A Máscara de Seth
13 Capítulo 13
Notas iniciais

Faltava alguns poucos minutos para o amanhecer quando um luxuoso Jaguar negro cruzava o jardim da mansão de Shaka e era estacionado na entrada da propriedade.
Mal o motorista terminara a manobra a porta se abria e de dentro do automóvel um apressado, e até meio descomposto, vampiro de longos cabelos ruivos descia, já subindo as escadas de modo intempestivo e afoito.
Camus havia passado a última noite, e parte da atual, em Paris, trancado em seu laboratório, concentrado nos estudos que fazia a partir do material coletado de Mu poucos dias antes.
Trabalho que simplesmente poderia postergar para depois de estudos que exigiam sua prioridade, mas que diante da conduta de Mu perante Conselho, mais precisamente após o Nut ter confirmado sua união com Shaka aceitando ser seu companheiro no novo mundo, exigia-lhe certa pressa.
Camus precisava sanar sua duvida, essa que surgira na noite em que Mu lhe dera uma pequena amostra de seu poder e referindo-se a Shaka como “Seu sacerdote”.
E foi com exagerada exacerbação, e um tanto de euforia, que o Cesarem passou horas manipulando pipetas, contando plaquetas, regulando centrifugas, fazendo um teste aqui e outro ali para enfim legitimar sua hipótese.
A partir das análises do material coletado de Mu, Camus averiguou que muitas das informações contidas no sangue do Nut jamais foram classificadas em quaisquer anais científicos de que se tinha conhecimento, como o alto poder de regeneração muito além das capacidades vistas nos imortais que caminhavam sobre a Terra, ou os códigos genéticos totalmente desconhecidos contidos nos tecidos, como fragmentos de pele e cabelo.
Tais evidências apontavam que a fisiologia de Mu não podia ser comparada a nada, nem a nenhum ser, vivente ou não, que um dia tivesse habitado o planeta, e como Camus imaginava que o Nut não viera de um outro corpo celeste, sua fisiologia extraordinária se devia a algo muito maior, até inexplicável...
E por que não, divino?
Mesmo não acreditando em deuses, o Cesarem tinha que admitir que sua descoberta, somada às palavras do Nut ao se referir a Shaka como seu sacerdote, e lhe pedindo que não debochasse da fé do Setita, deveria ser considerada, uma vez que, apesar de cético percebia que Mu se encaixava em muitas das descrições mais simples do deus egípcio Seth.
Fato que passara despercebido por Shaka, uma vez que nutria um sentimento muito diferente por aquele Nut desde quando o encontrara que não simplesmente adoração e temeridade.
Mu por sua vez, estaria enganando o Setita, aproveitando-se de sua cegueira e fazendo jus a seu título de deus da enganação, a Serpente mentirosa dos mitos e lendas antigas.
Camus conhecia a crença fervorosa que Shaka depositava em seu deus, assim como era ciente do desejo carnal do amigo por Mu.
Dois sentimentos completamente opostos, conflitantes, e que certamente causariam um conflito desmedido ao sacerdote.
Foi temendo justamente esse conflito e suas consequências talvez irremediáveis, tanto para Shaka, quanto para todo o clã Setita e à sociedade vampírica, que Camus fretou um voo naquela mesma noite para Londres e agora tocava a campainha da entrada principal da mansão do sumo sacerdote quase em desespero.
Da maneira em que estava em seu laboratório, simples vestes de algodão e linho em tons escuros, cabelos desgrenhados, a indefectível capa negra para proteger-se de algum jato de luz artificial mais intenso e um bolo de papeis dentro de uma pasta de papel pardo, a qual trazia debaixo do braço, Camus entrou no avião e poucas horas depois esperava ver o rosto amigo de Shaka, mas não fora o sacerdote a atender a campainha.
O francês recuou dois passos quando percebeu a maçaneta girar lentamente, então surpreendeu-se ao ver uma pequena fresta se abrir revelando a belíssima e melancólica figura do servo de Shaka, Afrodite.
Tombando a cabeça levemente para o lado, o músico olhou para o visitante, calado.
Ao cruzar seus olhos com os dele, Camus sentiu-se como fisgado por uma armadilha, esquecendo-se até do que fazia ali, o por que de estar ali.
Aquele humano só podia possuir algum tipo de magia, ou magnetismo desconhecido que o deixava desconcertado toda vez que aqueles olhos tão azuis e doces fixavam-se aos seus.
E não eram apenas os olhos!
Afrodite tinha um odor único, um perfume atraente que exalava de seus cabelos longos e reluzentes, da pele aveludada, do hálito aprazível...
Camus não estava prevenido para aquela recepção. Deixou seus olhos correrem pelo pouco que era exposto do corpo do pianista através do pequeno vão aberto e sentiu a Besta agitar-se ao ouvir a sinfonia excitante que era aquele garoto.
Os lábios rosados entreabertos puxavam e expeliam o ar lentamente, causando um frisson desvairado no Cesarem. O coração batia ruidoso dentro do peito, convidativo e instigante, e o ar que passeava dentro dos alvéolos de seus pulmões era tal qual ventos revoltos que cortam as colinas e vales rochosos.
Camus estava mais do que acostumado com a estimulante sinfonia da vida.
Seu servo Isaak era igualmente apetecível, mas Afrodite estranhamente lhe despertava um desejo que ia além de tão somente saciar a fome.
Queria mais! Mais que apenas seu sangue.
Camus desejou toma-lo de todas as formas possíveis. Corpo, alma, pensamentos!
— O senhor é o alquimista, não? — o músico quebrou o silêncio — O que deseja?
A voz suave do garoto despertou o francês do transe no qual caíra.
— Ah... Oui... Sou... Camus, lembra de mim? — disse meio atrapalhado.
— Sim. — respondeu encarando os olhos avelãs.
— Vim ver o Shaka.
— Mestre Shaka... não está em casa. — a voz fraca e arrastada saia com pequenas pausas.
O Cesarem arqueou uma sobrancelha.
Faltava meia hora para o amanhecer e Shaka não estava em casa.
Esse era o primeiro indício de que deveria se preocupar com o amigo.
— E Mu? Mu está ai? — preguntou apreensivo.
— Não... Mestre Mu também não está.
Esse era o segundo indício.
Somado ao fato de que nem Shaka nem Mu estavam em seu covil já próximo do temível amanhecer, o cheiro forte de álcool que vinha do hálito do músico chamou a atenção de Camus.
Além dele, Afrodite tinha os olhos ligeiramente avermelhados e inchados, uma possível evidência de que estivera chorando.
Não estava gostando nada do quadro que se pintava naquele momento.
— Eu posso entrar? — perguntou o ruivo cordialmente, e vendo que Afrodite não respondia, talvez por que estivesse ponderando se devesse permitir sua entrada ou não, foi categórico — Eu non vou machucar você. Eu vim aqui porque preciso muito falar com seu mestre e non irei embora até falar com Shaka. Posso espera-lo em um dos quartos da casa?
Afrodite então percorreu o rosto pálido e muito bonito do francês com os olhos.
Reparou que ele tinha lábios lindos e delicados, mas que provavelmente encobriam uma boca faminta e letal, como de todos os outros de sua espécie.
Deveria temê-lo, estava sozinho, assustado e muito machucado, mas estranhamente não o temia. Ao contrário, algo dentro de si acontecia, e não era medo.
Talvez fossem as borboletas revoando seu interior novamente!
— Pode. — respondeu o garoto, finalmente abrindo a porta e cedendo passagem a Camus.
Ao adentrar a sala, o Cesarem voltou sua atenção ao servo o vendo fechar a porta e caminhar a passos pequenos, trôpegos e muito lentos em direção ao corredor.
Parecendo muito debilitado, vestia apenas uma camisa de moletom de mangas longas e que ia até metade de suas coxas.
Quando Shaka não estava em casa, Afrodite não se obrigava a usar as túnicas egípcias que o mestre lhe exigia e por vezes colocava as roupas que comprava quando o sacerdote o permitia sair para dar uma volta na cidade, tomar sol e comprar comida.
Descalço, tinha um volumoso cachecol enrolado no pescoço e parecia trêmulo, como se sentisse muito frio.
— Venha... Vou te levar até um dos quartos. — disse a Camus, apontando o corredor.
O francês logo caminhou em sua direção.
— Você está bem? — perguntou enquanto cruzava a enorme sala iluminada apenas por um abajur estilo vitoriano que o músico acendera quando viera atender à porta — Parece meio... doente. Andou bebendo?
Afrodite olhou para o ruivo, mas logo baixou a cabeça e esfregou a testa com uma das mãos, franzindo as sobrancelhas.
— Acabaram os meus analgésicos... — respondeu deixando escapar um suspiro —... Não tenho permissão para sair sem a companhia de um carniçal... Mestre Shaka... saiu no início da noite... O vinho... ameniza a dor...
— Sabe onde ele foi? — Camus perguntou aproximando-se um pouco mais do garoto.
— Não... E... não sei quando volta... — concluiu cruzando os braços e juntando os pés.
— E o que dói? — o ruivo gentilmente tocou o queixo do músico o fazendo erguer a cabeça e olhar para si. Não entendia por que a dor e a tristeza daquele humano tanto o afligiam — Se eu puder ajudar...
— Eles se gostam... Eu vejo na maneira como se olham... Como se tocam... Eu percebo... Então, por que mestre Shaka ainda me... — Afrodite interrompeu-se quase em aflição, os olhos já marejados novamente — Mestre Mu é tão bom para mim... Eu não queria... Não queria.
De repente, um gesto do sueco surpreendeu o Cesarem.
Afrodite abraçou Camus com força, apertando o outro contra si, deitando a cabeça no peito frio e inerte para total desespero do francês, que sentia o hálito carregado de vinho lhe atiçar o olfato e os sentidos.
Há quanto tempo não saboreava um bom vinho francês!
Logo ele, que era amante da bebida!
Aturdido, Camus tentava a todo custo conter a ânsia descomunal de cravar suas presas na carne daquele humano e bebe-lo até seca-lo por completo, apartando-se dele apenas quando estivesse inebriando pelo álcool em seu sangue.
Já sentia suas presas lhe arranharem os lábios, mais sabia que não podia ceder à Besta, porque além de não querer Afrodite morto o jovem era propriedade de Shaka, seu melhor e talvez único amigo de verdade.
Precisava manter o foco de sua visita.
Shaka e Mu haviam desaparecido e em seu íntimo um sinal de alerta piscava o advertindo de que problemas dos grandes estariam por vir!
Temia ter chegado tarde demais e aquele Nut enganador há essa hora já teria comido, literalmente, seu amigo sacerdote. Contudo, não podia perder a sanidade, nem levantar falsas hipóteses.
Precisava manter-se racional para que se fosse preciso sair à procura de Shaka, ou pensar em algo que pudesse fazer para descobrir o paradeiro dos dois, mas com Afrodite ali colado a si é que não ia conseguir.
De modo muito gentil, Camus segurou o garoto pelos ombros esguios e delicadamente o afastou, procurando seus olhos.
— Eeei... Se acalme. — disse de forma branda — O que você non queria? Me diga o que aconteceu. Pode falar para mim. Pode confiar em mim.
— Eu... Eu não queria que os mestres brigassem...
— Eles brigaram? — o Cesarem arregalou os olhos que agora cintilavam um brilho purpura — Shaka e Mu brigaram?
— S-Sim... — Afrodite fez uma careta de dor e curvou as costas, apoiando-se nos braços de Camus —... E a culpa é minha. Mestre Mu estava com ódio de mim, mas eu não pude impedir... Eu não queria que ele visse... Ele gritou... Não! Ele... Ele... Como um animal... uma... fera... Tão horrível.
— Sacre Bleu! — aquela era a notícia que tanto ansiava em não ouvir — Merde! Cheguei tarde! Ele deve ter descoberto!
Percebendo que Afrodite mal conseguia se manter de pé, e que do lado de fora os pássaros já faziam a revoada que prenunciava a aurora, Camus tomou o garoto nos braços e correu para o quarto que ele ocupava na mansão.
Fora muito fácil encontra-lo, uma vez que aquele humano era dono de um odor único e inconfundível, e também porque Shaka sempre hospedava suas bolsas vivas de sangue no mesmo cômodo da casa.
Ao entrar no recinto, Camus andou até a enorme cama de lençóis brancos de seda e almofadas grandes com suntuosos desenhos egípcios em dourado e deitou o músico gentilmente entre elas, que se retraiu todo deixando escapar um gemido de dor.
Ao lado da cama, sobre um criado mudo, havia uma garrafa de vinho tinto vazia e outra pela metade. Camus olhou para elas deduzindo que o garoto havia bebido muito, mas que não era apenas a embriagues que o acometia daquela maneira, a ponto de deixar seu corpo febril e débil.
Voltando sua atenção para ele, agarrou o lençol e lhe cobriu as coxas nuas.
— Descanse. Você non me parece bem. Tem certeza que non precisa de ajuda?
— Sim. Obrigado senhor, e me desculpe pelo trabalho. — Afrodite agradeceu com um sorriso tímido.
— Camus. Me chame apenas de Camus.
— Camus... — repetiu, mas logo em seguida se colocou sério novamente e encarou os olhos rubros do vampiro — Nem lhe perguntei se está com fome! Que distraído! — disse quase em sobressalto, então rapidamente puxou a manga da blusa até o cotovelo e ofereceu o pulso a Camus.
Afrodite sabia que Shaka o mandaria alimentar o visitante, e mesmo não estando ali cumpriria as ordens do mestre sem hesitar, mas o Cesarem por sua vez segurou na mão do sueco com suavidade e puxou a manga do moletom de volta para baixo.
— Não se preocupe comigo. Estou bem. — disse o ruivo enquanto colocava a mão de Afrodite sobre a cama — Você que não me parece nada bem... Disse que seus mestres brigaram. Pode me dizer por que motivo? — perguntou, mas tudo o que recebeu foi uma negativa do músico com a cabeça, afinal ele não iria expor a intimidade dos mestres, mesmo sabendo que o alquimista era muito amigo de Shaka.
— Tudo bem. — Camus observou resignado, então tocou gentilmente o rosto de Afrodite, que mantinha os enormes olhos azuis fixos aos seus — Então me diga onde dói. Se non tem analgésicos imagino que apenas o vinho non será suficiente para lhe dar alívio.
Vencendo a timidez, o servo então levou uma das mãos ao flanco e depois ao pescoço, indicando por cima do pesado cachecol de lã onde mais lhe doía.
— Mestre Shaka... estava muito nervoso... — baixou os olhos envergonhado — Sei que não fez por mal...
— O que ele fez? — questionou o ruivo franzindo a testa, visivelmente agoniado.
— Ele apenas não teve tempo... de curar a ferida... — Afrodite continuava a evitar os olhos avelãs sobre si —... Ele precisou correr... ir atrás do mestre Mu que... que fugiu depois de gritar daquele jeito... — não queria revelar os detalhes que levaram o Nut a fugir novamente de casa.
Camus mais uma vez ficou inquieto com aquelas meias palavras.
O que teria sido o estopim da briga afinal? E como ela teria terminado?
Mais uma vez esperava não ter chegado tarde demais.
Contudo, além da preocupação com o amigo Setita, Camus de súbito se surpreendeu sentindo muita pena daquele humano.
Sentimento raro entre sua espécie, por sinal.
Se tivesse um coração, certamente ele agora estaria apertado, aflito ao olhar para aquela figura tão frágil e assustada sobre a cama.
Era clara a dependência que Afrodite tinha de Shaka, visto que mesmo sendo o sacerdote seu algoz, o jovem ainda assim não deixava de adorá-lo como a um deus, e de lhe ser obediente.
Era muito triste ver um humano tão bonito e talentoso como ele à mercê da morte, escravo dela, e no centro de um conflito perigoso que certamente acometeria o lado mais fraco primeiro.
E Afrodite era a peça mais frágil daquela tragédia anunciada.
Por isso, munido de compaixão, Camus acercou-se do garoto na cama e como não houvera recuo ou negativa tomou a liberdade de lhe retirar o cachecol do pescoço, desenrolando a peça com movimentos circulares muito lentos e delicados, enquanto não desviava os olhos avelãs dos olhos azuis melancólicos.
Quando retirou a peça viu as mordidas, uma na lateral do pescoço, outra um pouco abaixo do queixo, ambas já muito infeccionadas.
Franziu as sobrancelhas em desassossego.
Jamais fora capaz de algo tão cruel com Isaak ou qualquer outro de seus servos, pois sabia o quanto essas feridas amaldiçoadas faziam sofrer o gado, o levando a uma morte lenta terrível, sob dores agonizantes. Estranhou, pois mesmo o sacerdote não tendo muita consideração por seus servos, nunca os feria daquela forma.
Shaka sempre fora muito elegante ao se alimentar, prova de que algo errado estava de fato acontecendo a seu amigo.
Do mesmo modo gentil, levou a mão até a gola do moletom e encontrou a terceira chaga.
— Merde, por que Shaka fez isso?
Afrodite baixou os olhos para não ter de responder, e vendo seu desajeito Camus tratou de não fazer mais perguntas.
— Bien. Temos que cicatrizar essas feridas antes que a infecção se alastre demais. Me dê licença, vou tirar a sua blusa e prender o seu cabelo para curar primeiro a das costas, tudo bem?
Com um leve sinal afirmativo, Afrodite ergueu os braços para que Camus pudesse lhe tirar o moletom, expondo o corpo magro que também apresentava muitas marcas de unhas, dedos e outras escoriações sobre a pele muito branca sempre privada do sol.
Apesar da angustia que sentira ao se dar conta dos maus tratos que aquele garoto estava sofrendo nas mãos de Shaka, Camus não pode deixar de se surpreender ainda mais com sua beleza.
O corpo, apesar de magro e delicado, possuía formas bem masculinas, e sobretudo era quente! Demasiadamente quente!
O peito, devido à timidez de estar sendo observado com tamanha atenção, subia e descia ao ritmo da respiração acelerada, deixando sua face febril ainda mais corada, e o som do sangue viajando por suas veias atiçava Camus a um nível colossal.
Sorte o Cesarem possuir domínio total sobre a Besta que residia dentro de si.
Poderia ter apenas se inclinado e lambido a ferida para espalhar sua saliva sobre ela e dar início ao processo de regeneração. No entanto, impelido por um desejo maior e desregrado de tocar aquele humano, o francês prendeu seus cabelos prateados num coque no alto da cabeça e o fez se deitar de bruços sobre os lençóis, debruçando-se gentilmente sobre ele para aspirar o delicioso odor da vida, que lhe parecia ainda mais estimulante já que a ele se mesclava o perfume único de rosas que exalava de seus cabelos e do vinho que corria em seu sangue.
Afrodite por sua vez, permanecia calado.
Deveria apavorar-se com aquele gesto de ser virado de bruços e logo ser tocado por aquela criatura, já que tinha um histórico considerável de abusos recentes por parte de seu mestre, mas estranhamente não temia aquele vampiro, de maneira alguma.
Era diferente ser tocado por ele, era confortante, como quando Mu o tocava para curar suas feridas, e como da primeira vez em que viu Camus quando tocou o piano para ele, as insistentes borboletas revoavam frenéticas seu estômago, lhe transmitindo tranquilidade.
Camus então tocou a ferida no trapézio com os lábios. Estava muito quente. Precisaria de saliva para cura-la, mas não queria debilitar ainda mais o garoto com outra mordida.
Por isso, assumiu sua forma bestial e passando a língua pelo ferimento arranhou a pele superficialmente com suas presas e sugou o pouco do sangue que dali brotara, roçando os lábios na região como num beijo quente e caloroso, enquanto a chaga começava a cicatrizar lentamente.
Contudo, Camus fraquejara e em algum momento se perdera enquanto acariciava os ombros, braços e costas de Afrodite, que gemia baixinho, tanto pelos toques prazerosos da mão fria do Cesarem, quanto pelo leve torpor do ferimento cicatrizando. Lentamente, e ainda sob o efeito inebriante do vinho, o músico fechou os olhos sentindo a dor aos poucos se amenizar e as caricias se tornarem mais prazerosas.
O Cesarem então virou o corpo esguio do servo para cima, o deitando de costas para dar atenção às feridas no pescoço, mas sem perceber era levado a cumprir o mesmo ritual, afagando o peito desnudo com os dedos longos e delicados antes de debruçar-se novamente sobre ele e tocar o pescoço com seus lábios tintos de vermelho.
Camus novamente beijou a ferida inflamada arranhando a pele em seu entorno para sorver uma pequena quantidade de sangue e produzir saliva, a qual era depositada sobre a chaga por meio de lambidas vigorosas, repetindo o processo com o outro ferimento mais à lateral, até que ambos estivessem totalmente cicatrizados.
Livre da dor, Afrodite suspirava aliviado, e agora apenas se atinha aos toques voluptuosos do Cesarem, remexendo-se sobre os lençóis e deixando de sufocar os gemidos que escapavam de seus lábios.
O pouco que provou do sangue saboroso do músico fez com que Camus entrasse em um leve estado de frenesi, o qual o impedia de sair de cima do garoto após já realizado seu intento de curá-lo.
Deveria parar, afastar-se, mas não era capaz.
O corpo quente de Afrodite o mantinha preso a ele, quase enfeitiçado.
Desejava prova-lo, tocá-lo ainda mais intimamente, e os gemidos do músico apenas atiçavam sua sede de sangue e de luxuria.
Num gesto afoito, ergueu a cabeça e olhou dentro dos olhos azuis intensos do sueco, então encaixou-se entre suas pernas e esgueirou-se sobre ele até quase colar seus lábios, delirando com perfume do hálito quente que era soprado para fora daquela boca convidativa, onde percorreu os olhos felinos por longos minutos.
— Eu... Eu sinto tanta saudade do sabor do vinho... — lambeu o lábio inferior de Afrodite após sussurrar as palavras, sentindo as mãos quentes do humano lhe envolverem mechas do cabelo cor de fogo —... Deixe-me... prova-lo... uma única vez!
Completamente arrebatado por aquele vampiro, Afrodite tombou a cabeça para o lado lhe dando permissão, concedendo seu desejo, então Camus não ponderou nem mais um segundo, mas ao em vez de tomar seu pescoço e cravar suas presas na jugular, o francês segurou em seu rosto e lhe tomou os lábios num beijo ardente, profundo e pleno de volúpia, o qual fora correspondido de imediato pelo sueco.
Suas línguas exploravam ambas as bocas ávidas por aquele contato na mesma ânsia e carência que as mãos corriam pelos corpos, e quando Camus não pode mais conter sua febre pelo sangue daquele humano, lhe mordeu suavemente o lábio inferior, sorvendo o líquido rubro que brotava abundante em euforia, sem interromper o beijo.
Ao sentir a mordida e o sabor do próprio sangue em sua boca, Afrodite apertou as pálpebras com força, mas igualmente arrebatado tudo que queria era mais, mais beijos, mais toques, mais sangue.
Seus lábios se acariciavam mutuamente numa sincronia erótica, tintos de vermelho, sedentos um pelo outro.
Camus gemia baixinho ao sentir seu corpo vivo novamente em contato com o corpo quente do músico, e o sabor delicioso da bebida, que tanto apreciara em vida, finalmente tocar seu paladar.
Afrodite pela primeira vez experimentando como era ser tocado com ternura e delicadeza.
Após longos minutos ali, provando-se um ao outro, o Cesarem notou a claridade do dia se pronunciar pela fresta da porta aberta.
Relutante, afastou poucos centímetros a boca dos lábios do sueco e lambeu a ferida que havia aberto, a cicatrizando rapidamente.
— Preciso que feche as janelas e a porta para mim. Já é dia... Terei que dormir aqui hoje. — sussurrou enquanto fazia uma leve carícia no rosto do músico.
Afrodite olhou em seus olhos avelãs e balançou a cabeça afirmativamente.
Já mais disposto, saltou da cama rapidamente e correu em direção à porta.
— Sim... Mas as cortinas não são suficiente. Não saia daí. Há raios de sol no corredor de dia. Eu já volto. — disse antes de deixar o quarto às pressas.
No corredor, puxou as negras cortinas de grosso tecido e encobriu as janelas envolvendo todo aquele pedaço da casa num breu soturno, então voltou correndo para o quarto tateando a parede devido a dificuldade em enxergar o caminho, e trancou a porta.
Acedeu a fraca luz de um abajur ao lado da penteadeira e então caminhou ligeiro até uma grande janela, onde puxou a cortina negra de veludo para encobri-la e depois arrastou um enorme biombo de madeira espessa e escura a vedando completamente.
— Mestre Shaka mandou fazer essa peça para quando ele passa o dia aqui no meu quarto... — disse distraído —... Com isso nenhuma claridade passará, pode ficar tranquilo. Você está seguro aqui.
Voltou à cama e engatinhou até Camus, sentando-se à sua frente cruzando as pernas.
— Obrigado por curar meus machucados, Camus... — envergonhado baixou o olhar, evitando os olhos profundos do ruivo — Mestre Shaka não é sempre assim... Ele é bom!... Só anda muito nervoso ultimamente... Espero que eles voltem logo... — disse, então burlou a timidez e atreveu-se a aproximar-se do Cesarem e se aninhar em seu corpo, pousando a cabeça sobre o peito agora quente — Posso ficar aqui com você hoje?
Camus acolheu o corpo menor num abraço ao mesmo tempo possessivo e protetor, e novamente permitiu-se perder-se no perfume daqueles cabelos tão macios.
— Oui.
Foi tudo que conseguiu dizer antes de apertar o corpo jovem contra o seu.
Surpreendeu-se ao experimentar certo desconforto quando ouviu Afrodite dizer que Shaka passava, por vezes, o dia naquele quarto junto dele, e foi ai que se dera conta do tamanho do problema que estava arrumando para si deixando-se levar por um sentimento que brotava pelo servo de outro vampiro.
Sabia que jamais poderia tomar Afrodite sem a permissão de Shaka, pois o músico era sua propriedade.
Os servos de um vampiro eram seus bens pessoais e exclusivos, e toma-los sem a autorização de seu mestre, ou até mata-los, era tido como ofensa gravíssima podendo até resultar em uma catástrofe, uma vez que o vampiro que se sentisse lesado teria o direito de pedir punição à quem lhe lesou perante o Conselho. Em casos graves até resultando em pena de morte.
Camus sabia que não deveria ter beijado Afrodite daquela maneira, e se não fosse o temível amanhecer talvez até tivesse sucumbido a seus instintos e cometido falta ainda mais grave!
Não importava o quanto aquele humano conseguia mexer consigo, ele tinha dono e seu dono era seu melhor amigo, e uma amizade de séculos não valia o risco.
Um tanto quanto perturbado, já que nunca fora um vampiro dado a paixões que não fossem elas passíveis de serem explicadas pela Ciência, o alquimista curvou levemente o tronco e retirou os sapatos, depois o casaco, os deixando ao lado da cama enquanto era aguardado por Afrodite que ajeitava as almofadas.
Agora não tinha muito o pensar nem fazer.
Estava angustiado tanto com o beijo que mexera consigo de uma forma inesperada, quanto com o sumiço de Shaka, mas teria que esperar até que o véu da noite se derramasse novamente sobre si.
***
Quando o último raio de sol fora engolido pelo horizonte, Camus abriu os olhos despertando de seu longo descanso.
Em seus braços, Afrodite ressoava baixinho, adormecido profundamente. Estava visivelmente muito abatido ainda, debilitado, e o Cesarem achou melhor deixa-lo descansar para que se recuperasse por completo.
Sendo assim, Camus desceu lentamente da cama tendo o cuidado de não acordar o músico.
Antes de deixar o quarto, selou os lábios entreabertos de Afrodite com um beijo rápido e singelo.
Passou a mão nos sapatos e no casaco e terminou de vesti-los do lado de fora, ainda no corredor, enquanto já traçava mentalmente um plano de busca.
Estava resignado a ir atrás de Shaka, convocaria alguns Cesarens e Seguidores de Seth para acompanha-lo, mas antes passou na cozinha e se deu o trabalho de cortar algumas frutas que encontrou ali, juntar com alguns pedaços de pão e queijo e preparar uma refeição para Afrodite, para quando ele acordasse, pois o garoto estava muito frágil e precisava se alimentar corretamente.
Depositou a bandeja com os alimentos sobre o criado mudo ao lado da cama e perdeu mais alguns minutos ali, observando o músico dormir, então quando olhou no relógio se deu conta de que já fazia pouco mais de uma hora que o sol se pusera no horizonte e nada de Shaka, ou Mu, aparecerem.
Deixou novamente o quarto e a passos largos e apressados cruzava a sala em direção à porta de saída decidido a pedir um carro a um dos carniçais do sacerdote e iniciar sua busca, quando de repente a mesma se abriu sozinha e por ela, para espanto do francês, Mu adentrou o cômodo trazendo Shaka consigo nos braços.
Se tivesse um coração vivo certamente ele teria falhado uma batida!
Camus arregalou os olhos, atônito e chocado com a cena que via.
Mu estava coberto de lama seca, também outras esterqueiras que pareciam terra, grama, lodo, sangue fresco e também ressecado, vísceras, folhas e toda a sorte de imundices cabíveis. Apenas seus olhos, tal qual dois faróis acesos, era possível identificar em meio a todo aquele mar de porcaria.
Em seu colo, Shaka não estava em melhor estado, no entanto, além de toda a sujeira partilhada, também era possível notar em seu peito uma enorme ferida negra, inchada, que parecia ser nutrida por pequenas veias enegrecidas e arroxeadas que saiam dela.
Outra ferida igual ele trazia em um dos flancos, e também em ambas as coxas, além de um espesso emaranhado de folhas que parecia encobrir uma quinta chaga sobre sua garganta.
Seus cabelos imundos colavam na pele surpreendentemente azul!
E não era tinta, visto que era visível pequenas escoriações sobre ela cujo único borrão perceptível era causado pelo sangue e pela sujeira.
Ambos estavam nus.
— Sacre... Bleu!
Camus exclamou em choque, enquanto corria os olhos pelo corpo do amigo sacerdote tentando entender o mínimo do que a cena lhe passava, mas já desconfiando do que havia acontecido.
— Você... O que você fez com ele? Seth! — encarou os olhos de Mu de modo ameaçador.
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