A Máscara de Seth
30 Capítulo 30
Notas iniciais

O dia que passaram dormindo juntos após aquele primeiro contato com a consciência de Mu pareceu ter mudado a relação entre a Fera e o Setita.
Decidido a mudar sua abordagem perante a criatura, quando a noite tingiu de escuro o horizonte e Seth deixou a caverna para caçar, Shaka não o seguiu. Diferente de como fizera nas outras vezes permaneceu no covil, imóvel e em silêncio. Contudo, diferente também foi o comportamento de Seth naquela noite, que ao ver que o sumo sacerdote não deixou o abrigo o aguardou do lado de fora.
Ciente de que não havia sido paralisado Shaka entendeu que o Nut havia permitido que o seguisse, então teleportou-se para fora e comprovou sua teoria.
Ao dar de cara com a Besta a lhe encarar fixamente com seus olhos infernais a reluzir no escuro da noite, e sabendo agora como deveria se comportar perante ela para que conseguisse atingir seu objetivo, Shaka baixou a cabeça cravando seus olhos no solo coberto por folhas em sinal de submissão, e evitando o olhar do demônio esperou que ele avançasse para segui-lo, mas Seth novamente o surpreendeu.
Muito lentamente o Nut aproximou-se do sumo sacerdote, encostou o focinho em seu peito e deu uma ou duas cutucadas, o forçando a recuar alguns passos. De início o loiro cogitou que ele o estava mandando retornar à caverna, mas depois Seth torceu ligeiramente o pescoço para trás tocando os próprios ombros com a ponta do queixo, enquanto emitia um ruído baixo, então Shaka, que era exímio em compreender a linguagem das feras, arregalou os olhos surpreso, pois entendeu que ele queria que o montasse nas costas.
Aquele gesto encheu o coração morto do Setita de esperanças, que sem mais esperar e com muita cautela aproximou-se lentamente da criatura, segurou em seu pescoço para tomar impulso e subiu em suas costas, agarrando-se ao pelo longo da crina que lhe cobria as espaldas. Mal teve tempo de se ajeitar e Seth já partiu em disparada embrenhando-se na mata densa e escura.
***
As caçadas que se seguiram nas noites após aquele primeiro contato foram muito mais violentas, e não porque a selvageria de Seth tinha aumentado, mas porque Shaka, agora sabendo que Mu precisaria de muita energia, portanto muito sangue, para tentar reverter a metamorfose, passou a induzir a criatura a seguir para propriedades rurais mais povoadas, quase perto dos grandes centros urbanos, deixando os pequenos vilarejos onde a oferta de gado era menor.
Como fez das outras vezes, enquanto Seth dizimava por completo a área atacada, Shaka saciava sua fome com apenas um ou dois humanos, e no fim de tudo ateava fogo nas casas e carcaças restantes.
O sumo sacerdote nessa hora dava graças à índole corrompida dos seres humanos, que sozinhos eram extremamente competentes em dizimar sua própria espécie, fosse por motivos mesquinhos como intolerância religiosa ou simplesmente disputa de poder. Assim, se tornava fácil manter a Máscara em um mundo onde o homem era o maior predador de si mesmo, principalmente por estarem na Índia, um país ainda mais impregnado de superstições e crendices.
E Shaka estava certo.
Alguns ataques de Seth foram confundidos com atos terroristas, outros com rixas tribais antigas, alguns com rituais macabros entre povos que disputavam aquele território há séculos, no entanto, o sumo sacerdote tinha consciência de que não seria capaz de sustentar aquela farsa dos vampiros que habitavam as regiões próximas aquela área.
Ciente do perigo que corriam Shaka pensava, dia e noite, em como traria Mu de volta, pois seu tempo estava se esgotando, não restavam quase mais vilarejos e logo seria impossível impedir Seth de ir para os centros urbanos. Precisava tomar medidas mais desesperadas.
Assim, ao retornarem para a caverna no fim de mais uma noite em que espalharam morte, violência e destruição naquela região de Bengala, o loiro decidiu que faria mais uma tentativa de despertar a consciência de Mu, mas agora adotaria outra abordagem frente à Fera. Bem mais arriscada.
Na caverna, poucas horas antes do alvorecer, saciados depois de terem dizimado um dos últimos povoados que restavam ainda naquela área, Seth e Shaka embrenhavam-se entre as rochas até alcançarem o covil. O sumo sacerdote ainda estava montado nas costas do Nut quando este, sentindo-se imundo, incomodado com o sangue, terra e toda a sorte de detritos que se aderiam a seu pelo, arrastou-se pela passagem íngreme entre a rocha na qual dormiam e a parte de baixo da gruta e saltou para o lago subterrâneo que ficava logo abaixo.
Na água eles se separaram, e enquanto Seth despreocupadamente, e feito um gatão manhoso, mergulhava nadando em círculos ou se chacoalhando para lavar os pelos, Shaka o observava atento.
A Besta estava finalmente distraída e vulnerável. Era sua chance!
O Setita já tinha se dado conta de que era nos momentos em que a criatura estava ensimesmada e saciada que deveria agir, e não o contrário, quanto estava em alerta, uma vez que Mu só conseguiria ter forças para enfrentar o demônio que habitava em si se este estivesse de guarda baixa.
Depois de alguns breves minutos analisando cada gesto de Seth, concentrado, procurando manter a calma e com extremo cuidado, já que a Besta podia interceptar seus pensamentos a qualquer momento pelo elo que partilhavam, Shaka passou a nadar lentamente em torno do Nut, acompanhando seus movimentos, imitando alguns até, como se estivesse brincando com ele.
Seth percebeu a aproximação e a interação de imediato. Ergueu a cabeça e chacoalhou os pelos para livrar-se do excesso de água e abrir os olhos, pois sem que esperasse nasceu em si um desejo súbito de olhar para aquele vampiro que nadava graciosamente em torno de si.
Sem se abalar o Setita continuou em seu intento, e agora enquanto nadava, em movimentos tão suaves quanto os de uma bailarina, esticou um dos braços e tocou com suavidade o pelo ainda sujo do peito de Seth. Fingindo descontração, sorriu, sempre evitando olhar diretamente nos olhos da Besta, tanto para mostrar que aceitava sua posição de submisso a ela, quanto para evitar que ela percebesse sua real intenção, então esfregou a palma contra o pelo para facilitar a limpeza.
Seth entendeu aquele gesto como uma ajuda, e até facilitou o trabalho do sumo sacerdote afundando um pouco mais na água. Foi então que Shaka com muito cuidado ativou o Serpenthys e usou o Domínio das Feras, seu dom de sangue, para ordenar aos peixes bioluminescentes habitantes do lago que viessem até eles e nadassem em torno do Nut formando um círculo perfeito de graciosas luzes bailarinas.
Aos poucos aquele balé resplandecente tinha a total atenção da Besta, que parecia hipnotizada pelas luzes e tentava a todo custo apanha-las dando patadas em suas caudas frenéticas, enquanto Shaka, fingindo estar tão encantado quando ela, também a distraia nadando em meio as luzes, sorrindo e acariciando seu pelo.
Sem que Seth percebesse, Shaka já havia direcionado seu poder de Dominação das Feras também a ele, e agora empenhava-se a subjugar aos poucos a criatura para tentar contatar a consciência de Mu sem que fosse interceptado novamente pelo demônio.
“Mu.”
Tentou uma primeira vez chamando o amado com telepatia, enquanto sorria e nadava lentamente entre os peixes acompanhando os mesmos movimentos que eles faziam em torno da criatura.
“Mu... Pode me ouvir?”
Com um gesto súbito, Seth desviou a atenção dos peixes e passou a acompanhar com olhos atentos cada gesto do sumo sacerdote, que a princípio ficou tenso, mas permaneceu firme. Não iria desistir.
“Mu. Sou eu, Shaka!”
Em um instante vertiginoso, Shaka viu a criatura parar de mover-se na água e ficar hirta, os olhos fixos aos seus como se estivesse em transe.
“Mu... Por favor.”
Implorou, enquanto Seth, envolto pelas luzes bailarinas tudo que ouvia era o som da água misturado ao do riso do vampiro à sua frente, e esse lhe soava como música. Aos poucos a visão belíssima dos cabelos loiros a flutuar entre as luzes na água e dos olhos encantadores a divisarem os seus com tanto ardor, somada ao som daquele riso hipnótico encantaram Seth de forma tão arrebatadora que ele sentia como se uma chama fosse acessa dentro de seu peito. Um calor súbito e intenso, que com a velocidade de um raio que cruza os céus em noite de tempestade se espalhou rapidamente por todo seu poderoso corpo.
Uma sensação nova até então, e que Seth tentava entender o seu significado enquanto, inerte, permanecia preso à figura do Setita.
“Mu, esse é o momento! Ela está distraída. Reaja!”
Disse Shaka ainda na tentativa de acionar a consciência de Mu, e sem ainda obter qualquer resposta do amado, e olhando para a Fera imóvel de olhos cravados em si, submerso até a altura do peito balançava os braços na água para se manter no lugar enquanto aumentava ainda mais sua Presença vampírica. A luz que vinha dos peixes iluminava seu rosto, que apesar da tentativa ferrenha em manter-se sereno não escondia o medo e a apreensão.
Na verdade, se seu coração estivesse vivo este certamente agora estaria batendo tão rápido e forte que o sentiria querer sair pela boca.
“Mu, ouça minha voz, meu amado, reaja! Por favor! O meu sangue... ele circula dentro de você assim como o seu circula em mim. Use o dom Setita do nosso clã. Domine a Fera, Mu! Lute! Volte para mim. Volte para mim, por favor!”
Em pensamento Shaka gritava em agonia, mas por fora tentava a duras penas manter no rosto o sorriso descontraído e a feição bela e tranquila, enquanto encarando os olhos infernais da Besta julgou que finalmente havia conseguido domá-la.
Seth por sua vez, parecia olhar para o sumo sacerdote com encanto e admiração, porém o calor que lhe queimava por dentro de forma voraz nada tinha a ver com encantamento, mas com outros sentimentos que começavam a brotar dentro de si, enleio, êxtase, desejo.
Desejo... Um sentimento extremamente perigoso quando vivenciado por uma fera irracional movida apenas por seus instintos.
Sem imaginar o que de fato estava despertando na Besta, e acreditando que de alguma forma tinha conseguido subjuga-la, Shaka aproximou-se mais, e de forma extremamente cautelosa e lenta segurou em ambas as poderosas patas as trazendo para perto de seu rosto. Eram pesadas, lhe custou algum esforço, e o contado da palma imensa com sua face, assim como das garras letais a se emaranharem em seus cabelos, lhe causou um princípio de pânico, mas se manteve firme.
Tombou ligeiramente o rosto para um dos lados e beijou com delicadeza uma das enormes palmas, procurando, através desse gesto arriscado, do toque, despertar os sentimentos de Mu adormecidos dentro da criatura.
“Precisa voltar para mim, Mu. Preciso de você.”
Falou diretamente à mente do Nut, e deixando-se levar pela saudade fechou os olhos e esfregou seu rosto na palma da mão da Besta, a beijando novamente com suavidade.
Percebendo as imensas garras de Seth sujas ainda, como fizera tantas vezes com Mu, Shaka mergulhou uma de suas mãos no lago, apanhou um pouco de água e a despejou sobre as garras da criatura, esfregando-as em seguida com seus dedos.
Seth não o impediu, ao contrário, facilitou seu trabalho relaxando os membros e distendendo ainda mais as unhas.
Em algum lugar da mente primitiva da Besta a imagem daquele vampiro de beleza avassaladora a lhe limpar as garras emporcalhadas de sangue com tanto zelo e carinho lhe soou familiar. Como um dejavú desavisado que estranhamente lhe trazia conforto ao mesmo tempo em que lhe despertava prazer.
Prazer. Outro sentimento perigoso a se experimentar quando não se é capaz de raciocinar.
De repente, um ruído escapou do fundo da garganta do demônio, baixo, porém grave, gutural e com extremo esforço.
— Grrrr... Shaa...
Surpreso e enérgico, Shaka olhou para cima, para a face da Besta, e a encontrou encarando a sua. O focinho franzido, os enormes dentes à mostra, os olhos infernais faiscando um brilho rubro e intenso.
— Mu? — disse o Setita, e em seus olhos a chama da esperança brilhou novamente. Ele acreditou que estava perto, muito perto agora — MU! MUU!
Em desespero, Shaka esticou os braços até o focinho da Fera e agarrou sua mandíbula poderosa cravando seus olhos aos dela.
— Mu! Mu sou eu! — disse eufórico. Seu poder, agora Os Olhos da Serpente, totalmente voltado para Seth, para dominá-lo — Sou eu, Shaka! O seu Shaka. Seu companheiro. Fale comigo, Mu! Reaja! — praticamente gritava — Domine-a Mu, domine a Besta! Lute, meu amado! Você consegue, você é mais forte! ... Me responda por favor!
Mas a resposta que o sumo sacerdote tanto esperava não veio de Mu, mas de Seth, do demônio, da Besta, que excitada cedeu a seus instintos, pois na tentativa de despertar Mu, Shaka havia levianamente seduzido o demônio, que agora conseguia, enfim, entender o que representava aquela criatura a quem tanto sentia necessidade de ter perto de si, de proteger.
Os toques do sumo sacerdote, seu sorriso, seu odor familiar, sua submissão, despertaram um gatilho de lembranças na mente primitiva da Besta. Essas remetiam a um passado compartilhado com aquele vampiro, memórias que por força do elo de sangue que dividiam eram vívidas e tão reais como se as tivesse vivenciando no presente. Seth reviveu em segundos as vezes em que fizera sexo com Shaka, e agora era capaz de compreender que aquela pequena criatura não era um filhote, um bem, mas seu parceiro sexual e o único capaz de saciar o desejo que o consumia por dentro feito fogo, e que nenhuma outra criatura havia conseguido aplacar.
Com um solavanco, Seth ergueu o queixo e chacoalhou a cabeça, livrando-se das mãos do sumo sacerdote, e antes mesmo que este pudesse retorná-las à água lhe tomou os punhos usando apenas uma de suas patas imensas e com um puxão trouxe Shaka para mais perto. Roncando e sibilando baixo esfregou o focinho no peito do vampiro à medida que avançava sobre ele na água ainda o segurando pelos punhos.
O gesto inesperado da Besta causou pânico imediato ao líder dos Seguidores de Seth, que tentou se soltar batendo as pernas na água e fazendo força com os braços.
— N-Não... Não... Me solte! — disse Shaka com voz perdida e trêmula, pois no instante anterior acreditava ter a criatura sob seu domínio, e no seguinte via seu pior pesadelo ganhar forma — Me... me solte! ... ME SOLTE! ME OBEDEÇA! EU ORDENO QUE ME SOLTE! — lutava debatendo-se na água, entregando-se ao desespero assim que percebeu as reais intenções do Nut.
Com seu corpo agora colado ao corpo enorme e feral da criatura Shaka se deu conta do quão excitada ela estava, pois como havia se alimentado recentemente podia sentir o desejo dela vívido a latejar entre eles, então o pânico o fez ter um rompante de lucidez em meio ao horror que lhe tomava o espírito. Teleportou-se, livrando-se das garras do demônio, porém a poderosa Presença de Seth não permitiu que fosse para muito longe, e antes mesmo de surgir ali, na margem que permeava o lago, eis que o Nut surgiu primeiro e tornou a agarra-lo, agora pela cintura, uma vez que através do elo de sangue era capaz de prever seus movimentos.
— NÃOOOOOO! ME SOLTE! ME SONTEEE! — Shaka gritou, debatendo-se, lutando, esmurrando e chutando a criatura, aterrorizado com a ideia de que seria não apenas violentado, mas despedaçado, dilacerado e devorado até que de si não restasse nem a carcaça, então a Besta, excitada e irritada com todos aqueles gritos e também a resistência, usou a Dominação da Carne para paralisa-lo.
Impossibilitado de se mover Shaka foi facilmente empurrado contra uma rocha, e com os olhos saltados das orbitas olhou aterrorizado para a face do demônio que sedento vinha cobrir seu corpo.
“Mu... Me perdoe! Você tentou me abrir os olhos tantas vezes... Por favor... Só você pode evitar isso... Não me abandone!”
Uma última súplica, feita diretamente à mente adormecida de Mu, então fechou os olhos com força, preparando-se para o que viria a seguir, e em meio a lágrimas de sangue pareceu aceitar que tudo estava perdido, para ele, para o amado companheiro Nut, para a sociedade vampírica e humana, afinal Seth derrubaria a Máscara.
Foi leviano quando julgou que poderia exercer qualquer domínio sobre o Caos, já que não há no mundo, nem no Universo, força maior que ele... Ou haveria?
Quando Shaka sentiu as mãos da criatura pesarem sobre seus ombros de forma brusca e indelicada, apertou ainda mais as pálpebras em terror e expectativa, mas eis que de repente a pressão que o esmagava contra a rocha desapareceu como névoa que se dissipa diante de uma forte rajada de vento.
Abriu os olhos em surpresa e olhou para cima, então viu a Besta diante de si que ereta sobre os dois membros rosnava e sibilava feroz chacoalhando a cabeça e mexendo as orelhas pontudas. As orbes de íris infernais escarlates corriam de um extremo ao outro dos olhos, como se procurasse por algo que não estava ao seu alcance, frenéticas, e o corpo recém alimentado e vivo tremia convulso.
Devagar, parecendo confusa e desorientada, a Besta recuou alguns passos retornando para o lago, então o sumo sacerdote sentiu uma corrente elétrica percorrer todo seu corpo provocando um espasmo involuntário. Ele estava livre da paralisia.
Apoiou os cotovelos na rocha e ergueu ligeiramente o tronco para olhar para Seth, que agora lhe dava as costas parecendo arranhar o próprio rosto com as poderosas garras. Nessa hora o Setita também sentiu-se confuso e procurava entender a enxurrada de emoções, sensações e informações conflitantes que compartilhava com a criatura e que o inundavam de uma só vez.
— Não pode ser... Será que... sim... — Shaka murmurou antes de dar um riso nervoso de esperança e se levantar gritando a plenos pulmões — MU! MUUU.
Ao ouvir o grito do sumo sacerdote a Besta imediatamente voltou-se para ele e rosnou feroz, porém na mesma hora uma dor excruciante martelou em sua fronte, e ela fechou os olhos em resposta, rugindo e sibilando para si mesma.
O elo de sangue era uma via de mão dupla, e as emoções de Shaka no instante de sua súplica final, o medo, a tristeza e o pavor, haviam tocado o subconsciente da criatura, ativando o gatilho que permitiu com que Mu finalmente conseguisse despertar sua consciência. Agora o Nut travava uma luta ferrenha e violenta contra a Besta.
Notando a luta interna que se desenrolava à sua frente, Shaka se encheu de coragem e nova esperança, pois mais uma vez havia depositado toda sua fé no Nut e mais uma vez Mu escutara sua súplica.
“MU! Lute! Domine a Besta, você é mais forte que ela! Volte para mim, meu amado! Volte para mim!” — suplicava por telepatia assistindo a batalha a sua frente.
O descontrole da Besta era o que colocava em risco a existência de Shaka, portanto era o que alimentava a força de vontade de Mu. Pelo Setita havia se tornado o Caos, Seth, em sua pura essência de ódio, destruição, fome e instintos, e novamente por ele era que agora lutava consigo mesmo.
O amor que sentia pelo sumo sacerdote dos Seguidores de Seth era uma força muito maior que o Caos que residia em sua alma.
Porém, subjugar a Besta que o habitava não era tarefa fácil. Libertá-la era infinitamente mais simples. Agora, no entanto, além de sobrepujar a seus instintos precisaria conseguir regredir a seu estado anterior de forma antinatural, mas Mu jamais iria desistir. Não agora que a existência de Shaka era o que estava em jogo.
— SHAAA...KAAA AHHHRROOOOAARRR
O chamado se transmutou em um rugido de agonia que escapou da garganta seca da criatura enquanto essa se contorcia e se debatia dentro da água. Sons desconexos, gritos, ossos se partindo... A cena era dantesca.
Vez ou outra a criatura levantava a cabeça e olhava para o sumo sacerdote de pé sobre a rocha, na margem, então rosnava feroz e tencionava avançar até ele, mas na mesma hora uma força invisível a segurava no lugar torcendo-lhe os membros.
— AAAAAAARRRRRRRRRRRRRROOOOOOAAAAAAAARRRR
Aflito, Shaka não suportou apenas assistir, e em desespero se atirou no lago, nadou até a Besta e com o espírito em chamas e esperança renovava ativou novamente seu poder, o Domínio das Feras. Precisava ajudar o amado a vencer aquela batalha.
— MU! — gritou tentando tocá-lo, mas a Fera o repeliu o atirando para longe com o poder de sua Presença.
“Mu. Lute! Use o elo do nosso sangue! Use o Serpenthys e domina a Besta! Luteeee!”
Shaka não desistia. O tempo todo, mesmo de longe, manteve sua influência forte e ativa sobre o demônio junto de Mu, lutando junto dele. Seu poder sozinho não era capaz de domar um Nut poderoso como Seth, mas tinha certeza de que podia ajudar Mu a conseguir se tornando uma ponte e um farol para que a consciência do amado não se perdesse.
“Mu, meu amado, volte para mim.”
E a ajuda, a persistência, a fé, e principalmente o amor de Shaka fizera toda a diferença.
Mesmo preso naquele pesadelo horrendo Mu sentia a Presença do sumo sacerdote Setita ali, e encorajado por ela foi que conseguiu sobrepujar sua razão ao primitivismo de Seth e finalmente usar a Dominação da Carne contra si mesmo, obrigando músculos, ossos, cartilagens, tendões, dentes e praticamente cada molécula de seu corpo a obedecer seus comandos.
A metamorfose aos poucos regredia, porém a dor experimentada pelo Nut era alucinante. Em meio a gritos, rosnados e urros ensurdecedores, que chegavam a fazer tremer e trincar os cristais que compunham a caverna, a criatura se debatia na água. Mu lutava ferrenhamente contra a Besta que o habitava, e essa, mesmo sendo parte de sua consciência, era irracional e se sentia atacada e agredida. Com muita dor e assustada, os instintos de auto preservação causavam reações violentas. Por vezes a Fera submergia para em seguida saltar para fora da água em torpor agonizante. Agora não mais chamava por Shaka, apenas gritava de dor e sofrimento enquanto seus membros disformes reduziam a figura imponente de Seth à uma criatura amorfa de aparência ainda mais hedionda e deformada.
Muito sangue tingia a água cristalina da gruta de vermelho vivo e a dor excruciante por diversas vezes fizera Mu desejar desistir daquele suplício, mas quando a vontade de deixar de lutar parecia ganhar força eis que a voz de Shaka em sua mente o enchia de um novo ânimo.
O sumo sacerdote sofria junto com o Nut, partilhando da dor vivenciada por ele, gemendo e gritando em coro enquanto seu corpo trêmulo sofria as consequências de se ter um elo de sangue com um vampiro tão poderoso.
“Mu... lute... eu estou... com você... Eu estou... te esperando... Aaaaah... Volte para mim... Aaagh... Fique comigo... O Caos... não é, e jamais será, mais forte... que o meu amor... por você.”
Ao ouvir aquelas palavras sussurradas em sua mente Mu conseguiu, em um último lampejo de coragem e decisão racional, liberar todo seu poder ancestral, usando a reserva de sangue que há dias acumulava em seu corpo. Uma quantidade absurda de poder e energia, e toda usada contra si mesmo.
Em dado momento tremeu, rosnou, se debateu e afundou na água, desaparecendo diante dos olhos estupefatos de Shaka e deixando um rastro de sangue escuro na superfície onde agora estouravam bolhas de ar. O som grotesco dos gritos e rosnados de Seth ainda podiam ser ouvidos, mesmo que agora abafados pela água, e então, após massacrantes minutos de agonia tudo cessou... os sons dos gritos, a agitação na água e até a Presença do Nut, que não fora mais sentida.
Um silêncio sepulcral se fez na caverna enquanto Shaka, temeroso e aflito, corria os olhos para o sangue na água que era levado embora aos poucos pela corrente da parte mais profunda daquele lago, por onde corria um rio subterrâneo.
Quando toda a superfície tornou-se límpida novamente o líder do clã Setita nadou eufórico e temeroso até o local onde Seth havia submergido, mergulhou à sua procura, uma, duas vezes, vasculhando aquele perímetro, mas não encontrou nada, até que a poucos metros da margem viu os peixes bioluminescentes se aglomerarem e nadarem em círculo diante de uma sombra submersa na água.
Shaka voltou-se para aquela direção e eis que mais uma vez o deus de sua devoção havia lhe escutado.
De volta à sua forma humana, como uma aparição fantasmagórica de beleza ímpar lentamente Mu emergia para a superfície do lago, vindo direto das profundezas. A pele muito branca e cianótica, ganhava tons de azul espectral que vinham da luz dos peixes a nadar em sua volta. Os cabelos lavanda espalhavam-se em cascatas que cobriam seus ombros.
De olhos fechados o Nut levitou até estar totalmente fora da água, pairando alguns centímetros acima da superfície. Ficou assim por um breve momento, até que seus incríveis olhos de um verde único e exuberante pudessem ser vistos através de um levantar de pálpebras lânguido.
Divino.
Essa era a única descrição que Shaka era capaz de empregar àquela visão. Seu companheiro, um amor de milênios de devoção e espera, pairando sobre águas cristalinas enquanto parecia emitir luz própria.
Finalmente Mu havia vencido a Besta que o habitava.
O Nut levitou lentamente até a parte do lago onde estava Shaka. Este, absorto, emocionado e em estado de graça, nada conseguiu dizer enquanto acompanhava o amado com os olhos arregalados.
Submergindo novamente na água até ficar frente à frente com Shaka, Mu levou uma das mãos até seu rosto e o tocou com carinho.
— Meu amado. — disse o Nut com um sorriso singelo e quase num sussurro, então exausto permitiu-se tombar para frente e ser amparado pelo loiro, que de pronto o tomou nos braços com um abraço forte e possessivo.
A regressão à forma humana havia cobrado um alto preço. Consumira muito do sangue de Mu, e também grande parte de sua energia, por isso o Nut estava tão fraco como jamais esteve.
Shaka, que só despertou de seu estado de encantamento quando sentiu o companheiro perder as forças e tombar sobre si, enfim abriu um largo sorriso enquanto corria os olhos por cada detalhe saudoso do rosto do Nut.
— Mu! Eu sabia que conseguiria! Eu sabia! — disse, e eufórico distribuiu beijos afoitos e plenos de alegria por todo o rosto pálido do amado enquanto chorava de emoção.
— Me perdoe... — disse Mu num fio de voz — Era o único jeito... de vencermos a guerra.
— Não peça perdão, meu amado. — disse Shaka, e sem mais esperar sustentou o corpo do Nut passando um de seus braços por seus ombros, depois nadou para a margem o trazendo consigo, onde acomodou-se sobre uma das rochas ainda abraçado a ele — Você conseguiu! Nós conseguimos... Mu... Ah! Como eu senti sua falta, meu amor... meu companheiro. — ainda sem acreditar que aquele pesadelo havia se encerrado, apertava o corpo do Nut contra o seu matando as saudades do corpo macio, do odor da pele, da textura sedosa dos cabelos lavanda, ao mesmo tempo em que encostava seu rosto ao dele e lhe beijava a face repetidas vezes com amor e ternura.
— Eu também senti sua falta... — sussurrou Mu — Sha... Shaka... Eu ouvia você, o tempo todo... — as mãos trêmulas buscaram o rosto do sumo sacerdote tocando-lhe os lábios, então sua face doce e serena se transfigurou em melancolia — Eu o feri tantas vezes... A minha alma sangrava a cada vez que era obrigado a presenciar a Besta ferindo seu corpo, o maltratando de forma tão vil... e eu nada conseguia fazer para impedi-la.
— Você estava preso em um pesadelo terrível. Era tão vitima dela quanto eu fui, meu amor, mas agora estamos juntos novamente. Eu sabia que conseguiríamos, Mu. — disse Shaka, beijando suavemente a fronte do Nut.
— Eu tive tanto medo... De não conseguir regredir a metamorfose. — disse Mu também entregue à lagrimas de emoção enquanto envolvia Shaka com seus braços ainda um tanto débeis. Naquele momento sentia uma necessidade visceral de tocar o Setita, senti-lo, e essa era tão urgente que ultrapassava até a fome.
— Mas você conseguiu. Você voltou para mim. — disse Shaka afundando o rosto na curva do pescoço do Nut.
— Nós conseguimos. — Mu o corrigiu acariciando seus cabelos dourados — Sem você para me guiar eu ainda estaria preso naquele pesadelo.
— O que importa é que agora estamos livres. Ninguém mais vai atravessar nosso caminho. — disse Shaka — A Máscara está segura. Podemos voltar para casa.
— Sim, mas antes... — Mu afastou-se ligeiramente apenas poder olhar nos olhos azuis do Setita, então desviou a mirada para os lábios entreabertos dele e se perdeu por um tempo ali a admira-los antes de continuar — Antes eu preciso senti-lo. Eu preciso de você, e preciso agora! Quero que me ame aqui. — a voz saiu sôfrega e suplicante, enquanto levantava a mirada para os olhos de Shaka intensificando o contato entre seus corpos ao passar um dos braços às costas do loiro para puxa-lo para mais junto de si — Meu corpo e minha alma queimam, Shaka! A fera foi suprimida, mas o desejo latente que despertou nela e consequentemente em mim ainda estão vivos. A ânsia que me toma é maior até que meu instinto de sobrevivência e minha fraqueza... Me ame Shaka! Me ame aqui mesmo... agora!
O Setita olhou surpreso para o Nut. O estado de exaustão em que ele se encontrava era visivelmente claro, porém algo nele estava diferente. Seus olhos verdes faiscavam, o corpo lânguido contorcia-se sutilmente buscando o toque, o contato com o seu, e através do elo sanguíneo experimentava da mesma luxuria e tesão que despertara momentos antes na Fera.
O desejo de Mu era também o seu. Partilhavam de um só anseio de unirem-se de corpo e alma até se tornarem novamente um.
Sem questionar e sem ponderar nada, até porque não sentia-se capaz de se guiar pela razão naquele momento, Shaka tomou os lábios de Mu num beijo intenso, ardente, pleno de volúpia e paixão. Um beijo que trazia impresso em si toda a saudade que sentiram um do outro e o medo de perderem-se para sempre.
O Nut por sua vez, retribuía com igual paixão e delírio, enroscando-se no corpo do companheiro como podia, como suas forças lhe permitiam.
— Aaaah... Shaka... — Mu deixou escapar um gemido languido quando o Setita apartou o beijo para esfregar o rosto na curva de seu pescoço, então o sentiu aspirar profundamente o ar. Ele estava capturando seu odor, e isso o excitava profundamente.
— Hmmm... Mu... Mesmo estando certo de que conseguiria trazê-lo de volta, de algum modo a ideia de que pudesse, talvez, passar séculos, milênios, sem tocar o seu corpo, sem sentir o seu cheiro, sem divisar suas íris de verde único e hipnotizante me aterrorizava. — sussurrou Shaka enquanto beijava os ombros de Mu e corria ambas as mãos por suas costas, apertando os dedos finos na carne macia — Eu desejaria mil vezes a morte definitiva do que passar uma eternidade sem poder saborear os teus lábios.
— E eu pensei que enlouqueceria em tê-lo tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe, meu sumo sacerdote. — disse Mu tombando a cabeça para trás para que Shaka pudesse lhe beijar o queijo e a linha do maxilar.
Tomando novamente os lábios do Nut com um beijo cálido, o Setita inclinou-se sobre ele até que ambos estivessem deitados sobre a rocha. Estava muito fraco, mas era justamente sua debilidade que amenizava suas reações sempre tão eufóricas. Pela primeira vez podia experimentar e explorar o corpo de Mu com calma, e o fazia prendendo-se aos mínimos detalhes, como os mamilos rosados por onde passou a língua em movimentos circulares repetidas vezes, deliciando-se com cada gemido que arrancava do amado. Mordiscou de leve o torso forte, a cintura esguia, as coxas grossas e torneadas, enquanto sentia sua própria carne tremer e seu pênis enrijecer graças ao o sangue da última refeição.
Por conta da perda sanguínea e debilidade Mu não era capaz de manter uma ereção, mas nem por isso sua excitação era menor. Ao contrario, sua pele estava tão sensível que cada toque, cada beijo do loiro parecia queima-lo como ferro quente, lhe arrancando gemidos sôfregos de arrebatamento e ânsia por mais.
— Shakaaa... Hmmmm
O gemido longo e rouco do Nut se dera em resposta ao contato extasiante da língua frenética do sumo sacerdote com sua virilha, que com a cabeça metida entre suas pernas parecia provar sedento sua intimidade pela primeira vez, tamanho o empenho e voracidade com que sua boca ávida o degustava.
Naquele momento a excitação de Shaka era tanta que podia sentir sua Besta interior gritar em delírio, sequiosa daquele corpo que para si tornara-se uma necessidade tão vital quanto o sangue vivo.
Afoito o Setita subiu até o rosto do Nut e enquanto encaixava-se entre suas pernas beijou com ainda mais volúpia seus lábios, até que os abandonou para tombar a cabeça para o lado e lamber o pescoço de Mu com certa cisma. Passava a língua e roçava a pele fria com os dentes, instigado pela Besta que implorava por bebê-lo.
No entanto, diferente de Mu que era amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo, Shaka tinha total controle de seu demônio interno. Por isso, por mais que este lhe instigasse ele se continha, uma vez que desejava arrebatar o Nut com seu amor, seu êxtase. Tinha receio. Mu estava muito fraco, e além disso sabia que a mordida era o gatilho que despertava o amado para o terrível do Consumo Conspícuo. Não queria copular com o companheiro, como costumeiramente faziam quanto se entregavam ou ao outro, mas fazer amor com ele, e talvez aquela fosse a única oportunidade que teria, já que enfraquecido e tendo gasto grande parte do sangue que corria em seu corpo para desfazer a metamorfose, talvez Mu não agisse com a brutalidade e violência com que habitualmente agia todas as vezes que faziam sexo.
Porém o elo sanguíneo entregara o sumo sacerdote.
— Faça. — Mu sussurrou enquanto beijava o ombro de Shaka e apertava sua cintura com as coxas.
— Hum? — o loiro apenas gemeu, sentindo seu corpo estremecer em resposta à pressão que o corpo do Nut exercia em seu pênis.
— Faça. Beije-me, meu vampiro. — disse o Nut tombando a cabeça para o lado oposto, expondo ainda mais seu pescoço ao bel prazer do sumo sacerdote.
Mu não estava apenas fraco, sua energia mental e física estavam no limite. Necessitava não apenas de alimento, mas também de repouso, por isso contava justamente com sua debilidade para tentar suplantar o Consumo Conspícuo.
Seria muito difícil, mas aquela era talvez a única oportunidade que teria de fazer amor de fato com seu sumo sacerdote, de partilhar com ele sensações muito mais profundas que apenas o coito desesperado, já que nunca conseguia controlar seus instintos. Porém, para ser capaz de tal feito não poderia morder Shaka, mas poderia permitir que o companheiro o mordesse. Subjugaria a fome com sua fraqueza, mas ainda poderia dividir o êxtase da comunhão sanguínea com ele pelo elo, então o frenesi de Shaka seria também o seu.
— Morda. — o Nut repetiu, percebendo que o sumo sacerdote ponderava — Me trouxe de volta à vida duas vezes, Shaka... Eu sou seu.
Ouvir aquelas palavras sendo ditas por uma criatura de poder imensurável, e sabendo o quanto a amava e era amado por ela, mexeu com os brios de Shaka, que arrebatado por um desejo latente assumiu sua forma vampírica e cravou as presas no pescoço pálido que se oferecia.
Na mesma hora em que a carne fria era rasgada o sangue negro saltou para fora preenchendo a boca ávida do sumo sacerdote, que o sorveu de imediato, enquanto no mesmo instante Mu revirava os olhos e se contorcia em arroubamento debaixo do corpo forte do vampiro.
— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah... Shakaaaa... — gemeu alto, sentindo a Besta urrar dentro de si. Seus olhos tingiram-se de negro e seus dentes despontaram letais, mas nessa hora abraçou Shaka com força, como se buscasse nele o apoio que era preciso para conseguir suprimir a fome e seus instintos primitivos.
Mu podia pensar que tinha perdido de fato totalmente a razão, pois a cada gole do Setita não conseguia conter um gemido de prazer e satisfação. Era como se ele mesmo bebesse também, e o ato não poderia ser mais excitante para ambos.
Quando o sangue de Mu tomou conta de todo o corpo de Shaka, este com cuidado abandonou a ferida aberta em seu pescoço e imediatamente em seguida buscou a boca do Nut para toma-la com um beijo urgente, não se importando se o sabor do próprio sangue pudesse despertar a Besta novamente em Mu. Tudo que queria era beijá-lo desesperadamente da maneira mais intensa e apaixonada que podia.
Ao sentir gosto ferroso que preenchia toda a boca do amado Mu rosnou baixinho, depois sibilou encarando os olhos de Shaka, sedento, mas sua estratégia havia funcionado.
Sem forças para atacar o loiro, conteve seus instintos e retribuiu ao beijo com igual lascívia, porém sem poder evitar que suas presas poderosíssimas ferissem os lábios do sumo sacerdote.
Shaka não se importou com aquilo. Era demasiado instigante e excitante aquele beijo sanguinolento, e enquanto saboreava a boca tão deliciosa quanto perigosa de Mu usou as mãos para afastar ainda mais suas pernas e posicionar seu pênis rijo e pulsante, já forçando um contato, empurrando-se contra o corpo do outro, porém sem pressa, sem o afobamento tão característico de ambos.
— Huummmmm... — Mu gemeu lânguido quando sentiu-se totalmente preenchido pelo sexo de Shaka, que febril e delirante começou a se mover de forma lenta e cadenciada, detendo as investidas mais vigorosas toda vez que sentia o corpo do Nut lhe oferecer resistência, experimentando uma sensação sublime que era totalmente partilhada com o amante.
De olhos fechados Mu se concentrava nas emoções e sensações que vinham de Shaka, misturando a percepção dos sentidos de ambos e duplicando-os, tornando o prazer dele o seu próprio, sentindo o êxtase de ser possuído e possuir.
Logo ambos moviam-se juntos, com maior entrega e desenvoltura, e ainda que tentasse refrear seus instintos e penetrar o companheiro com cautela não demorou muito para que Shaka imprimisse mais vigor e velocidade ao ato, porém ainda assim sendo arrebatado pelo ato de amor, sublime e apaixonado.
— Aaaaaaaaah... Mu... meu amado... Urrmmmhh. — o sumo sacerdote gemia a cada nova estocada firme, enterrando-se dentro do corpo do Nut enquanto se deleitava com os gemidos que arrancava dele.
Delirante Mu buscava apoio levando ambas as mãos às costas de Shaka, cravando as unhas longas na pele cianótica enquanto seu corpo era sacudido pelas estocadas cada vez mais vigorosas. Essas vinham acompanhadas de mordidas que o Setita distribuía pelos ombros do amado, porém sem lhe cravar as presas, mas puramente pelo prazer de prova-lo com todas suas percepções sensoriais. Sentia que podia passar horas a fio investindo contra aquele corpo febril e luxurioso, pois nada lhe parecia mais sublime que possuir Mu daquela forma, sem o terror de precisar se manter vivo enquanto era mordido por ele.
E o enleio de Shaka espantosamente parecia saciar por completo a fome e alma condenada de Mu, que sentia que podia permitir que o sumo sacerdote o amasse daquela forma sem sentir ganas em devorá-lo, ou até que ambos caíssem exaustos.
Assim, entregavam-se aquele ato de corpo e alma, e permitiam-se experimentar cada sentido que não fosse apenas fome e frenesi. O odor dos cabelos e das peles, o sabor das bocas ardentes, a visão delirante dos rostos contorcidos de prazer, o som excitante dos corpos se chocando e dos sussurros apaixonados.
Dessa forma ficaram até perder a noção do tempo. Sem pressa. Até que o corpo debilitado de Mu começasse a dar sinais de nova exaustão e Shaka não conseguisse mais retardar o orgasmo. O sumo sacerdote então imprimiu mais força às estocadas, e enquanto o Nut gritava em êxtase delirante o inundou com seu prazer.
Ambos naquele momento vivenciaram uma experiência única e nova. Os dois corpos se contraíram ao mesmo tempo, em movimentos que pareciam ensaiados, enquanto eram arrebatados por espasmos deliciosos de prazer. Mu apertou fortemente a cintura esguia de Shaka com suas pernas, e este tomou a boca do amante com um beijo arrebatado, sentindo seu sexo deliciosamente pressionado a latejar dentro do corpo febril debaixo do seu. Um só prazer sentido igualmente por dois corpos. Tinham compartilhado um único orgasmo tão sublime que instantaneamente lhes minou a força.
Exaustos e elevados, passaram um tempo imóveis, conectados, usufruindo daquele momento singular. Shaka sentia que poderia passar o resto da eternidade ali, dentro de Mu, enlaçado a seu corpo e sua alma.
— Eu o amo tanto, Mu... — o Setita disse baixinho, com o rosto agora colado ao do companheiro.
— E eu o amo também, Shaka. — sussurrou o Nut, que olhava para os cristais que compunham a abóboda daquela caverna sem reprimir o sorriso que formava-se em seu rosto. Nem podia acreditar que havia conseguido fazer amor com o sumo sacerdote.
— Vamos para casa. — disse Shaka, que apesar daquele momento sublime tudo que mais queria era regressar ao lar, na Inglaterra, ou no que havia sobrado dele.
— O meu lar é você, Shaka. — disse Mu, que sonolento sentia a fadiga tomar conta de si, por isso com algum esforço girou o rosto para o lado para olhar nos olhos do líder de seu clã, sua nova família no Mundo Novo — Eu já estou em casa.
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Grupo do mushakismo, pra quem gosta de Mu e Shaka
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