dizer para a sua mãe, e ela vai investigar isso.
— Mas…
— Jason — disse Luna, e o bruxo arregalou os olhos. Luna estava chamando-o pelo nome? — Por favor, não fique pensando que poderia lidar com aquela coisa sozinho.
— Eu… Eu sei que não posso realmente vencer. M-mas… eu quero ser útil para a minha mãe. Quero ajudá-la. A-além disso, ela tem que cuidar de tantos demônios… Não tem tempo para ir até um lugar e não encontrar nada!
— Eu te entendo. De verdade. Mesmo assim, eu seria uma mestra irresponsável se te deixasse sair por aí caçando Corruptores.
— Talvez. Mas os demônios continuam matando pessoas. Enquanto minha mãe vai atrás desse Corruptor, quantas pessoas mais morrerão?
— Pessoas morrem todos os dias — respondeu Luna, friamente. — Como quer impedir tudo isso?
— Não quero impedir todas as mortes. Quero impedir todas as mortes que eu tenho condições de impedir.
— E-eu não posso te deixar ir…
— E se eu prometer que não farei nada além de dar uma olhada?
Luna olhou para ele com as sobrancelhas arqueadas, e o bruxo corou.
— Não me olhe assim…
— Quando fomos à floresta, queríamos só ver o Corruptor. O que aconteceu?
— Ele nos viu e nos seguiu…
— É perigoso de mais, Jason.
— Só o fato de você estar me chamando pelo nome é suficiente para me deixar com medo — murmurou o Godren. — Mas… eu quero ser útil. Não quero mais sentir aquilo que senti com o Corruptor, nem com aquele demônio vermelho. N-não quero sentir que não posso fazer nada sozinho. E também não aceitarei que vá comigo, porque vi o que acontecerá.
— Bruxo, eu não posso…
Jason segurou a mão garota. Luna corou.
— Eu… — começou o bruxo. — Eu sempre confiei em você. Luna… Por favor, quero que confie em mim pelo menos desta vez. Pode falar para minha mãe, mas só depois que eu sair. P-preciso confirmar isso antes dela investigar. Luna, por favor, me ajude.
A mestiça ficou em silêncio. Cruzou os dedos, abriu e fechou as mãos e depois, finalmente, inspirou profundamente, depois expirou.
— Do que precisa?
— Da localização desse prédio. E daquela planta que você disse que seria necessária.
*
Era noite. Jason olhava para o prédio em construção. Não havia ninguém naquele local, e a lua era a única fonte de iluminação. Pensativo, Jason verificou novamente o que tinha. Além do bastão e da planta que deveria usar para espantar o demônio, não trouxera mais nada.
Não sabia se aquela era a melhor decisão de sua vida, sinceramente. Aproximara-se do local sorrindo, decidido a provar sua utilidade sem precisar depender de Luna. Naquele momento, no entanto, agora que estava diante daquele prédio sobrenaturalmente assustador, sem a companhia da meio-demônio e com a incerteza e insegurança atrás de si, Jason finalmente entendia que ser um bruxo poderia ser mais assustador do que ele pensava.
O pensamento de que mentira para Luna também o atormentava. Dissera que queria apenas ter certeza de que estavam indicando às bruxas o local correto. Entretanto, seu real desejo era eliminar o Corruptor e expulsá-lo do mundo humano.
Seria aquilo possível? Poderia ele, um mero bruxo em fase de treinamento, vencer uma criatura como aquela? Um Corruptor era dito como um problema, mas Jason esperava ter alguma chance de vitória.
“E se eu não voltar, Luna… me perdoe por ter mentido”, pensou o bruxo.
Reunindo o último pingo de coragem que tinha, Jason avançou em direção ao prédio em construção. Via as vigas daquele local, e por algum motivo sentia-se observado.
Entrou na construção. De início, não notou nada. Olhando ao redor, seus olhos focarem em resíduos de uma presença demoníaca. Quando Jason verificou, constatou que não havia nada. Nem naquele local, nem em nenhum outro no térreo do prédio.
Decidindo subir mais, o bruxo procurou no segundo andar. Nada além daqueles resíduos de presença. O bruxo estava quase desistindo e confirmando que, se o Corruptor estava ali, já não estava mais.
Foi quando ouviu um barulho atrás de si.
Assim que virou-se, segurando sua lança negra, não viu nada. Condenando-se por fazer tudo aquilo que os personagens de filmes e séries sempre faziam, ele foi até o local de onde o som fora originado. Sentia seu coração bater mais forte, suas mãos ficaram mais úmidas. Estava com medo, e qualquer ser com mais de dois neurônios conseguiria perceber isso.
Chegou ao local. Três barris vermelhos estavam caídos no chão, com marcas de garras por toda a sua extensão. E, logo depois, Jason ouviu um som estranho atrás de si. Quando se virou, como imaginara, o Corruptor olhava para ele.
— Hã… Pronto. Já sei que você está aqui. Posso ir embora agora?
A criatura rosnou.
— Isso deve ser um “não”…
O Corruptor atacou. Jason rolou para o lado e mandou um pulso telecinético contra a criatura, que cambaleou e deu tempo para o garoto atingi-lo com o bastão. Entretanto, o Corruptor interceptou a arma com uma de suas caudas e rebateu Jason para longe.
Quando o bruxo levantou-se, a criatura já ia em sua direção. Correndo o olhar pelo prédio, Jason levitou um barril e jogou-o contra a criatura, que fora jogada contra um pilar que sustentava aquele andar do prédio. O pilar rachou, mas não quebrou.
O demônio levantou-se novamente e, em vez de avançar, recuou. E entrou dentro das sombras.
Jason olhou para todos os lados. Esquecera-se daquela habilidade da criatura. A habilidade de entrar em uma sombra e sair em outra.
Mal teve tempo de colocar o bastão entre ele e a criatura quando esta saltou de uma sombra e foi em sua direção. Jason mirou vários golpes com a lança, mas a criatura desviou de todos e rebateu a lança com uma das caudas de escorpião, dando um soco em Jason com suas longas mãos.
O garoto fora arremessado para longe e caiu no chão, sentindo uma forte dor por todo o corpo. O Corruptor investiu contra ele novamente. Jason disparou outro barril contra o demônio, mas ele desviou facilmente. Duas de suas caudas enrolaram-se no tornozelo de Jason, ergueram o garoto e mandaram ele novamente contra o chão. O bruxo sentiu o gosto metálico de sangue na boca.
O demônio usou as caudas para deixar o garoto, de ponta cabeça, em frente à sua cara de babuíno. Abriu a boca, e uma leve fumaça negra começou a surgir e a ir em direção a Jason, e o miasma começou a afetar o garoto.
Poucas coisas eram mais dolorosas do que aquilo. Jason sentia sua pele queimar perante aquela fumaça que só poderia ser ácida. Entretanto, ele não sabia que era apenas psicológico. Seu corpo não estava sendo afetado por aquele miasma.
O garoto começou a se remexer, e o Corruptor olhou confuso para ele. Suas vítimas não faziam isso após sentir o miasma demoníaco. Jason estendeu a mão para o lado, e o cilindro negro saiu voando em sua direção, transformando-se em uma espada.
Jason, com um corte desesperado, atingiu o olho esquerdo do Corruptor. A dor fez o demônio soltar o garoto e soltar um som agudo que deveria ser um grito de dor.
O bruxo atacou enquanto o demônio estava distraído. Fez um corte na perna e em um dos braços do Corruptor. Este, furioso, atacou com uma das caudas, mas Jason saltou para o lado, paralisou o inimigo com sua telecinese e então, com um golpe vertical, de baixo para cima, separou outra cauda boa do Corruptor de seu corpo.
Jason não teve tempo de sentir-se satisfeito, pois a criatura voltou para as sombras. Mas Jason não deixava-se enganar. Sentia a sede de sangue do monstro, e sabia que ele não fugiria. Luna ensinou-lhe que demônios como aquele só fugiam se recebessem ordens de um demônio superior.
Jason apenas aguardava o próximo passo da criatura.
*
Olhando de outro prédio, ocultando completamente sua presença, Arvak, Sacerdote de Mamon, observava o combate entre aquele bruxo que sequer usava poder elemental contra o seu Corruptor. Não acreditava no que acontecera. Ele estava conseguindo lidar de maneira impressionante com o demônio e o miasma não tivera efeito nele. Fora algo sem sentido. Como aquilo ocorrera?
— Talvez eu deva acabar com o garoto antes que as coisas tornem-se perigosas demais… — murmurou Arvak.
— Eu não teria tanta certeza disso — dissera uma voz atrás dele.
Quando Arvak virou-se, deparou-se com um homem mascarado de túnica negra. Ele aproximava-se de maneira bem humorada, estalando os dedos.
— Não mate o garoto.
— Quem é você? E quem pensa que é para me dizer para ficar assistindo meu Corruptor ter problemas com uma criança?!
— Hum… Muitas perguntas para mim — reclamou o mascarado, colocando o dedo no local onde ficaria seu queixo. — Quem eu sou? Meu nome é Savan. Deve ter ouvido falar de mim.
— O mercenário do submundo — confirmou Arvak, espantado. — O bruxo que nunca falha.
— Exatamente. Sabe, eu não queria que você matasse o garoto. Depois de todo o trabalho que eu tive para sincronizar o momento para aparecer na frente do Corruptor, ontem, com o momento em que uma certa pessoa estava chegando para sentir a aura.
— Então você revelou a localização de meu Corruptor — percebeu Arvak, irritado.
— Exatamente. Eu poderia matar você aqui e acabar com o Culto de Mamon, até porque não estou filiado a este Príncipe Demoníaco — comentou Savan, o mercenário mascarado. — Para sua sorte, não fui pago para te matar. Entretanto, assistirei isso tudo com você e, se eu sentir que você quer interferir, irei te matar.
Arvak era um demônio extremamente poderoso. Sem dúvidas um dos mais poderosos no mundo humano. Mesmo assim, aquele homem de fala bem humorada emanava uma sede de sangue que o fez repensar sua ideia de atacá-lo.
“Este humano é diferente dos demais”, percebera Arvak. “Ele emana uma presença sombria. Sem dúvidas, posso estar com problemas se não fizer o que ele diz…”
Savan surgira havia pouquíssimo tempo, mas cumpriu todos os serviços que recebera. Rapidamente ganhara fama como o mercenário perfeito dentro do submundo.
— E qual o seu interesse neste garoto maldito?!
— Hum… Nha. Não vou falar. Basta dizer que ele tem algo de especial, e quero ver até onde isso vai levá-lo.
Arvak cerrou seus punhos, furioso. A ideia de que deveria apenas assistir tudo aquilo irritava-o profundamente. Aqueles humanos estavam tirando-o do sério. Mesmo assim, apenas suspirou, derrotado. Savan era um problema, mas não faria nada se não se sentisse ameaçado.
“E eu com certeza não inspiro medo nele”, percebera Arvak, ainda mais irritado.
Assim, Savan e Arvak voltaram seus olhos para o combate entre Jason e o Corruptor.
*
O Corruptor saiu das sombras. Jason estava preparado, e começou a golpeá-lo repetidamente, embora o monstro entrasse nas sombras e saísse delas constantemente. Jason tinha de admitir que era difícil acompanhar a criatura.
Em certo momento, o Corruptor pulou contra ele, mas com um corte horizontal Jason parou sua investida. Não fora o suficiente. O demônio preparou a cauda de escorpião e atacou três vezes, e Jason desviava com dificuldades.
Jason viu a cauda do Corruptor ir contra ele novamente, e o bruxo interceptou a cauda com seu — agora — bastão.
O Corruptor não desistiu, e atingiu Jason com seus punhos. O garoto viu seu bastão sair voando. Jason olhou para o Corruptor e estendeu a mão para ele. O demônio sentiu todo o seu corpo paralisar e, diferentemente do último encontro entre eles, desta vez Jason erguera o demônio como fizera com a rocha de treinamento.
Movendo a mão com violência e gritando de fúria, Jason mandou o demônio contra uma coluna, destroçando-a. Sem parar, fizera isso com uma segunda coluna, depois destruirá o chão e o teto, tudo utilizando o corpo do Corruptor.
Arremessou o demônio contra outro pilar e então sentou-se no chão, ofegante. Sua mãe alertara-lhe que usar exagerada e consecutivamente sua magia poderia provocar efeitos colaterais.
Jason só pôde enfurecer-se mais quando o cambaleante demônio levantou-se. O Corruptor olhou para Jason com nova fúria nos olhos.
— Que ótimo — resmungou Jason, que já não sentia poder suficiente sequer para convocar sua lança.
Além da frustração, Jason sentia medo, vergonha e raiva de si mesmo. “Irei morrer aqui, sozinho, por ser arrogante e querer ajudar pessoas muito maiores do que eu”, percebera.
Mas podia fazer aquilo? Jason sequer possuía o direito de morrer?
“Prometi à Luna que não morreria”, pensou ele. “Ela vai zombar de mim eternamente quando nos reencontrarmos se eu morrer aqui…”
Não podia morrer. O enfurecido e avariado demônio avançava em sua direção, e o garoto sentia que sua magia não poderia mais detê-lo. Disparou um pulso psíquico no demônio, mas mal o afetou.
Enquanto o demônio estava cada vez mais perto, era como se Jason visse tudo em câmera lenta. Pensava em Selena. Em Robb e Bia, em Harry e Alice. Pensava em Niel e Duncan. Pensava em Luna. Realmente, havia pessoas que se importavam com ele.
Não tinha permissão de morrer ali.
O garoto olhou no olho do demônio. Via ali o Caos. Via ódio, rancor, maldade. Via um ser desprovido da beleza na alma. Algo que jamais tivera um bom momento, que surgira com o único propósito de causar destruição.
— As coisas não são muito justas para com você, não é? — pensou Jason em voz alta. — Não faz mal. Eu…
O demônio estava a menos de cinco metros dele. Jason via aquela energia negativa na criatura, bem como todos os ferimentos que ele própria produzira no Corruptor.
Viera automaticamente para a ponta de sua língua.
— Ajoelhe-se — ordenara Jason.
O Corruptor parou instantaneamente e, sem demorar-se nem um segundo, ajoelhou-se. O bruxo não perdera tempo ficando impressionado consigo mesmo. Retirou do bolso a planta semelhante às estrelas de desenhos infantis, com cinco pontas douradas. Então, posicionou-a na testa do Corruptor com cara de babuíno.
— Edwenna Tamhare, praevenus elarotia — recitou Jason, três vezes.
Um portal para o submundo foi aberto. A energia negativa era tão poderosa que todas as bruxas de Fairyshall, bem como mestiços e demônios, sentiram aquela presença.
O vórtex negro sugou o Corruptor para dentro dele, e depois sumiu sem deixar vestígios. Jason estava aterrorizado com a quantidade de poder macabro que aquele pequenino portal de banimento emanara.
Assustado, Jason desmaiou.
*
— Ele baniu meu Corruptor — constatou Arvak, pela segunda vez.
— Eu notei, por incrível que pareça — resmungou o mercenário Savan. — E então, gostou do garoto? Interessante, não é? A ordem dele é mais efetiva que a do seu Mamon.
— Humanos desprezíveis. Que táticas sujas usaram para quebrar o controle de Lorde Mamon?!
Savan deu uma risada seca.
— Digamos que, em algum momento, você saberá. Ou talvez morra antes disso.
— É uma ameaça?!
— É um aviso. Tome cuidado com seus próximos passos, Sacerdote de Mamon, e não ouse matar aquele garoto. Ele possui certa relevância para meus interesses pessoais.
Dizendo isso, Savan sumiu, como se carregado pelo vento. Arvak ficou sozinho, furioso, até resolver deixar aquele local. Afinal, sentira a presença de bruxas aproximando-se.
*
Selena e Alice chegaram no prédio em construção, desesperadas. A bruxa mais velha estava tão preocupada que esquecera-se de olhar os arredores. Por sorte, os demônios, ao invés de ir até o portal, afastaram-se dele — afinal, era um portal de banimento, para expulsar demônios.
Quando a Torre e sua parceira entraram no prédio e subiram até o andar em que Jason confrontara o Corruptor, notaram o garoto, desmaiado, deitado com a cabeça nas coxas de Luna, que acariciava seus cabelos enquanto o garoto dormia.
As duas bruxas correram até os dois.
— O que aconteceu aqui?!
— Eu senti a presença do Corruptor aqui, disse para o seu filho e ele resolveu bancar o herói.
— Mas…
— Senhora Torre, não me olhe desse jeito. Essa raiva nos seus olhos significa que está me culpando ou que quer deixar a sua impotência ainda mais evidente?
— É melhor tomar cuidado com o que vai falar — sussurrou Selena, ameaçadoramente. Alice sentia a tensão no ar subir. — Significa então que vocês dois vieram sozinhos atrás do Corruptor?!
— Para ser mais exata, eu fiquei ali na esquina. O Sujeito Anônimo veio aqui sozinho.
A face de Selena era uma máscara sem expressão, mas as duas mais novas podiam ver a tempestade em seus olhos.
— Então você abandonou-o?
— Não diga deste jeito — resmungou Luna. — Não o abandonei. Ele me proibiu de ficar na presença do Corruptor novamente. Veio sozinho e venceu. Só isso.
— Ele podia ter morrido!
— Chegou ao “x” da questão, senhora Torre. Ele não morreu. Ele expulsou o Corruptor e saiu vivo para contar a história.
— As chances disso acontecer eram minúsculas — rosnou Selena.
— Surpresa! Foi isso que aconteceu. Você me culpa por expô-lo ao perigo? Pois eu te culpo por não confiar nele, por deixá-lo sob a proteção de suas asas invencíveis.
— Quem é você para definir quando ele deve ser colocado em perigo?!
— Não sou ninguém — admitiu Luna, calmamente. — E, acredite, eu entendo o quão difícil deve ser para uma mãe colocar o filho na frente da morte. É por isso que estou fazendo isso por você, porque aparentemente confio mais no Jason do que você. Então, mesmo que você passe a me odiar, vou ajudá-la a tornar Jason um bruxo. Irei me comprometer a fazer o que você tem medo de fazer. Eu entendo o quão difícil é para você, então, mesmo que me odeie, eu sempre confiarei nele.
Selena estava de olhos arregalados, mas Luna não parou de falar.
— Vá em frente. Jogue na minha cara que sou um demônio, um monstro com intenções invariavelmente hostis e malignas, que deseja corromper seu amado filho com minhas mentiras e com os riscos que acredito que ele deve tomar! Até porque, ele pode se tornar um bruxo fazendo um treinamento para levantar pedras, não é? Agora você entende, Selena Godren? Nada que diga muda o fato de que teme perder seu filho. E imagino saber o motivo.
A Torre olhou ameaçadoramente para a mestiça, que não se intimidou.
— Você teme perder o Sujeito Anônimo porque já perdeu alguém que amava para o mundo sobrenatural. Alguém que amava e desejava proteger. E acha que sendo super protetora com seu filho fará com que ele sobreviva? Não. Só tornará sua experiência mais complicada.
— A função dele — respondeu Selena, friamente — é não entrar em perigo. Você não sabe de nada, Luna Silverstone. Tudo o que disse é verdade, e agradeça essa sua súbita vontade de ser sincera, pois admito que acabou de ganhar pontos comigo. E também agradeço-a, garota. Mesmo assim… Você não entende tudo. Não conhece a história completa. Ainda não e, se possível, nunca conhecerá.
— Por que não quer que eu saiba de nada?
— Seria muito melhor se ninguém soubesse. Mas, se está tão disposta a me ajudar, garanta que Jason nunca sinta emoções extremas demais nunca na vida.
— O quê?! E-está falando sério?
— Completamente. E agora… Por que se importa tanto com um bruxo?
Luna olhou para o desacordado garoto.
— Ele é a primeira pessoa que me faz sentir isso. — As duas bruxas entreolharam-se. — Ele me faz sentir como se eu pudesse contar qualquer coisa… O problema é que não é só uma sensação. Q-quando eu digo para ele as coisas que devo fazer como demônio, ele simplesmente sorri e diz que não liga. Me importo com ele porque o Jason é o primeiro amigo que tenho desde o nascimento. Se quer algum tipo de prova, pode tê-la agora.
Selena olhou para a mestiça, e notou a barreira da garota aos poucos se desfazendo, permitindo que Luna visse seus sentimentos por vontade da meio-demônio. A Torre sentia aquilo, e sua raiva ia sumindo. Aquela jovem garota à sua frente parecia uma pessoa completamente diferente do que parecia por fora. Muito mais frágil e ressentida.
— Este fato te irrita — percebeu Selena. — O fato de não ter tido pessoas com quem… com quem dividir seus momentos.
Luna sorriu.
— Agora eu tenho.
Neste momento, passos foram ouvidos. Selena e Alice olharam para a escada que levava àquele andar do prédio. Alice já possuía uma pequena esfera de chamas no dedo indicador. Luna semicerrou os olhos e criou dezenas de espadas acima de sua cabeça, o que ainda surpreendia Selena.
A responsável pelos passos surgiu. Uma mulher que devia ter aproximadamente a idade de Selena, com cabelos em um tom roxo berrante que obviamente não era natural. Seus olhos esverdeados olhavam cuidadosamente para cada pessoa ali presentes.
Assim que a mulher usando túnica de bruxa aparecera, Selena e Alice expiraram.
— Lily — cumprimentou Alice, sorridente. — Você nos assustou.
— Imaginei — respondeu a mulher, friamente. — Senão, não haveria espadas apontadas para mim neste momento.
— Luna, pode relaxar. Essa é Lily Hargrove, a terceira bruxa responsável por Fairyshall. Embora, na verdade, ela trabalhe mais fora da cidade do que dentro.
— E esta é o demônio que você alega ser confiável? — perguntou Lily, olhando para Luna. A garota sentiu-se irritada pelo olhar.
— Por que está aqui, Lily?
— Depois você pode me esclarecer as coisas que aconteceram aqui — disse a bruxa de cabelos roxos. — O motivo da minha vinda não é surpresa para ninguém. Jason Godren foi descoberto. A Irmandade da Bruxaria convoca-o ao Santuário.
Selena assumiu uma face séria e olhou para o filho.
— A Anciã concorda com isso?
— Sim. Tanto ela quanto o Torre Noah Scheneizel aguardam a presença do garoto no Santuário. Deveria ficar orgulhosa. Raramente bruxos tão poderosos olham para um aprendiz.
— Ele é meu filho — comentou Selena, indiferente. — Que seja. Levaremos ele até em casa, para se preparar. Avise a Anciã e o Noah que em breve Jason Godren estará de frente para a Irmandade.
— Certo. E talvez você tenha que explicar o motivo de tê-lo deixado escondido.
— Estou disposta a isso.
Lily assentiu e deu as costas às demais mulheres. Jason ainda estava desacordado, o que estava começando a preocupar Luna.
Mas Selena possuía outra preocupação. Afinal, Jason finalmente iria até a Irmandade da Bruxaria.
Fale com o autor