A Máscara
2 Capítulo 2 - Revelações.
Notas iniciais
Flashback
Aos poucos eu voltava à consciência.
Remexia-me na cama, sentindo que algo me incomodava. Os sentidos voltavam a mim lentamente.
Primeiro, fui capaz de ouvir passos. Depois um cheiro de perfume invadiu minhas narinas, era um bom perfume com um toque almiscarado. Por fim tentei abrir os olhos, no entanto, a luz agredia minha íris e precisei de um momento para poder me adaptar e enxergar.
No principio vi o vulto de um jovem rapaz sentado ao meu lado. Quando a imagem se tornou nítida acreditei que estivesse sonhando, ou que meus olhos me pregassem uma peça.
Ele era a personificação da beleza. A personificação da perfeição. Seus traços pareciam esculpidos por um artista brilhante — formidavelmente racional ou pasmadamente delirante.
Sem acreditar que fosse real, estendi minha mão e toquei em seus lábios naturalmente rubros. Meu dedo afundou na maciez de sua pele quente e levemente umedecida. Um desejo inédito e latente de sentir seu sabor apareceu em mim.
Subitamente, senti medo e afastei minha mão. Sensações estranhas me acometiam.
Ele sorriu, exibindo uma fileira de dentes alvos e assimétricos.
O amei por ser tão lindo e agradeci por ter tido o privilégio de tê-lo visto, mesmo que isso fosse um sonho.
O rapaz sibilou, seu tom doce acariciou meus tímpanos:
— Bom dia, ma chéri — seu sotaque francês conferia um ar sensual ao homem mais fascinante com o qual eu já havia me deparado.
Nesse instante senti uma agulhada na testa. Uma dor pulsante que me fez levar as mãos à cabeça. Havia um espesso curativo ali.
Tentei me sentar, notei então que estava confusa e simultaneamente zonza. O jovem ao meu lado ajudou-me a encostar à cabeceira da cama.
Disse:
— Fico feliz que esteja bem. Fique trranquila o médico me assegurrou que esse mal estar passarrá em brreve. Me chame de Bel, é um prrazer conhecê-la.
Foi nesse momento que percebi: seus olhos tinham a cor do mais belo anil. Por pouco sua beleza não camuflou o sutil brilho desse olhar, mas notei que eram maléficos.
Alguma coisa em minha expressão me denunciou. Bel percebeu isso de imediato, desviando seus olhos do meu.
— Você deve estar assustada. Nóm prrecisa ter medo, crriança, só querro ajudar. Entóm, como se chama?
Com o raciocínio comprometido por ter acordado de um sono profundo e ainda grogue, respondi polidamente:
— Clarice — minha voz estava fraca, não a reconheci.
Mais uma vez fui presenteada com o sorriso de Bel. Ele repetiu, com sua voz orquestrada e macia:
— Clarrice! — havia satisfação em seu tom quando repetiu meu nome, que parecia mais bonito com seu sotaque. — Eu nom poderria terr inventado um nome melhor parra você — confessou.
— Bel? — indaguei, me forçando a voltar a meu juízo perfeito. — Seu nome é Abel? Abelardo? Belarmino? — ele gargalhou.
— Nóm, menina. Me chamo Belphegor.
— Que diabo de nome é Belphegor? — falei sem pensar novamente, não tive a intenção de ofendê-lo.
— Estrranho, nóm? — ele sorriu, parecendo não ter se magoado. — Esse é o nome que escolhi parra mim — completou.
— Não se pode escolher um nome — rebati. Minha voz estava voltando ao normal.
— Eu posso tudo que eu quiser — afirmou pretensioso.
Havia arrogância no tom de sua afirmação, mas não discuti. Tinha certeza que falava a verdade.
Nesse momento começava a voltar ao normal. Uma angustia apertava meu peito. Olhei ao meu redor, não pude me agarrar a nada familiar. Onde estava afinal? O que estava fazendo ali?
Não era um quarto de hospital, era um cômodo decorado com móveis antigos. Amplo, porém simples.
Não conseguia me lembrar como havia chegado ali.
— Onde estou? O que estou fazendo aqui? — minha preocupação não estava disfarçada nas perguntas feitas de modo desesperado.
— Fique calma. Está segurra. O médico me alerrtou que você pudesse ter perrdido sua memórria recente — continuou em tom tranquilo: — Eu e alguns amigos fomos a uma boate. Estávamos a trrabalho pelo Brrasil e decidimos aprroveitar à noite em Sóm Paulo. Ao sairrmos de lá, ouvimos gemidos em uma constrruçóm abondonada, prróxima à boate, fomos averriguar. Você estava deitada e inconsciente. Nóm havia bolsa, nem documentos. Acrreditamos que foi assaltada e agrredida. Te levei ao hospital, disse que erra minha prrima. Tratarram de você e te liberrarram. Te trrouxe a esse hotel parra que se recuperre.
Eu tentava digerir as palavras de Belphegor. Precisava processar o que havia dito.
Antes que eu pudesse fazer mais alguma pergunta ele levantou-se. Perdi a linha do raciocínio ao vê-lo em pé. Era alto e se vestia impecavelmente. Não parecia possível que houvesse alguém tão perfeito assim.
— Prreciso sair. Volto assim que puder — comunicou-me.
Bel me deu as costas, caminhando com passos desfilados até a porta. Alguma coisa soava muito estranha nessa história. Não podia deixá-lo partir. Precisava de mais informações. Algo em mim dizia que eu corria perigo. Tentei me levantar, em vão. Meu corpo não obedecia. A cada investida via o quarto girar.
Desesperadamente gritei: — Bel!
Ele olhou em minha direção com um sorriso sarcástico nos lábios.
— Adorro ouvir uma voz feminina grritar meu nome. Repouse, crriança! Voltarrei parra você — piscou e partiu.
Permaneci na cama. Depois de algumas tentativas em me levantar percebi que ainda não estava em condições. Esforcei-me para lembrar de uma construção abandonada ou de um assalto, mas não consegui.
A última lembrança que vinha a minha mente era confusa. Eu dançava sob luzes furtacores com as sandálias nas mãos. Talvez estivesse na boate citada por Belphegor.
Fui arrancada de meus pensamentos quando a porta se abriu. Um rapaz alto, de beleza singular entrou no quarto, carregando algumas sacolas. Deu-me um sorriso simpático.
— Ora, ora... A bela adormecida despertou! Como vai, Clarice? Bel me pediu para lhe fazer companhia. Espero que esteja melhor — sua beleza me deixou desconfiada. Ele não se parecia nada com Belphegor, contudo sua aparência era quase tão boa quanto à dele. Quais eram as probalidades de se encontrar duas pessoas com uma beleza inumana no mesmo dia?
— Quem é você? — meu tom não foi amistoso.
— Perdoe minha indelicadeza — retratou-se o desconhecido. Sentou-se ao meu lado, deixando as sacolas no chão. — Sou Conner Ventrue — estendeu sua mão em minha direção.
Cumprimentei-o, minha mão se perdeu junto à dele. Sua pele era quente e macia.
— Desculpe-nos pelas acomodações. Não é luxuosa, mas é o suficiente para sua recuperação — percebi que Conner não sustentava meu olhar. Não me olhava diretamente nos olhos. O que escondia?
— Veja! — me mostrou as sacolas que carregava. — Trouxe algumas roupas. Talvez você queira tomar banho. Há um banheiro ali naquela porta. Se precisar de ajuda... – não deixei que concluísse. Tentei me sentar, com toda minha dificuldade.
— Não quero essas roupas. Quero ir para casa. Não podem me manter aqui. Tenho uma família. Escute-me, Conner, é melhor me colocar num carro e me levar para casa ou acusarei vocês de rapto — apesar de estar indefesa, me esforcei para que minha voz tomasse um tom de ameaça.
— Compreendo que esteja nervosa. Não vamos mantê-la aqui. Só estamos seguindo recomendações médicas. O doutor deixou claro que é importante que você se recupere completamente antes de a levarmos para casa. Vamos fazer um acordo, o que acha? — Conner pegou folhas de papel e canetas na gaveta da cômoda que estava próxima a ele. — Faça um mapa — sugeriu. — Não sei onde você mora. Te encontramos numa construção abandonada. Desenhe como faço para chegar até sua casa, da boate à sua casa. Se você se lembrar de todas as ruas te levo até lá. É uma promessa. Se souber endereço já é mais que o suficiente — ele sorriu confortadoramente.
Peguei os papéis e vi que não me lembrava. Não sabia o local onde estava, nem onde morava. Isso me deixou angustiada. O que diabos estava acontecendo?
Conner tinha um sorriso triunfante nos lábios.
— Vai se lembrar — encorajou-me. — O médico garantiu que se lembraria dentro de poucos dias. Agora vou levá-la ao banheiro. Depois do banho fará uma refeição leve.
Conner me amparou até lá. Não fazia esforço algum ao me apoiar. Tive a leve impressão de que ele estava febril, seu corpo estava excessivamente quente.
O banho foi agradável. A água estava na temperatura ideal. Havia sabonetes, xampus, cremes, perfumes a minha disposição.
Olhei-me no espelho. Apesar de estar debilitada, ainda assim era uma garota bonita. Retirei o curativo da minha testa e só havia um pequeno arranhão ali.
Não era necessário um curativo desses — pensei comigo.
Escolhi um pijama dentro da sacola que Conner me trouxe. Era uns dois números maior do que o meu, mas não me importei. A última coisa que me preocupava no momento era minha aparência.
Conn me esperava do lado de fora da porta. Conduziu-me de volta a cama.
Assim que estava confortável, uma mulher entrou no quarto. Tratava-se de uma senhora beirando os 50 anos. Não era bonita e tão pouco tinha a pele clara como à dos rapazes. Me trouxe uma bandeja repleta de alimentos. Encarou-me. Tive a impressão de que estava contrariada com minha presença.
Assim que passei a comer me descobri faminta. A sopa de cebola estava formidável.
A mulher e Conner trocaram alguns olhares cúmplices.
Antes que eu tivesse finalizado a refeição ela se dirigiu a Conn:
— Ele esteve aqui hoje, não esteve? — havia cobrança em sua voz.
— Agora não, Elizabete. Depois conversamos — disse Conner, cautelosamente.
— Vamos, Conn! Diga a verdade. Aquele cafajeste está se esquivando de mim, não está? Eu passo anos esperando por ele e quando finalmente está aqui finge que sou invisível. Eu vou acabar com ele — a voz dela subia gradativamente de tom.
— Vou expor a máscara. É disso que ele tem medo? Pois é exatamente isso que farei, vou arrancar a máscara da face de vocês — Conner estava aborrecido. Provavelmente não fez nada por estar em minha presença.
Ele andou com passos nervosos até a porta e a abriu com violência.
— Conversamos lá fora, Beth — disse entre os dentes. — Cometeu uma falha! — completou o rapaz.
A mulher andou rápido até a porta, com as mãos cobrindo o rosto. Disse abafadamente: — Eu o amo. Amo mais do que qualquer coisa que exista.
Conn revirou os olhos, impaciente.
Deixou-me só, trancando a porta quando partiu.
Demorou um pouco para retornar. Sua aparência era a mesma, calma e serena. — Desculpe-me por Elisabete. É uma funcionária antiga e tem uma violenta queda por Belphegor. Não consegue superar isso.
Eu a compreendi.
Conner veio até mim para apanhar a bandeja de minhas mãos. Nesse momento vacilou e me olhou nos olhos.
Os olhos dele eram negros e opacos. Não tinha qualquer brilho ali. Havia algo irreal naquele olhar — sombrio, ameaçador, satânico.
Um calafrio percorreu minha espinha e fechei os olhos.
Vi em meu pensamento esses mesmos olhos me encarando, presas afiadas em lábios de perfeição. Fui arremessada contra uma parede de concreto.
Embora essas cenas se passassem apenas em minha mente, de alguma forma eu sabia que não era imaginação, era uma lembrança.
Ele se aproximava de mim sem pressa. Eu me encontrava caída e sem forças. Sua capa serpenteava pelo chão e seu caminhar era similar a de um predador antes de abocanhar sua presa indefesa. Eu sabia que morreria naquele momento.
Quando abri os olhos vi que Conner continuava a me encarar, curioso.
Atirei a bandeja contra ele e me levantei num pulo, apoiando-me nos móveis e paredes.
Gritava com toda a força que havia em mim:
— Socorro! Ajudem-me!!!
Antes que eu pudesse alcançar a porta fui agarrada pela cintura. Eu me debatia tentando acertar o rapaz que estava atrás de mim. Meu esforço era em vão.
Conner me aprisionou a cama e me amordaçou. Ele estava nervoso, isso era evidente.
— Não era para ser assim. Não era!
Meus olhos estavam mareados. Meu coração parecia que saltaria do peito a qualquer momento.
Conner pegou o telefone e discou para alguém. Falou em francês. Supus que ele estava contando tudo a Belphegor.
***
Passei aproximadamente duas horas, amarrada, amordaçada e sozinha.
A porta se abriu depois desse tempo, que mais parecia uma eternidade. Conner estava acompanhado por Belphegor. A fisionomia de Bel era intimidadora.
— Nóm havia necessidade disso. É só uma garrota se recuperrando de seu ataque. Lamentável que tenha chegado a esse ponto — declarou.
— Eu não queria ter feito isso, Bel, mas foi para o bem de Clarice. Ela se debatia e gritava. No estado em que se encontra isso não seria bom. Ela poderia agravar seus ferimentos — explicou-se Conner.
— Eu nóm imobilizarria uma menina que nóm reprresentasse uma ameaça a mim. Tenho outrros meios parra acalmá-las — Bel estava zangado, não se preocupava em esconder o fato. — Você nóm deverreria ter olhado nos olhos dela. Eu avisei. Que decepçóm, Connzinho, você nom é capaz de dar conta de uma garrota enferrma? O que faço com você? Nóm consegue cumprrir uma simples tarrefa que lhe designo? Deixe-me a sós com Clarrice. Depois terrei uma converrsa em parrticular com você — grunhi e me remexi. Não queria ficar sozinha com ele.
Percebi que Conner estava relutante em deixar o quarto, mas o fez obedientemente.
Bel se aproximou e me olhou. Estava enfurecido, não deixava duvidas quanto a isso. Por fim disse:
— Vamos deixar de forrmalidades, oui? Vou ser frranco com você, mon ange. Seja lá qual for o motivo parra tanto pânico, tem razóm em estar apavorrada, somos vampirros. Há muitas coisas sobrre nós que você nóm sabe, há lendas irreais e também há verrdades. Alimentamos-nos de sangue humano e parra nós você é só mais uma no rebanho. Está abaixo de nossa espécie na cadeia alimentar, entóm é inferrior a nós. Você está sob meu poderr agorra. Nóm vai voltar parra casa. Vou dar a você o prrivilégio de ter minha companhia semprre que for possível. Este é seu destino, Clarrice, aceite-o. Muitas mulherres darriam os membrros parra estarrem em seu lugar, acrredite. Vou tirrar essa fita de sua boca. Se grritar a recoloco. Nóm vai adiantarr fazer escândalos, esse hotel me perrtence, está desativado e fica num local afastado de tudo, porrém, seus grritos me aborrecerróm e nóm é inteligente aborrecer um vampirro, comprreende?
Estava apavorada com seu discurso. As lágrimas brotavam em meus olhos, meu corpo estava tremulo. Preocupava-me com o que me aconteceria. Nem mesmo em meu mais terrível pesadelo poderia imaginar que seria refém de vampiros.
Balancei a cabeça afirmativamente, assegurando a ele que não gritaria.
Belphegor puxou a fita adesiva que selava meus lábios com velocidade, me fazendo gritar de dor.
— Pardon, mon amour — desculpou-se, sentando-se ao meu lado e me soltando das amarras.
Minha respiração era intensa. Um vampiro estava em minha cama.
Eu tentei falar, mas o pânico tinha tomado conta de mim. As palavras não saiam. Iria morrer. Morrer aos 19 anos de idade. Não podia aceitar essa sorte.
O odiei por roubar minha vida, por roubar meus planos e minha juventude. Estava presa num quarto esperando a hora da minha morte.
— Nóm costumamos fazer prrisioneirros. Trrate de se acalmar, nóm irremos machucá-la — explicou-se, depois de me libertar.
— Então... o que que-rem co-mi-go? Por que es-tou a-qui? — minha voz era falha e quase inaudível.
— Por que eu querro assim. É um caprricho meu — respondeu, sustentando meu olhar. Não desviava os olhos dos meus e falava com segurança.
— Ouça-me, Bel — tentei parecer confortável com a situação, ser racional e demonstrar calma. — Não estou em minha melhor forma física. Ainda estou tendo dificuldades para me locomover sozinha. Além disso, não sou uma mulher alta e robusta. Por esses motivos acredito que eu nem tenha muito sangue e o pouco que tenho não deve ser tão saboroso assim. Se for tão importante para você que eu seja seu lanchinho, vamos fazer um trato: Deixe-me viva. Depois que fizer o que tiver que fazer, me deixe voltar para casa — conclui.
Não obtive sucesso em parecer normal. Minha voz não evoluiu muito depois da última fala.
— Você nóm está em condiçóns de negociar, chérri. Comprrenda, ma belle, liberrtá-la nóm está em negociaçóm. Nóm tenha esperranças porrque isso nóm acontecerrá — senti uma tristeza profunda ao ouvir as palavras de Belphegor. Principalmente por saber que falava sério.
Prisioneira perpétua? Eu odiava esse vampiro e todos esses sanguessugas malditos.
— Bel, por favor, tenha piedade! Sou tão jovem, tenho tantos planos. Não cometi crime algum. Não pode me manter presa nesse quarto para sempre. A troco de que? Por que justamente eu? Existem tantas pessoas no mundo. Seriam companhias mais agradáveis. Eu lhe imploro, me deixe ir. Nunca falarei sobre isso com ninguém. Pode confiar em mim, afinal, quem acreditaria em vampiros? — ele levantou-se.
Caminhou pelo quarto de um lado para outro. Usava uma camisa branca com abotoaduras, a gravata era riscada em tons de azul. A elegância em seu caminhar e o modo como a roupa lhe caia perfeitamente deviam ter me alertado para algo anormal.
Estava pensativo. Tive esperanças que reconsiderasse.
Bel olhou em minha direção:
— Estou aprrisionado também, nóm vê? Tudo tem um prreço, Clarrice, minha eterrnidade é carra. Aceito o meu destino e procurro fazer o melhor com a sorrte que tive. Nóm querro que se lamente. Deve ficar feliz por ter sido escolhida por mim — ele estava convicto disso. Eu me revoltei. Essa foi nossa primeira discussão:
— E você precisa punir as pessoas por ter tido essa sorte? Fazer mal aos outros ameniza sua infelicidade? Não pode me pedir para gostar de ser sua prisioneira — Bel parou frente a mim, furioso. Sua expressão me fez afundar na cama.
— Nóm disse que sou infeliz. Encarro tudo pelo aspecto positivo. Aceito as coisas como elas sóm. A naturreza é simples: o mais frraco é submisso ao mais forrte. Por que serria infeliz se o mais forrte sou eu? Se quiserr se fazer de vítima e chorramingar pelos cantos, fique a vontade. Isso nóm mudarrá o fato de que você é minha prrisioneirra.
— E por que eu? Por que justamente eu? — interroguei.
— Nom se sinta especial porr isso, Clarrice, você nóm é. É apenas um joguete do destino. Quando eu enjoar é só trrocarr. Ou nóm, só parra deprrimí-la. E parre de me questionar, nóm lhe devo satisfaçóm. – Afirmou presunçoso.
Sentia o sangue pulsar em minhas veias. Esse monstro achava que o mundo girava em torno de si. Queria usar as pessoas para sua diversão pessoal, como se fôssemos obrigados a atender seus desejos.
Fiquei em pé com toda minha dificuldade. Não estava mais com medo de morrer. Talvez fosse a única maneira de me libertar.
— Se você pensa que ficarei aqui hipnotizada com sua beleza, com esse seu charme e feliz por ter sido escolhida como seu mais novo passatempo, enganou-se. É melhor me matar ou então me aleijar. Pois eu vou escapar, vou dar um jeito de sair — mantive a voz firme, mesmo vendo a inquietação dele enquanto me ouvia.
Bel passou os dedos entre seus cabelos dourados e finos, respirou fundo. Tentava acalmar-se. Veio em minha direção com um andar arrastado.
Parou diante de mim e a diferença entre nossa altura ficou clara, ele era bem mais alto. Seus olhos ganharam um brilho sanguinário que anunciavam que ele estava descontrolado.
Segurou meus braços, obrigando-me a encará-lo.
Eu sentia a força de suas mãos. Sabia que ele podia quebrar meus ossos se assim desejasse.
Com o semblante fechado, Belphegor adquiria uma beleza incomparável, singular. Sua face modificada pelo rancor conferia a ele um encanto sedutor, sexy.
Encarei-o com a garganta seca. Tive medo que ele cravasse seus dentes em mim e que isso fosse demasiadamente dolorido. Esse seria meu fim?
— Nom seja atrrevida e imperrtinente, mocinha. Você nóm reprresenta ameaça alguma a mim.
— Por que não me mata agora e acaba logo com isso? — sugeri, demonstrando mais coragem do que de fato tinha.
— Nóm pedi sua opinión. Parre de me afrrontar! Nóm me instigue, meu gênio é forrte e gerralmente nóm estou de bom humor. Minha intençóm nóm é machucá-la, mas nóm me provoque ou nóm respondo porr mim — era um aviso e não uma ameaça, percebi.
Tentei me soltar de suas mãos fortes. Quanto mais eu me mexia, mais ele me puxava, mostrando que eu não tinha a menor chance.
Ele não desviava seu olhar selvagem de mim. A minha impotência perante sua força era tão humilhante que quase me fez chorar.
Bel aproximava meu corpo do seu. Segurava meus braços e me conduzia como uma marionete. Inclinou-se. Deixou que eu visse suas presas pontiagudas e ferozes. Aproximou seus lábios do meu pescoço. Eu estava tensa. Podia sentir sua respiração urgente.
Meu coração batia acelerado. O medo de sua mordida e a sensação de tê-lo tão próximo estavam me pondo maluca.
O pavor se misturava com excitação. Eu o temia ao mesmo tempo em que o achava incrivelmente sedutor.
Tive medo que Belphegor percebesse os sentimentos que provocava em mim.
Senti seu nariz roçar meu pescoço, ele me farejava com ânsia. Em seguida deslizou os lábios macios e úmidos pelo meu pescoço até atingirem minha clavícula. O calor de sua saliva quase me fez desmaiar. Fechei os olhos e tentei afastá-lo, ordenando debilmente:
— Solte-me, Bel — minha voz estava abafada pelos meus desejos impuros.
Pude ouvir o ruído de seu sorriso satisfeito, isso me irritou profundamente.
Crápula! — pensei comigo.
Um arrepio tomou conta do meu corpo, embora não entendesse o significado. Suspirei. A magia dessa sensação me absorvia, mas lutei com toda minha força contra esses sentimentos.
Ele passou as presas em meu pescoço, senti um leve arranhar. Não poderia resistir mais. Desejei sentir o poder de sua mordia, seu veneno injetado em meu corpo.
Não sabia o que fazer. Ele me segurava, impedindo que pudesse tocá-lo.
– Bel ... ... Por ... favor ... — implorei, com longas pausas.
O vampiro soltou meus pulsos e se afastou.
Havia um brilho adolescente e travesso em seu olhar.
Minhas pernas amoleceram, me sentei na cama. Respirava apressadamente procurando me recuperar.
Belphegor estava encostado a parede satisfeito por me deixar dessa maneira. Eu o odiei ainda mais.
Ainda não estava totalmente controlada quando ele caminhou até a porta.
Virou-se para mim depois de tê-la aberto.
— Estou esperrando que grrite meu nome — provocou.
— Não vou — respondi amargurada.
— Nóm tem imporrtância, afinal te ouvi gemê-lo há pouco.
Me lançou um sorriso embaraçador de tão magnífico, saiu e bateu a porta.
***
Dentro daquele quarto não dava para se saber a hora exata. Ele havia sido projetado para não receber a luz do sol. Havia dois grandes vitrais na parede, em cada um deles os vidros formavam uma paisagem e impediam a entrada da luz, nada de janelas. Dava para se notar a escuridão do lado de fora e identificar que era noite ou dia, apenas isso.
Elisabete entrou no quarto com outra bandeja. Além da refeição, trouxe consigo comprimidos num copinho plástico. Não conhecia muitos vampiros, mas podia garantir que Elisabete não era um deles.
Deixou a bandeja sobre a cômoda.
— Você recebeu ordens para que coma tudo e que tome as medicações — essa mulher definitivamente não estava satisfeita com minha presença.
Fiz uma pergunta antes que ela se retirasse:
— Você é uma prisioneira de Belphegor, assim como eu? — Elisabete me encarou nos olhos. Sua expressão não era amigável
— Acha que é uma prisioneira? Para mim é mais uma hóspede de luxo.
— Você está aqui contra sua vontade? — eu tinha a intenção de que fôssemos amigas. Talvez se nos juntássemos poderíamos nos livrar desse cárcere.
— Estou aqui por que quero. Implorei para que Bel me deixasse serví-lo. Gostaria de ser uma prisioneira dele. Gostaria que me mantivesse presa, isso significaria que gosta da minha presença. Mas estou livre se quiser partir. Ele nem vai se importar, nem agradecerá os anos que dediquei a ele — disse ressentida
— Por que você se presta a esse papel? — não fazia sentido esse tipo de submissão.
— Eu o amo. Daria minha vida pela dele. Sou sua carniçal — respondeu orgulhosa.
— E o que é isso? — a palavra me parecia ofensiva.
— Eu já fui jovem, bonita, assim como você é agora. Chamei a atenção de um belo rapaz que passeava a cavalo próximo as fazendas de meu pai. Era formidável. Seguramente o homem mais belo que conheci. Ele me disse que trabalhava de segurança e por isso não era sempre que podia me ver. Na nossa primeira noite de amor, no celeiro, descobri que era um ser das sombras. Ele se alimentou de meu sangue. Não me importei com isso, estava apaixonada demais para me importar. Continuamos juntos durante quase um ano. Houve um momento em que eu o pressionei para que se casasse comigo. Estava disposta a servir como alimento a ele, a proteger seu segredo e a compreender esse seu trabalho que lhe ocupava tanto tempo. Bel me disse que vampiros não se casavam, mas que eu poderia dedicar toda minha vida a ele, se assim eu quisesse. Aceitei de imediato. Achei que Belphegor me presentearia com a vida eterna, para que passássemos toda eternidade juntos, mas não era esse o plano que ele tinha para mim. Bel me serviu uma bebida negra. Foram exatas três doses, uma em cada dia. Eu não questionava nada que ele me pedisse e aquela bebida com um gosto doce era a celebração de nossa união eterna, no meu ponto de vista. No fim da última dose eu me vi enfeitiçada. O amava ainda mais do que anteriormente. Minha vida não faria mais sentido se não fosse para servi-lo. Infelizmente ele nunca teve a mesma visão que a minha.
— Ele te deu uma poção mágica? — nesse momento eu já não duvidava de mais nada.
— Não. Ofertou-me três doses de seu próprio sangue. Não nego que me beneficiei com isso. Depois que o tomei, jamais fiquei doente, tão pouco ficarei. Continuo envelhecendo e tenho certeza que só morrerei quando atingir o limite da velhice. Tenho disposição, velocidade e a agilidade de um atleta. O problema é que estou ligada a ele por laços indestrutíveis — a lamentação ficou clara nessa última frase de Elisabete. — Belphegor não gosta do Brasil — prosseguiu a mulher — Durante minha juventude ele vinha para cá cuidar de negócios. Nunca ficava mais do que o tempo necessário para cuidar de seus assuntos. Veio durante um ano, foi quando nos envolvemos, depois disso nunca mais retornou. Isso faz mais de 30 anos. Não sabia onde encontrá-lo, então vivi uma vida infeliz longe dele. Bel precisou retornar a trabalho dessa vez e só me procurou para que eu cuidasse de você. Ele sabe que sou incapaz de desobedece-lo. Faria absolutamente qualquer coisa que ele me pedisse — ela estava sendo sincera.
Agora eu compreendia a cena que Elisabete protagonizou diante de mim e Conner pouco antes.
— Então deve ser isso que ele quer comigo! — pensei em voz alta. — Quer me fazer sua carniçal. Eu não vou beber o sangue dele. Não vou permitir que ele acabe com a minha vida dessa forma — estava determinada.
— No Brasil sou a única carniçal de Belphegor. Ele não precisa de escravos onde não permanece. Acredito que você é um pouco mais valiosa do que isso. Não entendo por que ele a mantém aqui. Poderia te ter, mesmo que não estivesse presa. Ele é capaz de seduzir a mulher que quiser usando hipnose, por exemplo. Sinceramente não estou entendendo. E se a quisesse como uma carniçal, já teria te obrigado a tomar o sangue dele — ponderou Elisabete.
Assim que ela me deixou, tomei o suco e os medicamentos. Estava convencida de que eles não me fariam mal, deviam fazer parte do tratamento médico. Se os vampiros quisessem me matar ou me prejudicar já o teriam feito. Depois dos medicamentos me senti melhor. As dores que me incomodava me deixaram. Senti sono.
Deitei confortavelmente..
Lembrei-me da minha rotina, das minhas atividades habituais, da faculdade, — estava cursando o primeiro ano de publicidade — dos meus pais e meu irmãozinho que moravam em uma pequena cidade no interior de São Paulo.
Lembrei-me de meus avós, que moravam na capital, — estava morando na casa deles para terminar o ensino superior — recordei inclusive do meu trabalho de meio período em uma gráfica.
Estava feliz por me lembrar da minha vida. Fiquei repassando alguns acontecimentos para me assegurar de que era real, tudo aquilo tinha mesmo acontecido comigo, não eram ilusões implantadas pelos vampiros.
Os remédios me deixaram sonolenta e não demorou até que eu afundasse na inconsciência.
Revivi no sonho o que me aconteceu na noite em que fui capturada.
Minhas amigas da faculdade me convidaram para sair e dançar. Seria a noite das garotas. Elas estavam determinadas a me arrumar um namorado. Eu tinha pouco tempo para diversão e decidi que precisava relaxar. Foi o que fiz. Coloquei um vestido carmim, me maquiei com capricho, passei um bom perfume e calcei sandálias de salto alto.
Monique me pegou em casa.
Cantamos músicas no carro, durante o trajeto até à boate. Assim que chegamos eu tive a certeza de que nunca tinha estado ali antes.
Era um lugar badalado, repleto de pessoas bonitas. As luzes piscavam coloridas, fazendo com que o movimento das pessoas na pista de dança parecesse em câmera lenta. A fumaça com cheiro de morangos tomava conta do local. O barulho alto da música dificultava ouvir o que as pessoas ao meu redor diziam.
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Um garçom me entregou uma bebida verde em uma taça decorada. Disse-me que eu havia sido escolhida para receber um agrado da casa.
As luzes não me deixaram ver nitidamente o rosto do rapaz, mas pude perceber que se tratava de um homem muito bonito. Seu sorriso era incomum.
Aceitei o agrado e bebi até o ultimo gole do liquido verde, que tinha um sabor amargo.
Depois de tê-la ingerido me senti mais solta. Não havia mais timidez ou receio. Lembro-me de subir na mesa e dançar sensualmente. Minhas amigas não podiam acreditar no que eu estava fazendo.
Seguranças me tiraram da mesa ao perceber que eu me despiria.
As luzes estavam mais intensas e minha cabeça girava. Eu sentia uma alegria superficial e gargalhava o tempo inteiro.
Decidi que ganharia a pista de dança. Retirei as sandálias e dançava ao ritmo da música. Remexia os quadris e jogava os braços para o alto. Estava fora de mim.
Um rapaz se aproximou a essa altura. Ele me puxou pela cintura e passou a me conduzir pela pista.
“Tem cheiro de sangue”– lembro-me de pensar assim.
Era alto, usava uma capa negra. Dançava como um bailarino profissional. Eu sorria e me deixava ser conduzida por ele.
No final da música, me girou e me sustentou em seus braços.
Vi seus olhos negros, a escuridão sombria daquele olhar, e simplesmente não podia deixar de encará-lo. Esse olhar perverso e maquiavélico me preencheu por alguns segundos.
Então, ele me puxou para si e me beijou. Seus lábios eram gelados, sua saliva era gelada e tinha um gosto afrodisíaco. Nunca havia sido beijada daquela maneira. Nunca havia sentido um sabor parecido. O beijo se intensificou até que senti uma picada no lábio inferior. Foi uma mordida dolorosa e prazerosa ao mesmo tempo. Depois desse incidente o rapaz me beijava com mais vontade. Lembro-me de ficar com os lábios doloridos.
Depois desse beijo diferente fui conduzida para fora da boate. Eu seguia o rapaz que me arrastava pelas mãos.
Levou-me a uma construção inacabada.
Eu estava definitivamente fora de mim. Coçava os olhos com sono. Minhas pernas trançavam à medida que caminhava.
Ouvi gritos. Gritos apavorados. Pessoas implorando por suas vidas.
Chegando lá meus olhos vislumbraram a cena mais terrível que eu já havia presenciado:
Havia uma pilha de cadáveres num canto do local.
Seres pálidos se debruçavam sobre suas vitimas que pareciam sentir prazer ao serem sugadas. O cheiro de sangue era um presságio de que não sobrariam vivos.
Homens e mulheres possuidores de uma beleza antinatural desfilavam com o liquido vermelho escorrendo por seus lábios.
Meu coração disparou. Comecei a correr. Precisava sair dali. Algumas pessoas tentavam escapar assim como eu, embora não obtivessem sucesso em suas investidas.
Os vampiros as alcançavam e as arremessavam de um para o outro até que um deles decidia por fim a brincadeira e sugar o sangue da vítima.
Eu já via as luzes da avenida e cheguei a pensar que escaparia deles, mas fui agarrada por uma vampira oriental. Ela fungou em meu pescoço, depois sorriu me mostrando presas enormes e afiadas. Gritei de horror.
A moça me arremessou para um rapaz de cabelos longos. Esse também sentiu meu cheiro, lambeu os lábios e me arremessou para o dançarino, o mesmo que havia me conduzido até lá.
Ele me olhou fundo nos olhos e me pediu para ser boazinha. Eu esperneava e o empurrava. Gritava com toda a força, chamando a atenção dos outros.
O vampiro perdeu a paciência e me arremessou contra uma parede inacabada da construção.
Ao colidir contra ela, ouvi o som dos meus ossos se quebrando. Quando atingi o chão, pedaços de concreto caíram sobre minha cabeça. A dor que eu sentia era excruciante.
O dançarino caminhava em minha direção, enfeitiçado pela cor escarlate de meu sangue que goteja no chão, escorrendo por minha face.
Eu sabia que morreria.
O vampiro agachou-se e se aproximava de mim com um brilho fluorescente no olhar.
Não havia como lutar por minha vida, meu corpo ferido não me respondia. A imagem pálida do lindo vampiro ficava embaçada à medida que se aproximava.
Antes porém de eu sentir seus dentes rasgarem minha pele, ouvi uma voz autoritária que dizia:
— Nóm faça isso! Afaste-se, Conner. É uma orrdem — alguém me levantou daquele chão pedregoso.
Pela primeira vez senti o cheiro daquele perfume almiscarado.
***
Fui acordada com batidas na porta.
Batidas na porta? Nunca ninguém pedira permissão para entrar aqui.
— Entre — falei, enquanto me forçava a despertar.
Vi o rosto de Conner por uma fresta da porta.
Agora eu sabia que estava aqui por culpa dele. Ele havia me drogado na boate e me atacou naquela construção maldita.
Quando vi seus olhos me lembrei do terror de estar frente a frente com a morte.
Pela sua expressão ele sabia como me sentia.
— Clarice, você me odeia? — perguntou inocentemente, me espiando pelo vão.
— Odeio! — ainda tentava afastar o sono e as lembranças de minha mente.
— Talvez eu possa te recompensar — ofereceu o vampiro, ainda sem entrar no quarto.
— Como faria isso?
— Te levando para tomar um banho de sol.
Levei um minuto para trocar aquele pijama por outro, só havia pijamas naquelas sacolas.
Estava muito animada. Minha pele estava se tornando pálida como a dos vampiros por não ter mais contato com o sol, não gostava disso.
Quando saí do quarto percebi que Belphegor não estava mentindo, era um hotel abandonado. Os quartos estavam vazios e com as portas abertas. Todos os quartos eram idênticos ao meu.
Conner e eu descemos por uma imensa escadaria de madeira, que rangia com nossos passos. Apesar de ser um prédio antigo e abandonado estava limpo e em boa conservação.
Fomos para varanda. Havia uma espreguiçadeira onde o sol batia e outra à sombra. Sentei-me ao sol. Conner usava óculos escuros e parecia desconfortável, mesmo estando protegido pela sombra.
— O sol te faz mal? — perguntei, sem muito interesse.
— Tenho certa sensibilidade — confessou.
Ficamos calados por um bom tempo. Até que Conner decidiu falar:
— Me desculpe, Clarice. Eu confesso que tinha a intenção de te fazer mal, mas não era pessoal. Só estava me alimentando. Infelizmente você faz o meu tipo preferido de ser humano.
— Então eu sou seu prato predileto? — perguntei, horrorizada pelo rumo da conversa.
Conn pensou por um momento e respondeu: — Você é. Gosto de sangue jovem, de preferência feminino. O tempero especial para mim são as drogas. Gosto do efeito alucinante que o sangue drogado me proporciona.
— Por isso me drogou na boate? — já sabia a resposta para minha pergunta.
— Sinto muito. Acredite em mim. Se eu pudesse voltar atrás não o faria.
— Quer o meu perdão? — encarei-o.
— Quem eu preciso matar? — brincou, com seu humor negro. Vendo minha expressão ele se retratou. — Ok. Foi uma brincadeira idiota. Desconsidere.
— Se me deixar fugir, te perdoo — chantageei.
Conner gargalhou. — Não posso fazer isso. Mesmo que eu pudesse não deixaria você ir.
— E por que não? — sabia a resposta. Belphegor o mataria.
— Por que vampiros são seres afetuosos e eu me habituei a você — olhei para Conner abismada. Não acreditei que estava ouvindo isso.
Voltamos a ficar algum tempo sem nos falar. Até que eu disse:
— Beth é uma carniçal de Belphegor. Como ele pode roubar uma vida dessa maneira?
— Foi uma escolha dela — defendeu Conner.
— Não justifica. Ela era jovem e estava apaixonada — acusei.
— Temos que aprender a lhe dar com as escolhas erradas que fazemos. Eu, por exemplo, foi um erro te atacar aquela noite. Infelizmente não posso mudar o passado. A propósito, você dança como ninguém! — elogiou Conn.
— Está bem, Conner. Pode parar de bajulações. Eu perdôo você — me rendi.
Ele me deu um sorriso de agradecimento. — Mas fui sincero — completou ele.
— Foi nada — respondi. — É que você é muito afetuoso e se habituou a minha dança — não resisti e fiz a piadinha.
Conner me olhou com a expressão carrancuda e desconversou:
— Rá! Rá! — sorri por meu deboche ter o deixado sem graça.
Voltamos para o quarto pouco tempo depois. Conn me emprestou alguns livros para que eu passasse o tempo.
Só encontrei um que era escrito em português. Falava sobre peças de automóveis. Um manual para mecânicos ou algo assim. Agradeci sua boa intenção, de qualquer forma.
Os dias se passavam praticamente iguais. Elisabete, Conner, ou algum outro vampiro, que não falava comigo, me trazia alimentos ou qualquer coisa que eu precisasse.
Sentia saudades da minha família. A essa altura deviam imaginar que eu estava morta.
Tentava extrair alguma informação de Conner, mas ele se esquivava. Não dizia o motivo de eu estar presa.
Certa manhã, ele me trouxe torradas com chá. Foi nesse dia que me abri com ele. Chorei e expus meus problemas. Ele prometeu falar com Bel.
Fim do Flashback
À noite recebi a visita de Belphegor. Visita essa que não me foi esclarecedora e sim perturbadora.
Ao menos Conner havia sido designado para ser minha babá. Talvez agora eu pudesse obter algumas informações.
***
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