A Máscara
6 Capítulo 6 - Despedida.
Notas iniciais
Foi uma longa viagem até Zurique. Eu estava sonolenta e faminta, mas não pude dormir durante o trajeto devido à animação de Belphegor que acompanhava todas as músicas do rádio, cantarolando.
Ele dirigia acima do limite permitido, provavelmente queria chegar a seu destino antes do nascer do sol. Deduzi que não queria sentir os efeitos desagradáveis dos raios em sua pele. Bel estacionou a caminhonete na rua, sem cuidados maiores.
Andamos alguns metros até um edifício imponente. Entramos, em silêncio no elevador e fomos direto para a cobertura. Não trocamos nenhuma palavra. A fisionomia de Belphegor voltou a ficar pesada e impaciente, tornando difícil a comunicação entre nós.
Quem poderia imaginar que por trás de uma beleza como aquela, ressaltada por roupas caras e sapatos italianos, haveria um monstro, um demônio? Não. Ninguém poderia. O mais lógico é que ele fosse comparado a um anjo, o mais precioso entre eles.
Tocamos a campainha e fomos atendidos quase de imediato.Conner usava roupas informais, calça jeans e camiseta. Assim que o vi um sorriso apareceu automaticamente em meus lábios. Ele também sorriu ao me ver.
Seu apartamento era agradável, com uma decoração moderna demais para uma criatura de outra época. Os objetos e móveis eram invariavelmente em tons escuros, o que contrastava com a pintura clara dos cômodos espaçosos, bem como com o assoalho.
As cortinas negras mantinham o ambiente escuro, bem propício para um ser das sombras. Luminárias davam um ar aconchegante ao local.
À medida que adentrávamos no imóvel o cheiro de biscoitos recém-assados se intensificava, fazendo meu estômago reclamar barulhento.
Conner sorriu ao dizer:
— Imaginei que estaria em jejum, mas não crie expectativas, não sou bom cozinheiro. Na verdade, nunca mexi com alimentos humanos, nem mesmo quando era um, no entanto as coisas hoje em dia estão mais fáceis. Peguei a receita de cookies pela internet e resolvi preparar um café da manhã digno para você.
— Oh! — exclamei rendida. — Por isso senti tanto a sua falta — confessei.
Ele pareceu satisfeito com meu comentário.
Dirigi-me a cozinha e tirei a travessa do forno. Servi-me de chocolate quente e me deliciei com os biscoitos.
Minha atenção se voltou para a sala de estar no instante em que ouvi cochichos vindos de lá.
Os vampiros discutiam algum assunto em segredo, e isso me interessava bastante.
— O que aconteceu exatamente? — perguntou Bel.
— Também não sei. Quando cheguei só restavam cinzas. Foi nisso que sua casa em Genebra se transformou. Disseram-me que eles invadiram a mansão e vasculharam cada cômodo. Mataram tanto os humanos quanto os carniçais e travaram uma batalha contra os vampiros. Conseguiram decapitar alguns, visto que estavam em maior número. Uma das sobreviventes foi Elle. Ela me disse que está a sua disposição para responder a qualquer pergunta.
— Quantos erram?
— Aproximadamente 90 vampiros — Conn não pode esconder a admiração em sua voz.
Ficaram calados por um momento.
— Existem trraidores entrre nós — foi Belphegor quem quebrou o silêncio. As palavras saíram com indignação.
— Não descarto essa possibilidade, mas temos que levar em conta que Maxwell ficou inerte durante uns 100 anos. Achamos que ele tivesse se conformado em ser apenas um súdito, mas provavelmente estava se organizando, se preparando para atacar em um momento oportuno. Aquele beijo na festa de Raleph no Brasil deu a Max a chance que estava esperando. É obvio que ele não vai parar com a destruição da mansão. Ele quer ser um príncipe e não há maneira melhor de conseguir isso do que destronar um. Subestimamos esse vampiro. A vantagem é que sabemos qual é o objetivo dele — ponderou Conn.
Eu também sabia qual era: aniquilar o tótem do príncipe, trocando em miúdos,“me matar”.
— Ele pode ter um bom númerro de serrvos, mas quem ele pensa que é parra me afrrontarr dessa maneirra? Eu sou o prríncipe e usarrei a ajuda dos ancións para por fim a essa palhaçada — Belphegor caminhava pela sala. Sempre fazia isso quando estava irritado, percebi.
— De nada vai adiantar, Bel. Os anciãos só interfeririam se a máscara estivesse em risco, e ela não está. É um problema pessoal seu, terá que achar uma solução sozinho. A única saída, no meu ponto de vista, seria exército contra exército. Seus servos contra os dele — essa opinião de Conner não me agradou, uma guerra entre vampiros não era uma boa ideia.
— Você nóm perrcebe, Conner? Maxwell está desafiando á máscarra. Como ele pode ter tantos servos? Há anos eu proibi que membrros do meu destrrito fizessem serrvos. Lancei esse decrreto com a aprrovaçón dos ancións. Há muitos vampirros no meu distrrito, se houvesse um crescimento desorrdenado, perderríamos o contrrole e a máscarra ficarria frrágil. Isso é um assunto a ser levado aos ancións — Bel parecia satisfeito com sua idéia.
— Sim — concordou Conn. — Mas, existe muitas possibilidades. Maxwell não é tão idiota a ponto de se expor dessa maneira. Tenho pra mim que seu exército não é composto por vampiros abraçados por ele, e sim de alianças vantajosas. Ele não é o único que quer tirá-lo do poder. Max pode ter prometido muitas coisas para outros inimigos seus, e esses estão o ajudando a te tirar a coroa. Se os anciãos desconfiarem que você está os usando para se livrar de um desafeto, as coisas ficariam feias para você e não para Maxwell.
— Você tem razóm — admitiu Belphegor. — O que você diz faz sentido, no entanto, ainda acrredito na possibilidade de existir um traidor. Como Maxwell saberria da minha mansóm? Nom posso duvidar de meus carrniçais, esses nóm me trrairíam, nem posso duvidar dos humanos, pois estavam sob-hipnose. Só posso suspeitar de vampirros. Elle é a prrincipal suspeita até o momento.
— E por qual motivo ela faria isso? — Conner parecia não concordar.
— É uma novata, nóm tem experriência e nem é forrte o bastante parra sobreviver. É só uma crriança. Como ela escapou de um massacrre de 90 vampirros? Outrros irrmãos mais forrtes e experrientes morreram decapitados. Isso faz sentido parra mim. O pior é que ela sabe demais. Sabe onde você morra, isso torrna sua casa um local insegurro parra Clarrice — percebi a preocupação de Belphegor e isso me deixou contente.
— Não descarto a possibilidade, — respondeu Conner — mas por enquanto tudo não passa de especulações. Nós dois somos fortes o bastante para garantirmos a segurança de Clarice. É uma longa viagem de Genebra até aqui. Ela é só uma humana, precisa se alimentar e descansar. Você não pode forçá-la dessa maneira, ela pode adoecer — outra vez o silêncio tomou conta da sala. O único som que eu ouvia era o dos cookies crocantes sendo quebrados em meus dentes.
— O que estou perrdendo aqui, Conner? — Bel parecia aborrecido.
— Como assim? Do que está falando?
— Nóm se faça de idiota, Connzinho! Prreocupado com Clarrice? Cozinhando? Que merrda é essa? — Conner também se levantou e ficou frente a frente com seu Senhor. Sua postura não era mais de um escravo submisso e covarde. Parecia seguro e pronto para defender seu ponto de vista.
— É isso mesmo Bel, ela é frágil, muito frágil. Você não pensa nela um só instante. Olhe para aquela garota! Está vestindo uma camisa masculina e está descalça. Estava sem comer a horas e provavelmente nem dormiu essa noite. Você a retirou de seu país, de sua família, a mantém presa, coloca sua vida em risco e ainda a trata mal.
— E o que você tem a ver com isso? Porrque está se intrromentendo em meus assuntos, mon ami? — Bel se inclinou em direção a Conner, numa proximidade provocativa.
Eu mudei de cadeira para poder observá-los melhor.
— Por que eu me importo com ela — respondeu Conn, era sincera a timidez em seu tom.
O silêncio tornou-se constrangedor.
— Como se imporrta? Ela é apenas uma humana. O que prretende agindo dessa maneirra? — Bel rompeu o silêncio e parecia confuso.
— Ela é apenas uma simples humana para você? Talvez esse “encantamento” que ela exerce sobre você possa atingir outros. Nunca parou para pensar nessa possibilidade?
Prendi a respiração e fingia estar alheia a conversa deles.
Bel demorou a responder, disse por fim:
— É muito estrranho que se sinta assim em relaçón a ela e sabe disso. Nóm acrredito que Clarrice tenha esse “encantamento” sobre você, mas vou descobrrir o motivo de estar agindo dessa forrma. Conner, eu esperro que você saiba que eu nóm permitirrei grracinhas com ela, oui?
Os dois deram-se conta de que eu estava ouvindo e voltaram sua atenção para a cozinha. Mastiguei os cookies fazendo barulho de propósito, fingindo não estar prestando atenção.
Belphegor foi tomar banho enquanto Conner me levou para um dos quartos.
— Você deve estar cansada, Clarice. Descanse o tempo que for necessário. Essa cama é muito macia e tem cobertores no armário. Vou esperar até que Bel saia do banho para ficar de vigia e então vou comprar roupas para você. Creio que ele te levará para outro lugar quando acordar, mas vou fazer o possível para que ele me leve com vocês.
Abracei-me a Conner.
— Obrigada Conn, você tem sido um anjo em minha vida — disse com os braços ao redor dele.
— Me sinto responsável por você estar nessa situação. Se eu não tivesse te drogado e te levado a construção aquela noite você estaria segura em sua casa — ele correspondia a meu abraço.
Nesse momento, Bel parou atrás de nós, com os braços cruzados. Sua expressão era carrancuda. Como se acabasse de nos flagrar fazendo algo inadmissível.
Assim que Conn percebeu a aproximação de seu mestre, soltou-me abruptamente. Não concordei com sua atitude.
Virei-me para encarar Belphegor.
Estava molhado, com os cabelos desgrenhados. Usava uma calça de alfaiataria preta, apenas isso. A toalha branca repousava em volta de seu pescoço. Algumas gotas de água escorriam por seu tórax.
Nem em meu mais delirante sonho poderia imaginar tamanha beleza. Belphegor era sem dúvida a obra mais perfeita de Deus. Será que era realmente obra Dele?
Não disse uma palavra, entretanto senti minhas bochechas queimarem. Fiquei embaraçada, sem motivo algum para isso.
— Bel, só estávamos... — Conn tentava se explicar, nitidamente constrangido. O interrompi:
— Não precisa dar satisfações a ele, Conner, eu e Belphegor não somos nada um do outro, ele não tem que se meter em minha vida — provoquei.
Bel nos olhou encolerizado.
Conn deixou o quarto, de cabeça baixa. O odiei por isso.
Fiquei sozinha com o príncipe, novamente. Isso me desconcertava. Nem sabia em que direção olhar. Não podia encarar aqueles olhos azul turquesa.
Ele se aproximou, ignorando meus passos que recuavam. Eu procurava desesperadamente manter uma distância segura.
Já muito próximo, colocou as mãos em minhas costas, me puxando para perto. Seu corpo molhado umedecia minha camisa, que outrora fora dele.
— Nóm pode negar que existe algo entrre nós — seu tom era rouco e aveludado. Ele adoraria que eu me rendesse para recomeçar com seu joguinho. Estava farta de seus joguinhos, sabia que iria perder, por isso não ia apostar. Ou será que poderia vencer? Aquilo que aconteceu no hotel ainda estava atravessado em minha garganta. Como humana, mortal e cheia de falhas, o desejava, mas isso não era tão vergonhoso assim. Quem poderia o resistir? Entretanto, de algum modo eu sabia que esse desejo era reciproco. Seria mais vergonhoso para ele, uma criatura com pleno controle do seu corpo e mente, se descontrolar vencido pelo desejo.
— Existe? — perguntei, fingindo inocência. Sei que isso o excitava. Ter uma garotinha boba, embasbacada com todo seu “poder”.
— Uhumm — ele mantinha o mesmo tom manhoso, seu nariz já estava encostado ao meu. O vampiro amaciou meus lábios com os dele. Correspondi seu beijo, conscientemente. Envolvi seu pescoço com meus braços e pulei nele, enroscando minhas pernas em sua cintura.
Ele continuava a me beijar quando um sorriso apareceu ali. Continuei a beijá-lo, completamente submissa e entregue.
Bel caminhou comigo até a cama.
Deitou-me gentilmente sobre ela, me encobrindo com seu corpo. Sentia seu gosto e suas mãos explorando cada parte de mim. Minha respiração se tornava difícil e meus pensamentos não eram claros, mas tentei manter o controle, fazendo com que meus gestos calculados parecessem timidez. Isso o agradaria.
A sensação de senti-lo me desejando com ganância me envaidecia, no entanto, estava magoada e ferida. Permiti que o rancor tomasse conta de mim para pôr em prática meu plano de vingança.
Bel deveria saber que nada é mais poderoso de que uma mulher ressentida, afinal, viveu o bastante para constatar isso.
Inverti as posições. Gostei de ficar em cima. Os olhos dele demonstraram surpresa e ele sorriu, vendo uma garotinha passar de virgem recatada para uma tarada endoidecida.
Sua expressão estava repleta de desejos impuros.
Eu me movia em cima dele, o pressionava provocativamente. Belphegor fechou os olhos e mordeu os lábios, ele me queria. Ahhh, eu sei que sim. Colocou as mãos em meus quadris e ajudava em meu remelexo.
Abri os primeiros botões da camisa, olhando sensualmente em seus olhos.
— Ohh, Clarrice! — gemeu.
Eu poderia provocá-lo ainda mais, entretanto tive medo de não resistir. Isso me humilharia e já tinha sido humilhada o suficiente.
Decidi parar antes que fosse tarde demais.
Levantei-me e voltei a abotoar a blusa. Meu coração estava disparado, mas tentei demonstrar casualidade ao caminhar até a porta. Bel me olhava da cama, curioso.
Bocejei ao abrir a porta.
— Pode me deixara sozinha? Estou tão cansada! Acho que você está perdendo seu charme, não me entreteu dessa vez — Belphegor ficou em pé num segundo, sua expressão estava modificada. Estava descontente e enraivecido.
Passou por mim e disse ao pé de meu ouvido, em tom baixo.
— Você nóm vale o esforrço — suas palavras foram corrosivas. Não me chateei, afinal eu sabia que tinha ferido seu ego masculino, e dessa forma havia atingido meu objetivo. Retruquei vitoriosa:
— Resposta típica de quem entedia uma mulher e lhe causa sono. – procurei falar normalmente, como se fosse uma verdade irrefutável.
Pude ouvi-lo trincar os dentes, estava furioso. Precisei fazer um esforço descomunal para não gargalhar vitoriosa. Ele passou por mim e bateu a porta com tanta força que a quebrou.
Dirigi-me a cama tapando a boca para abafar o riso. Me senti vingada.
Aquele quarto era um convite para o sono.
Antes de afundar na inconsciência repassei os acontecimentos dos últimos dias em minha mente.
Tudo era tão novo.
Me vi sendo vingativa, desejando uma criatura que não tinha qualidades, a não ser uma beleza diabólica. Me vi brincando com minha sensualidade. Estive bêbada num quarto barato de motel deixando meus desejos sexuais aflorarem.
Fazia pouco mais de um mês que eu havia sido sequestrada por vampiros e já não me reconhecia. Todos os meus defeitos vinham à tona, acusando-me.
Passei 19 anos de minha vida pensando que era uma pessoa e me assustei ao ver quão enganada estava.
Tentei convencer-me de que estava vivendo constantemente sob forte tensão, por esse motivo agia estranhamente.
E então, sem mais força para pensar ou tentar achar explicações para qualquer assunto, adormeci.
Não posso dizer por quantas horas dormi, acordei me espreguiçando. Vi roupas femininas na poltrona. Tomei banho e as vesti. Um conjunto de lingerie de algodão, calça jeans, uma camiseta com um gato estampado, um suéter de lã, um par de meias felpudas, tênis e um elástico para os cabelos. Tudo muito prático e confortável.
Abri a porta e me dirigia até sala, à cena que presenciei fez com que eu me escondesse atrás de uma parede. Conner e Bel estavam com uma garota na sala. Os três estavam em pé.
A moça era, sem dúvida alguma, a mulher mais linda que eu já tinha visto. Alta, cintura fina, seios fartos, quadris largos, o cabelo loiro chegava à cintura, levemente ondulado. Tinha olhos azuis e seus traços eram coerentes.
— Nóm conseguiu me convencer, Elle — disse Bel, que estava frente a ela com os braços cruzados.
Seu mau humor, que era comum, estava acentuado por minha pequena vingança.
— Por favor, majestade, precisa acreditar em mim — havia desespero em sua voz agradável. — Sei das minhas limitações, por isso me escondi e fugi, não sou idiota para enfrentar um exército como aquele — disse a loira.
— Eu acredito nela — foi o comentário de Conner, que se encontrava encostado à parede, atrás da mulher.
— Nom pedi sua opinión — respondeu Belphegor, rudemente. Típico dele.
— Mestre, eu lhe jurei lealdade eterna. Você é meu Senhor, há uma ligação forte entre nós,eu não faria isso — a garota parecia assustada.
— Acho improvável que ela tenha te traído — insistiu Conner.
Bel começou a caminhar pela sala. Os braços estavam cruzados em suas costas.
— Bem — disse enquanto caminhava — Nóm tenho como saber. Felizmente você é dispensável. – Belphegor agiu tão rapidamente que aos meus olhos ele se transformou num vulto. Quebrou a tampa do piano e estava com uma lasca de madeira na mão, que lembrava o formato de uma estaca.
Conner usou a mesma velocidade e imobilizou a garota, prendendo-a com uma chave de braço.
Meu coração disparou.
Belphegor cravou o pedaço de madeira pontiaguda no tórax da bela garota.
Conner soltou-a.
Ela permaneceu em pé e piscava horrorizada, parecia uma estátua paralisada.
Bel parou frente a ela.
— Vocês me obrrigam a fazer essas coisas, depois fico com a fama de malvado, mas vocês me obrrigam! — ele inclinou-se e tocou seus lábios com os dela, num beijo terno. Acariciou sua face com as pontas dos dedos, suavemente. — Agorra vá dorrmir, pequena boneca. Seus olhos de crristal nóm prrecisarrón mais ver o que é feio. Nunca mais sentirrá dor em sua pele de porcelana. Eu a liberto. Eu a purrifico. Não há nada mais sublime do que a morrte, e eu te prresenteio com o melhor dos prresentes.
O terror era quase palpável nos olhos da vampira.
Conner permanecia indiferente, olhando a cena como se fosse um quadro na parede. Como se ele não estivesse ali, ou não desse a menor importância.
Já Belphegor irradiava prazer por todos os poros. A maneira como a beijou, como a acariciou... Ele antecipava o momento do assassinato saboreando cada instante.
Sentia-se inspirado o suficiente para poetizar, verbalizando o que aconteceria. Sentia-se um Deus, tendo o poder de imortalizar e matar suas criações na hora que bem entendesse.
Bel sumiu e reapareceu como num passe de mágica. Tinha um machado em suas mãos. O instrumento se parecia com uma ferramenta usada por lenhadores.
Com um movimento elegante, parecendo coreografado, o príncipe cortou o pescoço longilíneo da vampira.
Reprimi um grito.
A cabeça da garota rolou pelo chão. Seu rosto lindo foi se desfigurando, revelando os ossos apodrecidos de seu crânio e por fim virou pó.
Pude ver que a beleza era uma máscara que camuflava a feiura horrenda dessas criaturas amaldiçoadas.
Seu corpo permanecia intacto e em pé, enquanto o líquido negro escorria por seu pescoço. Era uma cena chocante.
Belphegor circundou o corpo, olhando-o com desejo. Acariciou os seios tenros e bem modelados do cadáver; espasmo de prazer o atingia.
Senti meu estômago embrulhar.
Pensei que ele a despiria e faria amor com aquele corpo mumificado. Tenho certeza que essa hipótese passou por sua cabeça, embora, alguma coisa o tenha feito mudar de ideia.
Assim que o príncipe retirou a estaca de seu peito, o corpo desabou ao chão revelando um esqueleto pútrido e assim como a cabeça, transformou-se em pó.
Depois de presenciar isso voltei a me trancar no quarto. Tremia involuntariamente.
Pude ouvir a sequência da conversa:
— Sinceramente não entendo o motivo de ter feito isso. Não acho que isso inibirá as tentativas de Max em capturar Clarice — era a voz de Conn.
— Entón prresumo que tenha uma ideia melhorr — instigou Bel.
— Na verdade tenho — disse Conner. — A primeira coisa a se fazer é separar você de Clarice.
— Nóm acha que vou concorrdarr com isso, Conner. Só saberrei que ela estarrá segurra se estiverr comigo. Essa nóm é uma possibilidade.
— É muito arriscado, Bel. Max está te monitorando, ele acredita que a garota estará onde você está, e está certo em pensar assim. Eu cuido dela. Sabe que eu a protegeria com minha “vida”, se tivesse uma.
Não ouvi a resposta de Bel. Acredito que tenha assentido.
Logo em seguida Conner veio até meu quarto.
— Tenho uma boa notícia — disse ele, ignorando meu semblante assustado. — Voltaremos para o Brasil, o que acha?
Forcei um sorriso. Segurava minhas próprias mãos para que não tremessem tanto.
— Vou fazer os preparativos, falar com o piloto e abastecer o jatinho. Logo te pego aqui. Pedi pizza, não sei qual seu sabor favorito, então pedi cinco sabores, espero que um deles te agrade — Conner estava mais do que animado, beirava a euforia.
— Tudo b-bem — respondi, com a voz falha.
Ele saiu com passos apressados.
Fiquei no quarto até estar completamente controlada. Eu estava sob o poder de vampiros, o que esperava? Que fossem gentis, amáveis, sensíveis? Percebi o quanto estava sendo ingênua. Para eles assassinato era algo tão simples quanto trocar de roupa. Não viam as coisas do meu ponto de vista. Se eu estava viva até agora era porque precisavam de mim e no momento em que eu não fosse mais útil, me matariam sem pestanejar. Não havia sentimentos envolvidos, apenas os meus próprios.
Torci para que Belphegor se convencesse de que eu era mesmo seu tótem.
Caminhei até a sala e vi Belphegor sentado no sofá. Ele analisava alguns papeis. Minha presença não foi importante o bastante para que ele pausasse o que estava lendo.
Sentei-me ao seu lado.
— Hey! — disse, enquanto tocava em seu joelho. Ressenti-me por estar sendo desprezada. Talvez fosse uma punição por eu ter me desfeito dele mais cedo.
Me arrependi do meu gesto. Ele me olhou com olhos abrasados de rancor.
— Eu hein! — retirei as minhas mãos dele. — Parece um pitbull, pronto para avançar em alguém.
Bel não respondeu, voltou a analisar os papeis.
Nesse momento a campainha tocou, era o entregador. Cinco pizzas e três refrigerantes, só para mim. Conner era, de fato, exagerado.
Comi dois pedaços da pizza de atum, tomei um pouco de refrigerante e já estava satisfeita.
Fui até o banheiro e quase escovei os dentes com a escova de Conner, mas não tive coragem. Eu sabia que alimento passava por aqueles dentes e tive medo de pegar AIDS ou hepatite. Sorri com minha idéia. Se fosse possível que isso acontecesse eu já teria sido infectada pelos beijos de Bel.
Sai do banheiro, meus pensamentos me impediram de escovar os dentes. Contentei-me com o fio dental.
Bel estava encostado à parede da sala, olhando para lugar nenhum, perdido em seus pensamentos. O que será que o afligia? Será que ter assassinado uma das suas criações o perturbava? Será que as ações de Max o deixava inseguro? Será que estava contrariado por eu ir embora, com Conner? A última hipótese me deixava inquieta. Por que eu queria tão desesperadamente que ele se importasse?
Fiquei contemplando sua imagem. Sua beleza desconcertante. Olhar para ele se tornava um vício.
Como alguém com semelhante beleza podia ser tão horrível por dentro?
Um vazio começou a se instalar em meu peito por saber que eu ficaria sem vê-lo. Por quanto tempo? Por que eu me preocupava com isso? Deveria me sentir aliviada, especialmente depois da cena que presenciei.
Nossas brigas, que tanto me incomodavam, cessariam.
Comecei a me irritar com meus pensamentos. Eu estava presa aqui, Bel era meu seqüestrador, como ousava pensar em sentir falta dele? Falta? Ele era uma pessoa sem escrúpulos, uma criatura megalomaníaca. Eu não podia pensar em sentir saudades.
Tudo que eu sentia em relação à Belphegor ia contra a lógica, a razão.
Eu não queria admitir que gostava da companhia dele. Que nosso jogo me deixava viva e inspirada.
Sua voz, seu sotaque, sua face, seu cheiro, sua boca em minha pele, suas provocações eram demais para esquecer.
Só de imaginar a falta que ele faria me angustiava.
Bel me desafiava e eu adorava desafios.
O que me revoltava era que eu sempre ditava as regras e as leis, agora me via acuada e dominada. E mesmo sofrendo, estava gostando.
Não demorou muito e Conner passou pela porta. Mal podia disfarçar seu contentamento.
— Está pronta, Clarice? Agora é só embarcarmos.
Passei por Belphegor. Me dirigi a ele:
— Vem conosco?
Ele desencostou da parede, parece ter sido trazido de volta à realidade.
Entramos no automóvel. Sentei-me no banco de trás, com Conner, enquanto Belphegor ficou ao lado do motorista, mantendo uma conversa descontraída com ele, talvez em russo.
Não demorou para chegarmos até o jatinho.
Conner se despediu de Bel apertando sua mão.
— Não se preocupe, Clarice estará segura, tem minha palavra — prometeu o vampiro a seu líder.
— O que acontecer a ela acontecerrá a você — ameaçou ele.
Conn não respondeu, apenas entrou na aeronave.
Segurei as mãos de Bel, eu odiava despedidas e acho que ele também estava tenso com a situação.
— Quando verei você novamente? — perguntei, reprimindo minha vontade de agarrá-lo e de chorar.
— O quanto antes. Vou resolver os prroblemas por aqui e busco você. Sinto como se você só estivisse segurra se estivesse comigo. – suas palavras foram sinceras.
— Vou ficar bem, não tem com o que se preocupar. Conn é esperto — disse isso, pois notei que Conner era o estrategista da equipe de Belphegor. Ele agia pela lógica, enquantro o príncipe, impulsivamente.
— Ele é um imbecil — disse rancoroso. — Nóm deixe que se aprroveite de você, Clarrice — foi uma ordem e não um pedido, seu tom de voz se fez claro.
— Ele não vai — prometi.
Bel permanecia parado e meio constrangido. Não sabia o que fazer.
Fiquei na ponta dos pés e envolvi seu pescoço com meus braços, forçando-o a se inclinar. Belphegor respondeu a meus gestos passando seus braços ao redor da minha cintura e me pressionando contra seu corpo, num abraço sem sentimento.
— Vou sentir sua falta. Não demore a me buscar. – estava fazendo um grande esforço para não chorar. Bel e eu corríamos risco de vida, esse talvez fosse nosso último abraço. Respirava fundo para que seu cheiro ficasse marcado em minha memória para sempre. Não sabia o quanto o meu “sempre” duraria, mas queria me lembrar dessa fragrância durante o tempo em que permanecesse viva.
— Prreciso te confessar uma coisa, ma chéri — disse ao se livrar dos meus braços — Nóm te odeio, apenas nóm gosto de você — completou, com um sorriso nos lábios.
Meus olhos encheram-se de lágrimas, foi a maior declaração de amor que eu já ouvira, nada tinha me emocionado tanto, nem em filmes, novelas, livros ou canções. Eu sabia que era verdade. Ele não me odiava, embora tivesse motivos para isso.
Voltei a me aproximar de Bel, fiquei na ponta dos pés, e o puxei pela nuca. Encostei seus lábios com os meus.
Seus lábios foram gentis. Eu segui o ritmo de seu beijo doce.
Como seria difícil me separar dele, mesmo com meus olhos fechados eu podia ver a intensidade da cor azul nos olhos de Belphegor.
Depois do beijo, voltei a abraçá-lo.
— Vá, antes que eu mude de ideia — disse o príncipe.
Distanciei-me. Nossas mãos continuavam unidas. Fui deslizando minhas mãos pela dele até que nossos dedos se separaram.
Dei as costas a Bel e as lágrimas lavavam meu rosto. Não olhei para trás.
Sentia-me uma idiota, e estava sendo uma, mas pelo menos era honesta comigo mesma.
O príncipe não pareceu surpreso ao ver minha relutância ao deixá-lo, isso me feria ainda mais. Era prepotente e pretensioso o suficiente para saber o quão envolvida eu estava.
Entrei na aeronave e vi Conner sentado em uma poltrona. Estava concentrado em uma revista em quadrinhos do Batman, parecia alheio a tudo. Assim que me avistou fechou a revista.
Sentei-me ao seu lado e me afundei em seu abraço, chorando como uma criança.
— Fique calma. Voltará a vê-lo — era o que ele dizia tentando me acalmar.
Depois que consegui me controlar, Conn levantou-se e foi até a cabine do piloto, disse:
— Mudanças de planos, Mike. Preciso ir para Itália, precisamente para a cidade de Florença.
Voltou a sentar-se.
— Itália? — estava contrariada. — Deveríamos ir para o Brasil.
— Eu sei, Clarice, vamos para o Brasil. É que tenho um assunto para tratar na Itália, não vai demorar muito. Depois seguimos para nosso destino — explicou.
— Bel sabe desse itinerário? — retruquei.
Conn ficou aborrecido:
— Não sabe — respondeu em tom rude. — Quando ele não está por perto sou eu quem dá as ordens, entende isso?
Infelizmente já estava acostumada com estupidez dos vampiros, não dei chance de acontecer uma discussão. Peguei a revista do Batman e passei a lê-la enquanto o jatinho decolava para a Itália.
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