A Magia do Amor

3 O presente de Milo


Notas iniciais
Olá querido leitor(a), estou de volta! Primeiramente gostaria de me desculpar pela demora desse capitulo, coisas acontecem e a preguiça assola a vida do ser humano kkkk Este capitulo em especial é um flashback (alguns meses antes de Camus começar a "sonhar" com Milo, então acho que ficara claro o que aconteceu. Sem mais delongas, vamos partir pra ação! Boa leitura

Os primeiros raios solares cruzaram tímidos a janela do quarto anunciando um novo dia, fazendo o corpo que repousava no grande leito se remexer entre os finos lençóis vermelhos. Os olhos claros abriram-se vagarosamente, incomodados pela luminosidade do dormitório e pela brisa matutina que fazia a cortina balançar suavemente.

Alongando-se feito um gato, Milo despertou após esticar os músculos rijos e dar um longo bocejo. Esfregou os olhos e ainda sonolento considerou a cama desfeita. Ainda era muito cedo e naquele dia em especial ele não teria que correr feito louco para pegar o trem, então não haveria problema nenhum dormir um pouco mais, certo? Nem sequer conseguia lembrar-se da ultima vez que passou o dia dormindo.

Por conta do trabalho, a palavra descanso havia sido praticamente abolida de seu dicionário. No entanto, quando as raras oportunidades apareciam em sua vida ele não podia desperdiça-las, só as abraçava confortavelmente.

Porém, mudou de ideia ao ver uma pilha de trabalhos inacabados que adornava sua pequena escrivaninha. Somente alguém com a mente tão “brilhante” como ele levaria mais trabalho para casa.

Sacudiu a cabeça, a fim de espantar a preguiça e saltou para fora da cama.

Arrepiou-se quando se livrou da ultima peça de roupa que lhe cobria, lançando-a longe e foi em direção ao banheiro para tomar um banho e fazer sua higiene matinal.

Era seu aniversário de vinte e dois anos, e como todo jovem da idade estava radiante. Havia até recebido uma folga e a aceitou de bom grado.

Sem quaisquer compromissos sociais para aquele dia, exceto o que tinha com si mesmo de não fazer nada, apenas aproveitaria aquela manhã silenciosa para se jogar no sofá e assistir TV, mas o telefone tocava insistentemente o irritando de forma absurda.

Seus amigos ligavam para parabenizá-lo de cinco em cinco minutos e o grego foi tentado a lançar o aparelho pela janela. Sentia-se feliz e satisfeito por toda aquela atenção, sem duvida, mesmo num sábado as sete da manhã.

No entanto, eles nunca saberiam.

Mas de todos os telefonemas, mensagens e e-mails que havia recebido que não foram poucos, diga-se de passagem... Milo esperava apenas um. O mais especial e importante para ele, mas tinha a certeza de que não viria.

Talvez ele ao menos tivesse se lembrado.

Que gosto maldito eu tenho.

Aborrecido com sua própria constatação, atendeu ao último telefonema antes de puxar todos os fios da tomada. Do outro lado da linha, Afrodite cantava parabéns para você de forma animada fazendo o aniversariante irritadiço revirar os olhos.

Não precisaram trocar muitas palavras, pelo tom de voz azedo do amigo, Afrodite sabia que Milo estava em um dos seus episódios de mau humor matinal, mais recorrente quando o escorpiano se sentia frustrado, ou seja, com uma aguda dor de cotovelo.

Tendo em mente o provável e único causador de tudo, o sueco convidou-o para almoçar para lhe dar um presente especial.

Sem brechas para explicações, Afrodite jogou a isca para atiçar a curiosidade de Milo que mesmo desconfiado, aceitou de pronto o convite. Sem entender o porquê de tanto mistério por parte do mesmo, desligou rezando para que não fosse nada esotérico como uma bola de cristal ou uma pirâmide de cobre.

Como todo bom grego, Milo também tinha suas superstições e seus próprios amuletos da sorte.

Para ele, eram mais do que suficientes.

Um sorriso escapou de seus lábios ao colocar o fone no gancho. Por instantes, recordou-se das conversas sem sentido que tinham e da vez que Afrodite tentou contato com o “outro lado”. Mesmo não sendo capaz de prever suas loucuras, ainda sim, seria divertido passar parte do dia cercado de “vibrações positivas”.

***

O restaurante pequeno e aconchegante era localizado numa área verde no centro, o preferido de ambos que eram clientes assíduos, pois unia simplicidade e beleza além da boa gastronomia. Conversavam animadamente enquanto saboreavam a entrada: Tzatziki, e em seguida a recomendação do chefe, Moussaka.

Milo renovara esforços para acompanhar o raciocínio incoerente de Afrodite que lhe contava sobre sua nova investida amorosa com o belo vizinho espanhol, e outras trivialidades, emendando em seguida todo tipo de assunto que para ele eram de difícil compreensão.

Quando terminaram o prato principal e pediram a sobremesa, viu o sueco colocar um frasco mediano na superfície de madeira que o fez arquear a sobrancelha. Olhou para o amigo sentado à sua frente hesitante em saber o conteúdo daquela embalagem.

— É sério, Afrodite. Não precisava se preocupar em me comprar um presente — com cuidado, pegou o vidro decorado e colocou-o na frente dos olhos a fim de analisar seu teor — É algum perfume à base de rosas?

— É... Bem, como posso dizer — Afrodite desviou o olhar tentando encontrar uma resposta convincente o suficiente para dar enquanto fazia pequenos círculos na mesa com o indicador — Não exatamente.

— Não é nenhuma daquelas suas macumbas esquisitas, é?

— Não fale assim! As pessoas podem ouvir e interpretar mal.

— OK, diga o que é então...

— É uma poção do amor.

Milo encarou-o atônito por alguns segundos antes de desatar nas gargalhadas. O riso compulsivo o fez chorar chamando a atenção de muitas pessoas que olharam sem entender.

— Já acabou? — constrangido, o pisciano virou o rosto mal-humorado — Você é tão idiota!

— Desculpa, mas eu não pude me conter... Afrodite, pelos deuses! Olhe para mim, eu lá preciso disso?

— Se é como diz, não teria tanta dificuldade em fisgar certa pessoa de que gosta.

— De onde você tirou isso, quem te disse?

— Basta ter OLHOS, já é o bastante — irritado, guardou a garrafa numa caixinha igualmente decorada e entregou ao amigo — Esqueça, esse é meu presente. Use e verá como essa pessoa ficará louca por você, essa beberagem faz até as pedras se apaixonarem.

— Tá maluco? Eu não vou usar isso!

— Seja como for, é melhor avisá-lo: caso você use, coloque apenas sete gotas dessa mistura na bebida da pessoa. Entendeu? Apenas sete!

— Só isso?

— Sim. Só sete, hein Milo! Não me responsabilizo se algo acontecer.

— O que? O que pode acontecer?

— Se não usar, não irá saber.

— Eu vou aceitar, porque é você quem está me dando, só por isso — o escorpiano guardou o presente e voltou a fitá-lo. — Nem a pau eu uso isso, mas obrigado mesmo assim.

Após pagarem a conta e se despedirem, Afrodite lhe lançou um olhar misterioso e um risinho cínico antes de pegar um táxi e ir embora, deixando para trás o amigo confuso.

“Meu trabalho está feito. Você nem perde por esperar, Milo”.

***

Em casa, o escorpiano encarava o frasco a uns bons minutos com os olhos estreitos. Desconfiado abriu a tampa cheirando o liquido. Não cheirava mal, ao contrário, era um cheiro doce e instigante. Afastou-se largando a poção em cima da mesa de centro, evitando olhar para aquela solução que faria até as pedras suspirarem.

Poção do amor, pfft... Que piada!

Recriminou-se por ter aceitado aquele presente estranho e sem sentido. Não que acreditasse em tais magias, mas seria grosseiro de sua parte recusar à bela “recordação” que seu amigo desmiolado lhe dera.

Pro inferno com isso! Eu que não vou usar essa macumba em ninguém...

Decidido a não alimentar qualquer ideia descabida que atravessasse a mente, apenas guardaria a “lembrancinha” e tentaria esquecê-la.

Era o melhor a se fazer.

Um banho frio talvez o ajudasse a dar fim aos pensamentos tortos e excitantes que serpenteavam a mente. Seria um sonho tê-lo apaixonado por si da mesma forma que era por ele, mas ambos tinham uma amizade de longa data e estragar uma relação antiga por uma esperança fugaz era sem dúvida, um risco que Milo não queria correr.

Era provável que continuassem sendo apenas bons amigos e nada mais.

Por que estou pensando tanto naquele maldito? Nem do meu aniversário ele se lembrou. O que custava mandar uma mensagem? Um e-mail? Ou telefo...

Milo não pôde concluir o pensamento, a campainha tocou e não houve tempo de se preparar psicologicamente. Ao abrir a porta se deparou com Camus do lado de fora, vestido de forma casual e ofegante.

Em mãos tinha uma caixa decorada com um grande laço azul marinho, ele havia corrido contra o tempo para comprar um bolo de chocolate confeitado, que sabia ser o preferido de Milo.

— Camus...

— Feliz aniversário, Milo.

— Eu pensei que, você tivesse esquecido — sussurrou emocionado, abraçando o aquariano que lutava para manter o equilíbrio para não derrubar o bolo.

Sorriu encantado, como uma criança que recebia a visita do Papai Noel.

— Eu nunca esqueceria, só não pude vir mais cedo — encabulado, Camus lhe entregou a caixa como um pedido mudo de desculpas. — Espero que goste.

Puxando Camus para dentro, Milo tentava, mas não conseguia esconder e nem conter sua excitação; sem ideia do que fazer de repente se sentiu perdido. Não esperava nem um telefonema dele quem diria uma visita. Sabia que o amigo tinha péssima memória quando se tratava de datas comemorativas, mas ele havia se lembrado do seu aniversário.

Lentamente o coração de Milo se aqueceu.

O aquariano que achava graça da situação sugeriu que assistissem a um filme e depois fossem jantar em um restaurante próximo, era fim de semana e não haveria nenhum empecilho para eles. Ao invés de uma visita rápida Camus passaria um tempo a mais com o amigo e um programa caseiro era a melhor pedida.

Após definirem o cronograma, o escorpiano correu a toda velocidade para a cozinha para preparar alguns petiscos e se recuperar. Afobado e da melhor maneira que pôde, colocou tudo em pequenas tigelas e as depositou em uma bandeja juntamente com as bebidas que encontrou na geladeira.

Respirou fundo para reaver seu autocontrole diante a situação.

Não podia negar, estava feliz e muito surpreso por tê-lo a seu lado em uma data especial como aquela. Nunca pensou que recusar um convite para uma balada com a ‘rapaziada’ iria lhe render uma noite com sua grande paixão.

Apenas como amigos, claro.

Quando voltou a sala, viu Camus olhar concentrado para alguns títulos analisando as opções que tinham, já que ele recusara sua ajuda na cozinha em prol da sua sanidade mental. Milo não pôde deixar de admirá-lo, lutou contra o desejo de acariciar os cabelos que lhe escorriam as costas.

Perdeu-se naquele vermelho que parecia lhe queimar por dentro.

— Milo, eu estou falando com você.

— Desculpa, o que você disse?

— Quais deste você prefere? — Camus apontou três tipos de filmes para que escolhesse.

— Por que não escolhe, enquanto eu vou comprar algumas bebidas? Confio no seu julgamento.

— Se você prefere.

— Não demoro... Não saia daí!

Depois de optar por uma trama com muita ação, o francês se acomodou no sofá em meio das almofadas dispostas ali, beliscou alguns salgados que Milo havia trazido, engolindo em seco quando o excesso de sal atingiu em cheio suas papilas gustativas.

Procurou na pequena mesa de centro algo que não fosse cerveja para matar a sede e encontrou o frasco decorado com pequenas flores coloridas. Sem marcas ou emblemas, Camus o pegou curioso examinando a embalagem.

Deve ser alguma bebida artesanal — pensou.

Retirando a tampa, aproximou o frasco do nariz e o cheiro adocicado e convidativo lhe atraiu, tomou um pequeno gole e o gosto assim como o cheiro eram doces. Tomou o segundo e o terceiro até que não restasse nenhuma gota. Sem conhecimento algum do que tinha tomado, largou o recipiente vazio em cima da mesa e soluçou em seguida.

Algum tempo depois, Milo surgiu pela porta de frente completamente encharcado após ser pego desprevenido por uma chuva passageira, devidamente anunciada no noticiário da manhã que ele ao menos prestou atenção.

Quando os olhos de Camus pousaram sobre ele, o francês não pôde evitar ficar fortemente corado. Resmungando baixinho, o loiro colocou no chão a sacola que carregava e em seguida retirou os sapatos e a camisa ensopada. A visão do grego vestido apenas com uma calça de moletom exibindo o peitoral dourado e esculpido; os cabelos molhados, agora mais escuros e desalinhados fizeram suas pupilas dilatarem e as mãos tremerem.

Constrangido, desviou o olhar indo em direção à janela, tencionando abri-la.

— O que você tá fazendo ai, Camus?

— E-eu... É que, estou me sentindo um pouco sufocado.

— Nossa... Olha pra você, tá vermelho! — aproximando-se para verificar a temperatura do amigo, espalmou a mão na testa do aquariano que estremeceu ao toque. — Será que é gripe? Você está bem quente.

— Estou bem... Só estou com calor, deve ser essas mudanças loucas de temperatura. — respondeu, se jogando no sofá, na tentativa de parecer à vontade. — Vamos ver o filme?

Ao ver o filme que o amigo escolhera, Milo correu até o quarto para se secar e vestiu a primeira coisa que encontrou, voltando e se sentando ao lado dele. Na tela, Christopher Lambert pulava entre os trilhos do metrô em Subway, arrancando uma exclamação de Milo e uma risada tímida e contida do aquariano. Não importava quantas vezes assistisse, sempre tinha a mesma reação; era seu filme favorito, mesmo que não o visse sempre.

E Camus sabia afinal nesse quesito eles eram parecidos.

A perseguição policial e principalmente o romance nada convencional entre Fred e a bela Héléna animavam o grego que comentava vez ou outra as cenas mais emocionantes sem desviar o foco da tela. Estava tão compenetrado que nem ao menos percebeu que não obtinha resposta, pois o francês adormecera na metade do filme.

Quando se deu conta, sua atenção desviou-se para o ruivo que ressonava baixinho. Passou longos minutos observando-o, ora acariciando seus cabelos ora brincando com eles. Embora estivesse receoso em acordá-lo, Milo não pôde resistir à vontade de tocar-lhe o rosto com a ponta dos dedos.

Traçou linhas imaginárias que iam desde a testa até o queixo de Camus, divertindo-se quando o ruivo sentia cócegas e fazia careta.

Os créditos do filme já subiam na tela e era impossível para ele se distanciar. Queria muito beijá-lo a ponto de lhe roubar o ar, mas teve que se contentar em apenas tocá-los de forma sutil, trocando calor entre os lábios. Ao sentir o ínfimo contato — mais intenso do que deveria ser — Camus despertou levantando em um sobressalto, assustando o escorpiano que praticamente caiu do sofá.

Quando havia percebido que tinha beijado o francês e foi praticamente flagrado por ele, mal podia respirar tamanha era sua tensão. Temia ter ofendido o amigo que permaneceu sentado de costas para si, inerte.

O que Milo sequer sabia era que as sensações estranhas que acometiam o aquariano naquele momento eram decorrentes do presente especial que havia recebido de Afrodite, que ele jurou nunca usar.

— Camus, por favor... Me perdoe, e-eu não sei o que me deu! — articulou, apressadamente, mas não houve resposta do outro lado — Eu não fiz por mal, eu juro...

O fato era que, Camus não conseguia discernir com clareza as poucas palavras que Milo proferia por conta do nervosismo.

Ao menos escutara suas explicações.

Os efeitos potentes da bebida se manifestavam com vigor sobre o corpo recém desperto do francês, que ofegava sem ar. Dominado por um calor aterrador e anormal, abriu impaciente os botões da camisa na afã tentativa de diminuir o seu desconforto. Fartas gotas de suor brotavam de sua testa e escorriam como lágrimas, e ele as secava com a manga da camisa. O sangue corria nas veias como uma torrente de lava, os sentidos se aguçaram e o coração batia descompassado no peito. Tinha a sensação que estava à beira de vulcão em erupção, prestes a cair dentro dele.

Sua racionalidade ia se perdendo a cada segundo, à medida que a mente era tragada por um espiral de luxuria que girava em torno do escorpiano, sem que ao menos o mesmo se desse conta. Excitado como nunca havia se sentido antes, Camus era atraído pelo cheiro de Milo como um animal faminto, privado da saciedade.

O “beijo” foi apenas a gota d’água para que a poção fizesse seu trabalho e todo o desejo eclodisse.

Ainda afetado e alheio a respeito do estado de Camus, Milo continuava sentado do lado posterior do sofá aguardando apreensivo alguma reação do aquariano.

Ele esperou todas, menos aquela que aconteceria a seguir.

Notas finais
A titulo de curiosidade: *Tzatziki: Creme feito com iogurte, pepino, um leve toque de cebola, limão e temperos como azeite de oliva, pimenta, menta e sal. Ele é servido junto com o pão pita. *Moussaka: Uma espécie de lasanha, composta por uma excelente combinação de carne de cordeiro moída, berinjelas, tomate, cebola, molho branco e, claro, azeite. Trata-se de um prato que também é bastante comum na Turquia. Eu sei que tem gente que vai querer me matar mas essa é graça da coisa. Acho que algumas coisas se tornaram claras né? Obrigada por acompanhar a leitura e até a próxima! beijinhos