A Máscara
9 Capítulo 9 - "O que estava me faltando".
Notas iniciais
Previ a reação de Bel. Iria me trancar num quarto sem janelas, sem cama, sem qualquer mobília. Provavelmente mofado, mal iluminado e com goteiras. Além de mim só haveria um recipiente para minhas necessidades fisiológicas. Refeição fria e azeda uma vez por dia.
— Clarice? — disse papai, esperando ansioso por minha resposta. Não dei atenção a ele, estava absorta em meus pensamentos.
Já com Conner as coisas seriam piores. Bel o encontraria até no inferno se fosse necessário, cravaria uma estaca em seu peito e o decapitaria.
Como Conn podia ser tão inconsequente?
Tive medo que ele planejasse me raptar após o casamento. Será que esse era seu plano? Ele não compreendia que não podia medir forças com o príncipe? O que ele tinha na cabeça? Uma criatura com tanta experiência devido ao acumulo de tempo deveria ser mais sábia e madura. Uma afronta como essa teria consequências. Fatalmente Belphegor descobriria sobre esse casamento, e era certo que não ficaríamos sem punição.
Por mais que a ideia tivesse partido de meu pai, o que duvido, Conn permitiu que ganhasse forma. Poderia tê-lo hipnotizado e tirado essa condição de cena. Tudo isso era culpa dele e o odiei.
— Clarice? — dessa vez Conner parecia ansioso com minha hesitação.
Infelizmente não consegui achar uma solução pacífica. Estava numa encruzilhada. Simplesmente não podia fazer essa maldade com meus pais. Se eu não aceitasse o pedido teria que desaparecer e isso causaria mais sofrimento e dor a eles. A recusa nos tornaria ainda mais suspeitos. Aceitar era assinar nosso atestado de óbito.
Pedi aos céus que nos protegessem.
— Tudo bem, eu me caso — ficou evidente pelo meu tom que concordei a contragosto, infelizmente parece que ninguém se apercebeu desse fato.
Meus pais me abraçaram. Conner sorria satisfeito, triunfante. Meu irmão cobriu seu rosto com as mãos, contrariado.
***
Decidi que participaria o mínimo possível dos arranjos do casamento.
Meus pais queriam uma grande festa. Casaríamos pela manhã no civil, à tardinha na igreja e haveria uma recepção para poucos convidados numa casa noturna, à noite — um dia inteiro de comemoração.
Conn ficou hospedado em casa durante o período dos preparativos. Nosso relacionamento se esfriou a ponto de mal nos falarmos durante esse tempo. Eu definitivamente não conseguia suportá-lo depois do que fez.
Meus pais estranharam a forma como “os noivos” estavam se tratando, especialmente estando a dias do casamento, contudo a ansiedade para o grande evento fez com que as desconfianças fossem encobertas por outras prioridades.
Eu, em contra partida, estava deprimida por antecipação. Podia ver claramente os problemas que nos aguardavam num futuro próximo.
Infringindo a regra de que meu quarto era proibido pra ele, me visitou numa madrugada. Estava acordada, tensa e ansiosa demais para dormir. Temia pela segurança de todos: minha, dele e de minha família.
O vampiro se acomodou na minha estreita cama de solteiro, segurando meus pulsos para que eu não tivesse a ridícula ideia de tentar lutar contra ele.
— Não sei por que tem agido dessa forma — queixou-se, cochichando. — Tudo tem seu preço, você teve o beneficio de rever sua família. Pague o que isso valeu, de bom grado. Fico ofendido em ver como tem tratado o casamento. Sou tão repulsivo assim? A ideia de ter um compromisso comigo te enoja? — a personalidade de Conner se revelava aos poucos. Espantava-me com sua sagacidade. Ele distorcia as coisas para se passar por uma pobre vitima. Em nenhum momento mencionou o preço que eu pagaria por revê-los. A verdade é que não estava disposta a colocar a vida deles em risco. Se eu soubesse o quão inocente e egoísta estava sendo quando aceitei voltar para casa, jamais teria concordado com isso. Minha culpa só não era maior do que a raiva que sentia de mim mesma.
— Isso não tem nada a ver com o casamento ou do quanto te considero repulsivo. Essa “união” não vai significar nada para nenhum de nós — também sussurrei. — O único prazer que vai tirar disso é ter, de papel passado, uma propriedade de Belphegor. Isso deve significar muito pra você, afinal de contas, o risco é alto — o silêncio mordaz substituiu minha fala. Pensei que Conner não responderia a isso. Talvez por não ser capaz de apontar os erros na minha dedução.
— É isso que pensa? Que concordei com a condição do casamento para “atingir” Belphegor? A única pessoa nesse quarto que pensa nele a cada instante não sou eu — as palavras me atingiram como uma acusação, e infelizmente tive que dar razão ele. Não conseguia pensar em mais nada a não ser em Belphegor. Será que eu estava tão preocupada com o que nos aconteceria que voltava meus pensamentos para ele a todo momento ou estava tão envolvida que não era capaz de pensar em mais nada? — É impossível aceitar que a ideia do casamento simplesmente me agradou? Ainda não entendo por que faz tanto caso. Acha mesmo que Belphegor vai ficar sabendo disso? E se hipoteticamente souber, o que ele faria? Acha que está muito preocupado com seu tipo de relacionamento comigo? Se estivesse, por que permitiria que eu viajasse com você, sozinho? Por que ele não escolheu outro servo para te acompanhar? Supostamente ele deveria morrer de ciúmes de mim, certo? Aceite o fato de que ele não está emocionalmente ou romanticamente envolvido com você. Tudo o que faz é te atrair para a teia dele, com o objetivo de te prender. É bem mais fácil quando o alvo não está em movimento. Ele só precisa que você queira a posição que ele te oferece, e você a quer. Se esse casamento o aborrecer, coisa que dúvido que aconteça, será pelo fato de ter sido realizado sem que ele fosse comunicado. Talvez até ache cômico. Mas, não seria por ciúmes — dessa vez eu não tinha resposta.
Conner queria me confundir. Era óbvio que estava certo numa coisa, Belphegor não estava apaixonado, mas sabíamos como era possessivo e que, em sua mente, eu pertencia a ele.
Bel encararia esse casamento como um roubo, uma afronta. Não ignoraria o assunto, por mais imbecil que parecesse sob seu ponto de vista.
Conn afagava meus cabelos, como se essa carícia amenizasse a dor que ele imaginava ter me infringido com suas palavras duras. Se ele não estivesse segurando meus braços afastaria as mãos dele de mim, sem gentileza.
Sim! Era muito desagradável ter que ouvir que o príncipe pouco se importava. Eu estava envolvida demais para superar isso e passar adiante. Me feria mortalmente esse desprezo. Como era possível que me ignorasse se desde que nos encontramos minha vida passou a girar ao redor dele? E até onde eu sabia o contrário era verdadeiro, embora ele odiasse ter me conhecido.
No momento, possivelmente, o príncipe estava ocupado, cuidando do seu título de nobreza. Eu era apenas um infeliz contratempo. Só um problema que o tornava vulnerável. Se alguma vez, durante o tempo em que estivemos separados, ele pensou em mim, foi como uma pedra no sapato. Um mal necessário. Sim, era isso que eu significava para ele.
— Tente aproveitar —foi o que Conner disse, me trazendo para a realidade. — A partir de agora sua vida será difícil. Terá que se esconder, que fugir, será perseguida e ameaçada por toda sua existência. Não faz ideia da confusão em que está metida. É provável que jamais esteja numa festa com a presença dos seus parentes e amigos. Não queria que você me odiasse por tentar tornar sua vida mais agradável. Não vou mentir dizendo que aceitei esse casamento apenas pensando em você. Adorei a sugestão do seu pai e me condenei por não ter sido eu quem pensou nisso primeiro. Sei que vou me divertir, espero que esteja comigo.
O barulho que se ouviu foi o de um suspiro. Meu suspiro.
Tinha que dar razão a ele. Até quando eu poderia me dar ao luxo de não falar com Conner, de ignorá-lo? Ele era a única pessoa com quem eu poderia contar. A única que sabia exatamente o que estava acontecendo. Talvez essa situação perdurasse por muito, muito tempo. Uma hora ou outra essa raiva teria que passar. Eu precisava ser prática, o que ganharia agindo infantilmente, ignorando Conner? Nada. Com ou sem casamento, já estávamos encrencados.
Me rendi. Parei de lutar contra suas carícias. Era disso que eu precisa no momento, me sentir querida, mesmo que não fosse real. Aconcheguei-me em seus braços. Meu gesto fez com que o vampiro soltasse meus pulsos, que estavam doloridos pela pressão de seus dedos fortes.
— Ainda vai nos matar — afirmei.
— Eu sei o que estou fazendo — garantiu, completamente seguro. Eu sabia que estava enganado.
Ficamos um longo tempo em silêncio. Pensei no que havia me dito. Ele queria se casar comigo? Conner realmente me achava tão imbecil a ponto de acreditar que ele estava apaixonado por mim? Sim, ele achava. Eu não poderia culpá-lo por isso, era mesmo uma idiota.
— O que acha se nosso casamento fosse estilo um baile de máscaras? ele me pegou desprevenida.
— Hein? — perguntei sonolenta, tentando ordenar meus pensamentos.
— Seria uma piadinha nossa. Você estaria no mais significativo ritual de passagem, deixando de ser uma mortal comum para conviver com os mascarados. Abandonando formalmente sua vida anterior, com a presença de todos que foram importantes pra você, trocando-os pela sua nova família. Adquirindo um novo estilo de vida. Ninguém saberia do significado, apenas nós — não estava em condições de acompanhar o raciocínio de Conner. Me esforcei para dar uma reposta coerente:
— Faça o que achar melhor. Vou tentar me divertir, mas não quero participar da elaboração do evento — logo adormeci.
As carícias de Conner me serviram como estimulante para o sono que teimava em não me visitar a dias.
***
Conner e mamãe escolheram tudo: a decoração, petiscos, bebidas, as flores, os convites, as lembrancinhas, a banda que tocaria na boate...
Optei por não me envolver. Ainda não conseguia concordar com isso.
Mamãe e Conner ficaram amigos no processo, o que me deixou admirada. Percebi que eu não era a única pessoa facilmente persuasível da família.
Em duas semanas tudo estava pronto. Todos pareciam empolgadíssimos com o casamento, exceto Danilo e eu.
A única coisa que escolhi foram os vestidos. Um para o casamento no civil e um vestido de noiva para a igreja.
Para o civil era preto (como meu humor).
Para o casamento na igreja escolhi um vestido marfim, na altura dos joelhos. A coroa prata era adornada por uma grinalda que chegava até minha cintura. Não era o vestido dos meus sonhos, na verdade foi o primeiro que experimentei, não estava no clima para vestidos.
As máscaras seriam distribuídas depois da cerimonia religiosa.
Um casal de vizinhos e um casal de tios assinaram como testemunhas e consequentemente foram nossos padrinhos, ficando ao nosso lado no altar da igreja.
Como imaginava a decoração do lugar estava belíssima.
Conner conseguiu ficar ainda mais encantador usando fraque.
Entrei ao som da marcha nupcial, de braços dados com papai. Não imaginei que esses passos até o altar pudessem ser tão tocantes. No entanto, me emocionei e senti as lágrimas rolarem por meu rosto, como se tivessem vida própria.
A igreja estava apinhada de pessoas conhecidas, que se trajavam com simplicidade, porém, com elegância.
Juntei-me a Conner, aos padrinhos e a meus pais no altar.
Ouvimos o discurso do padre.
Sorri durante quase toda a palestra. A ironia de ter um vampiro dentro da igreja, perante um homem que dedicou a vida a Deus, frente à cruz, era hilariante. Conn reprovava minha alegria inoportuna, me censurando com expressões carrancudas.
Repetimos os votos matrimoniais, dizendo o famoso “sim”. Trocamos a aliança e nos beijamos, como dita a tradição.
Os lábios de Conn estavam quentes e foram gentis. Não me senti confortável beijando-o, era quase incestuoso.
No caminho até o carro fomos atingidos por uma chuva de arroz.
No automóvel, a caminho da casa noturna, Conn ajudou a retirar o arroz do meu cabelo, bagunçando meu penteado. Adoramos meu novo visual.
Ele posicionou a máscara em meu rosto. Gostei da minha aparência com ela, que escondia minha face encoberta por maquiagem, me deixando misteriosa. Conn colocou sua própria máscara. Era impressionante o efeito desse acessório. Parecia uma extensão dele, como se sua face a completasse e vice e versa.
Admiramos nosso visual.
Assim que o carro estacionou frente à casa noturna, o pensamento que me afligia durante os últimos dias me atingiu em cheio.
Eu temia que após a recepção Conner me raptasse, entretanto não tive coragem de tocar nesse assunto com ele, achando que eu podia incitar um desejo que ele não tinha.
Esperamos os convidados no local da recepção. Assim que esses chegavam, nos cumprimentavam. Era uma tarefa quase impossível reconhecê-los com as máscaras.
A banda tocava músicas nacionais e internacionais. Existia um grande espaço reservado para a dança.
Meus pais pareciam mais animados do que eu própria.
Infelizmente quase não tive tempo para dançar, nem para comer. Precisava dar atenção aos convidados.
Como toda a garota, tive sonhos a respeito do meu casamento. Jamais poderia imaginar que seria tão estafante.
Em determinado momento, um dos integrantes da banda pediu que todos se retirassem da pista. Era o aguardado momento da dança dos noivos.
Conner e eu nos dirigimos até lá. Começaram a tocar uma balada brega, que tenho que admitir, a adorava.
https://www.youtube.com/watch?v=epapotFkWCM
Como sempre, Conn me conduziu, não era difícil dançar quando estava com ele.
O vampiro posicionou as mãos em minhas costas, próximas demais dos quadris. Era impossível dizer se era um toque casual ou algo indecente. Sorri com sua atitude ousada. Às vezes eu o amava por ser tão espontâneo, às vezes o odiava pela mesma razão.
Ele diminuiu a distância entre nós e colou nossos corpos de um modo inapropriado. Olhei diretamente em seus olhos negros, para repreendê-lo, mas me arrependi disso no momento em que nossos olhares se cruzaram. Jamais havia visto seus olhos tão intensos e compenetrados. Não consegui identificar a razão disso. Será que queria impressionar os convidados? De repente me senti desconfortável em seus braços.
Olhei ao redor, possivelmente constrangida, só queria me livrar daqueles olhos de jabuticaba, cravados em meu rosto.
O que estava acontecendo aqui? Havia surgido um clima romântico entre nós? Que absurdo!
Logo o vampiro me segurou pelo queixo e me obrigou a encará-lo. Congelei ao me deparar com aquele mesmo olhar. O que estava acontecendo?
Conn aproximava seu rosto do meu, lenta e torturantemente. Ele tencionava beijar-me. Meu coração parou por alguns segundos. Era possível que eu estivesse desejando ser beijada por ele?
Meus lábios se entreabriram sem que eu percebesse e meus olhos escorregaram daqueles olhos sombrios para seus lábios rubros e bem desenhados.
E foi então que aconteceu: houve um blackout e a música parou no mesmo instante.
A escuridão era absoluta, não era possível ver nada, nem ninguém. Eu não sentia mais Conner a meu lado, por mais que tateasse e chamasse por ele. O murmúrio das pessoas assustadas com a falta de luz era o único som que eu ouvia.
As luzes voltaram numa tonalidade vermelha, como se fossem luzes de emergência. A banda não estava mais no palco e Conner não se encontrava mais ao meu lado. Olhei em todas as direções e não pude encontrá-lo. Retirei a máscara na esperança de que todos fizessem a mesma coisa. Era aterrorizante não reconhecer ninguém.
Estava completamente sozinha na pista de dança, quando me apercebi do fato, me senti deslocada e em evidência. Antes que eu pudesse me retirar
uma música alta começou a tocar pela boate, marcada por solos de guitarra.
https://www.youtube.com/watch?v=jW8UlrtcEac
No momento em que a música soou dançarinos entraram no clube. Todos vestiam smoking e usavam máscaras brancas que encobriam completamente suas faces.
Eram muitos dançarinos.
Alguns subiram no palco, realizando uma coreografia perturbadora, com giros e saltos acrobáticos.
Outros dançavam entre os convidados, no espaço que não era destinado a dança.
As pessoas adoraram a surpresa. Cheguei a pensar que Conner estivesse dançando entre eles.
Um deles veio até o palco e me puxou contra seu corpo, me obrigando a seguir seus passos. Quase recusei seu pedido, entretanto seus braços fortes ao meu redor não me davam escolha.
Todos aplaudiam os bailarinos e pareciam fascinados com a coreografia.
Assim que a música acabou, uma luz fraca focalizou um dançarino, que estava no centro do palco. O resto de nós estava na escuridão.
Ele retirou a máscara e se aproximou do microfone.
Reconheceria aquele semblante angélico sob qualquer intensidade de luz.
— Damas e cavalheiros — disse o príncipe Raleph, com sua voz suave e infantil. — Foi uma honra dançar para vocês. Fizemos uma entrada triunfal com o objetivo de distraí-los, enquanto dançávamos, os noivos seguiram para a aguardada lua de mel. Eles não gostam de despedidas e nos contrataram para que tivessem tempo de se retirar. Aproveitem a festa. VIVA OS NOIVOS! — berrou.
O dançarino mascarado me puxava pela mão aproveitando que as pessoas estavam distraídas e que a luz era quase escassa. Tentei me soltar, mas a força dessa criatura era inumana.
Seria Conner? Ele me raptaria?
O vampiro permanecia mascarado.
Jogou-me dentro de um Maserati preto.
Assim que assumiu a direção retirou a máscara, revelando sua beleza extraordinária. Sorri ao reconhecê-lo.
Minha vontade era de pular em seus braços, mas sua fisionomia me desencorajou. Bel não me encarou, apenas arrancou com o veículo. Meu coração estava disparado contra as paredes do meu peito. Feliz ao revê-lo e temerosa com as consequências desse casamento.
— Não vai falar comigo? — eu sabia que ele estava zangado, mas precisava ouvir novamente sua voz.
— Nóm tenho nada parra dizer — havia rancor em seu tom.
— Não foi um casamento de verdade. Só fizemos isso, pois era uma exigência de meu pai e...
— De seu pai? — a voz dele se elevava. — Prefirro acrreditar que é ingênua do que acrreditar que é burra. Devia ter me alerrtado, eu te resgatarria. É tóm esperrta parra fugir de seu cativeirro, mas nóm tem astúcia para roubar o celular de Conner e me fazer uma ligaçóm. Acho que está adorrando a atençóm que ele dispensa com você. Sendo seduzida parra a armadilha dele — disse Belphegor, esmurrando o volante do automóvel. Ele usou exatamente o mesmo argumento que Conner, alegando que ele me atraia para uma armadilha.
— Por que acha que eu deveria te envolver nisso? Você permitiu que ele me levasse. Não fazia ideia do que poderia me acontecer? Prefiro imaginar que você é ingênuo, não burro — Belphegor me encarou com olhos cruéis. Não olhava mais a pista, embora dirigisse em alta velocidade.
O encarei sem medo algum de sofrer um acidente, mesmo sabendo que fatalmente morreria, enquanto ele não sofreria nem arranhões.
O príncipe aumentou a velocidade do veículo consideravelmente, me fazendo colar no acento. Engoli em seco.
— Acha mesmo que ele está apaixonado por você? Que usou esse casamento, se apegando a ideia de que com isso te conquistarria? É isso que acha? — falou de modo zombeteiro, como se caçoasse de mim.
Quase sorri. Deus! Como senti falta desse vampiro, até do seu jeito rude. Tentei não olhar muito para ele, não queria me distrair. A cada dia ele parecia mais lindo, como se fosse isso possível.
— E se for isso que acho? — provoquei, mesmo não achando.
Belphegor gargalhou.
— Entón te vejo como realmente é. Uma garrotinha deseperrada por atençón. Incapaz de saber que estóm desenhando um alvo em seu prróprrio peito.
— Alvo? Do que está falando?
— Uma pessoa que precisa desesperradamente se esconder, irria para o lugar mais óbvio? Pense, Clarrice. Conner prrecisava te tirrar de foco, ir para sua casa nóm parrecesse nem um pouco suspeito? Fazer uma festa como aquela, naquela prroporçóm, te parrece discrriçóm parra te manter a salvo? Falar a Raleph sobrre onde ele estarria e com quem, nóm te parrece uma emboscada? Em nenhum momento pensou que estava sendo serrvida numa bandeja de prrata? É imprressionante, basta mexer com a vaidade feminina para que todo o resto seja desprrezado.
Não, não, isso não era possível. Conner não estava me expondo para que eu fosse capturada. Esses vampiros queriam bagunçar minha cabeça, colocando-me um contra o outro.
— Não faz ideia do que está falando — retruquei sem acreditar muito em minhas palavras.
— Entóm o que acha? Que o vampirro te ama? Que se arriscarria por esse amor? Qual parrte de “os vampirros sóm incapazes de amar” você nóm comprreende? Tudo o que Conner fez nóm foi parra conquistá-la, mas sim parra me destrruir. Você nóm é nada nesse jogo, além de uma marrionete idiota — pisquei aturdida. Marionete idiota? Droga! Era exatamente isso que eu era.
Conner tentava me puxar para o lado dele, para afrontar seu Senhor, cansado de servir a ele por séculos. Belphegor brincava comigo, talvez para amenizar o tédio da eternidade.
Ficamos em silêncio por algum tempo. Bel apertava o volante com mais força do que a necessária, o que demonstrava que ainda estava aborrecido.
— Tudo isso foi um plano seu? Esse rapto da noiva? — procurei não demonstrar o quanto estava magoada com meus pensamentos. Bel dizia que eu não poderia ser amada e por esse motivo me apegava a qualquer ilusão amorosa. Isso não era verdade. Se os vampiros não eram capazes de amar, que culpa eu tinha? Nunca procurei pelo amor deles.
— Acha mesmo que Conner irria conseguirr me enganarr por muito tempo? Raleph me contou sobrre a converrsa de vocês. Vim parra cá e soube sobrre o casamento. Prrecisei achar uma maneirra de te tirrar de lá, sem arriscar a máscarra.
— Foi uma boa idéia — falei casualmente, cruzando os braços e olhando para lugar algum através da janela do carro.
Essas acusações contra Conner me aborreciam. Tudo parecia tão legítimo quando se tratava dele. Infelizmente eu sabia o quanto ele mentia bem. Era triste pensar nele como uma farsa.
Ficamos em silêncio durante algum tempo.
— Conner nóm te amar te deprime? — a pergunta me pegou desprevenida. Só então notei que Bel me olhava com curiosidade.
— A mentira me deprime — confessei.
Por mais que eu me sentisse usada, um pensamento estava me inquietando: o que aconteceu com Conner? Talvez eu reacendesse a fúria de Belphegor, mas precisava perguntar. Por mais que estivesse zangada com ele, não queria que nada de mal acontecesse ao vampiro. Uma fisgada de preocupação me atingiu.
— Você o capturou? — minha voz estava fraca, impregnada de preocupação, porém ele me ouviu bem.
— Nóm. Talvez os serrvos de Raleph tenham feito isso — Bel examinava minha expressão para ver o efeito que suas palavras teriam em mim. Não sei se viu a dor em meus olhos. — Sabe que nóm posso perrdoá-lo, oui? — dei de ombros. Estava muito magoada para refletir sobre o assunto.
Ficamos em silêncio por um longo período.
Fui eu quem puxou assunto, tentando desanuviar o clima que nos envolvia.
— E então? Conseguiu montar seu exército? — Bel me olhou espantado.
— Está sabendo demais, Clarrice — pelo visto, não gostou da minha pergunta.
— Sou amiga de Conner, esqueceu? Diferente de você ele me mantém informada. – Bel parou o carro abruptamente. Meu corpo se inclinou para frente com o impacto. Estava sem cinto e quase bati com a testa no para brisa.
— Você é louco? — perguntei rispidamente, ainda assustada.
Belphegor abriu a porta do meu lado. Seus braços longos e fortes encostaram em meu abdômen, me fazendo arder.
— Desce do carro—ordenou.
— O quê? Bel, por favor, nem sei onde estou. Está escuro, estou vestida de noiva, você não pode...
— Desce! — disse outra vez, de forma intransigente.
— Está bem — berrei. — Agora me escute: CONNER jamais faria ISSO, ele é um cavalheiro! — decidi cutucar a ferida.
— Vou anotar isso: mentir, na sua concepçóm, é cavalheirrismo. – não respondi a essa grosseria. Apenas desci do carro.
Assim que fechei a porta, Belphegor arrancou com o veículo. Vi as luzes dos faróis traseiros desaparecerem na estrada. Um ódio selvagem se apossou de mim. Nessas horas eu odiava esse vampiro com todas as minhas forças.
A estrada era deserta e mal iluminada.
Estava exausta com essa história de casamento. Retirei os sapatos que me castigavam os pés.
Provavelmente teria que andar por quilômetros até encontrar um telefone.
Pensei em me desfazer da grinalda, mas ela estava bem presa em meus cabelos, decidi que era mais fácil permanecer com ela, embora isso fosse chamar atenção indevida para mim. Será que Max tinha seguido Bel até o Brasil e esperava uma oportunidade para me capturar? Essa seria uma chance sem igual.
Caminhei por aproximadamente duas horas.
Nenhum carro que passou por mim concordou em me dar carona. Talvez uma noiva em plena madrugada fosse demais para qualquer um.
Percebi de repente a presença de um carro me seguindo lentamente.
Não demorou para que eu soubesse que se tratava de Belphegor.
— Entrre — foi sua ordem dessa vez, quando parou o carro próximo a mim.
Simplesmente ignorei. Empinei o nariz e permaneci me arrastando com passos cansados.
— Nóm é uma boa horra parra bancar a orrgulhosa — disse, ainda mantendo o carro ao meu lado.
— ME DEIXE EM PAZ! — berrei.
Bel desceu do automóvel e caminhou com passos decididos até mim. Confesso que tive medo e recuei, mas de nada adiantou, logo estava em minha frente com uma postura desafiadora.
Como sempre, belíssimo e elegante num smoking preto.
Fiquei sem reação quando o príncipe segurou meu rosto com ambas as mãos. Minha respiração ficou difícil e meu coração falhou algumas batidas. Era demais encarar aquelas orbes azuis majestosas que pareciam sondar minha alma. Ao redor de suas pupilas, o azul era tão claro que confundia-se com branco. Raios dessa mesma cor espalhavam-se por toda íris e mesclavam-se com um azul aquático. Era quase possível ver a água tremeluzir dentro do seu olhar, me convidando a mergulhar.
Fechei minhas pálpebras para fugir da hipnose do momento. Não podia permitir me perder para sempre nos labirintos desse olhar e nunca mais conseguir achar o caminho de volta a mim mesma.
— Clarrice! — ouvi sua voz zangada me obrigando a encará-lo.
Seus dedos ainda estavam em minha face e em meu pescoço, me monopolizando para ele. Por qual razão eu sentia minha pele incendiar por baixo daqueles dedos longos?
Relutantemente abri os olhos e me deparei com a fisionomia triste de Bel. O que ele teria visto em mim que o magoou?
Antes que eu pudesse entender o que acontecia senti seus lábios quentes e úmidos encobrirem os meus com uma urgência angustiante.
Era como se durante todo o tempo em que estivemos separados isso era tudo que tínhamos desejado ardentemente.
Fiquei na ponta dos pés para compensar um pouco a diferença entre nossa altura, me entregando passivamente ao beijo, dando permissão para que ele me invadisse com a língua.
Eu sabia perfeitamente que agia como uma idiota. Como eu podia corresponder as suas carícias depois do que havia feito comigo? Ele me largou sozinha numa estrada estranha em plena madrugada.O empurrei com as mãos espalmadas em seu peito largo. Sofri ao perceber a relutância do príncipe em se afastar. Provavelmente doeu mais em mim recusá-lo do que a rejeição nele.
O vampiro recuou alguns passos, com o olhar confuso, tentando compreender minha atitude, ou talvez a dele por me agarrar com insanidade. Bel quebrou o silêncio que nos envolvia:
— Nóm finja que o beijo te desagrradou — arrumou o terno e a gravata borboleta, daquele jeito charmoso. Suspirei, completamente afetada pela sua presença, tentando manter o equilíbrio sobre minhas pernas bambas.
— Não me desagradou — confessei. — Me sinto miseravelmente atraída por você, mas não vou mais permitir que me toque. Não vai mais encostar um só dedo em mim.
Ele sorriu discretamente, de um jeito que o deixou adorável.
— Prretende ser fiel a esse casamento? — sorriu irônico.
— Não seja ridículo. Apenas não quero ser uma marionete idiota. Estou cansada de ser jogada de um lado pra outro, deixando que brinquem com meus sentimentos. Agora vou alimentar meu amor próprio, não minha lúxuria — respirei fundo quando senti que as lágrimas queriam escorrer por meus olhos. Bel tinha as mãos no bolso, sua fisionomia era impassível, não demonstrava qualquer reação. — Não posso evitar ser sua prisioneira, mas posso evitar sofrimento.
Ele considerou o que eu disse por um breve momento.
— Respeito isso — foi a resposta do príncipe. — Me alegrra que tenha aceitado, finalmente, que é minha prrisioneirra. Já que está conforrmada, esperro que evite tentativas de fugas — estreitou os olhos e sorriu, confiante de que eu concordaria com seus termos.
Uma ponta de esperança me atingiu em cheio. Ele estava disposto a manter distância se eu prometesse que não fugiria? Quão difícil era para Belphegor ficar longe de mim? Eu não queria que esse diálogo encorajasse a ilusão de que ele pudesse nutrir algum sentimento por mim. Oh, Deus! Nem coração ele tinha. A última coisa que eu precisava no momento era me apegar a falsas expectativas.
Será que havia alguma chance de Belphegor estar enciumado com o casamento? O objetivo do beijo era se certificar de que ele ainda mexia comigo? Queria provar a ele mesmo que eu não estava apaixonada por Conner? Óbvio que não! Quanta pretensão a minha.
Ele permanecia imóvel, parecendo uma miragem. Acho que esperava uma resposta que não veio. Me direcionei até o veículo, não dando chance para que a conversa prosseguisse.
Fiz questão de me prender ao cinto de segurança. As mudanças bruscas no humor do príncipe poderiam acabar me matando.
Bel se juntou a mim, em silêncio. Permanecemos assim por um bom trecho da estrada.
— É uma pena que não queirra ser tocada por mim — me olhou de soslaio.
Continuei calada e de mau humor enquanto Belphegor dirigia o veículo.
— Nóm prretendia deixar que sua noite de núpcias passasse em branco — disse malicioso.
Ignorei completamente seu comentário. Não queria mais participar desse jogo.
Estava sonolenta, contudo não conseguiria dormir. Os acontecimentos do dia ainda me agitavam.
Bel estava calado, concentrado na estrada, embora não houvesse muitas distrações. A única coisa visível no caminho era o pedaço de estrada iluminada pelos faróis.
O vampiro não parecia bravo, ao contrário, estava com o semblante sereno. Imaginei que ele estivesse em silêncio para não me atrapalhar dormir. Sorri, achando absurda a ideia de que ele pensasse em alguma coisa além dele mesmo.
Estávamos no carro há algumas horas. A escuridão da noite era dissolvida num tom cinza degradê.
Pensei em puxar assunto e manter um diálogo animado. Era tão mais fácil com Conner. Sem sombras de dúvida, Conn era mais acessível e nesse momento me vi preocupada com ele. Onde estaria? Conseguiria escapar do exercito de Belphegor? Voltaria a vê-lo? Conner fazia parte de minha vida agora e eu não desejava que nada de ruim lhe acontecesse.
Bel me arrancou de meus pensamentos quando entrou numa ruazinha de terra.
Havia plantações de cana de açúcar dos dois lados da estrada esburacada.
Embora o veículo tivesse bons amortecedores, era inevitável nosso sacolejo dentro do carro.
Passamos pela porteira de uma fazenda.
Uma bela fazenda, diga-se de passagem, grande e bem cuidada.
Demorou até chegarmos à casa principal.
Estranhei quando Bel bateu na porta de carvalho a nossa frente. Acreditei que ele fosse o proprietário.
Ficamos a espera que alguém nos atendesse, por fim um homem sonolento apareceu. Era corpulento, estava com a barba por fazer, usava pijama azul.
— Em que posso ajudar? — disse educadamente.
— Bom dia! — respondeu Bel. — Procurro por Elisabete Campói.
— Escute moço, — o homem bocejou antes de continuar — está um pouco cedo demais. Dona Elisabete se aborreceria se eu a acordasse agora — me espantei pelo fato do rapaz não estranhar nossos trajes, ele devia estar mesmo com muito sono.
— Posso lhe afirrmar que ela nóm se aborrecerrá. Diga que Bel está aqui e deseja vê-la.
Ela realmente não se aborreceria. Vai adorar — pensei comigo.
— Bel? O senhor é o famoso Belphegor? Não pode ser! Dona Elisabete fala muito sobre um Bel que foi namoradinho dela na adolescência. Um rapaz que ela jamais esqueceu, mas o senhor tem idade para ser filho de Dona Elisabete — confidenciou o jovem.
— Sou filho dele — explicou Bel, percebendo que tinha cometido uma gafe. — Chame logo sua patrroa, nóm tenho todo o tempo do mundo — Bel usou seu tom autoritário, o rapaz, mesmo contrariado, foi chamar por Elisabete.
Ele voltou a trancar a porta nos deixando do lado de fora.
Ficamos um bom tempo parados ali, até que a porta se abriu.
Elisabete vestia uma camisola de flanela, pantufas e tinha bobes enroscados nos cabelos.
— Que prazer tê-lo aqui, Belp! — disse, se abraçando ao vampiro.
Seu abraço ia além da amizade. Senti uma ponta de ciúmes ao vê-lo corresponder efusivamente a esse abraço. O sorrido de Beth desapareceu do rosto ao me encarar.
— Que roupas são essas? — perguntou ela, nos medindo de cima a baixo.
— Nóm respondo se não nos convidarr para entrrar — ofereceu-se.
Elisabete abriu a porta, dizendo:
— Você é bem vindo aqui, “Bel” — ela salientou o nome dele, deixando claro que eu não era bem vinda.
Belphegor me puxou pela mão e entramos na casa da fazenda.
O interior da casa era tão belo quanto o exterior. Estava decorada com móveis rústicos. Havia mais luxo ali do que uma fazenda exigia.
Nos dirigimos até a sala de estar e nos sentamos no confortável sofá estampado com flores.
— Então quer dizer que se casaram? — havia um rancor evidente na voz de Elisabete.
— Nóm — respondeu Bel. — Clarrice casou-se com Conner. Eu só a raptei da festa.
— Está virando uma tradição você raptar essa moça e me procurar em seguida— queixou-se a fazendeira.
Bel ignorou o comentário inteligente da mulher e olhou ao seu redor.
— Tem feito um bom trrabalho com a fazenda, Beth. Está bem melhor agorra do que quando seu pai erra o dono — elogiou o vampiro.
— Devo isso a meu bom desempenho administrativo e o generoso apoio financeiro que você me envia todo o mês, durante anos.
— Nóm prrecisa agrradecer. Tenho prrazerr em poder ajudá-la. Sei que você também nóm negarria ajuda a um velho amigo, oui? — Belphegor evidentemente iria cobrar por sua generosidade.
— Em que posso ajudá-lo? — perguntou Beth, entendendo que ele pedia ajuda.
— Nóm prreciso de muita coisa. Só querro que nos hospede até que eu tenha um plano parra me livrrar de alguns inimigos que me perrseguem.
— Será um prazer tê-lo aqui em minha casa. É mesmo necessário que essa magricela fique também? — a mulher olhou com desdém em minha direção.
— Sim. Ela fica — falou entre risos. — Prreciso que arrume um quarrto parra que ela descanse. Foi uma longa viagem, a menina deve estar exausta. Arrume roupas conforrtáveis parra que ela durrma. E se tiver fome, prrovidencie que coma.
— Claro — disse Beth, revirando os olhos.
Ela orientou seu empregado a fazer como Bel dissera.
— Arrume roupas confortáveis para que essa mocinha descanse um pouco. Prepare uma xícara de leite quente e biscoitos e leve para o quarto dela. Prepare dois quartos, um deles perto da escada central, o outro ao la...
— Esperre um momento — interrompeu Belphegor.
— Ficarremos no mesmo quarrto.
Elisabete e eu olhamos espantadas para Belphegor que agia com naturalidade.
Vimos que ele falava sério.
— Arrume o quarto de casal, Agenor — corrigiu Beth.
Senti meu estômago se contrair.
Bel e eu nos levantamos do sofá, estávamos nos preparando para seguir Agenor. Nossa ação foi interrompida pela mulher.
— Preciso falar a sós com você, Belphegor.
— Pode falar — disse ele.
— Em particular. Acompanhe-me até a biblioteca, sim? – Belphegor a acompanhou.
Fiquei sozinha, parada na sala.
Decidi que o empregado estava ocupado e isso me encorajou a segui-los na ponta dos pés. Por sorte, a porta estava apenas encostada, fiquei ali em silêncio, escutando atrás da porta e espiando pela fresta. Não é uma coisa educada a se fazer, mas talvez valesse à pena correr o risco de ser pega.
— O que quer? — disse o príncipe, em tom impaciente.
Ele estava em pé, muito elegante num smoking que parecia ter sido feito sob medida. Os cabelos estavam perfeitamente alinhados, naquele corte impecável. Beth estava confortável em uma poltrona macia. Ela o observava, muito satisfeita com o que via.
— É impressionante que você tenha se mantido tão magnífico durante todos esse anos.
— Nom é impressionante, Elisabete. Sou um vampirro e nóm envelheço — Bel ainda estava impaciente.
— E por que, Bel? Por que fez isso comigo? Por que me deixou envelhecer? O que tivemos não foi importante para você? Fica satisfeito por ter feito de mim sua escrava? Fica feliz que eu tenha vivido à sua sombra? Por que fez isso? — sua voz estava envolta por emoções e falhou por algumas vezes.
— Entóm é isso? É isso que quer? — ele se preparava para deixar o cômodo.
— Não — respondeu ela, contrariada. — Sei que não posso te cobrar nada, afinal você não me prometeu nada. Mas, não paro de pensar na vida que eu teria se não estivesse algemada a você.
— Contente-se com a vida que tem, é a única que terrá — foi o conselho do vampiro.
— Você poderia ter me eternizado. Eu seria sua, durante toda a eternidade. Seria linda e jovem como você é. Por que não me quis? — sua voz estava se tornando chorosa.
— Parre com esse interrogatórrio. Agorra que nóm tem beleza e nem juventude, esforce-se para pelo menos prreservar alguma dignidade — respondeu indiferente a emoção da mulher.
— E a magrela? Por que vive capturando essa garota? — estava enciumada.
—Ahhhh, entóm é isso? É sobrre ela que você quer falar? Por favor, Elisabete, nóm seja deprrimente — ela pôs se em pé. Andou até estar frente à Belphegor.
— O que diabos ela tem? Por que fica atrás dessa mortal, pajeando-a? — inquiriu.
— Nóm há uma maneirra de explicar — disse ele, contrariado.
— Tem que haver — insistiu Elisabete.
Bel hesitou.
— Ela é o que estava me faltando — foi só o que disse.
O que mais havia para ser dito? Um sorriso bobo apareceu em meus lábios. Fiquei feliz por ninguém estar vendo minha expressão.
A reação de Elisabete foi boçal.
Ela atirava os livros das prateleiras sobre o vampiro. Como se isso pudesse causar algum dano a ele.
— Se contrrole, Elisabete! Superre essa falta que te faço — Bel parecia zangado enquanto andava na direção da mulher.
Ela estava no meio de sua crise nervosa quando o vampiro a imobilizou.
— Parre de agirr como uma completa idiota — ordenou o vampiro, momentos antes de se inclinar e tocar seus dentes no pescoço dela.
Percebi que a discussão dos dois tinha se findado. Fui na ponta dos pés até o quarto onde Agenor se encontrava. Ele já havia trocado os lençóis, agora deixava um pijama sobre a cama. Limpei a garganta para que ele percebesse minha presença.
— Está tudo arrumado — disse, em seu tom interiorano.
— Agradeço!
— Esse pijama é da minha irmã. Acho que vai ficar bem em você. As duas tem praticamente o mesmo corpo.
— Vai servir. Agradeço mais uma vez.
— Por nada! — o rapaz deixou o quarto.
Me aproximei do espelho, tentei retirar o arranjo do meu cabelo. Demorou um instante, mas consegui me livrar de todos os grampos, da coroa e do véu.
Meus cabelos caíram castanhos sobre meus ombros. Tentei desembaraçá-los com os dedos.
Sorri ao me lembrar do que Bel havia dito a Beth. Sem dúvida foi a melhor coisa que ele já tinha dito sobre mim. Eu era aquilo que faltava a ele! Algo que faltava a um príncipe imortal. Oh Cristo! Eu não queria me iludir.
Nesse momento fui arrancada de meus pensamentos, pois o príncipe adentrara o cômodo.
Muitas emoções me invadiram. Tentei disfarçar, temendo que ele desconfiasse da espionagem.
Voltei a encarar o espelho e a pentear meus cabelos com os dedos.
— Sobre o que... er ... Vocês conversaram? — tentava me manter indiferente, embora fosse uma tarefa difícil.
— Nada imporrtante — respondeu o vampiro, me encarando pelo reflexo do espelho. — Devia estarr dorrmindo, Clarrice — ele se aproximou e tocou meus cabelos, ajudando em minha tarefa de desembaraçá-los.
Eu realmente deveria estar dormindo, estava cansada o suficiente para isso, mas também estava ansiosa demais para conseguir dormir. O que ouvi a pouco me roubaria mais algumas noites de sono, com certeza.
Virei-me para evitar seu toque. Arrependi-me quando me deparei com aquele par de olhos azuis me encarando, tão próximos a mim.
Lembrei-me da piada do vampiro no carro, à pouco, de que me faria um favor, não me deixando passar a noite de núpcias sozinha. Não! Ele não falava sério.
Percebi o sentimento que pulsava em seus olhos. Minha respiração acelerou ao imaginar como seria sentir essa pulsação quando ele estivesse dentro de mim. Meu corpo reagiu de imediato a esse pensamento.
Precisava tirar essas coisas da minha cabeça, ainda não estava pronta.
Sei que Bel via o mais puro desejo estampado em meu semblante. Era o que eu via nele, só esperava que ele vislumbrasse em mim uma sombra de preocupação. Mais uma vez abandonei o pensamento, convencida de que ele não pensava em nada além de si próprio.
Estávamos próximos um do outro, nos encarando. Uma corrente elétrica passava entre nós. Sempre que estávamos sozinhos acontecia. Uma força, vinda não sei de onde, nos impelia a exploração mútua. Era mais forte que nosso orgulho, mais poderoso que nosso comedimento.
Embora não estivéssemos nos tocando, essa energia intensa mexia com meu corpo e com o dele.
Não conseguiria resistir muito tempo sem tocá-lo, queria que Bel tomasse a iniciativa, mas ele estava paralisado, tão tenso quanto eu. Arrependi-me da ordem que dei a ele de nunca mais me tocar novamente. Depois do que ouvi reconsiderei o que disse.
Estendi a mão, relutantemente e toquei em seu rosto perfeito. Acariciei-lhe a face. Belphegor fechou os olhos com meu toque. Sua respiração ficou irregular.
No momento em que meus dedos tocaram seus lábios, ele soltou um gemido reprimido.
Antes que minha mente pudesse registrar o que estávamos fazendo, Bel me puxou para si e me pressionou entre a parede e seu corpo.
Assustada, encarei-o com ainda mais desejo, mas aquela ponta de preocupação ainda estava evidente em meus olhos. Ele diminuiu um pouco a pressão, tentando manter a calma, evitando ser impaciente demais.
Não demorou até que voltasse a perder o controle.
Afoito, começou a tocar-me como se fosse um garoto em sua primeira vez com uma mulher.
Sentindo-me livre, voltei a acariciar seu rosto másculo, suas mandíbulas, seu queixo.
Meus dedos tocavam seus cabelos, próximo a suas têmporas. Incrível como o mais inocente dos toques acendia o fogo incontido de Belphegor. Assim, apertou-me os quadris, pressionando-os como se fosse me possuir agora mesmo.
Então, fiquei nas pontas dos pés. Aproveitando da proximidade de nossas faces ele pressionou meus lábios contra os dele. Fiquei insegura a princípio, mas não demorou muito para que me deixasse envolver. Foi quando o restante de razão que ainda continha seus movimentos sôfregos se esvaiu.
Fiquei mergulhada nas sensações daqueles lábios macios. Minhas mãos continuavam a tocar-lhe o rosto como se desejasse decorar suas feições.
Bel aprofundou o beijo. Separei meus lábios, permitindo que ele explorasse a textura de minha boca. As mãos fortes que estavam em meus quadris moveram-se, explorando minhas curvas, subindo e descendo, tocando de leve a suave elevação dos meus seios.
Deus, era insano o modo como desejava este vampiro!
Grunhi. O som animalesco de súplica escapou de meus lábios. Enrosquei-me ainda mais em seu corpo, intensificando as caricias, puxando-o, exigindo que não parasse de me beijar.
Sem poder se conter mais, Belphegor deslizou a mão, ergueu a saia e conseguiu tocar a pele de minha coxa.
Afastei a cabeça, assustada, mas ele a seguiu, capturando outra vez meus lábios úmidos, enquanto a mão subia ainda mais.
Assim, deixou de beijar-me na boca, passou a roçar os lábios por minha mandíbula e pescoço, terminando por mordiscar o lóbulo de minha orelha.
Fiquei tensa. Minha respiração tornou-se urgente. Os lábios de Bel pressionavam meu pescoço, seus dedos estavam próximos a minha virilha.
Eu tinha a nítida certeza que iria desmaiar.
Foi nesse momento que Bel se afastou abruptamente de mim.
Pisquei, tentando recuperar o foco e o fôlego. Ele iria recomeçar com suas brincadeirinhas?
— O que houve? — disse aborrecida, com a voz falha.
Ele me observava com os olhos arregalados e petrificados. Parecia não me ver em sua frente. Belphegor prestava atenção em outra coisa. Disse por fim:
— Ouviu isso?
— O que? — perguntei ainda piscando, tentando voltar a meu estado habitual.
— Invadiram a casa. Maxwell está aqui — sussurrou.
***
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