A Máscara de Seth
21 Capítulo 21
Notas iniciais

No meio dos escombros do que por pouco mais de cinco anos foi seu quarto, e que agora estava completamente destruído, Afrodite chafurdava à procura de algo que pudesse aproveitar para levar na viagem.
Havia sido comunicado ao entardecer por um dos carniçais de Shaka e orientado a fazer suas malas, as quais deveriam estar prontas logo nas primeiras horas do anoitecer.
Não teve chance de perguntar nada, e era com o coração apertado dentro do peito e o espírito inquieto e melancólico que recolhia algumas peças de roupa do chão imundo que estavam ligeiramente íntegras.
As cenas de terror que testemunhara na noite passada ainda estavam perturbadoramente vivas em sua mente, e mais viva ainda estava a face demoníaca de Mu a lhe espreitar feito fera faminta.
Suspirou deprimido, depois se agachou ao lado da cômoda destruída. Um fedor calcinante dos corpos ressequidos que jaziam entre os destroços do móvel o fez levantar a gola da túnica egípcia até o rosto para cobrir nariz e boca.
Esticou o braço e apanhou duas peças de roupa de dentro de uma gaveta partida ao meio. As únicas que não estavam maculadas com o sangue fedorento Assamita.
Levantou-se e rapidamente caminhou até a porta onde estava sua pequena mala. Jogou as peças dentro junto com mais três ou quatro mudas de roupa, algumas joias e duas partituras que conseguira resgatar da penteadeira em ruínas.
Afrodite então respirou fundo, fechou a mala e deixou o quarto. Não antes de virar para trás para olhar uma última vez para aquele pequeno reduto imerso em penumbra e medo que outrora fora todo seu universo.
Uma lágrima quente e solitária escorreu de um dos olhos do pianista quando ele se deu conta de que teria que abandonar seu Mestre. O fascínio que Shaka exercia sobre ele através do laço sanguíneo que o mantinha cativo de suas vontades ainda era forte, e Afrodite temia não sobreviver à ausência do Setita, à falta do sangue inebriante do sumo sacerdote.
Porém não tinha escolha.
Era um servo apenas e deveria obedecer à vontade de seus senhores.
Sendo assim, enxugou a lágrima que delineava o contorno delicado de seu rosto belíssimo, pegou a mala e seguiu pelo corredor até a sala. O coração aos pulos, num misto de medo e agonia.
A mansão sede dos Seguidores de Seth estava caótica. Muito haveria de ser feito, dentro e fora da casa, porém Shaka tinha dado ordens expressas para que nada fosse ainda mexido. Nem mesmo os corpos pútridos dos Setitas e Assamitas que caíram em combate deveriam ser removidos do lugar.
Assim, Afrodite galgou entre os destroços levantando a mala nos braços e sujando os dedos dos pés de sangue e restos de carcaças, já que usava uma sandália egípcia aberta, até chegar a seu piano, então levantou a banqueta do chão e sentou-se para esperar a derradeira sentença.
Para onde iria? Voltaria um dia?
***
A noite já havia estendido seu manto bordado de estrelas sobre o horizonte há algum tempo quando no quarto erguido no porão, o único aposento completamente intocado pela batalha, Shaka arrancava o telefone das mãos de Mu num gesto agressivo e intempestivo.
— Shaka... Já está decidido! — disse o Nut encarando os olhos ferinos do sumo sacerdote que dardejavam os seus em fúria — Sabe bem que eu nem preciso desse aparelho para falar com ele.
— Não! Não está decidido! — retrucou o Setita com um semblante severo na face cianótica — Afrodite é MEU servo, e não compete a você tomar qualquer decisão sobre ele, sobre o que é meu!
— Ah não? — Mu franziu a testa, irritado.
— Não! Eu já lhe disse que não abro mão do meu servo! Principalmente para aquele...
Shaka teve a fala interrompida quando Mu de súbito agarrou em seu pulso e o puxou para mais perto.
— Que intransigência é essa, sumo sacerdote dos Seguidores de Seth? — disse o Nut com assombrosa seriedade, farto daquela discussão — Eu só vejo uma pessoa aqui que não tem poder algum de decisão ou escolha, e essa pessoa não sou eu. Eu disse que Afrodite vai embora desta casa hoje mesmo e não cabe a você decidir se abre ou não mão dele... Eu o quero longe daqui. É uma ordem.
Shaka estreitou os olhos faiscantes encarando a face de Mu sem temeridade alguma.
— Afrodite é meu por direito! — postulou trincando os dentes, quase num rosnado — Você não pode tomá-lo de mim dessa forma.
— Sim, eu posso! — O Nut rebateu com um ar brusco, então se aproximou ainda mais de Shaka até que seus narizes quase se encostassem — Eu achei que tivesse entendido, ontem quando se ajoelhou diante de mim, qual é o seu lugar nessa nossa hierarquia, mas vejo que ainda reside em você a chama do orgulho! Sendo assim, creio que seja necessário lhe refrescar a memória. — apertou com mais força o punho do sumo sacerdote — Eu sou Seth! O seu deus. E você, sumo sacerdote Shaka, é meu. O seu corpo é meu, sua alma é minha, sua existência amaldiçoada, seus desejos e temores... E, consequentemente, o seu servo também me pertence. Agora, me dê esse telefone.
Shaka entregou o aparelho a Mu a muito contra gosto, ainda o encarando firme nos olhos, e finalmente quando sua lucidez se sobressaiu ao orgulho baixou a cabeça e o olhar ligeiramente.
— Que seja feita a sua vontade, Seth. — disse em voz baixa, depois ergueu a cabeça e deu as costas ao Nut indo até o closet onde apanhou sua longa capa negra com capuz. Antes de deixar o aposento parou ao lado de Mu e murmurou em voz baixa — Mandarei um dos carniçais levá-lo até o hangar. Avise a ele que Afrodite deve chegar lá em três horas.
Sem mais nada dizer, porém frustrado, Shaka deixou o porão batendo a porta atrás de si. Cruzou o corredor destruído franzindo o nariz e a testa devido ao mau cheiro que subia dos corpos pútridos e ressequidos dos Setitas abatidos ali e também do Assamita morto na cozinha.
Quando chegou à sala viu Afrodite sentado ao piano. Ombros curvados, olhar assustado e a pequena mala no colo.
— Levante-se. Venha até aqui. — ordenou com voz firme e severa, pegando o músico de surpresa que girou a cabeça rapidamente na direção da voz imponente já executando o mando.
— Mestre Shaka, para onde...
— Não faça perguntas. — Shaka o interrompeu fazendo um gesto com a mão, depois desenrolou no ar a capa preta que trazia consigo — Não estou nem um pouco disposto a ouvir seus queixumes. Não hoje. Anda, apresse-se.
Sentido as pernas trêmulas e a vontade vacilante, Afrodite deu a volta em torno do piano e parou diante da figura imponente de Shaka.
— Coloque a mala no chão. — uma nova ordem do vampiro que fora executada de pronto.
O sumo sacerdote então girou a capa no ar e a pousou sobre os ombros do garoto, o vestindo com ela.
Afrodite encarava os olhos do imortal que por tantos anos fora sua razão de existir com os seus marejados, não podendo evitar o choro diante de todo aquele cuidado que tinha tom de despedida.
— Mestre... Não quero ir embora. — sussurrou suplicante — Não quero ficar longe do senhor.
Shaka ergueu ambos os braços e segurando no capuz cobriu a cabeça do jovem, depois, em silêncio, correu os olhos azuis selvagens pelo contorno delicado da face de Afrodite como que gravando cada detalhe, cada traço daquela beleza única em sua memória.
— É para o seu bem. — disse o Setita num sussurro enquanto levava a mão ao rosto do músico e lhe fazia uma carícia — Não pode mais ficar aqui. É a vontade de Seth que você viva e encante a todos com sua bela música, Afrodite.
— Mas... Se ficar longe do senhor eu morrerei! — murmurou o músico com a voz entrecortada pelo choro, pois tinha plena consciência da dor e agonia que a falta do sangue do sumo sacerdote lhe traria, e só de pensar no tormento de privar-se dele desejava a morte ao exílio.
— Talvez sim... Mas... — disse Shaka inclinando-se para apanhar a mala do servo que estava no chão —... Talvez tenha uma chance de viver, e Seth quer que você viva. Se ficar, morrerá.
O sumo sacerdote então conduziu o músico pelo braço até a saída do aposento. Desceram as escadas a passos lentos e mudos e caminharam até um Rolls Royce preto estacionado na entrada da mansão.
Um carniçal logo desceu do banco do motorista e veio apanhar a mala de Afrodite das mãos de Shaka para depositá-la no porta malas do carro, enquanto o músico sueco ensaiava uma última súplica.
— Por favor, Mestre. — segurou na mão de Shaka com força, buscando os olhos azuis com os seus marejados.
— Afrodite, entre no carro. — Shaka o repreendeu sutilmente.
— Não... Não suportarei... Por favor... — suplicou, então levou a mão do sumo sacerdote a seu próprio rosto e esfregou a palma fria em seus lábios, lambendo a pele gélida e cianótica com certa timidez — Me dê um pouco, mestre. Só um pouco.
Shaka fechou os olhos e trincou os dentes, mas nem foi preciso repreender o jovem novamente, que por vontade própria se afastou lentamente soltando a mão do Setita e dando alguns passos para trás.
O que fez o músico recuar foi a presença de Mu ali, parado ao pé da escadaria.
O Nut olhava para o garoto com um semblante sereno e amistoso. Não estava ali para intimidá-lo ou amedrontá-lo, mas apenas para lhe fazer recordar o motivo pelo qual deveria ir embora, e foi exatamente sua presença que fez Afrodite deixar as súplicas de lado e lentamente entrar no carro.
Shaka abriu os olhos e bateu a porta do automóvel, encarando o rosto triste do pianista dentro do veículo.
— Você terá um novo Mestre... Um bom Mestre. Seja você também bom para ele e ficará bem. Adeus, Afrodite. — disse Shaka, depois se afastou ligeiramente.
O pianista nada disse. O choro lhe sufocava a garganta.
Apesar de cativo, Shaka, e de certa forma também Mu, eram as únicas referências de afeto e companhia que o jovem sueco tivera nos últimos anos, e perdê-los para o inesperado era aterrador.
Olhou uma última vez para o sumo sacerdote e depois para Mu.
Seu coração batia frenético, doído dentro do peito.
Sentia um afeto inexplicável pelo Nut, porém agora também sentia medo, pavor, horror!
Quisera pudesse despedir-se do vampiro que tantas vezes tinha curado suas feridas e acalentado seu coração aflito, com um abraço, mas jamais seria capaz de se aproximar dele novamente.
Não depois da noite passada.
Contudo, não foi preciso.
Como se tivesse lendo os pensamentos do jovem, Mu se aproximou do automóvel a passos lentos e cuidadosos para que o pianista não se assustasse. Queria muito poder dizer algumas palavras de alento, abraçá-lo e se despedir corretamente, mas não o fez.
Calado, Mu parou ao lado de Shaka e segurou a mão do sacerdote. Ambos olhavam para Afrodite quando de súbito uma pulseira de ouro se materializou no pulso do garoto, que se surpreendeu de imediato olhando para o artefato com os olhos arregalados.
Mu estava lhe dando um presente. Uma joia de sua família, a qual trouxera consigo do Irã e que pertencera a um de seus sacerdotes mais leais.
Afrodite ergueu os olhos e olhou para eles uma vez mais. Entendeu que aquilo era um presente de despedida, mas também um pedido de desculpas de Mu.
Resignado, o jovem músico levou ambas as mãos ao rosto, enxugou as lágrimas, ajeitou o capuz sobre a cabeça e depois sorriu.
Sorriu para Shaka e para Mu, olhando para os dois imortais lado a lado, com os olhos fixos naquela imagem que poderia ser a última que veria deles, desejando intimamente que fossem felizes juntos e pudessem ter paz um dia, até que o vidro se fechou e o carro deu partida, então se entregou a um choro sofrido e silencioso enquanto tocava a joia milenar em seu pulso aguardando seu destino.
No jardim, Shaka e Mu acompanhavam com os olhos o carro cruzar as imediações do jardim até deixar a mansão.
O Nut trouxe a mão do sumo sacerdote até seu rosto e depositou um beijo terno nos dedos frios.
— Obrigado. — disse em voz baixa — Isso significa muito para mim.
— Eu sei. — Shaka respondeu resignado.
— De hoje em diante não quero mais servos íntimos nessa casa. Alimente-se fora ou mantenha um servo cativo em outra moradia. Não quero criar vínculos com servos. Não posso criar vínculos com o gado, sabe disso. — disse Mu.
— Sim eu sei. — o sacerdote respondeu virando-se de frente para o Nut para abraçar sua cintura e trazê-lo para junto de si, unindo seus corpos — Daqui para frente seremos só você e eu, meu amado Mu, meu adorado Seth!
Shaka beijou com ternura e sensualidade os lábios do Nut, mas não aprofundou o ato, pois tinha pressa!
— Mas, antes de usufruir do júbilo de vossa companhia, e deleitar-me finalmente a seu lado da benção da eternidade, eu preciso começar uma guerra... E preciso vencê-la! — olhou com seriedade para Mu.
— Nós a venceremos! — o Nut respondeu — Faça o que tem que ser feito.
Shaka então recuou três passos.
Seus olhos azuis mergulharam em trevas densas tingindo-se totalmente de negro, enquanto uma névoa cerrada, escura e opressora erguia-se do solo e envolvia seu corpo numa espécie de casulo, fazendo murchar e morrer a grama abaixo de seus pés.
***
Romênia
Na mansão sede do Conselho Vampírico, mais precisamente no auditório de reuniões, com o recinto escuro iluminado apenas pela enorme projeção em uma tela presa à parede, Saga analisava atento o relatório apresentado por sua fiel e eficiente carniçal Saori Kido, o qual trazia todos os principais acontecimentos ocorridos na última semana dentro do submundo vampírico que exigiam a atenção do Presidente do Conselho.
Acomodado em uma das confortáveis poltronas, o Patricii corria a mão pesada e grande de forma carinhosa pelos longos fios negros de sua companheira, Geisty, a qual estava sentada em seu colo desfrutando dos afagos, porém atenta aos dados apresentados na tela, como gráficos, imagens e áudios que relatavam as descobertas feitas pelos espiões do Conselho infiltrados em cada clã.
Era com preocupação e atenção desmedida que o casal ouvia a resenha da pródiga carniçal, quando de repente tiveram a atenção roubada de forma abrupta por uma Presença arbitrária que invadiu a mente de Saga sem sobreaviso.
Aturdido, o Presidente do Conselho arregalou os olhos heterocrômicos e curvou o corpo para frente, tenso, indignado.
Desencostou do acento da poltrona e encarou um ponto qualquer no piso de madeira escura.
— Shaka! — balbuciou o Patricii ao reconhecer aquela Presença nefasta, porém surpreso ao notar o quão mais poderosa ela lhe parecia.
Ao lado de Saga, Geisty já se colocava atenta. Tinha sido da mesma forma surpreendida, já que possuía um laço de sangue com o companheiro que os unia de forma indelével e eterna, e após alguns segundos subjugados pela Presença perniciosa do Setita essa, da mesma força abrupta que se anunciara, se desfez, porém deixado seu recado.
O Patricii e a Pietone trocaram um olhar surpreso e apreensivo.
— Eu não posso acreditar que aquele pulha traiçoeiro teve a petulância de invadir a minha mente! — Saga quebrou o silêncio, irritado e surpreso — E... Ele está exigindo minha presença na sede Setita da Inglaterra! Isso é um absurdo! Me diz que estou louco!
— Não, meu amado. Você não está louco. — disse a cigana com voz branda e carregada em preocupação, depois se levantou do colo do Presidente e se pôs de pé, pensativa — Mas... O que me espantou não foi nem a petulância, mas o poder oriundo da Presença de Shaka... Ele me pareceu mais poderoso que nunca!
— Sim, eu também o senti. — Saga constatou esfregando os dedos contra a testa franzida — Aquela Serpente deve estar articulando alguma manobra perniciosa... Se ele pensa que eu irei atender ao chamado imediatista e presunçoso dele está muito equivocado. Quem ele pensa que é?
— Você não, mas eu sim. — disse Geisty, chamando a atenção de Saga.
— O que?
Enquanto os mestres conversavam em voz baixa, Saori os observava calada.
— Saga, esse poder avassalador que sentimos através da Presença de Shaka certamente está ligado ao aparecimento daquele Nut. — disse a cigana — Além do mais, sabemos que Shaka é um homem discreto e recluso, apesar de ser uma víbora traiçoeira, e se ele pessoalmente solicitou sua presença imediata na sede Setita da Inglaterra o motivo deve ser verdadeiramente grave. Não é sensato da nossa parte, da parte do Conselho, não verificar. Depois... Eu quero ver esse Nut mais de perto e essa é uma oportunidade de ouro! — ela sorriu.
— Geisty, minha amada... Sabe bem que não pode ir, que não pode se revelar. Deve se manter incógnita como sempre fez, ou as estruturas deste Conselho ruirão assim que sua existência for revelada. — disse Saga enquanto pegava na mão delicada da cigana e beijava a aliança de ouro no dedo anelar.
— Sim, meu amado, tenho plena consciência do nosso pacto, mas esqueceu-se de um detalhe.
— Qual detalhe?
— O Nut.
— O... Nut?
— Sim. Ele me viu. Ele sabe da minha existência, e ele é companheiro de Shaka. — ela abraçou o Patricii com ternura, afagando seus cabelos carinhosamente — Logo, minha influência velada no Conselho não mais será um segredo para o sumo sacerdote dos Seguidores de Seth. Então, o mais sábio seria esboçar uma aliança, mesmo que mínima, somente para garantir o silêncio deles e tentar me manter desconhecida para o restante do Conselho.
Nada de resposta. Apenas Saga ficou a observar o rosto belo e determinado da cigana. Sabia que ela tinha razão.
— Você sim, não deve ir. — Geisty continuou — Não deve quebrar os protocolos, tampouco atender aos caprichos daquele sacerdote prepotente. Eu vou. Precisamos saber o que de tão grave aconteceu na Inglaterra que fez a víbora do Shaka solicitar a presença do Presidente do Conselho... E eu quero ver se descubro algo mais sobre aquele Nut.
— Ainda acho uma péssima ideia. — disse o Patricii.
— Péssima ou não é a única que temos. — disse Geisty, então se afastou e ajeitando o nó da gravata do companheiro o convenceu finalmente — O Presidente precisa se manter na sede do Conselho, como seu pilar. A primeira dama atenderá ao chamado dos Seguidores de Seth. E confio que a minha ancestralidade sanguínea irá me proteger.
Com um beijo apaixonado ambos selaram o acordo.
Saga permaneceria na sede da Romênia e Geisty partiria imediatamente para Londres.
Ao final do beijo, a cigana afastou-se do companheiro e utilizando um de seus dons do sangue preparou-se para a longa viagem.
Diante dos olhos atentos de Saga, o corpo de Geisty condensou-se lentamente, até sua bela figura transforma-se em uma névoa negra e consistente.
Com a forma física dispersa em uma nuvem vaga, Geisty flutuou pelo aposento numa velocidade impressionante até deslizar para fora através das frestas e dobradiças das janelas, então os fortes ventos auxiliariam sua jornada até a Inglaterra.
Na sala, um tanto apreensivo Saga se recostou na poltrona e com voz calma, porém poderosa, ordenou à Saori que seguisse com os relatos, mesmo que agora fosse impossível para ele focar a atenção em quaisquer dados e imagens mostrados na tela. Toda sua concentração era voltara para Geisty e seu encontro com o sumo sacerdote dos Seguidores de Seth.
***
Pouco mais de uma hora havia se passado quando sobre o jardim da mansão Setita em Londres uma nuvem negra se dissipou no ar revelando as formas femininas da vampira cigana, que se materializou diante da entrada da moradia.
Antes mesmo de tocar os pés descalços na grama imunda, Geisty correu os olhos púrpuras assombrados pelas imediações, chocando-se com o que via!
Membros mutilados e uma carcaça humana que já juntava um tanto de insetos. Um pouco mais ao longe três corpos ressequidos decapitados. Um deles totalmente dilacerado. As cabeças jaziam entre as folhagens e o fedor Assamita logo fora por ela reconhecido.
Quando tocou a grama com sola dos pés delicados, a cigana usou um longo lenço vermelho vivo que trazia sobre os ombros para cobrir parcialmente o nariz e a boca, depois caminhou lentamente até outro corpo caído mais ao centro do vergel.
Estreitou os olhos e analisou transtornada cada detalhe, reconhecendo as armas Assamitas que ainda estavam presas nas vestes do cadáver. Então curvou ligeiramente o tronco para frente para examinar um amontoado de terra abaixo de um arbusto, mas na mesma hora fora surpreendida pela voz grave e vigorosa do sumo sacerdote que surgia atrás de si.
— Procura por isto?
Ao se virar de supetão, Geisty surpreendeu-se ao ver a cabeça decapitada de El Cid diante de si. Shaka a erguia na altura dos olhos da vampira, a segurando pelos cabelos ralos.
Geisty contorceu o rosto numa expressão terrível, misto de asco, assombro e incredulidade, então Shaka lançou para ela um olhar alucinado e duro, e imediatamente o corpo todo da cigana foi acometido por uma paralisia opressora, como se mãos invisíveis revolvessem a terra e brotassem do solo agarrando-lhe com força a espinha.
— Quem é você e o que faz aqui? — rosnou o sumo sacerdote, os olhos completamente negros a encarar a alma amaldiçoada da Pietone — Veio atrás disto? — chacoalhou a cabeça de El Cid no ar.
Geisty encarou as trevas nos olhos de Shaka com serenidade e pacatez.
A metamorfose e a viagem exigiram muito de si e fora de seu pleno poder a cigana tinha consciência de que não poderia, nem deveria, enfrentar o Setita, ainda mais agora que ele se mostrava tão mais poderoso. Por isso, apenas analisou aquele olhar selvagem de forma invasiva e se anunciou, sem nada temer.
— Eu sou Geisty, do clã Pietone, e o que faço aqui é você quem precisa me dizer, sumo sacerdote dos Seguidores de Seth. Afinal, não fui eu quem rogou por uma audiência presencial e de caráter urgente.
Shaka estreitou os olhos, surpreso, e de repente a figura de Geisty lhe soou vagamente familiar, porém não se recordava de jamais tê-la visto.
— Como disse? — inquiriu confuso.
— Eu venho a mando do Conselho. — disse a cigana — Sou representante direta do Presidente. E é apropriado que saiba, Setita, que tudo o que for dito aqui, a partir do momento que meus pés tocaram esse solo amaldiçoado, concomitantemente será do conhecimento de Saga, pois estamos ligados pelo sangue! — revelou sem titubear, mesmo diante daquela imobilidade sufocante.
— O... que? — Shaka trincou os dentes — Eu não posso acreditar que Saga me mandou uma... uma mulher para...
— Uma mulher não, sumo sacerdote. — Geisty o interrompeu abruptamente, elevando o tom de voz — A mulher! Eu sou a esposa, a companheira de Saga, e a Primeira Dama!... E se tiver o mínimo de juízo e sensatez irá remover a magia que colocou sobre mim para que possamos tratar do que o fez solicitar a presença do Presidente à esta sede. Caso contrário, terá apenas mais um problema sob sua alçada.
Shaka sentiu toda a tensão daquele momento, e lançou com fúria a cabeça de El Cid contra o chão.
Estava surpreso, já que nunca vira a tal mulher junto de Saga mesmo ela lhe parecendo tão familiar, mas mesmo sendo ela a companheira do Patricii, a atitude do Presidente ainda assim lhe era vista como desmerecimento e pouco caso.
Não estava nada satisfeito com o declínio de Saga diante do seu chamado, e como se pudesse olhar para seu rosto através dos olhos da cigana aproximou-se dela até ficar cara a cara, com os narizes quase se tocando.
— Então vocês possuem um laço sanguíneo. Sendo assim você deve estar me ouvindo, não é mesmo, Saga? — vociferou em voz baixa, soltando as palavras por entre os dentes serrados — O que essa escumalha cigana faz aqui? Até quando você negligenciará aos meus alertas e tratará um possível levante contra os clãs de membros ancestrais como um simples assunto de divisão territorial?
— Retire a magia, sumo sacerdote, ou estará declarando guerra diretamente ao Conselho! — Geisty o encarava de volta, mas Shaka estava alucinado, pela fúria e pela revolta.
— Estou começando a achar que meu apoio à sua candidatura foi um grande erro! — disse o Setita olhando dentro das íris violetas da vampira que permanecia com o semblante sereno — Um erro, aliás, que terei prazer em reparar a qualquer momento!
— Ora sumo sacerdote, não nos insulte com suas ameaças vazias. — a voz de Geisty tomou um tom mais ríspido e potente, ao passo que seus olhos faiscavam um lampejo púrpura — Vocês, Seguidores de Seth, podem ser muito aptos a articular manobras políticas sujas e mesquinhas, mas estão longe de abalar as sólidas estruturas milenares do Conselho. Assim sendo, sumo sacerdote Shaka, eu recomendo que se acalme e retire a magia que colocou em mim, ou terá que lidar sozinho com o seu predador, pois o Conselho está sob nossas mãos. Minha e de Saga!... Creio que não vai querer que todos os clãs lhes virem as costas, não é mesmo? Mas... se preferir, Shaka, se tratar de assuntos ligados ao Conselho com uma mulher ainda for desmerecimento para você, eu posso gentilmente retornar à Romênia e deixá-lo lidar sozinho com seus canibais ferozes e famintos.
— Não diria desmerecimento, mulher, mas sim um insulto! — rebateu o Setita entre perdigotos — O seu clã é uma escória! Foi banido do Conselho há milênios! Parte dessa sua petulância nada mais é que reflexo dos Pietone! Você diz que não posso tirar Saga do cargo da presidência? Cigana tola! Você já fez isso no momento que ligou seu sangue rudimentar ao dele. Ou acha que os membros do Conselho o manterão no cargo quando souberem de sua existência?
— Você não me revelará! O Conselho está do seu lado, Shaka. Será possível que perdeu a razão? — Geisty quase gritou, começando a ficar deveras preocupada com o rumo da conversa — Eu vim até aqui atender a seu chamado! Como tem o desplante de nos ameaçar?
— E você, Saga? Como ousa me mandar uma mulher, uma cigana, uma escória Pietone para tratar de um problema que já havia reportado a você e do qual não foi dada a devida atenção?
Shaka sabia que Saga o ouvia, assim como o Patricii era ciente de que o Setita poderia perfeitamente retirá-lo do cargo a qualquer momento, revelar a existência de Geisty e abalar as estruturas de poder da sociedade vampírica, instaurando um verdadeiro caos generalizado.
Na Romênia, Saga se levantava da poltrona apreensivo. Tanto pela ameaça contra sua amada quanto pelas ameaças a seu cargo na presidência, mas antes que os ânimos se exaltassem ainda mais na Inglaterra, Mu finalmente interveio, materializando-se no jardim diante de Geisty, Shaka, e indiretamente Saga.
— Calados, os dois! — bradou o Nut em tom gutural, e na mesma hora elevou sua Presença de modo a causar medo em ambos os vampiros — Essa é a razão da sociedade atual dos imortais estar tão falha. Estamos à beira de uma guerra e tudo que sabem fazer é cuspir ameaças infundadas um contra o outro feito tolos.
Imponente, Mu caminhou até eles e se colocou entre ambos, encarando ora os olhos negros de Shaka, ora os púrpuras de Geisty.
— Parem de ralhar feito filhotes nervosos e desorientados. — continuou o vampiro ancestral, depois cravou seus olhos verdes aos de Geisty e utilizando-se do laço sanguíneo da vampira com o Patricii falou diretamente com ele — Saga! Esse é o seu nome, não é mesmo? Vocês não tem a mínima ideia do perigo que os cercam. Passei os últimos dias estudando a ordem atual dos vampiros e vi que este Conselho decadente está à beira da ruína. O frágil equilíbrio que tanto lutaram para manter já foi rompido há tempos... A guerra não está às nossas portas, como imaginam, mas já foi declarada. Não apenas os Seguidores de Seth estão no olho do furacão, mas todos os clãs, e a única decisão que precisam tomar de hoje em diante é de que lado vocês estarão.
Mu então desviou o olhar de Geisty e encarou as orbes negras do sumo sacerdote, mas cerrou os lábios e dirigiu-se a ele com telepatia.
“Quanto a você, meu amado, aquiete-se! A sua repulsa à figura feminina me é uma ofensa sem precedentes, mas eu tenho consciência de que não é sua culpa esse modo de pensar. Pelo pouco tempo que estive no Mundo Novo pude perceber que essa postura é adotada por todos os imortais da Nova Era, e infelizmente também pelo gado... Vê-se que o Mundo não seguiu os moldes da divisão de poder que os Nuts criaram...” — balançou a cabeça negativamente — “Saiba, meu amado Shaka, que não vejo ofensa, tampouco desrespeito algum em uma fêmea vir até nós representando o Conselho. Pelo contrário. A mim é uma honra!... A vida vem da mãe. E da mãe também veio a pós-vida... Tanto a minha quanto a sua.” — encarava vigorosamente o rosto de Shaka, que nada dizia — “Aset nos criou. Criou os Seguidores, e foi a fêmea mais poderosa e corajosa que já caminhou sobre essa Terra. A energia criadora de todo o Universo é feminina, e nós devemos honrar o Sagrado feminino... Portanto, meu amado companheiro, acalme seu coração e desconstrua seus preconceitos, pois tudo o que não precisamos agora é de mais inimigos. Esta mulher e o presidente do Conselho são um só. Ela estava presente em todas as reuniões. Não se deixe levar pelo destempero... Sinto que eles correm tanto risco quanto nós, e o destino deles está ligado ao nosso."
Shaka reconhecia legitimidade nas palavras de Mu e não as contestou. Ao em vez disso, por segundos se questionou quando fora que tinha se deixado contaminar tanto pela passagem das Eras e esquecido do verdadeiro valor do feminino em sua vida.
Em vida amou uma mulher, teve filhos com ela, foi devoto de Kali, uma divindade feminina do panteão hindu, e sempre soube o importante papel desempenhado pelas divindades egípcias. Envergonhou-se, mas não podia descontruir em segundos os moldes patriarcais que a sociedade moldara em si, por isso ainda encarava o rosto de Geisty com severidade e repulsa, mas não mais com ameaça.
Shaka agora também se recordava de onde havia visto aquela mulher.
Tinha partilhado das memórias de Mu quando fizeram a troca sanguínea, e agora Geisty lhe aparecia na mente como uma lembrança vaga, fantasmagórica, porém não mais aleatória.
Mu então voltou a face para a cigana e a libertou da magia de Shaka com um simples aceno de cabeça, depois abrandou sua Presença imponente e deu seguimento à reunião.
— Geisty dos Pietone, eu sei que como mulher na atual sociedade vampírica você não tem valor algum, e não passa de uma sombra escondida atrás de seu companheiro. Aliás, essa sua estratégia é sublime! A melhor maneira de subir ao poder. Você é uma fêmea sábia e ardilosa. — sorriu ligeiramente.
Livre das amarras invisíveis que a oprimiam, Geisty arregalou os olhos surpresa e admirada, tanto com a postura quando com as palavras do Nut, as quais jamais havia experimentado tanto em sua vida quanto na pós-vida.
Contudo, mesmo com a aparente generosidade de Mu, a cigana não abriu mão de seguir com cautela, uma vez que no mundo vampírico inimigos se disfarçavam de aliados facilmente, e sem deixar transparecer as suas reservas, deu um passo em direção ao Nut, analítica e compenetrada, mas não encontrou tempo nem oportunidade para questiona-lo no que quer que fosse, uma vez que Shaka já tomava a frente novamente se colocando diante dela, cortando o contato visual entre eles, já que queria que Saga ouvisse claramente a decisão que havia tomado.
— Bem, já que é tão sábia assim, cigana, e já que sua influência sobre o Conselho é um fato irrevogável, julgo que o que tenho a lhe dizer seja de fácil compreensão. — disse o sumo sacerdote — Eu, Shaka, sumo sacerdote dos Seguidores de Seth, assim como todo o meu clã, estou declarando guerra aos Espectros das Sombras.
Geisty sentiu o corpo estremecer e a vontade vacilar.
— O... o que disse? — a cigana murmurou incrédula.
— O motivo de ter chamado o Presidente do Conselho até aqui foi para lhe dizer pessoalmente que eu não vou mais pedir providências legais, sequer me reportar, porque não há mais tempo para isso e nem me resta paciência para suas burocracias infundadas. Agora, a caça será o caçador, e eu vou derrubar um por um daquele clã amaldiçoado!
***
Na Romênia, Saga se levantou da poltrona num gesto abrupto e intempestivo, num claro sinal de apreensão e surpresa.
Ao mesmo tempo em que via e ouvia tudo que se passava na Inglaterra, o Patricii corria os olhos heterocrômicos pelos dados mostrados na tela da projeção.
Seu coração inerte parecia bater novamente exasperado dentro do peito quando viu os números levantados no dossiê de Saori Kido, os quais mostravam o crescimento descontrolado do clã Espectro das Sombras, dados estes que lhe pareceram à primeira instância inacreditáveis.
Em menos de um ano os Espectros das Sombras se multiplicaram em número e dominância territorial de forma sufocante, alcançando um contingente gigantesco de novos membros que abrangia todo o território global.
— Não pode ser! — murmurou o Patricii, perguntando-se como havia deixado que aquilo acontecesse diante de seu comando — Isso é...

Na sociedade atual era estritamente proibido, pelas leis vampíricas que regem o equilíbrio, um clã elevar seu contingente daquela forma. O Conselho monitorava o crescimento dos clãs os mantendo sob seu controle, e aqueles números era um claro sinal de levante!
O slide que se seguiu aos números trazia uma fotografia.
Um homem alto, rosto austero, semblante severo, cabelos loiros revoltosos, sobrancelhas unidas no centro da fronte, olhos num tom de mel.
***
Na Inglaterra, Shaka encarava o rosto de Geisty, que lhe parecia estreitar o olhar em uma fúria contida.
— Eu anuncio aqui, Saga, que Hades, líder dos Espectros das Sombras, é meu inimigo declarado, e eu vou atrás dele. E sendo Hades um dos membros do Conselho, considerarei que também o Conselho estará contra mim se não tomar medidas quanto à permanência desse traidor entre vocês. Enquanto lidam com estatísticas e dossiês, Hades lida com números e aliados. — apontou para a cabeça de El Cid que lançara contra o gramado — Não vou mais esperar por seu aval ou suas resoluções políticas. Os Seguidores de Seth agora irão para a guerra, e Hades é meu primeiro alvo!
— Pois eu creio que o seu alvo seja outro, sumo sacerdote. — Geisty adiantou-se, capturando a atenção de todos, Mu, Shaka e mesmo Saga na Romênia, que olhava circunspecto para o retrato projetado na tela — Hades é apenas uma distração. O verdadeiro inimigo tem outro nome!
***
Na Romênia, Saga aproximou-se da tela e cravou seus olhos, que agora possuíam uma faísca fantasmagoria, na figura projetada.
— Radamanthys! — disse o Patricii, e na mesma hora Geisty repetiu o nome do líder do levante Espectro no jardim da sede Setita, na Inglaterra.
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