A Máscara de Seth
31 Capítulo 31
Notas iniciais

Romênia, duas semanas após os conflitos.
Nas primeiras horas do cair da noite automóveis negros já começavam a despontar nas longínquas colinas que circundavam a mansão que servia de sede do Conselho Vampírico.
A carreata soturna logo formou uma fila em frente aos grandes portões de ferro que guardavam a propriedade, mas esses agora não passavam de sucata, reduzindo-se a um amontoado de entulho disforme no que antes fora uma elegante peça de antiguidade com séculos de história.
Como em todas as sedes dos clãs dominantes, a mansão da Romênia também não fora poupada e a guerra lhe deixara cicatrizes visíveis mesmo depois de dias de trabalho árduo, sob sol e sob lua, dos carniçais e servos designados para a função de recupera-la.
Os corpos dos Espectros das Sombras que atacaram o núcleo principal da sociedade vampírica foram arrastados para fora e largados ao relento pelos Patriciis sobreviventes, que incumbiram ao amanhecer do dia seguinte ao conflito a tarefa de reduzi-los à cinzas para que essas se fundissem à terra, não deixando nenhum vestígio para trás além de funesta memória.
Memória esta que se perpetuaria através dos milênios como a noite mais sangrenta e triste na lembrança do clã Patricii e também Pietone, pois os primeiros perderam um de seus membros mais fortes, Saga, além de o Conselho ter perdido seu presidente, e os segundos perderam uma influente e poderosa aliada, Geisty.
O Conselho agora precisava eleger um novo presidente, e era para escolher o nome daquele que regeria tanto as normas de conduta, quanto as soluções para o pós guerra da restrita sociedade vampírica pelos séculos seguintes, que os representantes de cada clã ligado a ele foram convocados.
Quando os carros que os traziam estacionaram em frente à sede formando um círculo perfeito, esses desceram de forma sincronizada e seguiram para dentro da mansão. Logo na entrada carniçais os instruíam a seguir pelo caminho menos atingido pelo conflito até o local onde seria realizada a assembleia.
Como era de costume todos vestiam longas e volumosas capas pretas com capuzes que ocultavam seus rostos, e um a um foram tomando seus lugares no semicírculo composto por elegantes cadeiras de madeira entalhada e acento de veludo vermelho para darem início às deliberações, porém uma delas estava vaga, a que correspondia ao líder dos Espectros das Sombras, Hades, a qual fora mantida ali justamente para lembrar que esse clã havia sido banido para sempre do Conselho.
Aspros, antigo líder e atual representante dos Patricii, fora escolhido para presidir aquela eleição em respeito ao clã do antigo presidente, e ao final dela elaborar um balanço dos estragos que a guerra causara em cada clã, e quando julgou que todos já estavam acomodados tomou seu lugar na cadeira que fechava o semicírculo e tomou a palavra.
— Sejam todos bem vindos ao Conselho. — disse ele puxando o capuz negro para trás, liberando uma longa e abundante cabeleira ondulada — Me entristece o motivo verdadeiro desta convocação, porém fico grato pela presença de cada um aqui. Esta noite será eleito um novo presidente e discutidos os novos rumos adotados para a proteção da Máscara, mas antes gostaria de começar com um breve balanço de nossas baixas. Que se iniciem os relatórios de cada clã. Alguém quer tomar à frente?
— Io. — disse sem pestanejar o representante do clã Giovanni, Máscara da Morte, que em seguida já se levantou e puxou também o capuz negro para trás, descobrindo seu rosto severo de feições taciturnas — A família Giovanni abateu todos os noventa sporchi Assamitas que nos atacaram, mais duzentos e quinze maledetti Espectros que se atreveram a tentar invadir la nostra casa. — esbravejou cheio de propriedade, esnobando um carregado sotaque italiano já que a língua comum adotada pelo Conselho sempre fora o inglês antigo — Tivemos solo una baixa, mas que agora repousa no cemitério de nossa família a espera de nosso chamado. — sorriu orgulhoso.
O clã Giovanni era conhecido por ser poderoso, a despeito do número de membros que possuía. Eram poucos, porém muito unidos e sua força provinha justamente dessa união peculiar que existia entre os membros. E essa aliança consanguínea, estruturada aos moldes da máfia italiana, os tornava praticamente imbatíveis. Os Giovanni compunham um clã de não mais que quatrocentos membros que viviam todos juntos em uma mesma sede localizada na Sicília, na capital Palermo, onde também se dava seu lar eterno, já que os que perdiam sua pós vida eram enterrados ali mesmo desde a fundação do clã, há centenas de séculos, e em casos de guerra seus espíritos eram invocados através de seu dom vampírico da necromancia.
Aspros, assim como todos ali, não esperavam ouvir o contrário do líder dos Giovanni, por isso ninguém se manifestou, apenas fizeram uma saudação com as cabeças num gesto bem conhecido entre eles que significava alívio, e Máscara da Morte então voltou a se sentar chacoalhando a capa no processo, depois cruzando as pernas.
Em seguida, ao se pôr de pé e jogar a capa para trás dos ombros, Milo, líder do clã dos Capadócios e também representante deste no Conselho, tomou a palavra assumindo um olhar altivo.
— Nós, Capadócios, também rechaçamos o ataque à nossa sede principal e derrubamos os sujos, porém... — fez uma pausa e olhou no rosto de Máscara da Morte antes de continuar, com extremo pesar na voz — Não conseguimos evitar um considerável número de baixas entre os nossos. — outra pausa e então Milo olhou nos olhos de Aspros — Para ser mais exato foram quinhentos e quarenta e seis.
Nessa hora era possível ouvir os sussurros de lamento, revolta e espanto dos membros do Conselho.
— Nossas quatro outras sedes Capadócias, no Chipre, Kossovo, Brasil e Dubai também foram atacadas simultaneamente, o que dificultou a mobilização de nossos contingentes de suporte, motivo pelo qual contamos tantas perdas... Entre os caídos está Kardia, meu antecessor, antigo líder e membro representante do nosso clã neste Conselho. — lamentou Milo, de cabeça baixa e expressão pesarosa, então voltou a se sentar sem nada mais dizer.
— Todos deste Conselho lamentam profundamente a queda de Kardia. — disse Aspros — Ele certamente estaria entre os mais cotados para ocupar o cargo de Saga na presidência.
— Nós dos Capadócios também lamentamos. — disse Milo levantando o olhar para o Patricii — Por isso não admitimos que sejam dadas penas brandas aos Espectros das Sombras remanescentes.
— Asseguro-lhe que não serão nada brandas as penas dadas aos traidores, Milo. — disse Aspros com firmeza na voz — Com a queda de Hades e de Radamanthys o clã dos Espectros está sem liderança. Perdidos eles serão facilmente caçados e capturados, assim como os Assamitas. Mas, como isso se dará, e quais serão as penas, são pautas para a próxima reunião desse Conselho. Nossa prioridade agora é contar nossas baixas e eleger um novo presidente, e ele é quem nos guiará ao que deve ser feito aos traidores. Portanto, peço que continuem com os relatos.
Ao dizer isso Aspros ergueu ligeiramente o braço direito, virou a palma da mão para cima e apontou para um vampiro sentado na cadeira posta ao centro do semicírculo, a qual ficava de frente para si.
— Albafica, representante dos Filhos da Cacofonia. — disse Aspros encarando os olhos azuis fantasmagóricos do vampiro há poucos metros à sua frente — Relate as baixas e feitos de seu clã para esse Conselho.
— Nós, Filhos da Cacofonia, vencemos a batalha em nossa sede contando seis baixas. — disse o vampiro, e sua voz entoada em tom grave e extraordinariamente harmonioso entrou pelos ouvidos dos vampiros presentes naquela assembleia parecendo entorpecer seus sentidos. Era uma espécie de encanto que experimentavam, oriundo do Dom natural daquele vampiro tão poderoso que era capaz de encantar e matar usando apenas a voz — Como estabelecido pelas alianças entre clãs e acordado pelo protocolo deste Conselho, depois de limparmos nosso perímetro partimos para o suporte das sedes mais próximas. Rugonis, nosso líder, comandou um contingente dos nossos até a sede Cesarem em Paris. Juntos vencemos os inimigos contando oitenta e três baixas Cesarem e onze dos nossos.
O clã seleto e elitista dos Filhos da Cacofonia possuía poucos membros. Ao todo não chegavam a noventa, então ainda que contassem com uma perda menor em quantitativo se comparado aos outros clãs era um desfalque grandioso para eles.
Nessa hora Degel, líder dos Cesarens, se levantou e todos os olhares então se dirigiram a ele. Sentado a seu lado estava Camus, visivelmente abatido, desgastado. Nem se dera ao trabalho de puxar o capuz negro para descobrir seu rosto.
— Confirmo que mais uma vez os Filhos da Cacofonia cumpriram com maestria e nobreza nossa antiga aliança. Com a força deles abatemos todos os Espectros das Sombras e Assamitas que invadiram as sedes Cesarem. — disse Degel com sua voz troante — No entanto, embora nossos esforços tenham sido extremos uma de nossas sedes, justamente a de Paris, onde estava estabelecido nosso maior laboratório de pesquisas e nossa mais completa biblioteca, foi completamente destruído.
Houve uma comoção geral no salão. Alguns vampiros ergueram os rostos pálidos e abriram a boca em assombro, outros lamentaram a incalculável perda baixando a cabeça e acenando negativamente.
— A casa de Camus foi uma perda muito além de material para nós, Cesarens, e também para nossa Sociedade, uma vez que em seus laboratórios e bibliotecas estavam guardados séculos de pesquisa científica, além de relíquias e outros artefatos de extrema importância. — continuou Degel com seu olhar duro que carregava um imenso pesar e revolta — Levaremos décadas, séculos, para chegar ao ponto onde estávamos. Realmente um retrocesso incalculável... A casa Cesarem contou trezentas e quarenta e cinco baixas, mas a perda maior mesmo é a da Ciência!
Camus em nenhum momento se manifestou. Seu luto era visível e foi compreendido por todos ali.
— Eu lamento muito, Degel, Camus... — disse Aspros nitidamente abalado, pois as pesquisas científicas dos Cesarens tinham tanto valor para a sociedade vampírica quanto a dos homens para a humana — Começaremos do zero com a mesma perspicácia. Parece que Radamanthys almejava muito mais do que somente se tornar o mais poderoso dentre nós. Ele queria apagar nossa história! Está claro que ao ordenar a destruição de um laboratório tão importante quanto o Cesarem ele pretendia redefinir nosso conceito de sociedade e de existência. Arrisco dizer até que ele tencionava criar uma nova ordem. Uma, claro, que começasse com ele, onde ele fosse o Criador absoluto. Insanidade! — Aspros franziu as sobrancelhas fazendo uma cara de zanga e rangeu os dentes odiosamente — Por falar no maldito Radamanthys, eu soube que fora morto pelas mãos de Shaka dos Seguidores de Seth. — houve uma pausa, então o Patricii direcionou sua face e seu olhar soturno para o membro representante do clã por ele citado — Asmita, dos Seguidores de Seth, pode confirmar essa informação para o Conselho?
Ao lado de Albafica, que já havia voltado a se sentar, Asmita agora se levantava já descobrindo a cabeça do capuz negro, porém de imediato nada disse. Ficou parado, cabeça baixa e olhos cravados ao chão marmóreo, imóvel como uma estátua de pedra. Então, após essa breve pausa levantou a cabeça e olhou nos olhos de cada membro presente ali.
— Eu não confirmo. — disse o Setita com voz obstinada, surpreendendo a todos e criando uma nova onda de burburinhos e reações acaloradas — Shaka, sumo sacerdote dos Seguidores de Seth, nosso líder, não foi quem dera cabo da existência de Radamanthys.
— Não foi? — inquiriu Aspros surpreendido — A fonte que me trouxe essa informação é segura e confiável... Se não foi Shaka então quem o fez?
Asmita encarou os olhos cerúleos do Patricii. Sabia que o que iria dizer chocaria a muitos, mas não tinha mais como esconder aquela realidade.
— Seth. — disse enérgico.
Uma confusão de sons se deu a seguir. Vozes, grunhidos, em diversas línguas diferentes e com inúmeras entonações, umas mais acaloradas, outras menos, ranger de cadeiras, solas de sapatos a bater contra o chão... Um quase princípio de tumulto que obrigou Aspros a se levantar de sua cadeira e pedir silêncio.
— Por favor, senhores, por favor! Vamos manter a ordem! — disse o Patricii encarando um a um, depois direcionou novamente seu olhar questionador para Asmita de pé no semicírculo — Asmita... Está dizendo que... que Seth, o seu messias, foi quem exterminou Radamanthys?
— Exato. Seth, o que cria e o que destrói. Nosso deus retornou para redesenhar a Ordem e plantar o Caos. Nada, nem ninguém, está acima dele.
Camus, que chocado encarava o sacerdote Setita com olhos arregalados sentiu o coração morto pesar dentro do peito, e atormentado por uma inquietação que lhe tomou o espírito, a qual vinha de longa data, desde que descobrira a verdadeira identidade de Mu, não pode evitar levantar-se da cadeira num movimento brusco e questionar Asmita, passando por cima da autoridade de Aspros.
— E Shaka? — disse com voz enérgica — O que houve com ele? Por que non compareceu a essa assembleia? Por que...
Camus interrompeu-se de súbito, já temendo a resposta, pois nas duas semanas que se passaram desde o final dos conflitos havia tentado contato com os Seguidores de Seth em busca de notícias de Shaka e de Mu, mas as Serpentes estavam totalmente fechadas, incomunicáveis, e os danos causados pela guerra exigiam atenção total de si para com os Cesarens.
Asmita olhou desolado para Camus, depois correu os olhos azuis pelos lideres dos demais clãs que compunham o semicírculo os pousando enfim na face apreensiva de Aspros.
— Shaka está desaparecido. — deu a sentença.
Houve comoção geral de imediato. Um coro de vozes surpresas se ergueu, e não demorou muito para que os espíritos mais exaltados se manifestassem.
— Engodo! Charlatanismo! — esbravejou o líder dos Gangrel. — Todos aqui conhecem a índole embusteira de vocês, Serpentes.
— Esse Seth não é criador, isso é uma blasfêmia! — rosnou o líder dos Nosferatus, um vampiro de aparência horrenda e decrépita, mas presença poderosa e opressora — Vocês Setitas além de fanáticos, são heréticos, não merecem ocupar uma cadeira nesse Conselho!
— Ma é vero! O que nos garante que esse desaparecimento providencial de Shaka não é mais uma de suas artimanhas para manipular esse Conselho? — bradou Máscara da Morte.
— Senhores, ordem! Por favor! — pediu Aspros elevando a voz e a presença, mas ele mesmo estava deveras incomodado com a revelação de Asmita, por isso agora era ele quem o questionava encarando seus olhos — Essa afirmação, Setita, é no mínimo contestável, afinal, nem seu sumo sacerdote, tampouco seu dito... deus... estão aqui para confirma-la.
— No entanto Radamanthys está morto. — retrucou Asmita — Não apenas ele, mas o grandioso exército Espectro e Assamita que ele ergueu para exterminar a todos nós e reinar absoluto sobre uma nova ordem imposta por ele.
— Exército grandioso? Que exército? Eu mesmo fui até a Áustria e tudo que encontrei foram vestígios de sangue, cinzas e terra revirada. — disse Aspros.
Asmita então, sob os olhares julgadores e nada amistosos dos outros membros, a não ser Camus, que aterrorizado já imaginava o que havia acontecido, deu dois passos à frente e encarou Aspros o confrontando.
— Eu não vim até aqui para inventar uma história fantasiosa, mas para coloca-los a par da verdade. Na noite em que a guerra chegava às suas sedes, nós, os Seguidores de Seth, liderados por nosso bravo sumo sacerdote e por nosso poderoso deus, o Senhor do Caos que retornou para cumprir a profecia, marchamos até a Áustria para emboscar os Espectros das Sombras em seu próprio território. No calor da batalha Shaka enfrentou Radamanthys sozinho, cara a cara, enquanto nós e nosso senhor Seth tombávamos um exército violento e poderoso de vampiros, e também de sombras que empunhavam armas letais e possuíam um espírito bélico digno de causar inveja aos exércitos de Xerxes I e Alexandre o Grande. Vocês não teriam a menor chance contra os soldados de carne e os de sombra de Radamanthys.
— Ma além de herético está agora subestimando o poder dos outros clãs? — rosnou Máscara da Morte.
— Em absoluto. — negou Asmita direcionando seu olhar duro para o Giovanni — Eu apenas os estou pondo a par de algo que desconhecem. Falo de milhões de Assamitas e Espectros das Sombras inflamados pela ira e novo poder de Radamanthys, que através de uma manobra traiçoeira, e usando seu conhecimento científico, chegou a uma fórmula capaz de regredir artificialmente suas gerações.
— Mas... isso é impossível! — gritou Milo de súbito.
— Não, não é impossível, e Degel e Camus que estão aqui presentes podem provar. Os Cesarens chegaram a cogitar no passado iniciar uma pesquisa parecida, mas para tal o uso de cobaias vivas era imprescindível. — disse Asmita.
— O que nos fez abortar a pesquisa. — disse Degel, ainda que a contragosto, pois ele mesmo não se retinha a usar tais cobaias, mas a ética imposta pelo Conselho o obrigou abrir mão daquela que fora sua maior ambição como cientista.
— Pois bem. Todos agora sabem aqui que ética não era o lema de Radamanthys. Ele não só matou Hades e o consumiu como usou a fórmula em si mesmo. Os Espectros das Sombras exterminaram os Nuts e muitos outros vampiros poderosos, e no fim Radamanthys sintetizou o sangue de todos eles e os consumiu sozinho. Ele se tornou uma Besta poderosa e letal, e estava prestes a comandar seus exércitos para dizimar nossas sedes como gafanhotos famintos nos milharais. Milhões deles, vampiros e sombras que não temiam a nada, e reforçados pelo novo poder de um líder inabalável... Nossas baixas no campo de batalha foram tão grandes que ainda não fomos capazes de calcular com precisão quantos dos nossos caíram. — concluiu o Setita.
Os rostos de todos ali estavam estáticos.
Tanto pelo relato trágico de Asmita quanto por perceber que de fato não teriam chance alguma contra aquele número de inimigos e os poderes de Radamanthys. E quando acharam que não podiam mais se surpreender, Asmita lhes mandou a cartada final.
— Nenhum de nós, nem nossas alianças e suportes mais poderosos, teríamos chance contra eles... Quando Radamanthys e seus exércitos batessem em nossas portas a nossa queda seria rápida. Não estaríamos aqui hoje, nessa assembleia deliberando o futuro da Máscara se não fosse por Seth!
Camus deu um passo a frente, mas não disse nada. Seu espanto era tamanho que sua voz lhe deixara. Apenas olhou para os olhos de Asmita que agora olhavam para os seus em retorno, e este, como se falasse diretamente a Camus, lhe deu a notícia que o francês implorava para não ouvir.
— Seth salvou a todos nós. — disse o sacerdote Setita — Ele dizimou sozinho o nefasto exército de carne e sombras, em seguida matou Radamanthys com um só golpe, mas... — fez uma pausa contraindo os lábios e assumindo um semblante melancólico — Depois disso nosso senhor Seth fundiu-se com a noite e... Ele deixou o campo de batalha levando Shaka consigo.
— Sacre Bleu! — Camus exclamou aflito. — E para onde ele foi?
— Não sabemos. — disse Asmita — Por todos os cantos do planeta temos procurado, mas é como se tivessem sido engolidos pelas entranhas da Terra.
— Ma cada vez mais isso está me cheirando a uma bela de uma invencionice! — ralhou Máscara da Morte coçando ligeiramente o queixo com as longas unhas num claro gesto de desdém — Se Radamanthys ergueu um exército tão numeroso e poderoso, como um vampiro sozinho deu cabo dele?
— A Dominação da Carne. — disse Asmita em tom baixo, mas o suficiente para que todos ali ouvissem e de imediato se exaltassem.
Os que ainda permaneciam sentados se levantaram num salto, em choque e incrédulos, visto que Dominação da Carne era um dom das trevas tão poderoso que duvidava-se até mesmo de sua veracidade.
Camus por sua vez, estava estático. Desde que pedira para analisar amostras do sangue e alguns tecidos de Mu soube o quão extraordinário e poderoso ele era, porém jamais imaginou que seria capaz de conjurar uma maldição como a Dominação da Carne. Jamais imaginou sequer que ela fosse verdade. Será, então, que de fato, como Shaka tantas vezes afirmara com afinco, Mu era muito mais que apenas um vampiro muito poderoso? Seria mesmo ele um deus? E se fosse, o que então poderia ser chamado de deus?
Perplexo, Camus deu mais um passo à frente parando ao lado de Degel, depois encarou novamente os olhos azuis escuros de Asmita.
— Então ela existe de fato? A Dominação da Carne? — disse o vampiro ruivo, e sua voz agora tinha um tom apreensivo — Asmita, você disse que Mu fez uso dessa terrível dádiva amaldiçoada, e que depois de ter dizimado um exército inteiro sozinho ele desapareceu levando Shaka consigo, mas... por que ele faria isso? Digo, por que Mu deixaria o campo de batalha após a glória da vitória?
— Eu creio que ninguém possa responder a esse seu questionamento, Camus, a não ser o próprio Seth. — disse Asmita — Tudo que sei é o que vi naquela noite. Nosso senhor se livrou da Máscara e se tornou o deus das nossas escrituras, tal qual ilustram as figuras hieroglíficas nos templos egípcios.
Camus franziu as sobrancelhas, consternado.
— Um momento... Está dizendo que Mu... sofreu algum tipo de metamorfose? — perguntou o Cesarem assustado, enquanto todos os outros encaram Asmita, alarmados e confusos.
— Sim, e não. Seth apenas assumiu sua verdadeira forma. — disse o Setita.
— Mon... Dieu! — exclamou Camus levando ambas as mãos ao rosto, “Mu deve ter se tornado uma criatura irracional, como quando o Consumo Conspícuo atinge seu grau máximo!", pensou, retirando as mãos para depois pousa-las sobre o peito — Shaka corre perigo nas mãos daquele Nut, Asmita! Eu compreendo que o tenha como seu deus, que o adore e aceite seus desígnios, mas tem que acreditar em mim, na condição em que está agora Mu não hesitaria nem por um segundo em dar cabo da existência de Shaka.
— Eu sei disso, Camus. Ele é o Caos, nos deu a vitória, mas também nos privou de Shaka. — disse Asmita com pesar — Por isso mesmo coloquei todas as Serpentes em uma busca frenética ao paradeiro de nosso sumo sacerdote, mesmo Shaka tendo nos ordenado a não procurar por eles. Já tivemos algumas baixas durante essa busca, mas não podemos desistir dela.
Nessa hora Aspros tomou a palavra, intrigado, e Asmita viu em seus olhos uma faísca incandescente de zanga.
— Sacerdote Setita, eu devo concordar com os membros desse Conselho. — disse o Patricii — Suas palavras têm tom de engodo e engenhosidade. Então está nos dizendo que aquele Nut que Shaka outrora apresentou a esse Conselho como seu companheiro é na verdade seu deus messiânico, Seth, e que sozinho ele venceu um exército extraordinário usando o lendário dom da Dominação da Carne? Começo a desconfiar da legitimidade dos propósitos dos Seguidores de Seth diante do absurdo que relatas.
— Desconfiar? — inquiriu Asmita.
— Sim. Afinal, quem começou o conflito que culminou nessa guerra estúpida? Shaka! — disse Aspros — O seu sumo sacerdote veio a este Conselho denunciar perseguições feitas pelos Espectros a seu clã. O que me garante que não tenha sido uma rixa pessoal entre o seu clã e o de Radamanthys que culminou nesta guerra?
— Isso sim é um completo absurdo! — disse Asmita enfrentando Aspros — Mas, se não acredita em minhas palavras, Patricii, não tem como pôr em dúvida a verdade do meu sangue! — lançou a capa para trás descobrindo os braços, puxou a manga do casaco negro até a altura dos cotovelos e revelando o pulso o ofereceu a Aspros — Beba. O meu sangue lhe mostrará que Shaka nunca tramou contra a Máscara, tampouco contra o Conselho, que Seth agora caminha entre nós, e que a Dominação da Carne não é uma lenda... Eu mesmo a senti... Em cada fibra do meu ser. E seu poder é aterrador!... Seth, O Caos, nosso deus existe, e seu poder é imensurável. E digo a cada membro desse Conselho que não é nada inteligente questionar sua existência, muito menos fazer qualquer tipo de oposição a ele. Seth varreu milhares de vampiros poderosos da face da Terra em segundos apenas. Ele engoliu a cabeça de Radamanthys e reduziu seu corpo a simples matéria disforme. A vontade de Seth é absoluta e jamais deve ser contestada!
Enquanto todos olhavam em choque para Asmita, absortos com suas palavras, Aspros novamente ergueu a voz o contestando.
— Muito bem, Asmita... O seu sangue pode carregar uma verdade incontestável, mas... E se eu lhe disser que conheço Shaka o suficiente para crer que ele esconderia verdades essenciais até mesmo dos sacerdotes de seu clã? Se eu lhe disser que Shaka pode ter encontrado um Nut poderoso e junto dele estar tramando algo contra a Sociedade? Afinal, que sumo sacerdote, ao descobrir seu deus messiânico, o esconde do próprio clã e o apresenta como companheiro para poder se deitar com ele de forma mundana, como os homens se deitam uns com os outros?... E se eu lhe disser que não acredito em deuses?
— Então eu lhe direi que é um tolo, Aspros dos Patricii.
A voz troante e magnífica veio do nada. E junto dela uma lufada forte de ar sacudiu as capas negras dos vampiros presentes na assembleia. E não havia nenhuma janela aberta.
O solo sob os pés de todos tremeu. As paredes gemeram como se toda a construção fosse ruir.
Houve um princípio de pânico. Desequilibrados alguns dos líderes membros do Conselho apoiaram-se nas cadeiras ou no vampiro que estava ao lado. Alguns pensaram em sair dali, mas subitamente uma luz forte, como a produzida pela manhã mais clara de primavera, os cegou por alguns segundos os obrigando a proteger os rostos com as mãos e permanecer no lugar, até que tudo virasse novamente calmaria e silêncio.
Quando voltaram a abrir seus olhos o espanto estampou as faces pálidas de cada um ali.
No centro do plenário de frente para Aspros surgiram, lado a lado, Shaka e Mu.
Após finalmente o Nut recobrar sua consciência racional e com a ajuda do Setita ter conseguido vencer a Besta e regredir à sua forma humana, ambos ainda passaram uma noite na caverna de Down Fall que lhes servira de covil. Mu estava muito fraco, e foi preciso que Shaka saísse para caçar para fortalece-lo, pois só assim poderiam pensar em sair dali.
Depois de comer algumas dezenas de humanos, com seu corpo e seus poderes revigorados o Nut, junto do sumo sacerdote, iniciaram a viagem de volta para casa. Usaram o teleporte na maioria das vezes, sempre abatendo vítimas pelo caminho para manterem seus dons em pleno vigor, e quase perto do amanhecer finalmente chegaram à Inglaterra, onde ficava a residência de Shaka.
Como esperavam encontraram o lugar bem destruído, porém servos e carniçais já trabalhavam com afinco na restauração.
Rumaram direto para o pequeno Templo subterrâneo localizado nos fundos da construção, onde limparam-se e dormiram até os últimos raios do Sol se esconderem no horizonte, então ao despertar Shaka bebeu um de seus servos mais influentes e através de seu sangue soube de toda a movimentação do clã Setita em sua busca, e também da reunião convocada pelo Conselho vampírico para aquela noite.
Assim eles foram parar ali, na Romênia, usando teleporte, e agora estavam frente a frente a todos os líderes dos clãs mais poderosos daquela sociedade que os encaravam absortos, estarrecidos e cheios de questionamentos.
— SHAKA! — exclamou surpreso Aspros, fitando a figura imponente de um vampiro cuja Presença exalava um poder grandioso e magnífico, e que trajava, diferente de todos ali, vestes cerimoniais comuns aos antigos altos sacerdotes do Egito antigo, compostas por linho fino branco e adornos em Ouro. Além delas usava muitas joias, nos pulsos, dedos, ombros e pescoço. Na cabeça trazia uma coroa faraônica em formato de uma serpente Naja.
— Frente os seus questionamentos, eu só tenho a lhe dizer que está repetindo os erros do antigo Presidente, julgando sem considerar as provas e crendo no que apenas os seus olhos podem ver. — disse o sumo sacerdote, altivo e solene, mantendo os olhos azuis contornados em kajal negro fixos no Patricii, que com os olhos saltados das órbitas fitava estupefato a figura imponente ao lado do líder Setita que usando vestes parecidas, porém trazendo o peito nu apenas adornado por joias, tinha o rosto coberto por uma máscara de marsupial esculpida em ouro.
Imediatamente, ao ver seu líder e seu deus ali Asmita ajoelhou-se diante deles, mas não se prostrou, em vez disso juntou as mãos e sorriu, não conseguindo conter a surpresa e a emoção, enquanto Camus dava um passo para trás, perdido entre alegria e espanto, mas imensamente aliviado em ver que ambos estavam bem e em suas formas normais, o que significava que Mu de algum modo havia conseguido reverter a tal metamorfose.
— Shaka! — disse Asmita erguendo a cabeça logo em seguida – Seth! Louvado seja meu Senhor. Pensamos que... cheguei a perder as esperanças de...
— Ora, Asmita, se perdeu as esperanças significa que também perdeu sua fé, sacerdote. — disse Shaka fazendo um sinal para que ele se levantasse.
— Não! Nunca! — respondeu o Setita se levantando.
— Assim espero, pois eu nunca perdi a minha fé, nem minha esperança, e isso é o que faz de mim um Seguidor de Seth. — disse Shaka, depois voltou-se novamente para Aspros, que olhava para ele e para Mu sem desviar um só segundo — Foi ela, minha fé, que me conduziu até o local onde nosso deus dormia seu sono eterno. E foi ela que também me fez ter certeza de que havia finalmente encontrado meu companheiro, mesmo frente a tantas adversidades... E foi minha fé que me impeliu a bater de frente com Radamanthys mesmo sem a autorização e o apoio deste Conselho de merda, pois eu sabia que estava no caminho certo, e que sairia vitorioso.
— Tripudia do Conselho que você mesmo ajudou a alavancar, Shaka? — vociferou Aspros em tom severo.
— Sim. — o sumo sacerdote respondeu convicto.
— Como ousa? Insolente! — gritou o Patricii.
— Há muito esse Conselho está ultrapassado. — retrucou Shaka elevando o tom de voz, enfrentando Aspros diretamente — Eu procurei vocês para fazer uma denúncia de levante e traição, munido de inúmeros relatórios, provas concretas, lhes transmiti informações sigilosas e precisas e ainda assim vocês não me deram ouvidos. Insistiram em levantar números, depoimentos ao em vez de tomaram uma providência. Até uma Pietone poderosa vocês tiveram o desplante de enviar à minha casa para me espionar, quando o inimigo era outro! Essa guerra, todas as baixas que tivemos, poderiam ter sido evitadas se não fosse sua postura apática, autoritária e retrógrada!
Aspros ergueu o queixo e arqueou as sobrancelhas grossas, lançando um olhar altivo ao Setita, mas foi Milo dos Capadócios quem respondeu.
— Convenhamos, sumo sacerdote Shaka, vocês Setitas não são o que podemos chamar de confiáveis.
— E quem o é, Milo? — Shaka questionou o líder Capadócio — Eu não tiro sua razão, porém a verdade que a boca não pode provar, o sangue pode. Eu ofereci meu sangue a Saga, e mesmo assim este Conselho escolheu investigar a mim primeiro antes do verdadeiro inimigo. Talvez, se sua conduta fosse diferente, teriam evitado tudo isso.
— Agora nos culpa pelos erros do insano do Radamanthys? — disse Aspros.
— Não totalmente, mas você tem sim sua parcela de culpa. — disse o sumo sacerdote.
— Ora seu...
— Aspros! — Shaka o interrompeu — A verdade é que se eu quisesse tomar o Conselho para mim eu já o teria feito. Com o poder que possuo me bastaria dominar suas mentes e os obrigar a satisfazer minhas vontades, mas... A verdade é que esta instituição e suas convenções estão ultrapassadas e de nada me valem. O Conselho vampírico não pode mais lidar sozinho com as decisões dos clãs. Ele precisa ser mudado, refeito e repensado. Ou acha que não sei que nesse exato momento estão olhando para Mu e pensando em como dar cabo dele, já que sendo tão poderoso, infinitamente mais do que todos aqui reunidos, a seus olhos ele é uma constante ameaça. Essa é a norma principal deste Conselho. Tudo o que não pode ser controlado deve ser exterminado. Pois bem... tentem!
Todos se silenciaram, encarando Shaka com fúria.
Era bem verdade que tinham um grande problema pela frente, pois Mu aos olhos do Conselho era uma ameaça de fato, e quem poderia lhes garantir que ele não era um inimigo em potencial?
— Está nos ameaçando, sumo sacerdote? — Aspros quebrou o silêncio, e quando Shaka pensou em responder, Mu deu um passo à frente e segurou em seu ombro, indicando que deveria permanecer calado.
Agora a conversa era entre ele e o Conselho.
Lentamente o Nut se aproximou de Aspros no centro do semicírculo, então levou as mãos até a máscara de marsupial e a removeu revelando um rosto de aparência jovem, serena e belíssima, que nada era condizente com os relatos apresentados por Asmita, tampouco com as violentas e funestas lendas egípcias, porém seus olhos desumanos, assim que fitaram as faces curiosas de cada um ali, lhes fez sentir como se a própria morte os abraçava. Seus espíritos gritaram oprimidos, e seus corpos estremeceram fraquejando diante da Presença singular daquela criatura.
— Não encare as palavras de meu sumo sacerdote como uma ameaça, Patricii. — disse Mu, e o tom de sua voz tinha um ar de nobreza e autoridade ímpares — Mas como um aviso. Um alerta. Essa guerra poderia ter sido evitada, ou suas proporções amenizadas, se a vossa postura perante as denúncias de Shaka tivesse sido diferente. Nós não somos seus inimigos. Apenas não repitam o erro.
Aspros contraiu os lábios, inquieto e perturbado, enquanto nas bocas dos outros membros reinava o silêncio e em seus rostos o medo.
— E para isso devemos prostrar-nos diante de você e adorá-lo? — disse Aspros — Devemos nos submeter aos seus mandos, temer seu poder, e entregar o comando da Sociedade e o segredo da Máscara a você, Seth? — ironizou.
A resposta de Mu foi um riso descontraído, quase travesso.
— É isso que pensam que almejo? — disse Mu correndo os olhos pelas faces temerosas dos vampiros presentes ali, depois parando nos olhos raivosos de Aspros — Poder? Dominância?... Tolos. Vocês não passam de crianças tolas. — recuou alguns passos e passou a caminhar pelo semicírculo vagarosamente enquanto segurava a máscara de marsupial nas mãos, e olhando para ela prosseguiu — Minhas caras crianças da noite, se eu desejasse reinar sobre vocês no Novo Mundo eu já o teria feito... Mas, não. Em absoluto não é isso que almejo. Me apresentei para esse Conselho como Mu, um Nut que foi acordado depois de um sono de quatro mil anos pelo sumo sacerdote dos Seguidores de Seth, Shaka, meu companheiro. É assim que devem me tratar... Para meus súditos Setitas eu sou Seth, seu messias e protetor, contudo nem a eles eu irei governar. Eu já governei impérios por milhares de anos e não almejo mais isso. O tempo dos imperadores, reis, deuses se findou. Tudo que desejo agora é conhecer o Novo Mundo, aprender com ele... A vocês, membros desse Conselho, eu reitero o que disse no dia em que me apresentei: Não me envolverei com a política de vocês, tampouco com a sociedade que edificaram.
Mu então parou de caminhar e encarou mais uma vez a face de Aspros, e dessa vez seus olhos faiscaram um brilho rubro.
— Desde que não me incomodem e não ofereçam perigo a Shaka nem aos Seguidores de Seth, eu irei ignorar completamente a existência de vocês. — disse ameaçador — Não sou seu inimigo, mas os Assamitas e os Espectros das Sombras são. Eu matei Radamanthys, destruí seu exército, mas seu ideal ainda vive nos corações vingativos dos sobreviventes que agora estão exilados e entocados nas entranhas da Terra, apenas esperando pelo momento certo de se reerguerem.
Aspros reconheceu verdade nas palavras do Nut e não mais o contestou. Era certo mesmo que, vingativos e violentos como eram, os Assamitas viriam atrás de retaliação, mas isso demoraria um bom par de séculos. Até lá a Sociedade estaria reorganizada e reestruturada, quiçá pronta para combatê-los uma vez mais.
Como o Patricii todos ali também se calaram aceitando uma verdade incontestável, pois diante da Presença esmagadora do poder de Mu nada existia mais para ser refutado. Assim, cada um, se mantendo ocupado com seus próprios pensamentos, recuou de volta a seus assentos em silêncio.
— Muito bem, Mu dos Nuts... Ou devo chama-lo de Seth? — disse Aspros quebrando a quietude do recinto.
Mu baixou a cabeça de deixou escapar um riso debochado.
— Chame-me como desejar, criança. — o Nut respondeu tranquilamente — Embora tenhas dito que não acreditava em deuses... — concluiu irônico.
— Pois bem, Nut. — continuou Aspros — Imagino que então sua presença nessa assembleia hoje, juntamente com Shaka, se dê pelo fato de que os Seguidores de Seth almejam a presidência deste Conselho.
— Está errado. — quem respondeu foi o sumo sacerdote Setita tomando a frente — Nós, Seguidores de Seth, almejamos sim fazer parte desse Conselho, por direito, mas não queremos a presidência. Shijima agora ocupará uma cadeira aqui como representante do nosso clã, e não mais Asmita, — Shaka desviou a mirada para Asmita que o indagava com os olhos, afinal o estava destituindo de um cargo de valor — Tenho outros planos para você. — disse, depois voltou a encarar Aspros — Já eu faço questão de participar pessoalmente das reformas que precisam ser feitas... No mais, peço licença a todos. Devemos retornar à Inglaterra ainda antes do amanhecer. Aos demais, escolham com sabedoria o seu novo presidente.
Dito isso, Shaka voltou-se para Mu que recolocou a máscara de pontudas orelhas quadradas e focinho alongado em seu rosto já se preparando para deixar o salão. Todos ali olhavam para o Nut desconfiados e temerosos, uns até intimidados. Era bem verdade que nada poderiam fazer a não ser aceita-lo em sua restrita sociedade e confiar nele, o que não seria uma tarefa fácil, já que vampiros são por natureza criaturas extremamente desconfiados. No entanto, um gesto simples e singular de um dos membros, cuja índole sempre fora respeitada e admirada por todos os outros clãs, acalmou os ânimos mais exacerbados.
Camus caminhou até o centro do parlamento e estendeu a mão a Mu num gesto cortês de boas-vindas.
— É bom tê-los de volta. — disse o francês com um sorriso genuíno no rosto — Cheguei a duvidar de quem era e do quão poderoso realmente fosse, Mu. Que bom que eu estava enganado.
Mu lhe sorriu de volta por baixo da Máscara, aceitando o cumprimento e envolvendo a mão de Camus com a sua.
— E é bom estar de volta, Camus. — disse o Nut.
Ao fim do amistoso aperto de mãos, o Cesarem enfim direcionou seu olhar para Shaka. Fitou por alguns breves segundos os olhos azuis febris em silêncio, então abriu um largo sorriso, balançou a cabeça negativamente e convicto disse:
— Quando eu era menino meu pai me falava da importância dos estudos. Do quão essenciais eles eram para o bem tanto do individual quanto do coletivo. Porém, ele também dizia que nem todas as respostas que procuramos estão nos livros ou nas equações matemáticas.
Shaka ergueu o queixo, altivo, vitorioso, mantendo os olhos cravados aos de Camus.
— Ora, vê-se que seu pai era uma pessoa muito mais sábia que você, Camus. — disse o Setita — O que houve? O enfadonho passar dos séculos o fez perder a crença no intangível? No extraordinário? Você deveria ter trazido os ensinamentos do seu genitor para sua vida imortal.
— Sua Serpente velhaca! — concluiu o francês aos risos.
— Seu cientista pirrônico! — respondeu Shaka também aos risos.
Sem mais delongas os dois amigos abraçaram-se na frente de todos, para alegria de Mu e desdém da maioria.
— Sabe que tem meu voto para a presidência desse Conselho, Camus. — disse o sumo sacerdote ao final do caloroso cumprimento — Não vejo ninguém aqui mais preparado que você para executar as mudanças que são necessárias.
— Eu sei, Shaka, mas sinto muito por decepcioná-lo. — respondeu Camus olhando nos olhos do Setita — Eu tenho outros planos, e presidir o Conselho não está incluso em nenhum deles... Inclusive... — virou-se para Aspros o fitando nos olhos — Eu também peço licença para me retirar. Degel, por decisão unanime do nosso clã, continuará sendo nosso representante neste Conselho, e é ele quem vai votar em nome de todos nós, Cesarens, no novo presidente.
Com uma leve reverência, depois do aceno afirmativo de cabeça que Degel lhe dirigiu, juntamente com Shaka e Mu, Camus deixou o salão.
Seguiram por um estreito corredor escuro todo destruído até o hall de entrada e finalmente deixaram a sede, juntando-se a alguns carniçais, servos e outros vampiros que aguardavam o fim da assembleia no jardim, ali na frente da propriedade, em meio aos carros que os trouxeram e toda uma parafernália de construção.
Conversaram algumas amenidades no curto percurso até ali. Camus logicamente quis saber com os mínimos detalhes o que acontecera na noite em que o exército Setita enfrentou o de Radamanthys, e posteriormente a ele enquanto Mu e Shaka estiveram desaparecidos. O Nut lhe prometeu relatar tudo com calma, pois sabia da curiosidade científica do Cesarem, mas em outra ocasião, agora uma outra questão lhe perturbava a mente e o espírito, e tudo que desejava era sana-la, mesmo temendo a resposta.
— Camus. — disse Mu ao parar em frente a um dos carros negros estacionados no jardim, retirar a Máscara e fitar os olhos do francês — Perdoe minha intromissão, mas... Eu preciso saber sobre Afrodite. — seu semblante era visivelmente apreensivo — Seu lar foi atacado, e pelos relatos quase nada sobrou de pé. Afrodite estava com você no momento do conflito?
Camus fechou os olhos e baixou a cabeça.
— Sim. Afrodite estava comigo. — fez uma longa pausa, o que deixou Mu ainda mais angustiado e Shaka curioso — Mas...
— O que, em nome de Rá, aconteceu com ele, Camus. Diga-me! — disse o Nut exaltado. A seu lado Shaka aguardava também pela resposta.
Foi quando, ainda esperando pela resposta de Camus, Mu sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Um toque gentil, frio, que exercia uma pressão suave em contato com sua pele.
Rapidamente o Nut olhou para trás e se deparou com uma figura um pouco mais baixa que trazia a cabeça e o corpo totalmente cobertos por manto e capuz negros. Ficou um momento olhando para ela, curioso, até que esta retirou a mão que tocava seu ombro e agora munido das duas segurou a borda do capuz e lentamente o puxou para trás revelando sua face, então os olhos verdes do Nut saltaram das orbitas, incrédulos e estupefatos.
— Afrodite! — Mu exclamou surpreso.
— Não pode ser! — murmurou Shaka.
À frente deles estava Afrodite. Não o garoto sofrido, maltratado e amedrontado de antes, mas um imortal cuja beleza magnânima era própria personificação da Natureza.
Tal qual uma criatura que parecia ter saído direto dos livros de fantasia e contos de fadas ele se assemelhava a um delírio onírico de rosto pálido e feições delicadas. Os olhos, que exibiam um incrível tom rosado, como o quartzo mais polido e cristalino, exalavam paz e reluziam o brilho das estrelas mais brilhantes do firmamento. Toda dor, todo medo e sofrimento que haviam neles tinham ido embora por completo. Os cabelos longuíssimos e volumosos agora possuíam um tom azulado, emolduravam seu rosto com uma farta franja e caiam em cascatas pelo peito esguio feito brumas etéreas que se formam no cume das montanhas e escorrem entre as rochas num balé gracioso.
Mu tinha os olhos verdes vidrados cravados naquela criatura, que de tão bela parecia até mexer com seus sentidos, pois sentia o peito arder em um calor repentino, porém isso se dava mais pelo fator da surpresa em ver o mortal que tanto estimara transformado em um vampiro.
— Mas... por quê? — inquiriu o Nut desviando o olhar agora para Camus — Por que o abraçou? Eu pensei que...
Camus então acercou-se de Afrodite, lhe tomou uma das mãos e beijou delicadamente seus dedos longos e delicados, depois, ainda segurando na mão do músico olhou para o Nut e para o Setita.
— Eu non o abracei. — disse o ruivo.
*Início do Flashback*
Em angústia dolorosa e exasperação ergueu o tronco para analisar mais uma vez a situação, então correu os olhos pela ferida medonha no torso do jovem, depois para seu rosto pálido, o sangue viscoso a escorrer incessantemente e, por fim, para os olhos hirtos que fitavam o céu estrelado.
Poderia tentar abraça-lo e transforma-lo em vampiro, mas para isso teria que desfazer a alquimia que mantinha a água em seu estado sólido e isso acabaria por matar Afrodite imediatamente, já que era a estalagmite que atravessava seu torso que estava estancando o sangue. Se o fizesse ainda teria que ter sangue o suficiente em seu corpo para ser capaz de transferi-lo ao músico, mas não o tinha.
Estava fraco, ferido e de mãos atadas.
Entregando-se novamente ao choro, inconformado em ter de ver Afrodite morrer em seus braços sem nada poder fazer para impedir, de repente fora surpreendido por um novo sussurro do jovem.
— Eu acho que... amo você... Camus... Desde a primeira vez que... o vi... na sala do mestre Shaka...
Camus olhou para ele e acariciou seu rosto.
Aquela declaração lhe encheria o espírito amaldiçoado de alegria não fosse a atual situação na qual fora dita.
— Mon petit... eu também amo você, Afrodite... Hoje eu sei! Sei que o que senti ao te ver pela primeira vez foi amor, um amor que non conhecia, non compreendia. Eu o quis para mim, non para tê-lo, non como posse, mas porque eu queria amá-lo... — as palavras do vampiro saiam soluçadas de sua garganta.
— Camus... — súbito Afrodite foi calado por uma nova crise de tosse e outro volume intenso de sangue que lhe vertia pelo nariz e boca, mas ainda assim insistiu — Camus... me dê seu derradeiro beijo... — pediu como numa súplica.
— O quê? — o vampiro inquiriu surpreso, pois sabia que o jovem não se referia ao beijo de lábios e sim ao de sangue.
— Não me deixe morrer... sem senti-lo... uma última vez.
— Non... non posso, Afrodite... Já teria o feito há muito se pudesse, mas non posso. — Camus chorou acariciando o rosto do sueco — Se eu mordê-lo agora você vai morrer, porque non tenho sangue o suficiente para transformá-lo.
— Não estou pedindo... que me transforme... — disse num fio de voz, em meio a muita tosse e sangue expelido.
— Non...
— Eu estou morrendo... quero apenas... um último... beijo seu. Carregue-me para dentro de você... Assim morrerei... feliz.
Sem conseguir respirar mais, pois o sangue agora tomava completamente suas vias respiratórias o fazendo sufocar aos poucos, Afrodite sofreu uma convulsão, e Camus simplesmente não conseguia acreditar, tampouco aceitar, o que estava acontecendo ali.
Estático o Cesarem olhava para o garoto sofrendo os espasmos da morte, então com o coração partido segurou em seu rosto contorcido e lentamente aproximou seus lábios aos dele selando seu amor com um beijo terno que não se prolongou por muito tempo, visto que logo, e com muito cuidado, tombou a cabeça do pianista para o lado e escorregou seus lábios frios para o pescoço exposto, onde cravou as presas pela derradeira vez. E então, no momento em que o sangue quente tocou sua língua e seu pensamento voava angustiado para o nada, eis que uma Presença extraordinariamente poderosa inundou aquele salão congelado.
Imediatamente Camus largou o pescoço de Afrodite e levantou a cabeça, então viu diante de si sua esperança ser renovada, e esta pairava sobre aquele caos de gelo e melancolia vestindo uma armadura feita em couro e malha de metal em tons de prata e branco que contrastavam majestosamente com as longas madeixas de um cabelo ruivo esplendoroso, carmesim. Seu rosto era de uma beleza perturbadora, pele extremamente branca como neve, lábios excessivamente sensuais e um olhar quase obsceno. Tinha intacta a constituição forte e máscula que a natureza lhe agraciara quando ainda em vida.
— Rugonis! — sussurrou o Cesarem aos prantos.
A milenar aliança entre Cesarens e Filhos da Cacofonia jamais lhe fora tão oportuna. Por causa dela o líder do clã dos filhos da noite que usavam a voz e a música como sua maior arma de batalha e sobrevivência estava ali, em pessoa, vindo em seu auxílio. Ele era um poderosíssimo vampiro de baixa geração, tão poderoso que era temido até pelos próprios imortais.
— Lamento não ter podido chegar antes. — disse Rugonis enquanto levitada entre os escombros até Camus, então com a leveza de uma pluma e a sutileza de uma bailarina pousou seus pés na grossa camada de gelo que recobria o chão e se agachou ao lado de Camus. Olhou impassível e indiferente para Afrodite que sufocava com o próprio sangue entre espasmos — Os meus soldados estão fazendo uma varredura nas imediações de sua propriedade... Lhe asseguro que nenhum Assamita ou Espectro sairá daqui ileso... Ele é importante para você, imagino. — disse, referindo-se ao pianista.
— Sim... ele é. — o Cesarem respondeu com a voz embargada pelo choro incessante.
Rugonis então olhou para Camus, vendo seu rosto tinto de vermelho das lágrimas que derramava.
— A certeza da morte é justamente o que os faz tão especiais. — disse em tom baixo e solene — A impermanência do ciclo humano ainda é uma das poucas coisas que nos faz sentir vivos.
— Eu non quero que ele vá. — disse Camus, e suas palavras saíram em tom de desespero — Por Dieu, eu non quero perde-lo! Eu non aceito perde-lo!... Eu... eu orei para todos os deuses que existem para ter uma chance de ficar com ele, entende isso, Rugonis? Eu fiz preces... por ele.
Ao ouvi-las Rugonis se pôs sério.
— Não. Você fez preces para você, meu amigo. — disse o vampiro calmamente.
— Que seja!... Para a merde o ciclo humano, o princípio da impermanência, o curso natural da vida mortal... Eu passei séculos obedecendo à ordem natural e lógica das coisas para no fim surgir um garoto, fraco e sem ambição alguma, e me mostrar que existe uma força muito maior que rege a vontade dos homens, sejam eles mortais ou não... — continuou o Cesarem, agora encarando os olhos dourados do vampiro que o fitava parecendo analisar minuciosamente cada traço de seu rosto aflito — O amor non é impermanente, Rugonis... O amor é a única força do Universo que non é inconstante... a única força que vence a morte, que permanece mesmo depois dela. E non foram os livros científicos, as equações, tampouco os séculos de pesquisas que me levaram à essa resposta... foi Afrodite.
— Eu compreendo, Camus. — disse Rugonis, novamente fitando o músico já quase sem vida.
— Por favor. — rogou o Cesarem — Eu te suplico. Em nome de nossa aliança eu te peço... Abrace Afrodite. Eu non tenho poder nesse momento para isso ou eu mesmo já o teria feito.
Rugonis então olhou para ele surpreendido.
— Camus...
— Eu te suplico, Rugonis!
— Camus, receio que não há mais tempo, e mesmo que conseguisse ele seria um Filho da Cacofonia e não um Cesarem. — disse com pesar.
— Estou ciente disso. — Camus respondeu convicto.
— Mas ele não. E talvez ser um demônio amaldiçoado de alma condenada não seja a vontade dele. Sabe que não devemos...
— Por favor... — o Cesarem o interrompeu — Non é hora para discutirmos ética e moral... Eu o amo, Rugonis... como nunca pensei que fosse capaz de amar alguém.
Rugonis baixou a cabeça e pensou por um breve instante, então assumiu sua forma vampírica e elevou sua Presença.
— Está certo. — disse ele, em seguida retirou as luvas e descobriu um dos pulsos — Desfaça a alquimia que mantem a água em estado sólido... e afaste-se.
— Obrigado, Rugonis. — disse Camus, que rapidamente se levantou deixando que o outro vampiro assumisse seu lugar, então recuou para o fundo da sala e desfez a alquimia.
Quando todo o gelo que recobria o recinto virou água, Rugonis tomou Afrodite em seus braços e levitou para a parte de fora da construção.
Lá o deitou sobre a grama molhada pelo orvalho e o abraçou.
*Fim do Flashback*
— E foi dessa maneira que tudo se deu. — disse Camus, que agora olhava para Afrodite trocando sorrisos.
— Sim. E agora eu terei que aguentar esse francês turrão por toda a eternidade! — disse Afrodite, que sem esperar mais beijou a mão de Camus antes de solta-la e se dirigir a Mu — É muito bom poder vê-lo novamente, Mu.
O Nut tinha as feições ainda surpresas, mas ainda mais encantado ficou ao ouvir a voz de Afrodite, que agora soava como música, pura e encantadora como água cristalina correndo de uma nascente, hipnótica e extraordinária como nada que ouvira antes.
Sem conter a emoção e alegria abriu os braços e puxou o pianista para um abraço acalorado. A Presença vampírica dele era incrivelmente forte, intensa, e completamente pacífica. Todo o medo, o pesar, o sofrimento e o fardo que sentira da primeira vez que o encontrou na casa de Shaka tinham ido embora. Ainda que fosse agora um imortal Afrodite finalmente estava livre.
— Que alegria em revê-lo! — disse Mu apertando o músico e recebendo um abraço com a mesma vontade — Está incrivelmente belo, meu amigo.
Ao lado Shaka, ainda chocado, já que nem em seus devaneios mais absurdos imaginou que veria seu antigo servo como um imortal, ainda mais como um Filho da Cacofonia, só conseguia pensar em como a vida, ou no caso deles a morte, era por vezes irônica. Afrodite não apenas se tornara um vampiro de geração bem baixa, portanto muito poderoso, como tinha a música como a maior fonte de seu poder vampírico.
— Eu também me alegro em revê-lo, Afrodite. — disse Shaka ao se aproximar do músico no momento em que ele apartara o abraço que trocava com Mu, mas, diferente dos cumprimentos acalorados e cheios de entusiasmo e emoção dos outros dois o sumo sacerdote apenas lhe direcionou um sorriso singelo. Sabia que tinha sido um mestre tirano e violento para o sueco, e que, se Afrodite hoje era um imortal de alma condenada isso se devia a ele, pois fora ele quem o capturara e o mantivera em cativeiro por anos — Que bom que está aqui e que está com Camus.
Afrodite nada disse, apenas devolveu o sorriso brando e novamente pegou na mão de Camus. Agora, livre da dependência que o sangue de Shaka exercia sobre si levaria um tempo para apagar todo o ressentimento que ainda sentia pelo Setita.
Percebendo o desconforto do músico, e sabendo que ele iria precisar de um tempo até que conseguisse perdoa-lo por completo, Shaka decidiu abrandar o clima daquele reencontro.
— Então quer dizer, senhor cientista, que no seu momento de aflição você orou? — disse o Setita com um risinho debochado no rosto.
Camus pigarreou.
— Ora... bem... Oui... eu... eu fiz umas orações sim. — disse Camus sem graça — Mas eu estava desesperado.
— Então você admite que tem fé em algo além de sua ciência. — disse Shaka.
— Veja bem... sim e non. — disse Camus — Ainda non acredito em deus, ou deuses, porque se fosse para adorar a um ser eu adoraria a Rugonis, afinal foi ele quem me apareceu no meu momento de aflição. Sendo assim, Shaka, digamos que admito sim, que há, uma força maior pairando sobre nossas vontades. De onde ela vem, e de que forma ela se manifesta ainda me é um mistério. Essa força pode tanto estar fora ou dentro de nós. Ela pode ser um deus, a quem você adora e venera, ou ela pode se manifestar em forma de um sentimento. Amor. Esse sim é capaz de operar milagres.
— E por que não as duas coisas? — disse Shaka, e nesse momento ele olhou para Mu. Ambos trocaram um olhar cúmplice e também seguraram as mãos um do outro.
Camus então olhou para eles e pela primeira vez desde que tudo começara sentiu-se feliz em vê-los juntos, sentiu-se em paz.
Para Shaka, Mu era um deus, e para Mu tinha sido o amor inabalável de Shaka que tornara tudo possível, desde seu complexo despertar até a vitória sobre si mesmo, sobre a Besta primitiva e voraz que o habitava.
Alheio aos pensamentos de Camus, Shaka continuou, agora fitando seu rosto com uma expressão alegre e terna.
— A fé e o amor são uma única instituição, Camus. Não se pode abraçar um sem o outro. — disse, depois olhou para Afrodite novamente — Eu sei que vai ensinar isso a esse francês teimoso.
Afrodite meneou a cabeça afirmativamente, então Mu, mais descontraído, fez a pergunta que tanto queria fazer desde o princípio.
— E agora você vão morar juntos, não vão? Serão companheiros. Afrodite, assim como eu, precisa de alguém para guia-lo no Novo Mundo, Camus.
— Oh sim! Sem dúvida! Nós iremos morar juntos, apesar de pertencermos a clãs diferentes isso nada influenciará no nosso relacionamento, afinal nossos clãs são aliados de longa data. Rugonis e Albafica irão treiná-lo, ensina-lo a dominar seus dons, e eu sempre estarei junto dele para o que for preciso. — disse Camus.
— Sim, nós já até estamos namorando. — disse um tímido Afrodite, arrancando risadas de todos.
— Non, mon amour. — Camus o corrigiu lhe fazendo uma carícia no belo rosto — Entre nós, imortais, non se usa esse termo.
— Ah, não? — o sueco arregalou os olhos — Então como vocês dizem? Estão ficando? Estão se pegando? Estão colocando suas escovas de dentes no mesmo pote? As cuecas na mesma gaveta?
— Não. — quem respondeu foi Shaka, e Afrodite então olhou para ele curioso o vendo continuar o que dizia agora olhando nos olhos verdes de Mu — A ligação sublime que existe entre dois imortais é eterna e jamais pode ser desfeita. Ela é muito mais forte que qualquer sentimento humano, uma vez que ultrapassa as barreiras da morte e das maldições do tempo. Por isso, chamamos de companheiro aquele que escolhemos para amar e passar a eternidade ao nosso lado. — voltou a olhar para Afrodite antes de concluir o que dizia — Eu fico feliz em saber que conquistou o amor do Camus e ele o seu. Você, Afrodite, era um pássaro preso em uma gaiola. Camus era uma alma solitária que depositava na Ciência sua única razão de existir... Agora ambos podem voar juntos e desbravar novos horizontes. Como um Filho da Cacofonia eu sei que vai conquistar tudo que deseja através de sua música e de sua voz magnífica. Vejo um futuro brilhante no caminho de vocês dois.
Afrodite sorriu para ele.
— Tudo que quero eu já tenho aqui, Shaka. — disse o músico novamente beijando a mão do Cesarem — Meu companheiro, meu amado cientista maluco. Mas... Como nunca é ruim querer demais, tudo que quero agora é matar minha fome com o doce e quente sangue do leste europeu!
Camus arregalou os olhos admirado e sorriu olhando para os rostos do Nut e do Setita.
— Pardon. Ele está naquela fase de euforia descontrolada dos recém criados. Até aprender a controlar a fome levará um certo tempo. — disse sorrindo.
— Pois é. O papo chato dos matusaléns desse Conselho Jurássico ainda vai longe, e a alegria de rever vocês me deixou faminto! — falou o músico rindo — Vamos, meu companheiro? Me leve para jantar! — deu uma piscadinha para Mu e Shaka e logo enlaçou Camus pelo pescoço lhe dando um beijo apaixonado.
O Cesarem apenas fez um sinal para os amigos de que depois ligaria para eles para poderem conversar melhor, e passando o braço pela cintura de Afrodite o conduziu até o carro negro que os trouxera até ali.
Sozinhos ali novamente Mu e Shaka se entreolharam, felizes pelos amigos, em paz consigo mesmos, e enquanto dentro da sede do Conselho Milo dos Capadócios era eleito o novo presidente, por ser jovem e possuir ideias inovadoras, ali fora Seth e seu sumo sacerdote se fundiam com a noite iniciando a viagem de volta à Inglaterra.
Estavam indo para casa.
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