Notas iniciais
Olá, pequeno e adorável leitor! Essa fic tem uma historia complicada, era pra ser uma shot pra um desafio que acabou ficando comprida demais! O que isso tem a ver? Nada, eu só quis compartilhar. Eu espero que você curta a leitura!

Os ponteiros do pequeno relógio de mesa corriam numa velocidade assustadora, indicando que já passava das 2h da manhã. Do lado de fora, as árvores eram sacudidas com violência pela força do vento que soprava de direções opostas. Fartas gotas de chuva colidiam contra a janela criando uma sonoridade ilusória, como se pequenos dedos batessem contra o vidro pedindo permissão para entrar.

No quarto silencioso e minuciosamente organizado, a baixa iluminação do ambiente era provinda do único abajur disposto ao lado da cama.

Um rosto pálido e sem expressão era parcialmente visível na penumbra. Longos cílios tremulavam levemente e abaixo deles, os olhos cansados se fecharam e abriram-se suavemente como asas de borboleta.

Fazia um mês inteiro que Camus, não conseguia dormir de forma pacifica nenhuma noite sequer.

Seus movimentos se tornaram mais lentos, como se seu corpo fosse pesado o bastante para sustentar e ele só pudesse arrastá-lo para todos os lados. As olheiras que ostentava já eram profundas e escuras e só acentuavam o quão fatigado ele estava.

Sua figura era no mínimo lamentável.

Quando perguntado sobre sua aparência abatida, Camus só podia desconversar e dar uma desculpa qualquer. Ainda havia lhe sobrado um resquício de lucidez que não o permitia ser honesto, senão ele poderia ser facilmente taxado de pervertido ou algo pior.

Nos últimos dias questionou-se sobre a hipótese de ter sido vitima de alguma praga, bruxaria ou algo do tipo. Por fora, ele parecia querer rir do seu próprio pensamento absurdo, mas por dentro a vontade de chorar era esmagadora.

Como ultimo recurso, Camus se entupiu com o calmante mais forte que conseguiu encontrar. A única coisa que ele queria era que seu cérebro colaborasse harmoniosamente com o resto do corpo lhe dando uma trégua para que ele simplesmente pudesse apagar.

Mas como se fosse uma maldição, ele ainda foi capaz de acordar antes do nascer do sol com uma ereção dolorosa.

Um arrepio percorreu sua espinha, enquanto tremores violentos lhe subiam pelas terminações nervosas indicando que o clímax se aproximava. O peito se comprimiu e os lábios se separaram como se estivesse a ponto de gritar, mas nenhum som saiu de sua boca. Arqueou o corpo rígido, mantendo-o suspenso no ar por um tempo, desabando logo em seguida.

O liquido quente disparou, deixando sua metade inferior completamente encharcada e pegajosa.

Todos os seus membros pareciam gelatina.

Sem energia para mover os músculos, só lhe restava praguejar entre dentes até que a cena vergonhosa em que ele era o protagonista desaparecesse de sua mente. Embora as feições bonitas se revelassem um tanto apáticas, os olhos úmidos denotavam um descontentamento quase palpável.

“Eu poderia me afundar em você a noite toda, Camus.”

Ao lembrar-se do dono daquela voz rouca carregada de luxuria sussurrando tais palavras, o rosto de Camus brilhou num tom tão vermelho quanto seus próprios cabelos.

Quase todas as noites, Camus vinha sendo atormentado por sonhos eróticos que envolviam ninguém menos que Milo, seu melhor amigo e confidente de longa data. Desde que eles começaram, o desfecho era sempre o mesmo; longas noites em claro com os nervos formigando e uma ereção teimosa sobre sua barriga que custava a abaixar.

Dia após dia, o aquariano se pôs a queimar os neurônios para entender porque raios, justamente ele estava tendo aquele tipo de pesadelo. Considerou todas as opções imagináveis e inimagináveis, em seguida eliminou uma por uma de sua lista mental de possíveis motivos para se ter sonhos molhados com o melhor amigo.

Amor platônico? Não.

Desejo reprimido? Com certeza, não.

Curiosidade pelo mesmo sexo? Definitivamente NÃO!

Sem duvidas, o golpe mais duro para o pobre ruivo foi perceber como seu corpo respondia de forma ávida aquele estimulo. As sensações que experimentara eram tão intensas que beiravam a uma experiência real. Como se realmente tivessem feito coisas como isso e aquilo com suas mãos e bocas.

Mas não havia possibilidade de tal episódio ter acontecido.

Primeiro, se ambos tivessem tido um relacionamento neste nível, mesmo que casualmente — o que nunca ocorreu — ele saberia, obviamente. Não há como esquecer algo assim!

Segundo, Camus nunca viu Milo de outra forma que não fosse como seu amigo, ele tinha certeza que o outro se sentia da mesma maneira.

Por não ter uma razão ou explicação lógica, a situação já era estranha por si só. Como por ironia do destino e para desespero do seu ser, Camus acabara encontrando Milo com maior frequência do que gostaria. Antes, ambos mal conseguiam se ver ou tirar um tempo para sair juntos, agora ele tinha certeza que havia uma força sobrenatural atraindo Milo para perto, fazendo-o ‘brotar’ em todos os lugares que ele ia.

Enquanto conversavam, Camus mal podia olhar para ele sem que ficasse extremamente ruborizado. Não podia ser diferente, ver os dois em seus sonhos quase que diariamente atracados, enlouquecidos e apaixonados não podia deixa-lo indiferente à presença do outro mesmo que quisesse, mas ele dava o melhor de si para não dizer nada estranho e expor seus pensamentos obscenos.

Do seu ponto de vista conturbado, ele foi capaz de jurar que os olhos azuis de Milo quando direcionados a si emanavam um calor inexplicável. Sendo sua imaginação ou não, Camus nunca foi capaz de perceber isso, até agora. Seu comportamento se tornou ainda mais inquieto e distante.

Como se tivesse lido a atmosfera e os sinais de desconforto que Camus inconscientemente lhe enviara, Milo enunciou profundamente:

— Me encontre no centro amanhã, às 20h. Se não for, considere-se um homem morto — ditou, dando ênfase às ultimas palavras.

Um homem morto.

Aquilo definitivamente não era um convite. Milo não havia dado chance para que ele declinasse. Sem argumentação e sem desculpas, Camus sentiu-se muito contrariado e fingiu não ter ouvido nada, totalmente alheio e absorto em algo mais importante. Mas conhecendo o amigo que tinha, não arriscaria ser arrancado para fora de casa aos chutes caso ele não aparecesse, então simplesmente meneou a cabeça positivamente.

“Se eu tivesse um gato, poderia dizer que ele estava doente e o deixaria falando sozinho. É uma ótima desculpa... Vou adicionar um minha lista de desejos”.

***

Sentados um de frente para o outro, Milo e Camus olhavam para seus respectivos copos como se fosse à coisa mais interessante do mundo. Sem ideia do que dizer para quebrar o silencio, Camus entornou sua bebida de uma vez só sentindo a garganta queimar loucamente, soltando um — ah! em seguida.

Surpreso pela iniciativa do amigo, Milo repetiu o gesto de Camus e limpou a boca com as costas da mão.

O bar que escolheram tinha uma atmosfera agradável, mesmo a decoração sendo rústica de pedra e madeira, tinha certo ar de elegância e masculinidade. As mesas eram alinhadas ao redor de um grande balcão redondo onde o barman exibia alguns de seus truques e recebia um ou outro elogio.

Algumas mulheres cochichavam enquanto passavam pela mesa dos dois jovens bonitos. As mais ousadas os encaravam e até mesmo piscavam para eles. Milo sorriu de forma fraca para elas e logo voltou sua atenção para Camus, que por sua vez parecia bem descontente.

Sem entender nada, viu o outro se levantar e ir ate o balcão voltando com uma garrafa de licor e um pequeno copo, com um baque pesado sentou-se na cadeira. Não é difícil imaginar o que viria a seguir. Junte a equação um homem abstêmio mais álcool em excesso, o resultado só poderia ser desastroso.

Depois de segundo licor, Camus já não falava coisa com coisa.

Como péssimo bebedor que era, ele não costumava consumir bebida alcoólica nem mesmo quando saia com os amigos. Perder o controle de si mesmo e de suas ações não era algo muito interessante. Seu papel era sempre resgatar seus companheiros bêbados e os arrastar de volta para casa.

Vivendo uma situação caótica e insone, Camus estava aborrecido demais para se importar com regras ou sua própria imagem. Mesmo que o responsável pelo seu estado de vigília estivesse a poucos centímetros de distancia, ele não iria se segurar.

Milo olhava-o de relance suspirando, se segurando para não cair na gargalhada. Com uma expressão emburrada e um leve rubor na face, Camus o fitava intensamente como se quisesse dizer alguma coisa, os lábios abrindo e fechando.

Ele não pode estar bêbado, só com isso! Céus, ele é tão adorável.

— Por que está me encarando desse jeito? Eu fiz alguma coisa?

Ao ouvir isso, Camus riu de uma forma estranha, cruzou os braços e virou seu rosto para o outro lado. Ele parecia uma criança turrona. Um tanto quanto chocado com sua infantilidade, Milo insistiu com ele que manteve a pose durante um tempo.

— Ei, você não vai olhar para mim?

— Shh... Pare de... incomodar — pausadamente, ele enunciou as palavras com certa dificuldade, sinalizando silencio e apontando seu dedo para o rosto de Milo. A língua enrolada dentro da boca.

Se apossando da garrafa de licor, Camus encheu novamente o copo até que o liquido verteu pelas bordas, de uma vez o virou, a bebida escorreu pelo canto dos lábios finos e num movimento ousado a língua varreu o lábio superior e depois o inferior.

Maldito, você quer morrer?! Não ouse flertar com outras mulheres depois de destruir minhas noites de sono. Acha que eu encontrei essas olheiras jogadas no lixo? Seu pervertido do caralho!

Por sorte, a boca de Camus não era tão veloz agora quanto seu raciocínio pouco afetado. Ele poderia amaldiçoar Milo o quanto quisesse em sua mente, mas se ditas, as palavras seriam só uma bagunça difícil de entender.

Milo analisava o amigo meticulosamente. Um pouco intrigado um pouco consternado. Por que ele parecia tão frágil e sem energia? Desde quando seus olhos eram tão fundos? O aquariano parecia estar passando por dias difíceis, mas sóbrio ele nunca iria dizer. Chama-lo para beber não era uma simples coincidência. Era um truque sujo, sabia. E também um dos métodos mais eficazes de se arrancar a verdade de alguém. Um empurrãozinho faria com que Camus acabasse por desabafar, o que no fim seria uma coisa boa.

No entanto Milo nunca imaginou que ele tomasse a iniciativa de se embebedar sozinho.

O sentimento de culpa preencheu o coração do escorpiano. Será que foi exagero da sua parte? Ele deliberadamente escolheu se afastar de Camus por achar ser o mais correto a se fazer, e por algum motivo ele se encontrava nessa situação. Como poderia não se sentir mal?

Pensando no que dizer Milo finalmente fez sua primeira investida.

— Foco Camus, olhe para mim. Por que não me conta o que esta acontecendo?

— Você sabe você, sabe... Todo dia eu não aguento, você todo dia! Eu vou morrer, eu quero morrer! ­— Disse angustiado, passando ambas as mãos sobre os cabelos e puxando, arrancando alguns fios.

— Calma, não faz isso. Fale devagar pra que eu possa entender!

— Por que comigo? Mm? O que eu fiz pra você?

— Do... do que está falando?

Camus não ouvia absolutamente nada, não queria. Não queria ouvi-lo, não queria vê-lo. Estava cansado. Os olhos queimavam e as lágrimas ameaçavam cair, seu limite havia chegado. Num baque, sua cabeça tombou sobre a mesa e ele se permitiu ficar assim, imóvel.

Os cabelos cobriam o rosto e os traços quentes das lágrimas que havia lutado tanto para segurar.

Camus desmaiou completamente antes mesmo concluir uma frase que o outro pudesse entender, deixando uma incógnita no ar. Milo estava tão tenso que nem percebeu que prendeu o ar. Preocupado, verificou a respiração de Camus e soltou o ar numa respiração brusca. Ele havia bebido muito e rápido demais que Milo temeu que o amigo entrasse num estado de coma alcoólico. A resistência do aquariano era péssima e não o permitia ir além de alguns goles antes de perder a consciência.

No final das contas, o propósito que tinha foi totalmente arruinado, o escorpiano não ouviu nada esclarecedor o suficiente. Só o que conseguiu é ficar mais confuso.

Milo pagou a conta e eles deixaram o bar.

Com uma passada rápida de braços e um solavanco, Camus foi colocado sobre as costas e carregado pelas ruelas calmas e silenciosas. O ar fresco lhe devolveu o ânimo para suportar o peso extra e o deixou mais sóbrio para colocar as ideias no lugar.

Sua casa era muito mais perto do que a de Camus, uma pequena caminhada e eles chegariam logo. Então seria muito mais fácil leva-lo até lá. Alguns minutos se passaram e ele fez pequena pausa, retomando o fôlego para continuar.

Os braços de Camus cercaram o pescoço do outro num aperto, como se temesse uma fuga repentina. Ainda desacordado, ele murmurou meia dúzia de palavras e frases desconexas, Milo levou sua atenção a elas. Poucas ele entendeu na verdade, mas algumas delas fizeram seu corpo de enrijecer e seus olhos se arregalarem.

“Não vá embora... me leve com você”.

“Me leve com você, Soleil”.

O coração de Milo falhou na batida ao ouvir aquilo. Durante um minuto, ficou imóvel sem ao menos perceber que o choque o fez estancar no meio da calçada. Levou um tempo para que pudesse se recuperar e se concentrar no amigo que delirava em suas costas.

— Me perdoe Camus. Tudo é culpa minha!

“Perdoe-me por te forçar a esquecer de nós”...

Notas finais
Hmn, quem ai está intrigado? O que será que Milo sabe que Camus não sabe? Alguém tem um palpite? Gostou? Me diga o que achou ;D Beijos, te vejo no próximo capitulo!