A Máscara de Seth
24 Capítulo 24
Notas iniciais

Na mesma noite em que Afrodite chegava à França, Shaka e Mu desembarcavam na cidade do Cairo, a poucas horas do amanhecer.
Haviam aberto mão do uso do teleporte, uma vez que este consumia muito de seus dons das trevas e do sangue armazenado em si mesmos, e na iminência da guerra todo desperdício deveria ser evitado.
Sendo assim, enquanto Afrodite pegava um voo para Paris, os dois vampiros pegavam outro para o Egito, onde estava concentrada a maior parte dos Seguidores de Seth.
O clã Setita se espalhara pelo mundo desde tempos remotos, há milênios difundindo sua corrupção e influência em âmbito global, embora ainda concentrassem seu maior contingente de membros em torno do berço de sua origem, o Egito.
Logo após Geisty dos Pietone deixar a mansão de Shaka regressando à Romênia, o sumo sacerdote já se encarregara de enviar um comunicado a seu clã fazendo uma convocação geral.
A sede dos Seguidores de Seth não poderia se localizar em outro lugar que não fosse na própria Necrópole de Gizé, nos arredores do Cairo, onde recôndito aos olhos humanos havia um gigantesco templo Setita coberto em ouro, o qual fora erguido no subsolo da área que compreende as três grandes pirâmides, cuja entrada ficava em uma passagem secreta localizada na base de Quéops, a maior e mais antiga pirâmide do complexo.
O caminho desde a entrada de Quéops até o interior do majestoso Templo era estreito, úmido e escuro. A parca iluminação se dava apenas por algumas tochas dispostas em postos estratégicos.
Era por essa passagem que Shaka e Mu seguiam em fila acompanhados por cinco Seguidores de Seth que os foram buscar no hangar e os conduziram em um carro até ali.
O sumo sacerdote vestia a já tradicional capa negra com capuz por cima das vestes ritualísticas, joias e adereços. Não precisava mais da pintura azul, visto que o tom de sua pele nas extremidades do rosto agora exibia essa cor sempre que em sua forma Bestial.
Mu vestia o mesmo manto com capuz sobre as vestes egípcias, mas trazia o rosto oculto por uma máscara; uma carranca com a face de um chacal.
Durante o percurso, o qual parecia bem mais longo que o imaginado, Mu não disse uma só palavra, mas, apesar da postura estranhamente quieta, Shaka podia sentir a agitação que consumia o Nut por dentro dado o laço sanguíneo que partilhavam.
Atento a tudo a seu redor desde que chegaram ao Cairo, Mu analisava admirado os inúmeros planos da arquitetura majestosa que outrora ele e sua família haviam projetado, mas que não tiveram tempo de executar, afinal as pirâmides datavam de séculos depois do desaparecimento de sua família. No entanto, naquelas paredes úmidas estavam grafados os escritos que contavam parcialmente, ainda que cheio de lacunas, a história de sua família. Ali os antigos e mais atuais sacerdotes Setitas narraram como haviam mantido o legado dos deuses egípcios, fosse difundindo a adoração aos membros da família real, erguendo os Templos por eles projetados ou criando uma legião de adoradores, os Seguidores de Seth.
Nada passava despercebido pelos olhos fúlgidos de Mu, que apesar da penumbra densa podia ler com clareza cada hieróglifo ou código mais antigo.
A necrópole havia sido projetada junto de Aset, Osíris e Rá, e seria seus novos mausoléus sempre que tivessem que dormir por séculos na transição entre governos. Seria guardada por exércitos de imortais e também de homens, e marcaria a hegemonia de sua dinastia.
Nada disso aconteceu, mas Mu precisava admitir que apesar das modificações em sua execução a necrópole construída pelos Seguidores de Seth era igualmente extraordinária, visto que resistira a milênios de história e escondera dos homens com exímia eficácia seu verdadeiro propósito.
Seth não podia negar a si mesmo que caminhar por aquelas galerias subterrâneas o enchia de nostalgia, mas também de orgulho. E Shaka podia sentir todo esse deslumbre que vinha do amado como se fosse o seu próprio.
Próximo a chegar ao final do túnel, já na entrada do Templo Setita, o sumo sacerdote parou, deu um passo para o lado e cedeu passagem aos membros do clã que os acompanhavam. Os vampiros seguirem até um grande arco dourado que demarcava o limite do caminho pelo qual vieram e após cruza-lo Shaka então se voltou a Mu, retirou a máscara de seu rosto e olhou em seus olhos verdes de pupilas dilatadas devido à penumbra local.
Com um gesto delicado, o Setita pegou na mão do Nut e inclinando-se ligeiramente para frente encostou sua testa na dele, sem quebrar o contado visual.
— O que vai encontrar quando passar por aquele portal é a mais pura demonstração de que sua família conseguiu, mesmo que a duras penas, difundir o legado de sua existência. — disse o vampiro loiro com voz grave e firme — Todas as crianças da noite que aqui estão hoje o adoram acima de todas as coisas, acima até de si mesmas, e estão dispostas a entregar sua existência a ti sem a mínima sombra de incerteza. Muitas delas irão deixar de existir sim, pois é esse o maior propósito da guerra, porém muitas podemos poupar desse fim. Mu... sua decisão é audaciosa e plena de coragem, mas quero que me prometa que no mínimo sinal de que não deve prosseguir com o ritual não me impedirá de pará-lo. Somos muitos, Mu... Até mesmo para um vampiro com o seu nível de poder.
O Nut esboçou um sorriso de canto de boca.
— Quando deixei de ser o seu deus para ser apenas um vampiro muito poderoso, sumo sacerdote Shaka? Não deixe o seu coração falar mais alto que sua fé.
— Eu não perdi a minha fé. Eu só temo por você e quero ter certeza de que não me impedirá de zelar por sua segurança, que não me afastará. — disse Shaka com calma.
— Eu sei do risco que corro, meu amado. Eu tenho consciência do que estou fazendo e o faço por eles, mas também por mim e por você. — apertou a mão do sumo sacerdote que segurava a sua — Se isso te deixa mais tranquilo, sim eu prometo. Confio minha pós-vida a ti, Shaka, se sozinho eu não for capaz de interromper o ritual caso haja qualquer contratempo. Irei me manter conectado a você mentalmente, isso o ajudará a perceber quando eu estiver perto da exaustão ou do descontrole, então reabasteça-me de sangue vivo para que continuemos o ritual... Estou ciente de que não conseguirei fortalecer a todos os membros hoje, mas quanto maior o número que conseguirmos mais vantagem teremos contra nossos inimigos. Isso é uma guerra, e certos sacrifícios são necessários. — Mu respondeu com seriedade e convicção.
No entanto, Shaka ainda sentia o coração aflito e a vontade vacilante. Estreitou os olhos azuis selvagens apertando ainda mais a mão de Mu contra a sua.
— Sabe que meu temor não reside no perigo real de eles canibalizarem você. O Sanguinem Mitto é um ritual profano e proibido justamente porque nas Escrituras é dito que o vampiro doador dificilmente sai vivo, já que o frenesi dos demais acaba por descontrola-los e leva-los ao canibalismo... — insistiu Shaka com voz rouca e preocupada — Esse não será o seu caso, já que eles jamais conseguiriam cometer tal ato contra você, mas... Há o prazer do beijo vampírico!... Esse sim é o meu temor... Eu presenciei o quão perigoso o seu desejo sexual pode se tornar... Eu temo que...
— Eu estou ciente disso! — Mu interrompeu o sumo sacerdote — Desde que eu não prove o sabor do sangue, com a sua ajuda conseguirei adiar o frenesi e o descontrole do Consumo Conspícuo. Porém, não resta dúvida de que ele virá!... O desejo... o furor... É nessa hora que nosso amor será provado, Shaka. Neste momento somente você e o sangue fresco do gado poderão me deter, e você já sabe o que fazer.
Shaka meneou a cabeça em silêncio, depois fechou os olhos por alguns poucos instantes preparando-se para a loucura que estavam prestes a fazer.
Beijaram-se rapidamente. O Setita devolveu a máscara ao companheiro e quando enfim passaram pelo portal o Nut pode então entender o motivo da preocupação e de todo o zelo do sumo sacerdote para consigo.
Parado no imenso pórtico, com Shaka a seu lado, Mu tinha os olhos arregalados e o espírito em chamas. Recordava-se de ter visto apenas uma vez em toda sua existência uma imagem como a que seus olhos soturnos agora vislumbravam atônitos.
Ali, diante de si, estavam milhares de Seguidores de Seth. Contingentes inteiros de imortais a perder de vista, e que o aclamavam entoando hinos de louvor à Seth ajoelhados sobre o solo de mármore com suas capas negras reluzindo o tom dourado do ouro a cobrir as paredes do templo, o qual era refletido pelas chamas das centenas de velas e tochas distribuídas pelo local.
Nas paredes e gigantescas colunas, hieróglifos e ilustrações diversas narravam as façanhas dos deuses egípcios, então Mu pode reconhecer claramente as figuras de Rá, seu pai, ao lado de Aset, sua mãe.
Em destaque nas colunas mais ao fundo, Osíris era transpassado por uma lança, enquanto Ísis e Bastet abatiam centenas de bigas inimigas combatendo, sozinhas, um mar de soldados.
À frente, no majestoso altar, como não poderia deixar de ser havia uma gigantesca estátua de Seth em toda sua glória e imponência, ornada com a típica carranca grotesca em forma de animal e cetro na mão.
Aos pés da estátua achava-se um grande e suntuoso trono de ouro, e a seu lado quatro sacerdotes o aguardavam ajoelhados. Apesar da distância em que estavam Mu os reconheceu como sendo Shijima, Fudou, Shun e Asmita.
Ainda com o rosto protegido pela máscara e o capuz, o Nut olhava para tudo sem conseguir negar para si mesmo que havia ficado absurdamente impressionado com tudo que via ali, não apenas com o fato de agora ter consciência de que sua família, mais precisamente sua mãe, criou todo um clã poderoso de vampiros que não apenas resistiu e se fortaleceu no Mundo Novo, mas que também o adorava como uma divindade acima de tudo, até de si mesmos.
Não que a adoração em si fosse algo novo para Seth, o poderoso general de Eras ancestrais estava mais que habituado a ela, afinal quando governara o Egito, rituais e cultos em seu louvor eram comuns, mas era a devoção daquelas crianças da noite que mais tocava sua alma condenada. Seth podia sentir a vibração única e em sincronia daqueles milhares de vampiros. Era a fé deles, irresoluta e cega, que mais lhe chocava.
Diante daquela chusma inflamada foi também que teve certeza de que não daria conta de fortalecer a todos, não conseguiria levar o ritual até o final, pois eles eram muitos e seu tempo escasso. A inquietação de Shaka quanto ao ritual tinha fundamento, então estabeleceu para si mesmo que iria começar pelos membros mais poderosos, de gerações mais baixas, e iria até onde conseguisse.
Estava decidido a retribuir toda aquela devoção. Era Seth, o Caos, o deus daqueles milhares de imortais que tanto o aguardaram por milênios, sua única esperança, e não iria decepciona-los.
— Chegou a hora. — sussurrou o sumo sacerdote para o Nut.
Diante daquele oceano de almas amaldiçoadas, Mu deixou de sublimar sua Presença ancestral fazendo com que todos ali pudessem senti-la em sua mais pura essência, e imediatamente o coro de vozes que entoavam hinos em perfeita sincronia se calou.
Um silêncio sepulcral tomou conta do Templo Setita, e na mesma hora, como em um movimento exaustivamente ensaiado, a turba de Serpentes voltou seus olhos fantasmagóricos para o fundo da edificação, na ala oposta ao grande altar, e quando viram seu sumo sacerdote ali, já sem o capuz, acompanhado da figura que emanava aquela poder avassalador, imediatamente se dividiram em dois nichos abrindo uma passagem estreita por onde Shaka caminhou altivo sendo seguido de perto pelo Nut, que mantinha o rosto coberto pela máscara com carranca de chacal.
A Presença dominante e opressora de Mu fazia com que todos ali sentissem tremer os ossos.
Como insetos hipnotizados pelo brilho intenso do lampião aceso na noite, os Seguidores de Seth acompanhavam com olhos extasiados e espíritos siderados as duas figuras que caminhavam entre eles. Conforme seguiam no meio da chusma eram reverenciados, e mesmo que Mu ainda escondesse sua face, a Presença de Shaka, agora ainda mais poderosa, lhes fazia manter as convenções sem nada questionar.
Ao fim do corredor aberto e meio à multidão, Shaka seguiu para o altar fazendo sinal para que Mu viesse consigo e se colocasse a seu lado, e enquanto o Nut executava o movimento, às suas costas a turba de Serpentes voltava a ocupar todo o saguão, mantendo agora suas atenções completamente voltadas às duas figuras ao pé da gigante estátua.
Shaka retirou a capa negra a entregando a Fudou, e sem perder mais tempo deu um passo à frente para se pronunciar a seu clã.
— Seguidores de Seth. — disse o sumo sacerdote com imponência na voz grave e determinada.
Todos ali já estavam bem acostumados com a figura imponente do líder Setita. Os acessórios ritualísticos que ornavam seu corpo por inteiro, como colares, braceletes, anéis e tatuagens, não eram novidade aos seus súditos, porém a pele em tom naturalmente azul nas extremidades do rosto e dos dedos das mãos, somado aos olhos incrivelmente negros de orbes âmbar faiscantes, eram claros indícios de que Shaka elevara seu poder a níveis inimagináveis, e que este fato estava de alguma forma ligado ao vampiro que estava com ele, a quem alguns ali já haviam reconhecido pela Presença poderosa como sendo o novo membro ancestral apresentado em um pequeno culto ocorrido na Inglaterra. Todavia, seu poder e imponência agora pareciam completamente diferentes, mais fortes, mais intimidadores.
Esse era um dos motivos que mantinha as Serpentes caladas, sem questionarem sequer por um segundo o motivo de terem viajado de longas distâncias para estarem ali.
— Essa noite eu os convoquei para finalmente lhes dizer que nossa espera se findou! — continuou o sumo sacerdote.
Na mesma hora um alarido ecoou pelo salão. Gritos, urros, expressões de surpresa e dúvida se misturavam em um único retumbar de vozes exasperadas, então Shaka os fez se calar aumentando sua Presença vampírica.
— Ouçam com atenção! Quero que me ouçam com atenção. — pediu o sumo sacerdote, e sua voz retumbou entre as paredes de ouro do Templo das Serpentes — Estamos em guerra!
Novamente os ânimos se exaltaram, mas Shaka prosseguiu elevando a voz.
— Hoje, nós, Seguidores de Seth, oficialmente somos inimigos declarados do clã dos Espectros das Sombras, e de todo aquele que com eles fizerem qualquer tipo de aliança. Durante séculos, e mais acirradamente de algumas décadas para cá, nosso clã vem sendo caçado e seus membros exterminados um a um por essas almas sórdidas, mas agora basta! Hoje é o dia em que nós, Seguidores de Seth, passaremos a caçar e a exterminar cada membro dos Espectros das Sombras, um a um, até que não reste um único exemplar de sua laia podre e decrépita que registre sua passagem por esse planeta!
As palavras do sumo sacerdote eram inflamadas, incentivadoras, porém cada vampiro que ali estava conhecia bem suas limitações, e por isso permaneciam calados, chocados, surpresos.
Era certo para eles que não podiam enfrentar uma batalha contra os Espectros das Sombras de igual para igual, se não com poder tampouco com contingente, já que era sabido que os Espectros eram o clã com maior número de membros na atualidade.
Foi quando um deles, um vampiro mais novo e de espírito audacioso, tomou a frente e teve coragem de dizer o que todos ali não tiveram.
— LOUCURA! — ele gritou — Isto é um disparate! Uma loucura!
— SIM LOUCURA! — um coro de vozes, agora encorajadas, apoiou o manifestante.
— Vejo que o Reverendíssimo sumo sacerdote tem um aliado poderoso, que seu poder está elevado, mas é sabido que nenhum clã irá se unir a nós em um estado de guerra, meu sumo sacerdote. — continuou o vampiro — Isso é loucura! Por conseguinte, deveria saber muito bem que jamais venceremos os Espectros sozinhos! Eles são muitos! Perdoe-me, meu senhor, mas deve ter perdido a sanidade!
Shaka buscou o rosto de quem proferia aquelas palavras em meio a multidão, e o encontrando encarou seus olhos com firmeza, sem titubear.
— E quem disse que estamos sozinhos? — falou o Setita arqueando as sobrancelhas enquanto erguia ainda mais o rosto numa posição altiva — Seth está conosco! Ou será que perderam a fé em nosso deus?
— HERESIA! — outra voz em meio à turba gritou exaltada — Eu reconheço este que vôs acompanha! Eu o vi no culto da Inglaterra! Não ouse nos enganar com sua mentira herética, sumo sacerdote Shaka!
Antes mesmo que mais membros pudessem se juntar ao arco de incrédulos e acovardados, Shaka deu as costas à multidão incauta e olhou para Mu, radiante e aliviado, pois sabia que ele resolveria o problema da mesma maneira que fez anteriormente. O Nut não deixaria dúvidas de quem era, e não esperou mais para revelar-se.
Dando alguns passos à frente Mu se colocou em posição alinhada a estatua de ouro do deus que levava seu nome, então, de frente para os membros do clã, livrou-se do manto com capuz o deixando cair a seus pés revelando seu corpo. Manteve a máscara de chacal ocultando sua face, porém nem mais era preciso revela-la naquele momento, uma vez que sua Presença de poder avassalador e inimaginável falava por si só.
Seu poder era agressivo, e não apenas agia contra os imortais, mas contra tudo ali, fazendo o fogo nas tochas tremer, o solo sacudir e as estruturas maciças do Templo de ouro se trincar.
Súbito, um o forte deslocamento de ar levou todos os membros ao chão, golpeados por algo que não se podia ver, mas se podia sentir.
O poder de Seth era tão arrebatador que era como se a glória divina tocasse os corações sem vida de cada um presente naquele salão, adentrando os corpos mortos, os fazendo sentirem vivos em espírito e vontade.
Como em um balé ensaiado, todos os imortais que ali estavam tiveram ao mesmo tempo suas Bestas internas liberadas, assumindo sua forma vampírica involuntariamente por intermédio do poder liberado pelo Nut, pois esta era a vontade de Seth, esta era a vontade da Besta, que dentro de Mu vibrava junto à Presença de seu clã e os subjugava.
De maneira proposital Mu também havia liberado sua forma bestial a fim de tornar sua aparência mais imponente e assustadora.
Aterrorizados, e em uma espécie de histeria provocada pelo êxtase sublime do toque de deus em seus corpos e espíritos, todas as Serpentes, sem exceção, prostraram-se ajoelhados em um movimento sincronizado, mantendo apenas as cabeças erguidas para que pudessem olhar com os olhos injetados em graça a figura altiva no altar em toda sua majestade.
Seth!
Ouviu-se o retumbar das vozes em uníssono.
Seth!
Seth!
Acostumado aquele clamor, o Nut deu um passo à frente e finalmente retirou a máscara revelando seu rosto. As feições doces de Mu não mais dominavam seu semblante, o qual agora refletia todo o primitivismo e selvageria do general bélico que regeu o Antigo Egito por séculos nos primórdios das civilizações.
Seth lançou um olhar flamejante para a turba à seus pés, e como quem anuncia a chegada do Caos abriu a bocarra de presas imensas e emitiu um rugido estrondoso, pleno de dominância e poder, o qual ecoou pelo saguão fazendo tremer cada coluna de ouro.
Quando a voz de Mu se calou, as vozes graves e em coro dos Seguidores de Seth se elevaram, e em estado de graça juntos proferiam seu nome, numa comoção coletiva que finalmente deixava explodir o grito de emoção há tantos milênios preso em suas gargantas.
Seth! Seth! Seth! Seth!
Ali não mais havia uma criatura sequer que contestasse a legitimidade de seu deus.
E foi em meio a esse coro de milhares de vozes que ainda de joelhos Shaka olhou para Mu e lhe sorriu.
O Nut lhe fez um gesto singelo para que se levantasse, então o sumo sacerdote assim o fez, e em seguida se colocou de frente para à chusma inflamada que gritava o nome de seu deus e ergueu o braço direito.
Na mesma hora as vozes se calaram, mas os olhos faiscantes permaneciam fixos em Mu, o adorando.
— Ouçam, Serpentes. — disse Shaka em voz alta e firme — Seth, nosso deus, retornou! Está diante de nós, no meio de nós! E retornou para lutar ao nosso lado! Foi a nossa fé que o trouxe até aqui, no momento em que mais precisávamos.
— Glorioso seja nosso deus! Seth retornou! — gritou uma das vozes em êxtase.
— Glória! — respondeu um coro de vozes.
— Louvado seja Seth, o Caos, que retornou!
— Sim! Sua emoção e comoção é justificada, meu clã, mas o momento pede pressa! — continuou Shaka ao acalmar os ânimos — E, como nosso deus, um deus que ama seus fiéis com o mesmo amor que a ele é desprendido, Seth irá fortalecer o nosso clã com o Sanguinem Mitto! O ritual dos deuses!
Uma pequena balburdia teve início ao Shaka anunciar o ritual ancestral do Sanguinem Mitto, o qual consistia em um vampiro mais poderoso doar seu sangue aos menos poderosos para declinar suas gerações e assim aumentar o poder de um clã inteiro.
Na mitologia egípcia constava-se que apenas Rá havia realizado com sucesso o ritual do Sanguinem Mitto, uma vez que ele tinha um grau de alto risco para o vampiro doador, uma vez que este ficava muito enfraquecido no processo, podendo até morrer em sacrifício, e que por isso fora banido dos cultos religiosos pelo sumo sacerdote que antecedeu Shaka.
Quando este assumiu o cargo manteve a proibição, ou ele mesmo, sendo o mais antigo dentre os Seguidores de Seth, já teria fortalecido o clã com seu poder, porém não o fez pelo risco de morrer pelas mãos do próprio clã, já que não eram confiáveis nem entre eles próprios.
Shaka só permitira a Mu realizar o Sanguinem Mitto porque ele mesmo iria monitorar a tudo de perto.
De outra forma jamais permitiria.
— Serpentes, ouçam! Ouçam! — pediu novamente silêncio o sumo sacerdote Setita — Sei que querem louvar, adorar, e aclamar a volta de nosso senhor Seth, mas o momento pede urgência! Uma guerra violenta e impetuosa bate à nossa porta! Portanto, temos que nos movimentar, e temos que fazê-lo rápido! Ouçam bem, quero que se dividam em hierarquia de gerações. Seth irá fortalecer aos vampiros mais velhos e mais poderosos primeiro. Os principais sacerdotes ficarão encarregados de dividi-los em grupos de seis. Os de gerações mais baixas encabeçando os grupos. Atenção! Vocês apenas poderão beber três goles do sangue divino do nosso senhor Seth. Apenas três goles! Bebam mais que isso e terão suas cabeças separadas do corpo por minhas próprias garras... Agora, levantem-se e organizem-se conforme dito.
Shaka via os olhares ansiosos de cada um ali.
Não podia esconder seu temor e aflição. Confiava em Mu e em seu potencial, mas confiava ainda mais em si mesmo e em suas garras. Ao mínimo sinal de descontrole estaria preparado para abortar o ritual sem titubear.
Enquanto Shijima, Shun, Fudou e Asmita se prontificavam a organizar os grupos de Serpentes da forma como Shaka ordenara, este caminhou até Mu e tomando sua mão o conduziu até o grande trono de ouro, ao pé da estátua de majestosa de Seth.
Diante do trono retirou as joias que adornavam o corpo do Nut com cuidado, as depositando sobre uma mesa de mármore negro disposta ao lado, enquanto Mu sentava-se concentrado.
Quando terminou por deixar o companheiro livre de qualquer adereço, Shaka se aproximou e parou de pé à sua frente. Desejava tocá-lo, beijá-lo, abraça-lo, numa demonstração de amor e gratidão, mas achou mais prudente guardar essas demonstrações de afeto para quando estivessem a sós.
Assim sendo, apenas se inclinou e acariciou ligeiramente o rosto do Nut.
— Eu estarei bem aqui, meu amado Mu. Quando sentir que precisa se alimentar eu sentirei também e irei interromper o ritual. Está preparado?
Mu não respondeu.
Jamais estaria preparado para algo como aquilo.
O risco era enorme, não apenas o seu, mas o de todos ali, já que por qualquer motivo podia perder o controle da Besta e exterminar todo o clã. Porém, sua confiança em Shaka era cega.
Mesmo descrente Mu sabia que Shaka podia trazê-lo de volta caso se descontrola-se.
Sendo assim, ajeitou-se no trono dedicado a si, elevou ainda mais seu poder concentrando a energia vital em suas veias a fim de tornar seu sangue mais denso e poderoso, e acenou para Shaka, para que ele desse início aos ritos.
Resignado o sumo sacerdote recuou alguns poucos passos e sem desviar os olhos negros dos igualmente imersos em trevas de Mu fez um sinal para Asmita e Shijima, que estavam a seu lado, trouxessem os primeiros seis Setitas.
Os vampiros subiram ao altar e se posicionaram em semicírculo ao redor do trono de ouro de seu deus.
Os olhos vidrados em adoração daquelas crianças da noite, as bocas sedentas e os corações em frenesi dentro do peito denotava o êxtase daquele momento único tão esperado.
No trono, Seth recostou as costas no encosto mantendo a cabeça bem erguida para que o pescoço ficasse livre. Os braços ele esticou sobre o descanso do trono com ambos os punhos virados para cima, e as pernas nuas manteve ligeiramente abertas, com um tecido fino de linho apenas a cobrir sua intimidade.
Foi somente quando Shaka deu o aval, sem quebrar por um só segundo o contato visual com o Nut, que os vampiros avançaram juntos, três de cada lado do trono, para dar início ao ritual, mas nada nesse mundo havia preparado tanto Mu quando Shaka para o que se seguiria a partir dali.
Como um exército a marchar em sincronia perfeita sob o comando de seu general, os seis vampiros abriram a boca ao mesmo tempo e rasgaram a carne de Seth com suas presas em seis mordidas certeiras e sincronizadas.
Dois lhe sugavam o pescoço, enquanto outros dois lhe sugavam ambos os pulsos e, por fim, os que se posicionaram agachados entre as pernas abertas do Nut lhe sugavam a parte interna da coxa, sorvendo o sangue ancestral que corria intenso na veia femoral.
Súbito, Mu deixou escapar um gemido rouco, e de forma inesperada quebrou o contato visual com Shaka ao fechar os olhos apertando com força as pálpebras.
O Nut estava ciente de que as mordidas lhe causariam algum tipo de prazer, no entanto ter seis vampiros lhe mordendo simultaneamente e sugando seu sangue de forma tão ávida o fez experimentar uma sensação de êxtase que beirava o frenesi do ato sexual.
Definitivamente não estava preparado para a intensidade do que sentia, e do modo como sentia.
A Fera dentro de si urrava, sedenta por sangue e por sexo, tornando extremamente penosa para o Nut a árdua batalha que travava consigo mesmo na tentativa de retardar ao máximo o descontrole que o amaldiçoava.
Assim como Seth, Shaka também se surpreendeu ao ser tomado de forma tão arrebatadora pelo frenesi de prazer que permeava aquele rito.
A ligação entre ambos era tão forte que para o sumo sacerdote era como ter o próprio corpo mordido, o fazendo comprimir os lábios e contrair os músculos involuntariamente em resposta.
De pé em frente ao trono, concentrado, semblante sério, olhos semicerrados que denunciam o prazer pelo qual seu corpo era tomado a cada mililitro de sangue que era drenado do corpo do Nut, Shaka lutava para conter a Besta, tanto a que urrava dentro de si quanto a que bradava tresloucada dentro de Seth, que sentado no trono também retribuía o olhar cheio de luxúria que o Setita lhe lançava. Ao fazê-lo o Nut abria a boca e expunha as presas, numa demonstração nítida de delírio e desejo. Sentia-se tomado completamente por um frenesi extasiante, o qual era proporcionado pelas bocas a drenarem ávidas seu sangue.
Súbito, um sentimento inapropriado e inesperado tomou conta do coração de Shaka. Um recente dilema já sanado agora parecia querer voltar para atormentar seu juízo.
Shaka era o líder das Serpentes, o sumo sacerdote incumbido de encontrar Seth e trazê-lo de volta ao seio de seus seguidores, portanto estava em júbilo pelo seu clã naquela noite gloriosa enquanto presenciava Seth, seu deus, cumprindo a profecia. Porém, o que restava de sua alma e paixões humanas o fazia experimentar um mar de sentimentos confusos, controversos, entre eles o ciúme.
Ver seu companheiro sendo tocado por outros vampiros e sentindo prazer mexeu consigo mais do que imaginara, e Mu podia sentir todo esse conflito. Por isso, no intento de amenizar o ciúme de Shaka, o Nut buscava manter o contato visual entre eles em tempo integral.
Com seus olhos negros de íris sanguinolentas, o deus procurava deixar todo seu desejo pelo sumo sacerdote explicito e focado, mesmo porque nem se quisesse ser diferente não conseguiria.
Seth sentia ganas em copular, ali, naquele instante, naquele lugar, porém não com os vampiros que o mordiam, mas com seu sumo sacerdote, com aquele que despertara o desejo sexual em si.
Como um leão que fareja a leoa no cio, era o odor inebriante de Shaka que enlouquecia, descontrolava Seth.
Logo os seis primeiros membros cederam lugar a outros seis, e depois outros, e a cada vez que os Setitas se revezavam e novas bocas dilaceravam a carne de Seth, ambos, deus e sumo sacerdote, iam ao delírio.
O desejo do Nut pelo Setita era tão intenso que afetava a todos os presentes naquele lugar, preenchendo o templo de ouro com uma aura sexual tão forte que instigava as Serpentes as excitando, em especial aquelas que já haviam bebido de Seth.
Shaka por sua vez, já não era mais capaz de esconder ou dissimular o que estava sentindo, e diante dos membros de seu clã havia se entregado ao prazer voyeurista. Qualquer um ali podia notar a volúpia nos olhos do sumo sacerdote, que fixos aos olhos de Seth deixava visível o desejo carnal que ambos partilhavam, tornando ainda mais erótico e blasfemo aquele rito amaldiçoado.
Seth rosnava alucinado, e em êxtase desmedido arranhava com as garras o trono de ouro. Estava à beira do descontrole, por isso instigava Shaka o provocando com olhares, gestos, e também deixando com que seus pensamentos libidinosos tomassem conta da mente do amado.
Havia um tormento que beirava o desespero no coração de Shaka. O Setita começava a encontrar dificuldade para se concentrar em sua missão de conter as Bestas de ambos, mas mesmo assim não desistia, jamais desistiria, ainda que diante de todo o clã não fosse capaz de controlar o frenesi ao qual seu corpo era acometido. Ondas de prazer lhe causavam tremores involuntários, tornando seus movimentos lascivos e provocantes, e em sua mente a voz de Seth lhe chamava, plena de luxúria.
Sem que pudessem impedir, o deus e seu sumo sacerdote haviam transformado o Sanguinem Mitto em um ritual profano e blasfemo, e que agora chegava ao seu auge, uma vez que Seth tinha acabado de atingir seu limite!
O Consumo Conspícuo havia cobrado seu preço e a Fera agora encontrava-se no limiar do descontrole.
Encarando fixamente a figura de Shaka, Seth soltou um rosnado alto e potente. Com os dentes à mostra, a boca salivando e as garras cravadas do ouro maciço dos braços do trono, o vampiro primitivo estreitou os negros olhos febris raiados de vermelho e sibilou de forma feroz.
Todas aquelas mordidas e o prazer que lhe proporcionaram não foram, nem jamais seriam, suficientes para saciar a Besta.
Seth era o Caos, e o Caos queria tudo. Estava prestes a chacinar um por um naquele lugar, mas mantinha sua mente focada em Shaka, seus olhos fixos em sua figura imponente, então ansiava por matar sua sede de sangue e sua fome de sexo com o sumo sacerdote.
Seth queria Shaka, e o teria agora!
Assim que percebeu que Mu havia perdido o controle da Besta, Shaka mais que depressa procurou acalmar sua própria mente para seguir com o planejado, mas já era tarde.
Quando pensou em correr até o trono para afastar do Nut os vampiros que o mordiam em seu turno, este já o fizera os lançando para longe com uso de telecinese, depois, com um novo urro feral que fez estremecer as bases do templo, saltou do trono em direção ao sumo sacerdote.
Aquele era o maior temor de Shaka. O momento de maior perigo. Se não estivesse pronto para contornar aquela situação nada impediria Seth de mata-lo ali mesmo, já que devido à falta de sangue em seu corpo o Nut não teria uma ereção, logo não seria capaz de consumar o ato sexual e, portanto, ficaria frustrado, tornando sua sede ainda maior e sua fome ainda mais voraz. Seth o morderia e não satisfeito acabaria por canibaliza-lo. Ou ainda pior, se não se saciasse apenas consigo poderia atacar os outros membros e causar um extermínio.
Aquela era a faceta do Caos. Da glória à perdição em segundos! Contudo Shaka estava preparado para combatê-la.
Tudo aconteceu muito rápido.
Quando Seth saltou do trono, Shaka correu para o fundo do altar, mas logo a Fera o alcançou e pulando em suas costas o derrubou no chão já se colocando em cima de seu corpo.
Amedrontados e assustadíssimos, os sacerdotes e alguns vampiros que ali estavam chegaram a correr até eles, mesmo sem saber ao certo o que acontecia, mas obedecendo ao instinto de salvar seu líder, o sumo sacerdote Setita, porém este foi categórico ao gritar com voz gutural.
— NÃO SE APROXIMEM! — e fez um sinal aos sacerdotes para que segurassem a horda vampírica, que alvoroçada e instigada pelo frenesi daqueles que já haviam bebido de Seth, e que agora se contorciam espalhados pelo chão ou arrastando-se pelas paredes, queria a todo custo provar do sangue poderoso do deus.
Os sacerdotes ficaram onde estavam, estáticos, vendo o deus do Caos puxar os cabelos loiros do sumo sacerdote para o lado para lamber com a língua áspera e de forma ávida o pescoço do líder daquele clã, depois, como despertos de um transe, correram de volta ao saguão para cumprir a ordem.
— “Mate meu desejo. Copule comigo, agora.” — ordenou Seth diretamente à mente do sumo sacerdote, completamente fora de si e pronto para morde-lo — “Enlouqueça-me mais uma vez.”
Nesse mesmo instante, enquanto ainda ouvia a ordem do Nut em sua mente, Shaka se teleportou para a parte de trás da estátua gigante de ouro, onde oculta por esta havia uma passagem secreta.
Shaka apelaria para um instinto muito mais primordial e primitivo que o sexual: a fome!
— “Urhg! Não fuja, sumo sacerdote! Você é meu!” — gritou Seth também se teleportando logo em seguida para surgir diante de Shaka, em frente à passagem secreta — “Eu ordeno que sacie meu desejo!”
— “Saciarei seu desejo, meu amado, mas não com sexo, e sim com sangue!” — o Setita respondeu ao deus do Caos antes de novamente se teleportar, agora para dentro da passagem, a alguns metros à frente, surgindo em um corredor estreito e escuro — “Venha! Deleite-se em júbilo com o banquete que eu preparei para ti.”
Ao ver que Seth mergulhara na escuridão do corredor já correndo feroz em sua direção, Shaka também correu afundando-se naquela passagem.
Logo o Setita chegou ao fim do caminho, onde havia uma porta de bronze, mas nem tivera tempo para abri-la, pois Seth já tinha lhe alcançado e agora o encurralava contra o metal frio pressionando seu corpo contra a porta com força.
— Não pode fugir de mim. — rosnou o Nut enquanto tocava o corpo do loiro instigado — É pior se tentar fugir.
— Estou começando a me arrepender dessa loucura! — murmurou Shaka sentindo ganas em tomar os lábios do companheiro com um beijo sedento, mas em vez disso espalmou uma das mãos em seu peito e o empurrou com força na tentativa de afastá-lo, já que para si também era penoso conter os próprios instintos, enquanto escorregando a outra mão pelo metal tentava abrir a porta — Sei que me deseja, Seth, eu também te desejo, mas precisa se concentrar na fome! Está faminto, não está?
— Você é meu banquete, sumo sacerdote atrevido! — rosnou baixo o Nut próximo a orelha de Shaka, enquanto arranhava a pele pálida dos ombros nus com as garras pontiagudas.
— Não. O seu banquete está atrás desta porta. — disse o Setita ao finalmente conseguir abrir a porta, mas nessa hora o Nut o agarrou com extrema força já puxando sua túnica para cima para desnudá-lo, então Shaka, mesmo preso por aquele abraço possessivo da Fera, recuou alguns passos descendo uns poucos degraus que mergulhavam em uma escuridão ainda mais densa, trazendo Seth consigo — Sinta... Seth!... O cheiro de sangue vivo!
Olhando para o rosto aflito do sumo sacerdote, Seth franziu o nariz e sibilou ferozmente.
Finalmente conseguira farejar o odor do sangue fresco!
Shaka então segurou no rosto do amado com ambas as mãos para olhar fixamente em seus olhos negros fantasmagóricos.
— Vá, Seth! São todos seus. E de onde veio estes há muitos mais!
— Esperto! — rosnou o Nut já salivando, então inclinou-se para frente e passou a língua ávida sobre os lábios do sumo sacerdote — Saia e feche a porta. Não quero que veja.
Shaka apenas assentiu com a cabeça dando um passo para o lado, e na mesma hora em que Mu mergulhava na escuridão, o sumo sacerdote subia os degraus passando pela porta e a fechando em seguida.
Do lado de fora, encostado no bronze frio do pórtico, Shaka buscou se acalmar enquanto esperou até que o som dos gritos de horror, choro, ossos sendo dilacerados, urros selvagens e pancadas cessassem, o que não levou mais que cinco minutos, então voltou a abrir a porta e descer os degraus.
Seth finalmente tinha conseguido acalmar a fúria do Consumo Conspícuo devorando vinte humanos adultos, os quais foram colocados ali momentos antes do ritual ter início, e ingerido grandes quantidades de carne, sangue, ossos e entranhas, que o fortaleceram de imediato.
Quando o Nut deixou o porão, o Setita o conduziu a uma saleta ao lado, onde, munido de um longo pedaço de tecido de algodão cru e uma tina de ouro cheia com água limpa agora preparava-se para limpá-lo de todo o sangue humano que maculava seu corpo.
Enquanto Shaka lhe limpava, Mu permanecia calado, concentrado, mas admirando com o amor e dedicação do companheiro para consigo.
Quando a água da tina já se tingia completamente de vermelho, e os tecidos de algodão já estavam ensopados de água e sangue, Shaka deu seu serviço por suficiente e voltou a segurar no rosto de Mu com ambas as mãos.
— Por um segundo eu achei que não conseguiria. — o Setita confessou parando por um instante o que fazia para encarar, um tanto assustado e amedrontado, os olhos do amado — Eu vi a minha morte e a de todo o clã em seus olhos... Eu presenciei o Caos.
— Mas você conseguiu. — Mu respondeu sério — Novamente você conseguiu controlar o Caos. Eu jamais seria capaz de realizar o Sanguinem Mitto sem você, Shaka. Irei me descontrolar toda vez que o prazer e a fome nublarem minha mente e meu Consumo Conspícuo tomar conta de meus atos... Porém, é por isso que você está aqui, que é meu sumo sacerdote e meu companheiro. Somente você consegue enganar e manipular a Besta dentro de mim. — o Nut então tocou o rosto do sumo sacerdote com carinho e trouxe para perto para que finalmente pudesse lhe beijar com toda a paixão que possuía — “Quando eu me tornar uma fera irracional, use meu desejo contra mim, faça-me cativo de você, como um macho preso ao rito de acasalamento... então, no momento certo, me dê o gado como fez agora.”
— Há muitos mais nas celas subterrâneas desse Templo. Mas, sei que não serão o suficiente. — disse Shaka se referindo aos humanos que mandara seus carniçais caçarem para lotar as masmorras para o ritual — Quando acabarem teremos que parar.
— Sim, pararemos após a última remessa de humanos, então alimentarei apenas aos sacerdotes que nos ajudaram. — disse Mu dando um sorriso satisfeito enquanto puxava o loiro para outro beijo — Irei tentar doar ao maior número possível de membros, mas sei que ainda faltarão muitos. No entanto, não quero por sua vida ainda mais em risco... Será cada vez mais difícil controlar o meu desejo de tomá-lo para mim e copular com você. Temos que parar antes ou...
Seth pegou na mão de Shaka e a levou até seu membro, agora extremamente rijo e desperto devido todo o sangue consumido há pouco.
— Ou não serei capaz de parar até que o tenha tomado para mim, e não quero machuca-lo.
Shaka fechou os olhos apertando a carne firme com força entre seus dedos, sentindo a vontade quase lhe falhar.
— Escute, Mu. — disse o Setita, numa tentativa alucinada de desviar o foco, já retirando a mão que bolinava o membro do Nut — Estão louvando seu nome!
No saguão do Templo de ouro os Setitas gritavam o nome de Seth numa espécie de transe coletivo, enquanto na saleta Shaka abria os olhos voltando a encarar a face do Nut.
— Vá. Dê a eles o que querem. — sorriu o sumo sacerdote em êxtase, apartando-se do Nut — Vá! Estarei a seu lado e o trarei de volta sempre que sua Besta chamar por mim. Essa noite será lembrada para a posteridade!
Quando Seth retornou ao altar, ainda com o corpo manchado de sangue, fora recebido com um coro de vozes efusivas a clamar seu nome.
Essas não cessaram por um só momento durante todo o ritual, mas tornavam-se cada vez mais intensas e alucinadas, clamando pelo deus que voltara para trazer o Caos e a Salvação ao mesmo tempo.
Com a vontade renovada, entre os cânticos fervorosos, e instigado pelo frenesi dos que já haviam sido glorificados com o sangue e que agora extasiados também o louvavam prostrados ao chão, Seth seguiu doando seu elixir poderoso por horas a fio.
A cada ataque da Besta contra Shaka, este procedia como o Nut o instruíra, enganando-a e a atraindo para que saciasse sua luxúria com sangue vivo ao em vez de sexo. Exatamente como a família de Mu havia feito por milênios sem que ele sequer se desse conta.
Quando os quinhentos humanos que Shaka havia mandado capturar já haviam sido devorados por Seth e o amanhecer já não estava tão distante, o sumo sacerdote, atento como estava desde o início, ordenou o fim do ritual.
Ainda faltavam centenas de membros a serem fortalecidos pelo Nut, mas Shaka já notava indícios de cansaço e exaustão vindos de Mu e não iria arriscar mais, pois não haveria mais como deter um novo descontrole da Besta.
A decisão do sumo sacerdote fez com que um levante, engendrado por todos aqueles que não haviam bebido de Seth, se formasse diante do altar.
Revoltadas as Serpentes de gerações menores tentaram invadir o altar para, ingênuas como eram, tomar o sangue de Seth à força, mas Shaka, em todo seu poder e dominância os impediu no ato decapitando os mais inflamados de forma violenta, arrancando-lhes a cabeça com as próprias garras e jogando-as aos companheiros de clã para dar o exemplo ao resto do bando, que acuados recuaram.
Assustados e subjugados, os vampiros que iniciaram o levante logo se acovardaram, e mesmo a contra gosto se calaram.
Do trono, Seth assistia a tudo aquilo sem se pronunciar. Estava esgotado. Mesmo tento se alimentado há pouco sentia-se cansado, faminto, excitado e exausto.
O seu esforço havia sido enorme, mas tinha consciência de que seu dever ainda não se findara totalmente.
Não havia mais humanos ali para lhe abastecer, pouco autocontrole e sangue lhe restavam, mas este ele tinha reservado aos sacerdotes mais poderosos que o ajudaram durante todo o ritual e que ainda não haviam bebido.
Sendo assim, enquanto Shaka continha a turma, Mu fazia um sinal para que os quatro sacerdotes Setitas se aproximassem.
— Venham, meus sacerdotes. Bebam. Por sua devoção e obediência lhes reservei um gole a mais. — murmurou o Nut com voz grave e fatigada.
Assim, Asmita, Shijima, Fudou e Shun se acercaram de Seth no trono.
Shun de longe era o mais ansioso, afinal era o único mais fraco ali e desejava desesperadamente o sangue de Seth, pois havia testemunhado de perto as gerações regredirem bem diante de seus olhos. Por isso, quando Seth deu seu aval, o jovem vampiro de cabelos esverdeados e olhos dourados avançou logo no pescoço, cravando as presas direto na jugular do Nut, de onde bebeu cinco goles generosos antes de ser agarrado pelos cabelos e afastado por Shaka.
Ao ser arremessado contra o chão de mármore, Shun sentiu todo seu corpo formigar sofrendo espasmos alucinados. A sensação era incrível e indescritível! Era como ter fogo correndo nas veias, o vento transitando livremente por cada poro de sua pele, o som dos oceanos do mundo a retumbar em seus ouvidos e sentidos; o cheiro, o som de todas as coisas... Era como ter o Universo dentro de si em plena expansão!
Quando conseguiu finalmente abrir os olhos, nada mais era como tinha sido um dia.
Shun regredira da 34° geração para a 22° geração, graças ao furto de um quinto gole de sangue.
A maior regressão dentre todos ali. Nada menos que 12 gerações com apenas cinco goles. Um verdadeiro milagre.
Todos sentiram o fato e ficaram admirados, afinal tinham regredido duas, três, quatro gerações, mas nada tão radical quanto Shun.
Quando conseguiu se reestabelecer o jovem vampiro levantou-se e correu até o altar jogando-se de joelhos aos pés de Seth, numa demonstração de gratidão, fé e adoração.
Até mesmo os vampiros que não haviam bebido do sangue do Nut se prostraram de joelhos diante de tal demonstração de ascendência e supremacia, mas também porque agora estavam certos de que um dia chegaria sua vez.
Ansiando terminar aquilo antes do alvorecer, e também no limite do que podia suportar, Shaka novamente tomou a frente para falar a seu clã com voz inflamada e incitante.
— Seguidores de Seth, agora estamos prontos para a guerra! Como não foram todos que puderam ser agraciados com o toque divino de Seth nesta noite, a esses ordeno que fiquem aqui e protejam este Templo, o berço de nosso clã. Aos demais, eu os convoco à luta!
Um urro coletivo retumbou pelos salões milenares do templo Setita.
— Nesse momento os Espectros das Sombras estão rumando para nossas principais cedes. Se esconderão nas sombras até que a noite caia para nos atacar logo nas primeiras horas do crepúsculo, mas serão eles quem serão pegos de surpresa dessa vez! — esbravejou o sumo sacerdote dos Seguidores de Seth com os olhos faiscantes de ira — Ergam-se Serpentes! A noite que seguirá o próximo amanhecer será a noite que irá marcar a ascensão de nosso clã e a queda dos Espectros das Sombras! Arranquem as cabeças dos nossos inimigos! Perfurem seus corações com suas garras! Queimem sua carne pútrida e herege! Quando amanhã o Sol se deitar no horizonte a noite será tingida de vermelho! Lutem em nome de Seth!
Outro urro coletivo fez tremer as estruturas maciças dos salões milenares do Templo subterrâneo.
Shaka sabia como inflamar os espíritos de cada imortal que ali estava, e um a um, em meio a um clamor em uníssono que denotava toda sua vontade eles deixavam o salão para seguirem resignados às catacumbas que ficavam nas partes periféricas do templo de ouro.
Na noite seguinte, fortalecidos e determinados, eles lutariam por seu deus com unhas e dentes, dispostos a entregar sua pós-vida sem pestanejar.
Quando restaram no salão apenas os que não beberam do sangue de Mu, Shaka ordenou aos sacerdotes que os conduzissem às portas laterais e frontais dos tuneis.
Ninguém que não fosse membro do clã Setita conhecia a localização daquele templo, logo ele estaria protegido. Porém, os Seguidores de Seth eram um clã famoso por sua índole corrupta e traiçoeira, e proteger sua principal cede não era uma manobra obsoleta de todo.
Assim que se viu sozinho no altar com Mu, Shaka então retirou o adorno de ouro que tinha na cabeça e se livrou também de algumas joias as colocando sobre a mesma bancada onde havia deixado os adornos do companheiro.
Caminhou silenciosamente até o Nut, que parecia finalmente quieto e adormecido no trono de ouro. Aproveitando que agora estavam finalmente a sós ajoelhou-se a seus pés colocando-se entre suas pernas entreabertas. Olhou por algum momento para o rosto pálido e plácido do amando, depois deitou a cabeça em seu colo e abraçou sua cintura num gesto tão protetor quanto possessivo.
Testemunhar aquela horda de vampiros em êxtase se alimentando do sangue de seu amado tinha sido para Shaka uma experiência ao mesmo tempo sublime e perturbadora. As imagens que vira ainda se repetiam em sua mente, e somado a elas o arrebatamento experimentado pelo Nut e vivido através do laço sanguíneo que partilhava com ele ainda incitava seus sentidos e entorpecia sua mente.
Sem se dar conta, Shaka esfregava o rosto no tórax de Mu numa espécie de transe libidinoso, lambendo a pele maculada de sangue humano com tamanha avidez que fez o Nut abrir os olhos e deixar escapar um gemido rouco.
Foi quando sentiu que Shaka escorregou o corpo mais para baixo e sem sobreaviso meteu a cabeça no meio de suas pernas que Mu abriu os olhos, surpreso e estranhamente ansioso...
Então veio a mordida!
— Aaaaaaaaaah... Shaka! — o Nut gemeu em êxtase.
O sumo sacerdote Setita tinha as presas cravadas na parte interna da coxa do Nut e com desejo latente e fome voraz sugava o sangue que corria em sua veia femoral.
Mu baixou a cabeça e olhou para Shaka com um olhar alucinado e selvagem, então levou ambas as mãos às madeixas douradas do sacerdote e puxou com força seus cabelos, o fazendo soltar a ferida aberta na coxa e olhar diretamente em seus olhos.
— Aaah... o que pensa que está fazendo? Sabe que estou a ponto de perder o controle em definitivo. — o Nut sussurrou num ronco animalesco, ao mesmo tempo em que sentia seu corpo todo estremecer de prazer — Não... não se aproveite de minha fraqueza e cansaço, sumo sacerdote... Aaah... Shaka...
Afundando os dedos longos nos cabelos loiros do Setita, Mu voltou a fechar os olhos sentindo as orbes negras revirarem por debaixo das pálpebras.
— Não pude me conter... O fiz a noite toda... A cada mordida... A cada descontrole seu... Agora é minha vez! — sussurrou Shaka em resposta enquanto passava a língua pelos lábios tintos de vermelho —... Não suportava mais o desejo de beber de você, toca-lo... Eu o quero.
Abrindo os olhos Mu voltou a encarar o rosto do companheiro, agora com paixão aflorada.
— Sou eu quem quer devorá-lo por inteiro, meu sumo sacerdote... Matar minha sede de ti... — proferiu entre arquejos, experimentando um frenesi tresloucado, como se uma corrente elétrica de potencial colossal corresse por todo seu corpo, pois nenhuma mordida na face da Terra lhe era tão prazerosa e sublime quanto a de seu amado companheiro.
Contudo, Mu estava esgotado. Corpo, mente e espírito.
Apesar da fome e de todo o desejo sexual contido dentro de si, estava exausto pela perda sanguínea e pelo esforço que fizera o tempo todo para manter-se concentrado para que, com a ajuda de Shaka, conseguisse controlar sua Besta interior. Sendo assim, o aperto nos cabelos do sumo sacerdote logo se desfez e seus braços penderam ao lado do corpo, inertes sobre o trono.
Shaka então se ergueu e inclinando-se ligeiramente para frente beijou com suavidade os lábios do Nut.
— Eu teria o maior prazer em alimentá-lo, meu amado, para que pudesses se reestabelecer... Mas, como não o posso fazer... — sussurrou o Setita, então, como um lampejo intenso em meio a trevas profundas, seus olhos faiscaram um brilho dourado e atrás de si uma névoa densa, escura como a noite, se formou. Quando esta se dissipou, poucos segundos após ter surgido, três humanos na flor da idade ali estavam, de pé no altar. Tinham sido trazidos por ela.
Shaka os havia deixado nos calabouços para aquele momento.
Quando o lampejo dourado nos olhos do sumo sacerdote se apagou o gado ali presente foi liberto de seu domínio. Imediatamente os gritos de pavor tomaram o salão, e eles passaram a correr nus, sem rumo, em busca de uma salvação que não viria.
Shaka então escorregou seu corpo esguio e lânguido pelo tronco de Mu e em meio aos gritos de horror do gado tomou sua boca num beijo feroz e pleno de desejo.
— “Ouça!” — o sumo sacerdote disse diretamente à mente do companheiro enquanto o beijava — “Que bela música de medo e agonia eles compõem!”
A fadiga e exaustão do Nut pareciam ter sumido como num passe de mágica.
O bater frenético dos corações apavorados do gado, o odor do medo exalado por seus poros logo acordaram a Besta, e Seth estava pronto para ir à caça!
Seus olhos selvagens brilharam na penumbra, e como quem recebe uma injeção de adrenalina direto no coração ele rosnou, alto e forte, de satisfação e excitação.
Com um movimento brusco e ligeiro Mu segurou na cintura de Shaka e o puxou para seu colo o colocado sentando de frente para si com as pernas abertas em paralelo, então foi a vez do Nut tomar a boca do Setita com um beijo lascivo e quente.
A urgência do vampiro ancestral era tamanha que suas presas enormes feriam os lábios ávidos do sumo sacerdote os fazendo sangrar enquanto se beijavam, mas isso para ambos só tornava aquele ato ainda mais prazeroso.
Apesar de extremamente intenso, o beijo não foi longo, uma vez que Seth sentia a Besta dentro de si urrar de fome fazendo todo seu ser vibrar, cada músculo se contrair, cada pelo do corpo se eriçar.
Tomado por um frenesi animalesco, Seth lambia o pescoço de Shaka em meio a roncos e urros, então quando não pode mais conter o demônio levantou-se trazendo consigo o Setita em seu colo, para só depois coloca-lo no chão e posicionar-se aos quatro membros para iniciar sua caçada.
Os rugidos de Seth ecoaram alto por todo o templo de ouro fazendo as rochas milenares vibrarem e prenunciando a alvorada.
As Serpentes já recolhidas nas catacumbas não somente o ouviam, mas também sentiam seu poder ecoar em ressonância com tudo ali, inclusive com elas, já que agora também tinham seu sangue correndo dentro de si, e vibravam em êxtase.
Os gritos dos humanos, porém, apenas Seth pode ouvir.
Seu ataque fora tão certeiro que logo as vozes em terror foram caladas, quase que simultaneamente, quando Seth lhes abocanhou as gargantas.
Poucos minutos depois, banhado em sangue e vísceras, Mu regressava ao altar caminhando em silêncio. Tinha os olhos fixos, cravados no rosto afogueado e lúbrico do sumo sacerdote, que sentado no trono o encarava com um discreto sorriso nos lábios.
Agora, com o corpo revivido e revigorado pelo sangue humano, Seth podia novamente senti-lo reagir a toda aquela provocação que Shaka lhe fazia.
Estava excitado, sentia o membro firme pulsar em repetidas contrações e os músculos fremirem de desejo.
Ao chegar no trono, sempre com os olhos cravados aos do sumo sacerdote, Seth inclinou-se para frente e tornou a agarra-lo pela cintura para trazê-lo para junto de si.
— Não tem ideia do quanto foi difícil conter a ânsia de tomá-lo para mim, Shaka. — grunhiu o Nut mergulhando o rosto na curva do pescoço do Setita, aspirando seu odor instigante — Agora não irá mais fugir, sumo sacerdote. — lambeu enlouquecido a pele fria — Você é meu! Eu vou copular com você agora, aqui mesmo nesse altar, e sobre este trono. — com um puxão violento rasgou a túnica do Setita o deixando nu.
— Aah... Acredite, eu tenho ideia sim! — Shaka respondeu após um gemido, depois levou ambas as mãos às costas de Mu arranhando a pele quente enquanto pressionava seu quadril contra o dele sentindo o sexo rijo do companheiro por debaixo do tecido fino do saiote — Eu sinto sua volúpia... Ela arde dentro de mim também.
— Uhmm... Shaka... Sabe bem que em meu tempo fazia parte dos ritos que prenunciam a guerra o rei se deitar com sua rainha na véspera da batalha, não sabe? — sussurrou o Nut roçando os lábios aos do Setita e contraindo os músculos da pelve para imprimir ainda mais contado entre os corpos já colados.
— Sim, eu sei... Mu... — Shaka gemeu em resposta, ao passo que mordiscava o queixo do vampiro ancestral e descia as mãos até suas nádegas para apertá-las com força — Os Oráculos diziam se tratar, na verdade, de um rito de despedida, no caso do rei cair no campo de batalha... Todavia, também se acreditava que trazia sorte, uma vez que reavivar os laços de amor na iminência da guerra fortalecia o monarca e vivificava seu desejo por voltar aos braços da amada!
— O que não é o nosso caso, já que marcharemos juntos ao campo de batalha! — grunhiu o Nut agora beijando o rosto sujo de sangue do sumo sacerdote — Também me foi ensinado que era mais uma crendice dos vivos, portanto uma prática não aplicada aos imortais.
— Hum... mas nós dois sabemos o motivo que levou sua família a ensiná-lo dessa maneira, não? — o Setita brincou, tirando uma risada do Nut.
— Sim, digamos que eu fui um rei meio fora dos padrões... No entanto... pode não ser auspicioso quebrarmos ritos tão antigos, não acha, meu amado? — disse Mu antes de tomar a boca de Shaka com um beijo arrebatador, e enquanto o fazia avançava uns passos à frente obrigando o Setita a recuar andando de costas, até que seus calcanhares batessem na base do trono de ouro e ele caísse sentado.
Imediatamente em seguida, em toda sua forma gloriosa e bestial Seth subiu no trono e sentou-se no colo da Shaka, segurando em seu rosto com ambas as mãos para olhar em seus olhos.
— “Copule comigo, meu sumo sacerdote. Quero seu corpo vivo, quero-o firme e enlouquecido unido a mim, aqui, em meu trono! Preciso sentir nossas almas amaldiçoadas unidas mais uma vez. Beba-me enquanto eu o devoro!” — disse através de telepatia, já que sua boca mergulhava novamente nos lábios frementes do companheiro.
Rosnados, gemidos e urros ensurdecedores de ambos os vampiros mais poderosos daquela Era ecoaram pelos corredores e galerias subterrâneas amedrontando e instigando as criaturas que ali dormiam.
***
Já havia amanhecido há algumas horas quando deus e sumo sacerdote se deram por satisfeitos e aninhados um ao corpo do outro adormeceram ali mesmo, sobre o trono de ouro, prontos para a batalha que os aguardava na superfície.
Quando a lua acordasse no céu, sangue amaldiçoado seria derramado na Terra, e até a mais vil das criaturas temeria por sua existência.
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