Notas iniciais
Cap novo, e agora com um foco diferente. Quem será o novo mestre de Afrodite? Imagem da capa feita pela coautora Juliana Yagami/rosenrot *-* que dite lindooo

Faltavam algumas horas para o amanhecer quando um Bugatti negro cruzou os grandes portões de madeira e ferro que guardavam a propriedade.

O lugar era enorme, e por ser rodeado de muito verde, dando a impressão de um bosque, também era bem escuro. Fato esse que levou o passageiro a descer o vidro fumê do automóvel para tentar enxergar algo que fosse em meio aquela escuridão toda.

Afrodite corria os olhos curiosos e receosos pelos tantos vultos que compunham aquele cenário desconhecido na tentativa de distinguir o que quer que fosse durante o percurso, mas as trevas do local abraçavam a tudo com tanto afinco que só era capaz de ver até onde os alquebrados faróis do Bugatti podiam iluminar. E o percurso dentro daquela selva de sombras disformes parecia interminável!

A viagem ao todo, porém, fora tranquila.

De um hangar particular em Londres o jato, cujo proprietário era Shaka, decolou tendo apenas o músico sueco, piloto e copiloto de tripulação. Em menos de duas horas este já pousava em seu destino, o qual era totalmente desconhecido do pianista, já que não teve autorização sequer para olhar pela janela.

Em terra firme, Afrodite desceu da aeronave e já fora conduzido até o Bugatti, que agora cruzava aquele bosque sombrio.

Durante todo o percurso se perguntava para onde estaria sendo levado.

O coração inquieto do pianista pulava dentro do peito, de medo, apreensão, tristeza...

Deixar o sumo sacerdote Setita, e também o vínculo que criara com ele, fosse este consciente ou não, era tarefa difícil para o jovem músico, mas ele não tinha escolha.

Nunca tivera escolha.

Pensando nisso, Afrodite deixou escapar um suspiro melancólico e recostou-se ao banco do carro esperando que seu destino se cumprisse.

Seguiu calado por todo o resto do percurso, mas quando seus olhos aflitos e ansiosos enfim capturaram uma pequena e tímida luz no fim da trilha escura o jovem quebrou o silêncio.

— Chegamos? — deixou as palavras escaparem de sua boca quando a silhueta de uma grande construção se desenhou no escuro — É... uma casa?

Como esperado não houve resposta.

Com a cabeça quase projetada para o lado de fora do veículo, Afrodite divisava fixamente o caminho pelo qual percorriam, e à medida que se aproximavam mais nítidas se tornavam as imagens.

Viu que passavam por uma trilha de pedras e terra batida até chegarem a um amplo jardim. O bosque havia ficado para trás e à sua frente a casa ganhava proporções maiores até mostrar-se, na verdade, um pequeno castelo.

A iluminação fraca era mantida a meio tom, detalhe que o músico já conhecia bem dados os tantos anos vivendo na casa de Shaka sob as mesmas condições, então, a essa altura, já tinha certo em sua cabeça que ali era a morada de um imortal.

Em seu íntimo, porém, não conseguia discernir se esse fato era bom ou ruim para si.

Só confiava em Shaka, e quando achou que poderia confiar em mais alguém quase fora devorado vivo por ele.

Sentiu um frio na espinha ao se lembrar de Mu, da língua áspera a lhe lamber o rosto machucado, das garras a lhe rasgarem a carne...

Súbito, o carro freou e o trouxe de volta de seus devaneios a tempo.

Levou ambas as mãos ao rosto e esfregou os olhos deixando escapar um suspiro. Agradeceu aos céus ter aquela lembrança nefasta interrompida, porém agora o dilema era outro.

Afrodite tinha medo do que ia encontrar ali. Talvez por isso a demora em descer do carro.

O carniçal já havia descido do veículo, apanhado a mala do pianista e agora lhe abria a porta, mas o coração de Afrodite batia tão frenético dentro do peito que o punha paralisado, e tal qual um bichinho acuado no fundo de uma jaula o músico se encolhia no canto oposto à porta aberta, sentindo a vontade vacilar e a alma congelar, até que uma mão muito branca, acompanhada de um sorriso simpático e amigável lhe fizera o convite.

— Olá! — disse o jovem loiro que estendia a mão ao sueco. Falava em inglês para facilitar a conversação — Venha! Estávamos te esperando!

Afrodite olhou para ele o analisando com receio e curiosidade.

Era um rapaz bem jovem, alto, porte magro, cabelos revoltos aos ombros, olhos azuis e um lindo sorriso, pueril e amistoso, apesar da expressão séria em seu olhar.

— Você entende o que eu falo? Digo... Você fala inglês, não fala? — perguntou o loiro, ainda com a mão estendida ao músico.

Afrodite meneou a cabeça sutilmente num gesto afirmativo, sem tirar os olhos do par de íris azuis que o observavam curiosas.

— Ótimo! O mestre disse que irá morar conosco. — falou o jovem sorridente — Nossa, como você é bonito! Parece uma fada!

O pianista franziu levemente a fronte, arqueando uma das sobrancelhas.

— Anda, venha! Não tenha medo!... Você está seguro aqui. — insistia o anfitrião balançando a mão no ar.

Afrodite o analisou por mais alguns segundos, atento.

Era uma criatura da noite, um vampiro, dada a pele cianótica, as minúsculas veias arroxeadas em torno das têmporas, as unhas longas e pontiagudas e os olhos mais brilhantes que o normal.

Nessa hora a imagem de Shaka lhe veio à lembrança, e a adoração que nutria pelo Setita lhe fez esticar o braço e pegar na mão do vampiro à sua frente, já que acreditava que Shaka certamente não lhe enviaria a um matadouro, uma vez que o expulsara de casa justamente por ter um abatedor morando nela!

Auxiliado pelo outro o músico desceu do carro lentamente, depois o vampiro girou o corpo para o lado e apanhou com o motorista a mala que trouxera consigo.

— Obrigado, Jacob. Está dispensado por hoje. — disse o loiro puxando Afrodite pela mão enquanto caminhavam em direção à entrada da mansão — O mestre preparou um jantar de boas vindas para você. Eu o ajudei. Espero que seja do seu agrado e agrade ao seu paladar. Deve estar com fome, não?

— N-não... Quem é seu mestre? — o pianista atreveu-se a perguntar, quase se arrependendo em seguida, quando de repente o vampiro que o conduzia pela mão abriu a porta e adentrou o recinto o trazendo consigo.

— Ali está ele! — respondeu soltando enfim a mão do músico, que ainda mantinha o capuz negro cobrindo-lhe parcialmente a cabeça.

Afrodite se viu no meio de uma grande sala decorada em tons sóbrios, móveis de mogno escuro em estilo vitoriano e algumas peças de arte que remetiam ao período renascentista. Algumas das quais reconheceu, entre telas e maquetes, serem de autoria do gênio Leonardo Da Vinci.

Corria ainda os olhos azuis muito claros por algumas delas quando ouviu uma voz grave, forte e conhecida projetada atrás de si.

— Bonne nuit, Aphrodite!

O músico girou o corpo em sobressalto, colocando-se de frente ao anfitrião, e mais uma vez seus olhos azuis cruzaram com os olhos em tom de âmbar abrasado do imortal que outrora despertara algo em si há muito adormecido.

Encantamento!

— Camus! — sussurrou o pianista, que tinha os olhos arregalados e os lábios entreabertos tamanha sua surpresa.

— Fez boa viagem? — perguntou o Cesarem em tom cordial e amistoso.

Contudo, o choque de Afrodite era tamanho que o jovem nada conseguiu responder. Novamente estava à deriva, perdido no olhar de fogo daquele imortal, que vestido em um elegante terno todo negro tinha os longuíssimos cabelos ruivos a lhe cair pelos ombros e torso feito veios incandescentes de lava majestosa. A boca de lábios finos de tom encarnado forte lhe sorria de forma singela, e aquele sorriso, somado a toda composição de sua figura bela e exótica, estranhamente fazia o coração do músico bater ainda mais acelerado.

Vendo que o garoto não respondia, Camus levou ambas as mãos ao capuz que cobria parcialmente sua cabeça e delicadamente o puxou para trás, revelando toda a beleza única daquele humano que a si também lhe causava extraordinário frenesi.

— Seja bem vindo à minha morada. — disse o ruivo — Non há motivo algum para temer. Aqui você está seguro.

— Realmente, mestre Camus, o senhor não exagerou quando exaltou a beleza dele. Ele é mesmo belíssimo! — falou o vampiro jovem e loiro que havia ido buscar o músico no carro, e que agora se colocava ao lado dos dois.

— Oui, Hyoga. Eu non usei de exageros. — disse o cientista sem desviar o olhar dos olhos cristalinos do sueco. Logo curvou ligeiramente o tronco para frente e pegou na mão de Afrodite a trazendo até seu rosto para lhe depositar um beijo terno sobre os dedos longos e delicados — Eu sou o seu mestre agora, Afrodite. Shaka o deu para mim.

— O... que? — murmurou o pianista, e surpreendeu-se ao sentir um leve arrepio lhe subir pela nuca ao contado dos lábios frios do vampiro com sua pele.

— Você agora me pertence. — disse Camus.

— Então é mesmo definitivo? Mestre Shaka... ele... ele quer que eu viva aqui agora? Com o senhor? — experimentava um misto de alívio e preocupação, já que não podia esconder de si mesmo que aquele vampiro ruivo mexia consigo, aliás, desde a primeira vez em que o vira na casa de Shaka, mas já temia que seu sentimento confuso por ele lhe causasse algum problema em sua nova condição de servo.

Envergonhado, pois era como se Camus pudesse ler em seus olhos todo o conflito interno pelo qual passava, Afrodite baixou a cabeça tentando esconder seu rubor e desconforto.

— Sim, é em definitivo. Agora seu lar é aqui. — confirmou o Cesarem, que vendo que o garoto parecia aflito ou desconfortável lhe segurou pelo queixo e o fez erguer novamente o rosto para encará-lo — Non está contente? Me parece frustrado.

Afrodite piscou algumas vezes tentando conter o ímpeto de deixar livre um sorriso que se formara em seu coração e rogava desesperadamente por liberdade. Não que estivesse feliz por deixar seu antigo mestre, mas estar perto daquele vampiro francês de cabelos cor de fogo inexplicavelmente enxia seu espírito de alegria e paz, sentimentos estes que jamais experimentara com Shaka.

— Não! De modo algum. — disse inalando o ar profundamente enquanto olhava para Camus sem titubear — Perdoe-me pela indelicadeza, e também por causar todo esse transtorno, tanto a mestre Shaka quando ao senhor.

— Non me chame de senhor... E nem a Shaka de mestre. Agora eu sou o seu mestre, mas eu sou bem menos turrão que aquela serpente velhaca. — disse Camus com um sutil e amigável sorriso no rosto pálido.

— Obrigado, senh... mestre Camus. — o sueco respondeu ainda um tanto tímido — Obrigado por me acolher em sua casa. Prometo que serei invisível, obediente e não darei trabalho. — estava todo enrolado com as palavras, pois sentia-se estranhamente nervoso na presença do Cesarem.

— Oh non! Non! — Camus soltou a mão do servo para levar ambas aos cabelos loiros claríssimos dele e ajeitar algumas madeixas embaraçadas por conta do capuz — Non peça desculpas. Non foi um transtorno. E também non terá que se fazer invisível. Verá que sou muito diferente daquele Setita fanático, e que em minha casa os servos seguem outro código de conduta.

Camus se permitiu rir daquela situação.

Enquanto alinhava os cabelos de Afrodite, o francês pensava no quão satisfatório foi para si receber o telefonema de Mu lhe pedindo para que acolhesse o pianista em sua casa, e para que ficasse com ele em definitivo.

Afrodite lhe foi entregue em uma bandeja de prata, e agora poderia saboreá-lo de todas as formas possíveis sem peso algum na consciência por estar tomando algo que não lhe pertencia. Pior, que pertencia a seu melhor amigo.

Os pensamentos que povoavam a mente do Cesarem pareciam ser captados no ar pelo músico, que simplesmente não conseguia deixar de olhar para o rosto do vampiro enquanto este agora lhe tirava a capa preta que lhe cobria o corpo.

Deliciando-se com aqueles olhos tão azuis quanto febris a lhe encarar, Camus entregou a capa do músico para o vampiro mais jovem e lhe passou uma ordem:

— Vá, Hyoga. Deixe os pertences de Afrodite em meus aposentos. — imprimiu uma nota de sedução na voz — Depois pode se retirar para se alimentar. Isaac já o aguarda em seu quarto.

Hyoga achou um tanto quanto ousada e estranha a ordem de levar os pertences de Afrodite para o quarto do mestre, mas Camus era seu superior, seu criador, e jamais iria contestá-lo.

— Sim, mestre Camus. Com sua licença.

Assim que Hyoga deixou a sala, o vampiro ruivo estendeu o braço insinuando a Afrodite para que o tomasse em suas mãos.

— Venha. Deve estar faminto da viagem. Aquele fanático com toda certeza non deve ter se lembrado de alimentá-lo. — disse o cortês vampiro — Por isso preparei-lhe um FleurBurger! Gosta da culinária francesa?

— Ah... eu... eu acho que sim! — sorriu ainda acanhado o sueco.

De braços dados ao músico o Cesarem o conduziu pela propriedade até uma enorme e luxuosa cozinha, que não por acaso era o ambiente mais iluminado do lugar.

Ao aproximarem-se da mesa central, que já estava posta, Afrodite correu os olhos por cada detalhe, surpreendido e admirado, tanto pelo requinte da prataria e da porcelana que compunham o aparelho de jantar, quanto pelo cardápio, o qual lhe parecia muito apetitoso.

— Venha sente-se! — disse Camus ao soltar o braço do garoto pra lhe puxar uma das cadeiras — O FleurBurger é um delicioso hambúrguer feito de carne suculenta de Kobe e fígado de ganso coberta com molho de trufas negras e foie gras. É servido no pão de brioche. Tenho certeza que irá gostar.

— Obrigado. — disse o músico ao sentar-se — Parece delicioso.

— E é! As fritas são também à moda francesa. Melhor acompanhamento que elas só mesmo esse Chateau Petrus! — o vampiro agora apanhava uma garrafa de vinho, já a posicionando sobre a mesa para abri-la com o saca rolhas que jazia ali estrategicamente ao lado — Apesar de non mais comer comida humana jamais deixei de apreciar a arte da gastronomia. Tampouco o sabor de um bom vinho!... Especialmente quando este corre nas veias de um belo e jovem rapaz.

As palavras do Cesarem, somadas ao modo como Camus lhe encarava, de forma voluptuosa e maliciosa, fizeram Afrodite enrubescer de imediato, por isso baixou os olhos sentindo a face arder levemente, enquanto pela visão periférica via o ruivo colocar uma taça ao lado de seu prato para enchê-la até a metade com o vinho.

— Vamos, non se acanhe. Coma. — disse o francês que agora puxava uma cadeira para se sentar à mesa com o sueco.

O pianista assim o fez, partindo um pedaço do suculento hambúrguer com o auxilio do garfo e da faca para levar à boca.

Afrodite pouco havia conversado com Camus nas raras vezes em que este fora até a casa de Shaka, e mesmo que o francês estivesse executando ali um ritual tão comum aos de sua espécie, alimentar e seduzir a presa para em seguida se fartar de seu sangue, isso pouco importava para o músico.

Sentia-se bem ao lado do Cesarem, tanto que saciar a fome de Camus talvez lhe pudesse ser tão ou mais excitante como quando servia a Shaka.

— Hum... É de fato delicioso! — disse o sueco após provar o prato — Há anos não comia carne. Mestre Shaka preferia o sabor das frutas, castanhas e especiarias. — completou com um sorriso tímido.

— Sacre Bleu! Então Shaka é um vampiro vegano? — o ruivo deu uma gargalhada em alto tom — Oh! Dieu! Non me surpreende! — mais risos — Depois eu que sou fresco! Aquela serpente patife!

— O senhor cozinha divinamente, mestre Camus. — disse o pianista, que agora provava as fritas — Uma pena ser amaldiçoado e não poder saborear o que faz com tanto primor! — apanhou a taça de vinho que Camus acabara de lhe servir e deu um gole farto, só então notara que o outro lhe encarava fixamente — Oh... perdoe-me. Não deveria ter dito isso.

Desculpou-se o sueco retirando a taça de entre os lábios tingidos suavemente de purpura pela bebida, em seguida baixou os olhos para o prato envergonhado.

O Cesarem por sua vez, desobedecendo às regras da etiqueta apoiava ambos os cotovelos à mesa, e descontraído observava divertido cada gesto do músico.

— E quem lhe disse que non vou saborear? — disse estendendo uma das mãos com a qual tocou os longos fios platinados do músico, que corou novamente — Um servo bem alimentado e satisfeito é um banquete ainda mais delicioso!

O jovem sueco ergueu os olhos e encarou a face do vampiro, que agora delineava seu rosto com a ponta da unha.

— E eu quero prova-lo por inteiro, Aphrodite! — continuou Camus, agora deixando escapar um sorriso sensual que exibia ligeiramente suas presas de tom extraordinariamente branco — Por isso, coma a vontade, e beba também. Essa safra é deliciosa.

Afrodite deu um leve sorriso.

Não podia negar a si mesmo que estava completamente envolvido no jogo de sedução daquele imortal, afinal que ser humano era capaz de resistir à libido e sensualidade extraordinárias de um vampiro?

— Tem razão. — disse o músico retornando a taça aos lábios para dar outro gole generoso no vinho — É suave, e ao mesmo tempo marcante... Deixa um leve adocicado na boca, e a língua dormente! O senhor tem muito bom gosto, mestre Camus. Agora sei por que escolheu esse vinho! — outro gole, e dessa vez passou a língua entre os lábios tintos ao afastar a taça da boa sem quebrar o contato visual com o Cesarem.

Camus estava completamente fisgado por aquele humano.

Quanto mais olhava para Afrodite mais se dava conta de que algo definitivamente estava errado consigo, uma vez que nunca desejara tanto beber o sangue de um humano como desejava naquele momento.

Contudo, não lhe parecia ser o suficiente apenas beber Afrodite.

Não!

O jovem músico era como um dos seus amados vinhos. Precisava degusta-lo lentamente, sentir cada aroma, cada nota de seu elixir vital, experimentar o contraste da pele fria com sua pele quente, mergulhar no perfume de rosas que os cabelos dele exalava...

O frenesi que Afrodite despertava em Camus não era nada comum, já que possuía vários servos, e nem mesmo com Isaac, seu preferido, o francês nem de longe era arrebatado por tais desejos.

Afrodite definitivamente mexia com algo dentro de si do qual não tinha controle.

Sentia ganas em não apenas alimentar-se dele, mas tocá-lo, protege-lo...

Por isso, quando Degel, o líder de seu clã, lhe enviou o comunicado do Conselho acerca da expulsão dos Espectros das Sombras e da declaração de guerra, Camus tomara a decisão de ficar em sua mansão, onde também estava instalado um dos tantos laboratórios de pesquisa Cesarem, tanto para proteger as pesquisas cientificas, assim como dados e amostras que estavam sob sua tutela, quanto para proteger Afrodite.

Essa necessidade de salvaguardar aquele humano por si só deveria ter algum significado que ainda desconhecia, já que como cientista procurava lógica em quase todos os âmbitos de sua pós vida.

Mas o que Camus sentia por Afrodite parecia não ter nenhuma lógica.

Após algumas palavras trocadas e mais duas ou três traças de vinho, Afrodite terminou a refeição e agradeceu ao Cesarem, que se levantou da cadeira e estendeu a mão para si.

— Que bom que gostou. — disse o francês pegando na mão do sueco — Venha, vou te mostrar toda a casa, assim, quando eu estiver ausente durante o dia, ou nas noites em que viajo a negócios, você non precisará de guias. Poderá ir à parte que desejar sozinho.

— Sozinho? — perguntou surpreso o garoto.

— Oui. Sozinho. — respondeu o ruivo conduzindo o pianista para fora da cozinha.

Camus era nobre, por isso gostava de dar a doce ilusão a seus servos de que eram livres, quando na verdade os mantinha presos em jogos de sedução, até que, cativos de sua presença imponente e misteriosa, não desejassem mais ir embora.

— Eu sei que aquela serpente velha do Shaka non o deixava circular a vontade pela casa... — continuou o francês — Ah bon, de fato, se eu tivesse em minha casa uma joia rara como você também iria querer escondê-la dos olhos traiçoeiros e cobiçosos... Sabe como são as crianças da noite, non sabe?

— Sim... eu sei. — o sueco sorria, e tinha de novo a face levemente corada.

— Nunca se deve confiar em vampiros! — Camus também ria, já que a ironia servia para ele, uma vez que chegou a quase tomar Afrodite de Shaka debaixo do teto do Setita. Aproveitou a deixa para jogar com as palavras — Mas, quero que saiba que aqui, em minha casa, você non é um prisioneiro. Aqui a porta do quarto de cada servo está sempre aberta. Inclusive, eles podem sair da mansão quando quiserem... Com você non será diferente. Se desejar pode sair para passear sempre que quiser.

Nessa hora o pianista olhou para o ruivo e ergueu as sobrancelhas surpreso.

Aquilo era de fato novo para si, que nos anos em que vivera com Shaka jamais pôde transitar livremente pela casa, muito menos sair sozinho. Nas raras vezes em que o sumo sacerdote lhe permitia sair, sempre era escoltado por um ou mais carniçais. Sendo assim, a “liberdade” que seu novo mestre lhe oferecia lhe era ao mesmo tempo nova, estranha e tentadora!

E Camus sabia disso. Sabia que Shaka era rigoroso, então jogava justamente com isso. O ruivo era mestre em influenciar e encantar o gado até que se tornassem prisioneiros sem ao menos perceberem, presos na ilusão de que estavam ali por escolha própria.

— É sério isso? — perguntou, ainda não muito convicto.

— Certamente! Todavia, se non for apreciador dos solitários passeios ao ar livre podemos dá-los juntos. Seria muito agradável caminharmos pelos belos jardins parisienses a luz do luar, non? Mas, quero que saia de dia, que pegue Sol... Temo que esteja um tanto anêmico. Amanhã lhe apresentarei Isaac. Ele será uma boa companhia para você. Isaac costuma caminhar e se exercitar no parque a poucos quilómetros do bosque todas as manhãs. Poderá ir com ele se desejar.

— Não tenho o costume de sair. Não me importo. Se tiver livros e algum instrumento já me basta. — disse Afrodite.

— Ora! Então você está no lugar certo! — Camus lhe sorriu, e após mais alguns passos em direção a uma grande porta a abriu revelando uma enorme e luxuosa biblioteca.

— Minha... nossa! — exclamou o músico ao divisar estantes de livros a perder de vista.

Ali também haviam muitos divãs, poltronas confortáveis, escrivaninhas e prateleiras intermináveis abastadas com o que parecia ser material de pesquisa ou estudos analíticos. Mas, de imediato o que mais chamou a atenção do sueco foi o que havia mais fundo do recinto.

Negro como a noite sem luar, reinando imperioso e absoluto sobre um tapete vermelho havia um grande piano de calda.

Parecendo hipnotizado pelo instrumento Afrodite caminhou lentamente até ele, deslumbrado com sua beleza e imponência. Seus olhos brilhavam refletindo a luz quente e tímida das velas que se acenderam em torno do piano assim que Camus bateu duas palmas.

— E então? O que achou? — perguntou o ruivo sabendo que havia impressionado o jovem.

— Incrível! — Afrodite respondeu com voz alegre e deslumbrada — É muito maior que a biblioteca da casa do mestre Shaka! E... esse piano! — deslizava as mãos pela madeira negra envernizada como um amante que acaricia de maneira devota o corpo da pessoa amada — Nunca vi mais magnifico!

— Sabia que iria gostar dele. Quanto ao tamanho da biblioteca... Bem, eu sou cientista, leio muito. — disse Camus, enquanto observava cada detalhe de Afrodite com olhos felinos. Estava atento, uma vez que toda sua relação de mestre e servo dependia daquele primeiro contato, e de como Afrodite responderia a sua influência sobre ele.

Mas, mesmo concentrado em seu trabalho de dominar e cativar seu futuro servo, Camus também era cativado por ele.

Os cabelos prateados do sueco eram como uma entidade viva que bailava ao entorno de si conforme ele andava.

Aliás, tudo em Afrodite era uma explosão de vida com intensidade suficiente para abalar as estruturas daquele francês sisudo, e Camus capturava cada gesto sentindo o frenesi que ardia em seu peito tornar-se cada vez mais intenso, beirando o insuportável.

Afrodite então puxou a banqueta junto do instrumento e abriu a tampa escura revelando as teclas, as quais tocou com delicadeza produzindo notas suaves de uma melodia singela e agradável aos ouvidos.

Vagarosamente, o Cesarem caminhou até ele e se colocou de pé atrás da banqueta, então, enquanto Afrodite dedilhava as teclas de olhos fechados, analisado a afinação do piano, Camus enterrava seus dedos nas longas mechas louríssimas de seu cabelo, ora acariciando com as pontas das unhas o couro cabeludo do pianista, ora levando algumas mechas até seu próprio rosto para aspirar o perfume único e delicioso que elas exalavam.

Entregue àquela carícia Afrodite tombou a cabeça para trás, e ainda dedilhando as teclas do piano de olhos fechados a encostou no peito forte do francês, deixando escapar em seguida um languido gemido que aos ouvidos de Camus soara mais encantador que a melodia tirada do piano.

O Cesarem então correu ambas as mãos pelo rosto do músico até seus dedos frios delinearem o pescoço.

Agora era Camus quem gemia sensualmente ao sentir, por debaixo da pele fina e alva do pescoço do garoto, o pulsar frenético da vida que corria em suas veias.

Parecia até que os papeis haviam se invertido ali.

Era Afrodite quem agora hipnotizava e seduzia Camus com seu corpo vivo, seu odor único, sua doçura cativante e sua música belíssima.

— Aaaaah... Aphrodite! — sussurrou o vampiro ao curvar o corpo para frente e mergulhar o rosto nos cabelos do músico, enquanto ainda mantinha as mãos em torno de seu pescoço.

— Hum... você me quer? Mestre Camus! — o pianista gemeu em resposta, e logo em seguida sentiu o Cesarem correr uma das mãos até sua nuca e agarrar com força seus cabelos.

Com um movimento tão brusco quanto ligeiro, Camus puxou a cabeça de Afrodite para trás e o fez se levantar da banqueta.

Estava no limite do controle da Besta.

Não era capaz de esperar nem mais um segundo para saciar sua fome do sangue de seu novo servo.

Assim, de pé, corpos colados um ao outro, as costas do sueco tão pregadas ao peito do francês que mal o ar passava por entre eles, ainda tendo os cabelos segurados com força por Camus, Afrodite tinha a cabeça inclinada sobre seu ombro, e de olhos abertos agora divisava os olhos bestiais do Cesarem a lhe analisarem em frisson.

E por todos os deuses, como eram lindos os olhos de Camus!

As íris incandescentes e hipnóticas do francês eram tudo em que o pianista conseguia pensar naquele momento, e diante daquele olhar predatório não sentiu medo nem hesitação. Seu corpo todo formigava, estremecido de excitação e volúpia.

— Oui! Eu te quero! Muito! — sussurrou o Cesarem com voz rouca e gravíssima, antes de abrir a boca e mergulhar naquele pescoço como se sua existência dependesse do sangue daquele garoto.

A mordida foi lenta, suave e comedida.

As presas enormes de Camus rasgaram lentamente a carne de Afrodite em uma profundidade suficiente para fazer o sangue pulsar para fora da ferida em jatos vigorosos a serem de pronto sugados com avidez pelo francês.

Levando ambas as mãos para trás, Afrodite agarrou nas vestes do vampiro e fechou os olhos. Gemia em delírio, remexendo suavemente o corpo e contraindo os dedos dos pés e das mãos, uma vez que o prazer de sentir os lábios frios do imortal a massagearem seu pescoço a cada nova golada lhe era sublime.

O verdadeiro beijo de um vampiro.

— Aaaah... Camus! — outro gemido languido, e a cada segundo que passava o Cesarem sentia seu corpo mais vivo, sua libido mais latente.

O sabor marcante do vinho era um detalhe a parte que tornava Afrodite um banquete ainda mais delicioso, e caso Camus não tivesse controle absoluto de sua Besta interior certamente consumiria aquele garoto até sua última gota de sangue.

Sendo assim, quando sentiu o corpo de Afrodite dar sinais de debilidade, desceu os braços até sua cintura, sustentou seu peso e com cuidado afastou as presas de seu pescoço, lambendo a ferida em seguida para que cicatrizasse.

— Aaaaaaah! Tão delicioso! — sentiu o corpo vivo novamente estremecer ao sussurrar ao pé da orelha do sueco.

Camus então tomou o músico nos braços e o carregou no colo até sua suíte.

A decoração era minimalista, porém não faltava requinte e bom gosto, fosse nos poucos móveis em estilo vitoriano, nas cortinas de tecido escuro e espesso, ou na enorme cama de lençóis negros bordados em arabescos.

Ao sentir-se ser deitado sobre o colchão macio e ter as sandálias egípcias retiradas, Afrodite despertou do transe no qual havia se perdido. Piscou os olhos algumas vezes e remexeu-se entre os lençóis, capturando a atenção de Camus que terminava de lhe ajeitar a túnica.

— Pardon! Eu acho que me excedi. — disse o Cesarem ao cruzar seus olhos ambares com os azuis muito claros — Você desmaiou. Non deveria ter bebido tanto... Ainda está fraco. Melhor descansar um pouco. — sentou-se na beirada da cama.

— Tudo bem. — o músico sussurrou macilento.

— Sente-se bem?

— Me sinto... ótimo! — disse o sueco, que olhava fixamente para um ponto qualquer no lustre de cristais vermelhos que havia no centro do quarto, depois, após uma breve pausa em que ficou em silêncio absoluto, apoiou as mãos no colchão e ergueu o tronco, observando Camus massagear seus pés — Que está fazendo?

— Ora, uma massagem. — o ruivo respondeu simplesmente. Sentia que Afrodite já havia sido preso em sua teia de sedução, mas continuava em seu empenho movido por algo que nem ele mesmo sabia o que era.

— Por que?

— Por que?... Ora, porque essas sandálias que aquele maluco Setita te obrigava a usar devem ser muito desconfortáveis. A sola é de madeira! Onde já se viu.

Afrodite não pôde conter o riso.

— Sim... de fato. Elas são terríveis, mas não me importo. E também não precisa fazer isso. — disse o músico de forma gentil, que não se lembrava de ter tratamento igual vindo de Shaka, tampouco ter sentido semelhante arrebatamento quando o sumo sacerdote se alimentava de si.

No entanto, havia algo que Shaka lhe proporcionava que Camus não havia lhe dado, e era justamente disso que agora sentia necessidade visceral.

Pegando Camus de surpresa, Afrodite encolheu as pernas e num gesto brusco ajoelhou-se sobre a cama para em seguida esticar os braços e agarrar com força a gola do colete que o Cesarem usava por cima da camisa de seda.

Sem nenhum decoro o músico puxou o vampiro para junto de si até que ficassem cara a cara, nariz com nariz, olhos vidrados um ao outro e lábios, agora ambos quentes e cálidos, quase a se tocavam.

Ao sentir o hálito quente e doce do pianista Camus estremeceu.

Teve ímpetos em tomar aquela boca arfante e voluptuosa ali, mas Afrodite foi mais rápido e mergulhou nos lábios do vampiro os provando com um beijo intenso e pleno de paixão e euforia.

Camus até tentou conter sua libido, mas o corpo do pianista era tão quente e sua pele tão macia que julgava capaz de enlouquecer se não o pudesse tocar.

Assim sendo, enquanto beijavam-se de forma afoita o Cesarem corria ambas as mãos pelos ombros e braços nus do sueco até alcançar as costas esguias e arranhar de leve a pele ligeiramente eriçada.

Afrodite gemeu extasiado na boca de Camus, que assim como o músico julgava que aquele beijo e aqueles toques beiravam o sublime!

Em séculos de maldição o alquimista, cuja pós vida era exageradamente regrada e cercada por lógica, agora admitia em pensamento que o sentia pelo músico sueco cartilha ou receita alquímica nenhuma podia decifrar.

Camus finalmente se permitia entregar a um sentimento que há muito guardava dentro de si, adormecido e incólume.

O garoto de cabelos cor de prata fora o único que conseguira aquecer coração gélido e morto do Cesarem, e o fez através de sua inocência e suavidade, mostrando a Camus o quanto é bela a vida humana justamente por ser efêmera, como as notas musicais que ganham vida enquanto alguém manuseia o piano e logo depois se calam.

Os lábios sedentos, agora de volúpia, do vampiro desceram pelo pescoço do pianista até os ombros, traçando um caminho de beijos e sutis lambidas.

Afrodite soltou um suspiro extasiado quando sentiu as unhas do francês roçarem de leve sua pele no momento em que ele puxou para baixo as alças da túnica que vestia o deixando nu até a cintura.

Esgueiraram-se pelo leito entre beijos e carícias mútuas. Camus hipnotizado pelo movimento de sobe e desce do peito alvo do pianista, que arfava sôfrego de desejo, já que tudo naquele vampiro parecia mexer com seus sentidos. Os cabelos cor de fogo, os olhos abrasadores, as mãos hábeis e delicadas...

Contudo, não era apenas os beijos, o corpo, a essência imortal de Camus que Afrodite desejava.

Ele desejava mais!

O pianista desejava sentir o sabor de seu novo mestre, e com ele o frenesi que só o sangue imortal é capaz de proporcionar.

Foi exatamente guiado por esse desejo maior que Afrodite, enquanto Camus lhe beijava o peito alvo e os mamilos rosados, segurou no punho do francês e o puxou até seu rosto, beijando o pulso enquanto direcionava um olhar suplicante ao Cesarem.

— Me dê um pouco, mestre... — sussurrou em doce angustia.

Imediatamente, os beijos que Camus distribuía sobre o torso do sueco cessaram.

Aquele pedido quebrara completamente o encantamento do momento, devido ao seu real significado.

Aturdido, o Cesarem ergueu a cabeça e encarou os olhos azuis do jovem músico com vigor.

— O que disse?

— Me dê um pouco. — Afrodite repetiu. A respiração arfante, a face corada e pequeninas gotículas de suor na fronte denotavam seu estado alterado de euforia e ansiedade — Só um pouco. Só preciso de um pouco.

Ficaram a se encarar calados por algum tempo, até que, decepcionado, Camus levou a outra mão ao rosto de Afrodite e lhe fez uma carícia singela, assumindo um semblante triste.

Por isso tinha sido tão fácil para Camus persuadi-lo...

Por isso aquela criança humana caíra de maneira tão rápida em suas armadilhas de sedução...

Afrodite era um servo viciado.

— Non posso acreditar. — disse o Cesarem em tom pesaroso, pois era como se parte do encanto tivesse se perdido — Aquela víbora o tornou dependente... “Maldito seja, Shaka!” — completou em pensamento o ruivo.

— Não! Não! Eu só preciso mesmo de bem pouco! Mestre Shaka dava-me apenas o necessário... Só algumas gotas... Por favor! Só preciso de umas poucas gotas, mestre. — suplicou o músico.

— Shii! Non o chame de mestre. — Camus disse sério — E pare com isso. Non quero que suplique por nada! Venha cá.

Camus então rolou seu corpo para o lado e encostando as costas na cabeceira da cama puxou Afrodite para um abraço. Estava irritado e bravo com aquela descoberta, mas buscou forças para se acalmar e dar um beijo terno na fronte suada do músico.

Shaka havia induzido o pianista a depender, físico e psicologicamente, de sangue vampírico para torna-lo obediente, servil, e constatar aquilo entristeceu e irritou deveras ao Cesarem.

Servos poderiam ser mantidos cativos através de pequenas doses de sangue do vampiro mestre. Inclusive, essa era uma forma muito comum e prática de se conseguir servos fiéis de maneira rápida e duradoura.

Contudo, como cientista Camus sabia o quanto esse método era nocivo ao corpo humano, pois além de perigoso o sangue vampírico altera o metabolismo humano deixando os servos dependentes, uma vez que o sangue passa a agir como uma droga das mais agressivas e viciantes.

Camus julgava que era muito mais nobre que os imortais prendessem seus servos em teias de sedução a torna-los cativos pelo sangue, a um passo de se tornarem zumbis, nem vampiros nem humanos, apenas seres débeis sem vontade própria que existiam somente para servirem de alimento, dedicando sua existência a mendigar uma gota de sangue imortal que fosse...

Era nisso que Shaka estava transformando aquele jovem. Mas, nobreza era uma virtude que jamais se deveria esperar de um Seguidor de Seth.

— O que Shaka fez a você é uma atrocidade. Eu non vou seguir com isso, portanto non insista. — sussurrou o Cesarem, que resignado segurou em ambos os braços de Afrodite e o afastou de si. — Non possuo servos viciados. A non ser que queira se tornar um carniçal sem vontade própria non consumirá sangue vampírico em minha morada.

— Mas... mestre... Eu sinto tanta dor! Só um pouco é suficiente. Por favor! Eu te imploro. Um pouco apenas não fará de mim um zumbi. — choramingou o pianista, partindo o coração do francês.

— Afrodite... Você está doente. Está doente justamente por isso. Você non pode consumir sangue morto. — disse o francês pesaroso, encarando os olhos azuis marejados.

— Se estou doente... o senhor tem a cura! Não tem? — insistiu o sueco inclinando o corpo para frente quase tocando seus lábios aos de Camus — Por favor, só um pouquinho... Como mestre Shaka fazia... Eu sinto dor...

— Já disse que non! Non insista! — o francês novamente o puxou para um abraço — Eu sou seu novo mestre. Aqui será diferente, mon petit. Estará livre desse mal.

Inconscientemente irritado Afrodite espalmou as mãos no peito de Camus e apartou o abraço, se afastando de supetão com um gesto rude.

— Eu não quero ser livre! — gritou tomado em ira, perturbado e emocionalmente confuso — Não entende? Eu quero sentir! Preciso sentir o... êxtase... Só assim não sinto dor!... De que adianta portas destrancadas se você não me dá o que eu mais quero, o que eu preciso? Por favor, eu te imploro mestre. Só um pouco!

Em desespero, Afrodite esticou o braço e novamente agarrou no colete de Camus, mas esse logo se desvencilhou, e apressado desceu da cama apontando para o músico com o dedo indicador.

— Você fique ai. Non se aproxime! — ordenou para o jovem ajoelhado entre os lençóis que olhava para si com semblante irado.

O Cesarem em contrapartida encarava o músico com um olhar decepcionado, sentindo seu coração morto partido.

A súplica do outro lhe era instigante demais, já que o ato de dar seu sangue à um servo era por demais excitante, mas ele não iria tornar Afrodite dependente de seu sangue. Não como fizera Shaka.

O que sentia pelo músico sueco era legítimo e esperava que ele também o desejasse da mesma maneira, sem dominância através do sangue.

— Mestre... — sussurrava o pianista descendo lentamente da cama.

— Já disse para não se aproximar.

— Está bem. Me perdoe. — disse Afrodite de pé ao lado do leito — Não vá embora... Eu só queria um pouco, porque dói aqui dentro... — espalmou uma das mãos sobre o peito —... Mas, eu estou em sua casa e seguirei as suas regras, mestre Camus. Perdoe minha insolência.

Camus pensou em caminhar até ele e abraça-lo, mas na mesma hora dois toques na porta foram ouvidos e a voz de Hyoga se projetou do outro lado.

— Mestre... Sinto importuná-lo, mas os Cesarens chegaram. Degel lhe enviou uma mensagem através de seu porta-voz e este precisa regressar à sede Cesarem assim que transmiti-la.

Camus correu os olhos aflitos pelo rosto úmido de lágrimas e suor de Afrodite e manteve sua postura firme.

— Diga-lhes que estou indo, Hyoga. Obrigado. — Camus respondeu em voz alta para que o jovem vampiro o ouvisse, depois baixou novamente o tom para falar somente à Afrodite enquanto caminhava lentamente até ele — Non chore, confie em mim. Essa dor vai passar. Como cientista alquímico eu lhe dou a minha palavra de que vai passar. Você está em abstinência, e curar essa dependência non será fácil, mas non está sozinho.

Chegando até o pianista Camus o abraçou com ternura e devoção, apertando o corpo menor contra o seu num gesto protetor, depois conduziu o músico até o banheiro da suíte onde havia uma enorme banheira.

— Tenho negócios urgentes a resolver com os membros do meu clã. Enquanto isso quero que tome um banho e tente relaxar. Providenciei roupas confortáveis para você. Estão no closet, na terceira prateleira. Aqui non terá que se vestir como um escriba ou escravo do Egito Antigo. — falava enquanto colocava a banheira para encher, irritado com aquela situação como um todo — Há toalhas no armário... Fique à vontade. Logo regressarei. Nada de ruim vai lhe acontecer mon cher.

— Eu vou dormir aqui na sua suíte... com o senhor? — Afrodite perguntou em voz baixa, e surpreendido Camus parou o que fazia e olhou para ele.

— A menos que non queira... mando preparar um quarto só para você. — Camus respondeu com um sorriso sedutor no rosto.

— Eu... Eu quero. — disse o músico corando levemente.

— Ótimo! — sorriu novamente.

Sem falar mais nada o vampiro deixou o quarto e seguiu até a sala onde os membros de seu clã, trinta e cinco Cesarens, o aguardavam ansiosos. Entre eles estavam Hyoga e o porta voz de Degel, um vampiro magro de olhar penetrante conhecido como Cristal.

Camus cumprimentou um a um com um aperto de mãos cordial, e quando colocou-se frente à frente com Cristal foi direto ao ponto.

— Qual a mensagem de Degel, Cristal?

— Mestre Degel deseja informar-lhe que os Cesarens entrarão na guerra declarada pelo Conselho contra o clã dos Espectros das Sombras.

— Hum... Non esperava menos dele. Alguma aliança foi feita? — disse Camus arqueando uma das sobrancelhas.

— Sim. Os Cesarens firmaram aliança com o clã dos Filhos da Cacofonia, tanto pela proximidade de suas sedes quanto pelos interesses mútuos que movem a ambos os clãs. — informou Cristal.

— Isso me parece perfeito! Além de aumentar consideravelmente nosso contingente, Ábafica, o líder dos Filhos da Cacofonia, é um excelente estrategista! — analisou Camus.

— Mestre Degel informa que o seu pedido para permanecer nessa sede durante os confrontos foi aceito. Seu dever, Camus, é proteger o laboratório, as pesquisas e amostras, e para isso mestre Degel mandou reforços. — Cristal apontou para os vampiros que chegaram ali consigo — Nosso contingente ainda é pequeno, mas assim que possível Albáfica enviará para cá alguns dos Filhos da Cacofonia para sua segurança. Outras sedes também necessitam de reforços. Há muitos segredos contidos nas nossas pesquisas, e todos os laboratórios precisam ser protegidos.

— Eu compreendo e agradeço. — Camus respondeu em tom vigoroso — Diga a mestre Degel que protegerei esta sede com todo meu afinco. Está dispensado, Cristal.

O vampiro de olhar penetrante fez uma reverência a Camus e deixou a sala em silêncio acompanhado por Hyoga.

Um automóvel já o esperava do lado de fora da mansão para conduzi-lo até o hangar que o levaria de volta à sede Cesarem na Bulgária onde Degel residia.

Quando Hyoga regressou Camus lhe pediu para que providenciasse acomodações a todos os Cesarens que haviam sido enviados para reforçar as defesas da sede parisiense, além de lhes fornecer um generoso jantar de boas vindas.

Assim, enquanto Camus pedia licença para se recolher, já que o alvorecer logo se anunciaria no horizonte, Hyoga seguia até os fundos da propriedade onde em um porão cinco jovens eram mantidas em cativeiro desde a noite passada, quando foram capturadas.

Camus sabia que Degel adotaria a estratégia de reforçar a sede de Paris, logo achou de bom tom agradecer aos imortais que se colocaram a sua disposição com uma boa refeição, depois eles que providenciassem sua própria caça.

Os soldados Cesarens ficaram de fato muito satisfeitos com a cortesia, e após sorverem o sangue das jovens até a ultima gota recolheram-se nos quartos aguardando a noite e inicio dos combates.

Na suíte principal, poucos minutos antes do amanhecer Camus caminhava a passos curtos e lentos em direção a seu leito, delineando com os olhos âmbares flamejantes cada detalhe do corpo perfeito deitado sobre os lençóis negros.

De bruços, Afrodite ressoava baixinho enquanto dormia. Vestia uma das túnicas egípcias que havia trazido em sua bagagem.

Camus teve muita pena dele. Sabia que tão cedo não perderia antigos e tão enraizados hábitos.

Com certo pesar sentou-se na beirada da cama e passou a velar o sono do pianista, hipnotizado pelas curvas daquele corpo, pelo perfume dos cabelos, pela sinfonia de vida que ardia dentro dele.

Após alguns momentos de pura contemplação, o Cesarem retirou o colete, depois a camisa, e em seguida os sapatos e a calça. Apenas de roupa de baixo subiu na cama e arrastou-se até o centro onde Afrodite estava deitado, então encaixou perfeitamente seu corpo ao dele e puxou o lençol para cobrir a ambos.

Abraçado ao pianista, Camus mergulhou seu rosto nos cabelos prateados de perfume inigualável. Uma mistura suave de rosas com o doce aroma da vida.

Sonolento e cansado, Afrodite apenas se remexeu para encaixar-se no corpo frio do vampiro e voltar a dormir.

O sol despontava no horizonte, e enquanto Camus pensava na iminência da guerra que aconteceria logo mais, tocava com as pontas dos dedos a pulseira que Afrodite trazia junto ao punho, e a qual não tirara desde que chegara.

Com o pensamento longe o francês analisava os desenhos de hieróglifos, escaravelhos e símbolos egípcios, até que notou outro adereço, uma correntinha dourada em torno do pescoço de Afrodite.

De certo o músico a havia colocado após o banho, já que não a usava quando se beijaram momentos antes.

Curioso o Cesarem enfiou a mão dentro da túnica do servo e de lá apanhou o pingente o erguendo até que seus olhos pudessem analisar do que se tratava.

— Um apito de ondas altas? — perguntou a si mesmo, surpreso e curioso.

Desviou os olhos do artefato e olhou para o belo rosto de Afrodite que dormia tranquilamente.

— Dieu! Shaka só podia estar brincando! Que miserável! — resmungou, depois devolveu o pingente ao lugar de onde o tirara, o peito do pianista — Nunca mais vai precisar disso, mon ange. Vai ficar tudo bem! — sussurrou no ouvido do sueco.

Com carinho Camus beijou a lateral do rosto de Afrodite e fechou os olhos.

Enquanto esperava o sono chegar o Cesarem divagava acerca de tudo que havia acontecido desde o despertar de Seth, no bem, e principalmente no mal que a presença de Mu entre eles, vampiros e gado, poderia acarretar.

Mu era um demônio primitivo e incontrolável, e mesmo Shaka lhe afirmando ter controle sobre ele, Camus sabia que isso não era possível.

O amor que o sumo sacerdote sentia pelo Nut o cegava e lhe dava uma falsa ideia de controle.

O Cesarem temia por seu amigo Setita, mas nada poderia fazer. Shaka acreditava em destino, ele não.

Camus era lógica pura e para ele um demônio ancestral amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo jamais poderia ser controlado.

Com essas inquietações lhe perturbando a mente, o francês pegou no sono acolhendo o pianista em seus braços.

Se a Ciência não podia explicar os desejos da alma, não podia explicar por que ele, um vampiro sábio e erudito de repente se viu arrebatado por um simples humano, então talvez Shaka tivesse uma chance de sobreviver ao lado de Seth.

Camus queria acreditar que sim, mesmo sendo descrente.

Tumblr da Ju

Fic trio ternura

Notas finais
Será que a sorte finalmente sorriu para Afrodite? A fic entra na reta final e preparem vossos corações *-* beijos *-*