A Magia do Amor
2 Ressaca
Notas iniciais
O cenário escuro e estrelado diluiu-se gradativamente dando espaço para a claridade de um novo dia. Por trás das nuvens brancas, o sol brilhou tímido no céu numa típica manhã primaveril.
Diferente de um par de dias atrás, aquela manhã começara com o clima fresco e ameno para a felicidade dos locais.
Com uma sensação pesada sob as pálpebras, Camus abriu os olhos lentamente se arrependendo amargamente logo depois. A dor lancinante pulsou forte em suas têmporas e fez seu mundo girar em espiral. Essa era a primeira vez que experimentava uma ressaca, e com certeza seria a ultima.
A visão turva se tornou mais nítida ao fechar e abrir os olhos novamente e ver ao seu lado o rosto de Milo, que dormia profundamente a centímetros de distância. Num rompante, sentou-se rapidamente e voltou o olhar ansioso para o próprio torso exposto. Em pânico, Camus sobressaltou de tal maneira que caiu da cama num baque surdo.
O outro homem despertou desnorteado, igualmente indisposto. Passou a mão nos cabelos volumosos na tentativa de abaixá-los um pouco. Era dificultoso para ele enxergar por conta da luminosidade então vagarosamente, os olhos semicerrados percorreram o quarto encontrando o amigo estarrecido no chão.
Como se tivesse desistido de viver o aquariano permaneceu parado, rígido feito uma coluna de pedra. O olhar fixou-se num ponto aleatório na parede sem que realmente visse alguma coisa. Seu rosto perdeu a cor como se o sangue tivesse sido drenado para fora do corpo. Ele sequer conseguia abrir a boca para questionar qualquer coisa.
Naquele momento, qualquer um pensaria que Milo teria o assediado.
Por que diabos tinha que estar tão perto? Era algum tipo de pegadinha ou conspiração que o destino estava tramando contra ele? Foi só o que conseguiu pensar. Não recordava da noite anterior com clareza e agora com a surpresa a cabeça de Camus doía ainda mais.
Mentalmente ele se deu um tapa. Distância era o que precisava, ansiava na verdade. Pelo menos até que os malditos pesadelos o deixassem em paz. Qual era a lógica de se meter numa cama e dormir juntinho com Milo?
Enquanto Camus tentava encontrar um motivo racional pra voltar a respirar e não ceder ao impulso de se jogar na primeira ponte que cruzasse seu caminho, o escorpiano o fitava nitidamente preocupado. Ele poderia explicar o porquê dos dois estarem espremidos na mesma cama. Não que isso fosse uma falta grave, uma vez que eles não eram desconhecidos e nada demais aconteceu, porém a tensão exalava pelos poros do aquariano. Logo, ele merecia um esclarecimento.
Então Milo procurava as melhores palavras.
O que de fato aconteceu foi que ao chegarem à casa do escorpiano uma onda de enjoo fez o francês voltar a si e regurgitar tudo o que havia bebido em cima de Milo e na sua própria camisa. O loiro foi obrigado a arrancar-lhe a peça de roupa assim como as suas e coloca-las para lavar. Não foi uma cena agradável, então esperava poupar o outro desse constrangimento.
Originalmente o plano de Milo era o deixar confortável, colocando-o na cama e indo dormir no sofá. No entanto, Camus o frustrou e surpreendeu quando o puxou pela mão e ele caiu sobre o colchão macio. O aquariano que balbuciava algumas palavras sem sentido adormeceu logo segurando seu braço num aperto forte.
Minutos depois sem conseguir se desvencilhar foi vencido pelo combo “cansaço+álcool” e acabou dormindo também, junto com Camus.
Ouvindo atentamente a explicação, franziu o cenho e tossiu de forma dramática quando houve a menção de que ele havia o segurado no lugar. Desapontado e aliviado ao mesmo tempo ele pôde suspirar, tirando um peso enorme das costas. Camus ainda confuso por conta da ressaca nem se atentou ao fato de ter dormido feito um bebê ao lado dele.
— Você deve estar enjoado e com dor de cabeça — disse Milo, num tom rouco oferecendo a mão para Camus que continuava sentado no chão. —Tome um banho primeiro, vou preparar um café bem forte.
— O que aconteceu ontem? — A voz do aquariano vacilou, se estabilizando em seguida.
— Você bebeu demais e desmaiou.
— E?
— E o que? O que eu posso dizer mais, que você tirou a roupa e dançou pelado em cima da mesa?! — Milo fez uma careta.
— E-eu não fiz isso, fiz? — Seus cabelos vermelhos se eriçaram imediatamente ao imaginar a cena.
— Com mais uma dose e um incentivo, quem sabe — o loiro deu ao seu interlocutor um vislumbre de um sorriso malicioso — Mais alguma pergunta?
— Só mais uma. Nós dormimos a noite inteira?
— Claro. Você como uma pedra inclusive.
— Ah...
— Eu descobri uma coisa, quer saber? — o escorpiano baixou o tom de voz como se confidenciasse um segredo.
— O que?
— Você ronca feito um porco.
Travesso, Milo gargalhou e correu para fora do quarto, com o riso reverberando pela casa. O travesseiro macio que foi arremessado em sua direção bateu na porta fechada, perdendo o alvo. Um raro e singelo sorriso escapou dos lábios finos. Milo era um brincalhão e felizmente não mudara seu comportamento, diferente dele. Seja lá o que tenha feito ou dito estando embriagado, não queria saber.
Pensando nas possibilidades, imaginou o que passaria pela cabeça do amigo se soubesse que a noite, mas precisamente nos sonhos de Camus, ambos faziam todo o tipo de coisa. Qual seria sua reação? Sentiria raiva, nojo, repulsa? Não o culparia, nem ele mesmo sabia direito o que sentia.
Não é como se fosse apaixonado por ele de qualquer forma, apenas não era indiferente quando seu corpo era estimulado através das sensações, então somente respondia de acordo e ponto. Só havia espaço para uma amizade sincera entre eles, como sempre foi. De nada adiantaria divagar sobre algo que nunca aconteceria nem seria pronunciado. Logo aqueles sonhos impróprios chegariam ao fim e tudo voltaria a ser como antes.
Provavelmente.
...
Desperto após um banho frio, o aquariano encontrou Milo na cozinha e como prometido, ele havia preparado um café bem forte para Camus. Sorvendo o liquido em silêncio pensou numa maneira de compensar o amigo por aquele encontro terrível. Era o mínimo que podia fazer.
O loiro teve a ‘honra’ de ver um lado de Camus que talvez ninguém mais visse e isso já era um motivo forte o suficiente para se envergonhar por abusar da hospitalidade do outro.
Os dedos alvos do aquariano apertaram-se na camisa que vestia. O tecido macio tinha o cheiro de Milo. Naquele momento, um estranho sentimento de nostalgia brotou em seu peito ao observá-lo sentado do lado oposto da mesa que estavam. Ele folheava uma revista enquanto fingia não notar o olhar perturbador que o aquariano direcionava a si.
Sua expressão era leve, mas a inquietação crescia e crescia sem parar. Por que ele tinha que fingir que nada aconteceu? A quem ele queria poupar?
“Soleil... mon soleil, Je t'aime”. O sussurro doce podia ser ouvido por Milo, tão longe e...
— Milo, está ouvindo? — Acenando em frente aos olhos do amigo, Camus chamou mais uma vez.
— Sim?
— Tenho que ir, já abusei bastante de você. Acho que teve o bastante de mim, não quero te monopolizar mais.
O aquariano se desculpou e o agradeceu algumas vezes deixando para trás uma promessa de compensação. Então eles se despediram.
Assim que o amigo se foi, Milo vestiu-se com a primeira roupa que encontrou e saiu de casa. Ele precisava ver Afrodite o mais rápido possível, para infelicidade de ambos. Aparentemente, a pedra colocada em cima do assunto que tinham foi chutada para longe.
Podia-se dizer que por causa dele, o caos havia se instaurado na vida do francês e o mesmo não tinha o menor conhecimento. Por mais que fosse cômodo para ele transferir toda a responsabilidade para Afrodite, essa não era a verdade.
Não podia mentir para sua própria consciência.
Se a intuição dele estivesse correta, Camus lembrara-se da “relação” que tiveram e isso explicaria perfeitamente o seu modo de agir com Milo. Especulação ou não, era um palpite que não podia ser descartado.
Como se quisesse levar a porta abaixo, Milo bateu na madeira maciça com força suficiente para fazê-la ranger e tremer. Com medo que a pobre não fosse suportar ao peso da mão dele, Afrodite apressou-se em atender. Antes de abri-la totalmente, ele já havia passado por ela como o vento, andando nervosamente para lá e para cá.
Ele sabia perfeitamente o motivo da presença inesperada de Milo em sua casa. Poderia até dizer que era uma ocorrência incomum se aquilo não envolvesse o francesinho. Era assim que se dirigia a Camus, mas o escorpiano não tinha ideia.
— É tão urgente para você vir tão cedo, logo num domingo? — Afrodite deu de ombros e bocejou, enquanto olhava seu reflexo no espelho — Se sente, você vai furar o tapete desse jeito!
— Eu acho que Camus se lembra do que aconteceu... – disparou seco, mirando o outro loiro como se esperasse uma reação como a sua.
— Você está imaginando coisas, Milo. Isso não é possível.
— Eu não sei... Talvez não seja tudo, nem de forma clara, mas ele sabe de alguma coisa.
— Como você pode ter certeza? — Disse um tanto desinteressado. Era óbvio que Camus não poderia se lembrar de nada.
— Ele me chamou do nome que costumava me chamar, quando nós... você sabe — suspirou ao lembrar de das muitas noites que passaram juntos, não muito tempo atrás — Camus não é mais mesmo comigo.
O pisciano respirou fundo e contou até dez. Por que todo esse estardalhaço por conta de um apelido? Um nome era um nome, oras. Talvez fosse só uma coincidência, pensou.
A grande verdade era que não havia como Afrodite dar uma garantia sobre as memórias do aquariano. Naquela época, ele usou de todos os meios e esforços durante um mês para recriar uma receita de redefinição. Em tese, seria o bastante para suprimir as lembranças que envolviam Milo.
— Tudo bem, vamos supor que ele tenha se lembrado de uma coisinha aqui ou ali, o que você sugere que façamos?
—O que vamos fazer? Você está me perguntando isso?
O pisciano podia ver claramente uma placa luminosa em verde neon piscando na testa do amigo com os dizeres “É TUDO CULPA SUA”.
— Tudo bem, eu preciso de tempo, tenho que pensar no que fazer. Em parte isso é de minha responsabilidade também, é meu dever ajudá-lo — nervoso, empurrou uma mecha do cabelo atrás da orelha e se dirigiu a uma enorme estante. — Assegurei-lhe que ele se esqueceria de tudo, mas este é um caso especifico. Eu nunca lidei com algo assim antes.
— Leve seu tempo, Afrodite. Não posso exigir pressa nesse assunto, faça como quiser desde que seja da melhor maneira.
— Descubra o que exatamente ele sabe, isso é importante. Se lembrar de algo assim pode significar que as memórias estão bem vivas no seu subconsciente e elas podem ou não voltar, tudo depende.
— Você acha que ele me perdoaria? — Procurou nos olhos claros de Afrodite algum tipo de consolo.
— Eu não sei.
Afrodite tinha uma resposta, mas não queria compartilhá-la. A decisão final não era dele de qualquer forma. Como poderia saber? Não queria destruir as esperanças de Milo. Com a cabeça pesada, o pisciano sentia-se ainda mais culpado por eles estarem vivendo uma situação complicada. Porém ele não fazia ideia do quão conturbada à vida do francês se tornou.
Determinado, jogou os fios loiros para trás e os prendeu. Foi em busca de alguns livros antigos que pudessem o auxiliar naquela empreitada. Uma pilha deles foi posto ao seu lado e ele os folheou diligentemente. Como não sabia o que se sucedia, teria que contar com o poder de persuasão de Milo para descobrir algo concreto para que pudesse agir de sua própria maneira.
Incomodado com uma questão, o pisciano imediatamente parou com a leitura e perguntou.
—Tem certeza que quer ser apagado mais uma vez da mente dele? E quanto a você?
—Eu vou ficar bem. — As palavras saídas de sua boca soaram firmes, porém pouco verdadeiras. Qualquer pessoa poderia acreditar nelas. Menos Afrodite.
Ele não iria ficar bem, sabia disso.
Quantas e quantas vezes não pensou em se abrir com Camus, dizer-lhe tudo, assumir a culpa de algo que em outras circunstâncias jamais teria acontecido, mas não tinha coragem de encará-lo e simplesmente dizer o que precisava ser dito. Tinha medo que pudesse despertar os piores dos sentimentos no coração do francês, seria insuportável ser desprezado por ele.
Afrodite lhe entregou uma xícara e com relutância Milo a pegou, ele simplesmente desconfiava de qualquer coisa feita pelas mãos do pisciano. Tendo o olhar dele cravado em si, finalmente bebeu o liquido quente e esperou algum tipo de reação adversa.
— Não é pra te matar, é só um chá calmante. — bufou e voltou à leitura.
Um pouco mais tranquilo, Milo pôde colocar as ideias em ordem, não podia desmoronar agora. Qual fosse a conclusão dessa historia ele daria tudo de si para mostrar o que nunca mostrou para Camus.
Seus verdadeiros sentimentos.
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