Notas iniciais
Espero que gostem :)

Sempre morei em Manhattan.

Naquela cidade extremamente movimentada, todas as tardes minha mãe e nossa vizinha da casa da frente, Raquel, se juntavam para fazer lanche da tarde e conversarem na varanda. Sempre fui filha unica, e nunca senti falta de um irmão. Annie, minha melhor amiga, tinha dois por mim, Robert e Allan. Ficávamos correndo pela casa enquanto elas conversavam e bordavam, Allan era o menor e costumava gritar muito, e quando se jogava no chão esperneando por alguma coisa, Raquel sabia que era hora de ir.

Mal me lembro como foi que conheci Annie, ela parece ter estado sempre aqui. No começo eu me escondia atras das pernas de minha mãe e ela ficava me cutucando com uma cara de ' vamos brincar ', e eu me encolhia mais. Mas é claro que um dia eu larguei a saia da mamãe e foi na mão de Annie que segurei. Desde então não soltei mais.

Quando completei nove anos, muitos professores começaram a reclamar de meu mal comportamento, diziam que eu não me calava e que não prestava atenção nas aulas por culpa de Annie, então Raquel a mudou de escola, e por algum motivo eu marco esse dia como um divisor de águas, pois no mesmo ano meus pais resolveram se separar.

Foi numa noite, eu acordei com alguns barulhos e fui me arrastando para o banheiro toda sonolenta, e de longe vi a luz no fim do corredor acesa, meu pai estava sério e ouvi minha mãe chorar de um jeito abafado, então voltei pro quarto e não entendi o que aquilo significava até o outro dia de manhã, quando eles me chamaram na sala e não era para ver desenho.

Papai disse que me amava muito e que o amor existe de muitos jeitos, e que ele não amava só eu ou a mamãe, que ele amava tambem outras pessoas que eu não conhecia, e que por isso tinha que ir embora.

Fiquei me perguntando se o papai amava outra pessoa como eu amava Annie. E se fosse assim, ele podia ir, e foi, no mesmo dia pegou todas as suas camisas azuis do guarda roupas e dobrou perfeitamente, como mamãe costumava fazer. Depois colocou numa mala grande demais, pegou as chaves do carro na bancada da cozinha, me deu um beijo na cabeça e foi.

Só entendi como aquilo era ruim quando percebi que as coisas que eu gostava de fazer com ele tinham acabado, e que a mamãe ficava chorando e mal cozinhava. Raquel parou de levar Annie, Robert e Allan a tarde, e ficavam sozinhas na varanda — onde fui proibida de ficar tambem — conversando bem baixinho.

Eu subia pro meu quarto, que era no sótão, e da pequena janela via Annie olhar pra mim tambem, com as mãos no vidro e o cabelo claro bagunçado como sempre. Depois ela sorria e corria, eu sabia que os meninos estavam aprontando alguma. Então pegava um livro, eu adorava saber ler.

Agora eu e ela não tínhamos pai. É, ela não tinha tambem. Disse que não tinha, logo no começo quando eu perguntei, e veio um silencio depois me enchendo de mais perguntas, mas não as fiz e ela pareceu estar aliviada. Agora percebo como fui boba, mas esperta de ter me calado. Os pais vão embora e não existia nada que Annie pudesse fazer, mesmo sendo uns dois anos mai velha que eu.

Com doze anos, eu já entendia bem mais das coisas. Bom, pelo menos era o que eu achava. No meio da festa, um homem alto e magro apareceu, e tudo ficou estranho. Era o meu pai, com muitos quilos a menos, parado bem ali na sala como a anos atras era costume ver. Minha mãe arregalou os olhos e correu pra perto dele, mas não com saudade, ela estava nervosa, foram pros fundos e a Raquel levou eu e as crianças da vila pra casa dela, disse que agora a festa era lá.

Foi bem chato porque eu e Annie não gostávamos mais de correr, mas Allan e Robert não entendiam e não nos deixaram nem um pouco em paz. Eu só queria ficar sozinha, eu e Annie, ela era a unica que sabia que eu sentia falta do meu pai, e ela sempre sorria quando eu chorava e falava ' calma Claire ', e eu me acalmava mesmo com isso.

Às seis todas as mães já tinham buscado seus filhos, porque Raquel ligou para elas comunicando o imprevisto.

Os meninos foram com o padrasto para a aula de bateria, Annie odiava Paul e só fazia um ano que Raquel o havia conhecido e ele já morava com a família. Ela tentava me explicar porque não gostava dele, mas eu não sabia o que era transar.

Subimos pro quarto dela, que ficou tentando me explicar como o amor é confuso, e eu entendi o que ela quis dizer. Eu amava a Annie, isso eu podia saber sozinha.

Mais tarde meu pai bateu na porta da casa da Rachel e disse que estava tudo bem. A frase me fez descer as escadas num pulo, ele se ajoelhou como se eu ainda fosse tão pequena quanto quando ele me deixou, abracei o corpo magro porem com o mesmo cheiro que eu me lembrava bem.

Ele voltou no momento certo, íamos todo sábado fazer piquenique no Central Park, próximos a uma unica macieira que ficava escondida na parte mais vasta do parque . Mamãe adorava a macieira, mesmo nunca tendo visto dela brotar frutos, antes de ir embora ela abraçava a arvore e só então podíamos ir.

No ano seguinte quando ela faleceu, eu, Annie e papai íamos ainda todos os sábados ver a macieira. Mas com o tempo meu pai desanimou, ele sempre ficava triste quando eu abraçava a macieira como ela fazia, e logo queria ir embora. Mas Annie com aquela mania de insistir, me disse que por amor, eu e ela deveríamos continuar frequentando o Central Park.

Numa tarde quando fomos, quase tudo já estava superado pra mim. Levamos um canivete na mochila, e Annie cravou nossos nomes na arvore, com um coração no meio. Fiquei olhando o coração. Aquilo devia significar amor. Annie me amava tambem. Ela tinha sido minha única amiga, ela que ficou do meu lado quando eu só pensava em chorar. E a psicologa disse que ela era meu talismã.

Nisso eu já estava com mais de quatorze, Annie dezessete. Tinha se mudado para a ilha de Manhattan, já não morava mais bem em frente. Nos víamos apenas aos finais de semana, e papai que agora mais trabalhava do que vivia, nem pensou duas vezes quando perguntei se Annie podia dormir conosco quando pudesse vir. Já era sábado novamente, arrumei a mochila com tudo que gostávamos de comer e fomos, quarenta minutos à pé, exatamente. Cantávamos Bon Jovi como duas loucas, mas Manhattan não parava, você podia usar uma fantasia de fada e ninguem notaria, continuaria o fluxo contínuo de empurra-empurra pela quinta avenida.

Quando chegamos, me encostei na macieira. Annie começou a desembrulhar as coisas e espalhar por cima do lençol. Continuei parada.

– Tenho uma coisa pra nós Claire — disse com um sorriso malicioso.

– O que é ? — perguntei despreocupadamente.

– Já pensou em beber ou fumar ?

– Não.

– Vamos fazer isso.

Esperei, enquanto ela tirava um projeto de cigarro do bolso.

– Você sentou em cima disso, não é ? — perguntei quando a vi tentando consertar.

– Isso não é um cigarro normal, como o que os pais fumam. Se chama maconha — arregalei os olhos e ela riu — Oras Claire, pra que essa cara ? Voce nem sabe do que estou falando.

Realmente, eu não sabia. Ela tragou uma vez, me encarando. Depois tossiu de leve e deu na minha mão. Aquilo tinha cheiro forte. Ela ainda me encarava. Fiz o mesmo, pude sentir entrar nos meus pulmões, tossi, me sentia quase sufocada, joguei o cigarro no chão, Annie chutou para longe.

– Você foi ótima. Vem, senta.

Me sentei e fiquei encarando a macieira. Ela parecia de outra cor. Olhei pra Annie e seu cabelo era azul. minhas mãos contorcidas e tudo parecia lento. Me deitei e por um segundo achei que Annie sorria e se aproximava. Não, não era uma ilusão. Seus lábios sempre molhados estavam encostados nos meus, seus olhos estavam fechados, o cabelo já tinha mudado de cor. Eu me sentia viva.

– Eu tambem amo você Claire.

Notas finais
O amor não tem forma, pode ser definido de todos os jeitos possíveis. O amor não tem classe, raça, sexo ou cor.