A Máfia
12 Um dia incrivelmente incrível
Notas iniciais
É incrível como eu não consigo passar um dia se quer sem discutir com alguém.
É incrível como Lia não consegue passar um dia sem me tirar do sério.
É incrível como ela tem essa mania chata de achar que a vida é bela.
É incrível como eu não consigo parar de me preocupar com as pessoas.
É incrível como ela consegue me convencer de tudo. É incrível...
Lia estava indo comigo ao Quartel hoje. E eu estou tentando não surtar com isso, mas ela insistiu tão, mais tanto que, ou eu matava ela para enfim calar a boca dela, ou simplesmente a trazia. E aqui está ela, do meu lado, esperando ansiosamente chegarmos ao Quartel para que ela possa encontrar o “príncipe” dela. Vitor me olhava e eu sei que ele ri por dentro, porque ele adora quando me irrito. É incrível!
_Estou bem vestida? – pergunta Lia pela milésima vez esta manhã.
Bufo baixinho.
_Está. – respondo seca.
Ela não me dá atenção e continua tentando conter o sorriso bobo que ela tem nos lábios. Sério, o que esse cara fez com ela? A drogou ou coisa assim? Ela parece estar apaixonada por um cara que conheceu apenas um dia, ou melhor, em uma noite!
Olha só quem fala! – Minha consciência grita de volta para mim.
Bufo mais irritada ainda. Hoje vai ser um dia daqueles.
Quando chegamos, Lia saltou do carro e começou a desamassar a roupa que estava impecável e a arrumar também o cabelo. O cabelo dela já é um preto lindo, não tem o que arrumar nele, eu hein.
_Podemos entrar? Agora? – pergunta ansiosa.
Olho para Vitor e reviro os olhos, ele ri.
_Ei, se acalme. O que você tem hoje? – pergunta ele sorrindo.
_Será que só eu estou me preocupando com toda essa situação aqui? – pergunto irritada.
_Ih, parece que alguém está de TPM hoje. – Lia zomba.
É, parece que estou mesmo, pois tudo está me irritando hoje. Até mesmo a comida me irritou essa manhã. Fecho os olhos e respiro fundo e antes que eu possa abri-los Vitor me beija. Um beijo calmo e tranquilo que me acalma até a alma. Quando sinto seus lábios afastarem-se dos meus, sussurro ainda de olhos fechados:
_Hm, isso é bom.
Vitor ri de mim e percebo que falei aquilo em voz alta. Sinto minhas bochechas corarem.
_É o que elas dizem. – fala brincando.
Mas qual a parte do “ela está de TPM” ele não entendeu? Fecho a cara por completo para ele e lhe lanço um olhar mortal. Ele se assusta e é como se ele pensasse “o que eu fiz?”.
_Vem Lia, — marcho até ela e começo a puxá-la para dentro do Quartel. – vamos encontrar o seu príncipe para que pelo menos uma de nós possa ter sorte no amor. – digo brava.
Arrasto Lia para dentro e ela começa a olhar para todos os cantos maravilhada com o que vê. O Quartel é muito bonito, a maior parte é revestida de mármore e essas coisas.
_Nossa. – murmura ela. – Isso é que é ser rico, hein.
Eu até poderia ir de elevador, mas como estou irritada, estou sem paciência para esperar e ficar parada. Então fomos de escadas mesmo e quando nos aproximávamos do escritório, esbarramos em Muriel. E eu até me desculpei e tentei seguir em frente, mas Lia segurou forte a minha mão e ficou encarando ele e vice-versa.
_Oi.– disse ela corando. ELA COROU?
_Oi.– disse ele nervoso. ELE ESTÁ NERVOSO?
Lia me olhou esperançosa e eu não entendi nada, ai eu me lembrei que talvez ela queria que eu a apresenta-se para ele.
_Ah, sim. Lia este é Muriel. E Muriel está é Lia, minha amiga.
O que ocorreu agora foi muito estranho. Quando Lia ouviu o nome de Muriel ela abriu e fechou a boca incrédula. A decepção estava estampada em sua cara, e depois veio a quase fúria.
_Espera, você se chama Muriel? – perguntou ela incrédula.
_E-eu posso explicar. – disse ele.
Ai eles começaram a discutir e eu fiquei lá, com a maior cara de “que?”.
_Você disse que se chamava Otavio! – gritou Lia frustrada.
Oi? Muriel é o Otavio? Eu arregalei os olhos e tentei absorver toda aquela informação. Otavio não existe, foi com Muriel que ela passou a noite.
Espera. – me intervir. – Você é o Otavio? – apontei para ele. Depois virei para Lia incrédula. – Você dormiu com ele?
_Não, eu dormi com o Otavio, não com esse mentiroso. – ela disse extremamente irritada.
_Na verdade, eu sou o Otavio, então você dormiu, sim, comigo.
Muriel é aqueles homens charmosos que sempre fazem piadas na hora errada, como vocês podem ver.
E eu sei que rir dessa situação seria muito maldoso, mas eu não me aguentei. Sim, eu cai na gargalhada e Muriel me olhou como se eu fosse louca. Mas na boa, nem eu sei por que eu estava rindo. Mas a situação é bem engraçada, só que ai eu olhei para Lia que estava vermelha de tanta raiva e pude ver lá nos cantos de seus olhos que ela iria ameaçar a chorar. Parei instantaneamente de rir e tentei me recompor. E ela, como se também percebesse isso, fingiu que ela pouco se importava. E uma das coisas que eu invejo Lia, é sua capacidade para ser atriz. Em uma hora ela estava parecendo aquelas loucas possessas com os namorados e agora ela simplesmente relaxou e sorriu.
_Ah, quem liga. Eu mesma já fiz isso várias vezes, acho que só fiquei chocada ao provar meu próprio veneno. – ai ela sorriu mais ainda. – Foi bom te encontrar, até outra hora.
Ai ela me olhou sorrindo nervosa e eu me toquei e a guiei até o final do corredor onde era o escritório. Deixando para trás um Muriel mais perdido e confuso do que eu.
Quando finalmente entramos Lia se sentou formalmente no sofá (ela até cruzou as pernas daquele jeitinho sexy) e sorriu para mim.
_O que acabou de acontecer aqui? – perguntei meio perplexa.
_O que você acabou de ver. – disse ela, fingindo estar calma.
Olhei ao redor e respirei fundo e perguntei para mim mesma por que minha vida é virada de cabeça para baixo. Andei até Lia e me sentei ao seu lado, passando as mãos em seu ombro.
_O que acabou de acontecer aqui? – perguntei calma e amigavelmente.
_Nada, eu só... – ela fungou e limpou os cantos dos olhos. – Achei que tinha sido especial para ele como foi para mim. Quer dizer, nós só fizemos sexo no escritório de alguém e por ai vai. Mas eu gostei dele, sabe? Até dei meu nome verdadeiro depois. E ele? Ele deu uma de Valentina .
_Ei! – exclamei colocando a mão em meus peitos fingindo estar ofendida, ela olhou para mim séria e revirou os olhos, chateada. – Olha Lia, Muriel é um desses galanteadores que não quer nada com nada, ele é um mafioso sem casa que só quer saber de ser malandro. Você está se livrando de um erro, vai por mim.
VOCÊ ESTÁ SE LIVRANDO DE UM MAFIOSO, GAROTA. EU HEIN.
Por que só eu acho a ideia de amar um mafioso totalmente errada? Estou casada com um, sei disso. Sou filha de um, eu também sei disso, e é por eu saber tanto disso que sei que a ideia é errada (mesmo eu amando, bem lá no fundinho da minha alma!).
_É, talvez você tenha razão. – disse ela, ai ela deu um sorriso perdido e sacudiu a cabeça, como se tentasse não se lembrar de algo. – Todas as coisas bonitas que ele me disse... Eu devia saber que ele só queria me levar para cama ou para a mesa do escritório. Ai, que raiva. Idiota. Idiota. Idiota.
Ai ela começou a bater em si mesma e eu tentei não rir. A abracei e disse que ela acharia alguém que a fizessem se sentir especial do jeito que ela merece. Ela sorriu e disse que nem morta se apaixonaria por alguém. Depois ela se levantou e saiu do escritório, indo para outra sala dizendo que iria estudar inglês. Pois ela não é craque na língua e às vezes ela acaba trocando as palavras. É por isso que até agora só conversamos em italiano porque quando ela decide falar em inglês... Não sai nada bom!
E eu começo a trabalhar, a conhecer mais a Máfia de Vitor e as pessoas com quem ele trabalha e essas coisas. A de meu pai eu já conhecia, mesmo não querendo eu sabia tudo sobre ela, com quem ele negociava e até mesmo seus lucros mensais. E a Máfia é muito rica. Principalmente dentro da Costa Nostra. A Cosa Nostra é o maior clã de famílias mafiosas italianas e a maior organização criminosa do mundo. Administramos cerca de 7% do PIB Global. Respiro fundo e coloco uma mecha dos meus cabelos atrás da orelha e começo a ler alguns papeis prestando bastante atenção para que eu não deixe nenhum detalhe passar despercebido. Diferente do que muitos pensam, não é qualquer um que pode entrar ou trabalhar para a Máfia, a pessoa tem que ser muito, mais muito inteligente e habilidosa. Muitas das pessoas da Máfia já estudaram em Harvard, passando com mérito e elas poderiam ter se formando em alguma profissão descente, mas nada paga tão bem quanto a Máfia se o trabalho deles for bom. E claro, tem trabalho que dê mais segurança do que a própria Máfia? É, acho que não.
Depois de dar tudo de mim lendo mais relatórios e ter estudado todos os nossos esquemas, já me sentia uma fora da lei. Ri de mim mesma. Eu fazia muito drama sobre a Máfia, mas a verdade é que eu adoro a adrenalina que sinto quando me envolvo com ela, adoro os planos geniais que os mafiosos fazem para conseguir algo. Os caras são incríveis no que fazem e quando mais nova, teve até uma época que eu gostava de ir trabalhar com o meu pai para aprender sobre os negócios da família, porém foi nessa mesma época que meu irmão foi brutalmente assassinado. Luca, ele era o melhor irmão do mundo. Ele também era o mais velho, e seria ele quem teria o comando central da Máfia de meu pai, que no caso é a Costa Nostra. Só que um dia ele não voltou mais para casa e eu vi do que a Máfia se tratava.
Foi um choque da realidade. Foi horrível. Minha mãe entrou em depressão por vários meses, meu pai perambulava pela casa com uma garrafa de whisky nas mãos e murmurava planos para se vingar. Eu estava com 16 anos na época e foi quando eu virei uma rebelde, dificultando mais as coisas para os meus pais. E meu problema de raiva só piorou quando descobri que foi Valentin quem matou meu irmão. Na verdade eu descobri que o culpado foi ele quando estava com 19 anos quando lia alguns relatórios de meu pai sobre o porquê a família Corlleto (família de Valentin) foi expulsa da Máfia. Nesse dia eu quase o matei. Ele tem uma cicatriz no peito deixada pela minha faca, mas a única coisa que me arrependo foi de não ter aprofundado mais a faca em seu peito e o ter matado de vez. O mais incrível dessa historia é que ele ainda tem a cara de pau de me perseguir. Fala sério.
Bom, depois de muito tempo trabalhando e fazendo novos esquemas, percebi que já havia se passado a hora do almoço e que até agora Vitor não veio para o escritório. Nem mesmo Lia voltou da sua aula de inglês e eu estou começando a me sentir sozinha aqui. Eles devem ter notado a minha TPM e se afastado, mas eu também sou carente. Preciso de gente ao meu redor! E talvez a minha próxima ideia não fosse a mais inteligente, mas a única alternativa era ele, então...
_Muriel? – pergunto já abrindo a porta de seu escritório.
_Sim, algum problema? – ele pergunta.
Ele estava sentado em sua mesa e algumas armas de pequeno porte estavam espalhadas pela sua mesa. Me aproximo e sem pedir permissão e me jogo na cadeira a sua frente, pegando uma das armas e a destravando.
_Não é nada demais. Só não encontro nada para fazer. – digo dando de ombros. – O que está fazendo?
_Meu trabalho, ora. – diz rindo.
_Olha só, O’Conner, hoje eu não estou para brincadeiras, então, sem gracinhas. – digo olhando séria para ele.
Ele comprime uma risada baixinha e deixa a arma que verificava de lado e se apoia com os cotovelos na mesa e me olha com um brilho nos olhos. Lá vem merda.
_Hm, tensão sexual? Vitor não está dando conta? – pergunta baixo, naquele tom provocador.
Respiro fundo. Destravo uma das armas com força e ele parece nem ligar. Ai tenho outra brilhante ideia, eu realmente precisava aliviar a tensão, mas não do jeito que ele queria, mas há outro modo de fazer isso que também será bastante prazeroso. Sorrio de canto a canto ao pensar sobre isso. Muriel levanta as sobrancelhas meio confuso, provavelmente achando que eu estava dando mole.
_Sabe lutar, Muriel? – pergunto cínica.
Ele sorri.
_É claro que sim, mas o que isso tem a ver? – pergunta se acomodando novamente na cadeira.
_E você está afim de me ajudar com o meu probleminha? – pergunto tentando o seduzir.
Ele sorri.
_Estou aqui para obedecer as suas ordens.
Malicioso...
[...]
O quartel tinha um andar subterrâneo que é tão grande quanto o andar de cima, havia salas para reuniões mais secretas e confidencias, outras salas para criação de novas drogas e armas e um lugar para você praticar luta e tiro. O espaço é bem grande com vários equipamentos de lutas, como tatames e essas coisas.
_O que viemos fazer aqui, Valentina? – pergunta ele olhando ao redor curioso.
Sorrio enquanto me aproximo do tatame e começo a tirar minhas botas.
_Você vai tirar a minha tensão, não é isso que queria? – pergunto inocentemente.
Ele sorri e se aproxima, ainda olhando ao redor. Tiro também as minhas meias e meu casaco. Visto por baixo uma regata branca e uma calça que, por sorte, é aquelas que esticam. Vou para cima do tatame e de um jeito meio ridículo começo a relaxar o corpo, sacudindo meus braços e pernas. Muriel ri de mim e se aproxima do tatame e quando ele já está perto o suficiente dou-lhe um soco certeiro no nariz. Ele cambaleia para trás e quase cai, mas ele se segura e quando levanta a cabeça me olha ferozmente.
_Qual é a porra do seu problema? – pergunta meio desnorteado.
Sorrio ainda mais.
_Estou aliviando a tensão do meu corpo ué. E você disse que iria me ajudar, então agora se recomponha e lute como um homem O’Conner! – digo fingindo estar séria na última parte.
Ele aperta os olhos para mim e depois de mais alguns segundos ele simplesmente retira a jaqueta e some em cima do tatame.
_Tá legal, mas que fique bem claro que foi você que pediu tudo isso. Se Vitor vier novamente tirar satisfações comigo a culpa vai ser sua. – diz ele enquanto se prepara.
_Tá, tá, tá. Agora para de chorar e lute comigo. Vamos aliviar a tensão juntos. – falo.
Ele me olha descrente disso e fica em posição de ataque e quando eu me aproximo dele, ele tenta me dar um soco mas eu desvio e o acerto novamente no nariz. Logo em seguida eu lhe dou um chute na barriga e ele cai no tatame reclamando. Homens...
Subo em cima dele e o faço olhar para mim.
_O que houve entre você e a Lia? – pergunto.
Ele bufa irritado e me joga para o lado, tentando acertar mais uma vez o meu rosto.
_O objetivo aqui é outro. – diz.
Chuto ele mais uma vez e ele vai para trás, aproveito e me levanto novamente e ele também. Começamos a lutar em uma sincronia perfeita, desferindo vários golpes um no outro e nos defendendo super bem. Foram poucos golpes que ele conseguiu acertar em mim e depois que eu falei de Lia, ele pareceu ficar um pouco mais com raiva e atento e eu pouco o acertei também.
_Quer dizer que não houve nada entre vocês? – pergunto com um pouco de falta de ar, já que estávamos ainda lutando.
_Como se ela já não tivesse te contado tudo. – rebateu ele.
Ele me dá um chute na barriga e, puta merda, que dor! Em seguida ele puxa meu braço para si e bato de frente com ele.
_Mas por quê? Está com ciúmes? – pergunta dando um sorrisinho.
_De você? Nunca!
Aproveito a sua distração e dou um chute em suas partes intimas, ele se contorce de dor e quando ele se ajoelha lhe dou um outro chute, mas agora um em seu rosto. Ele cai totalmente desnorteado.
_Porra, Valentina! – diz ele meio zonzo.
Ando até ele e o viro para mim, subindo em cima dele novamente.
_Obrigada por ter me ajudado, estou bem mais aliviada agora. – digo sorrindo.
Então eu me levanto e pego as minhas coisas, depois caminho até o elevador apertando o botão e entrando dentro dele, me viro e lanço um ultimo olhar sacana para Muriel, que continua deitado no tatame com dor.
Quando a porta se fecha sorrio orgulhosa de mim mesma, uau. Aquilo foi incrível, os movimentos pareciam que foram ensaiados e nocautear Muriel daquela maneira foi mais incrível ainda. Saio do elevador e vou para o escritório a fim de encontrar Vitor e avisar que já estaria indo para casa, pois eu realmente preciso de um banho agora. Abro a porta e vejo Miguel e Vitor conversando, na verdade eles pareciam estar bem nervosos.
_Algum problema? – pergunto entrando.
Miguel mexe nos cabelos apreensivo e tenta se acalmar, ele sorri nervoso para mim e me cumprimenta.
_Valentina, como está? – pergunta.
_Estou bem. E você e Alice?
_Estamos, er... Bem! Na verdade ela adoraria se encontrar com você um dia desses, ela te adorou. – diz ele.
_Eu iria adorar, diga a ela para me ligar quando quiser. – falo sorrindo.
Ele sorri carinhosamente e se despede, caminhando para fora do escritório. Observo ele sair e todo o seu corpo estava tenso, algo havia acontecido.
_O que tem de errado com ele? Está todo nervoso. – pergunto a Vitor.
_Ele só está preocupado com algumas coisas, e nervoso por conta do bebê. Acho que a ficha de que ele será pai só está caindo agora. – conta ele. – Por que está suada desse jeito? – pergunta arqueando uma das suas sobrancelhas.
_Estava lutando com Muriel e agora eu preciso muito de um banho, vou voltar para casa, te vejo lá. – falo enquanto procuro por minha bolsa.
_Na verdade irei precisar de você mais tarde, temos um problema com uma de nossas mercadorias. Um atraso na verdade e preciso da sua ajuda para negociar com os novos fornecedores.
Mordo os lábios. Negociar...
_Qual é a mercadoria? – pergunto.
_A de armas. Sem chances de voltarmos a negociar com os mexicanos, ele estão à beira de serem exterminados. Iremos tratar de negócios com os russos agora.
_Com os russos? Uau. Mercadoria boa, na verdade é de ótima qualidade, mas é bem cara.
_É por isso que quero a sua ajuda para negociar esta noite. – diz ele. – Você é uma das melhores negociadoras, trabalhou para seu pai por um tempo e não tinha completado nem dezoito anos ainda e eu acho isso fascinante. Quero te ver em ação e você quer definir de vez a sua entrada na Máfia, então, o que acha?
Foco em seus olhos que estão serenos, mas parecem me engolir na escuridão. Vitor me acalma e me causa arrepios ao mesmo tempo. É estranho sentir isso, mas é o que ele me causa. E agora, que ele está tocando em um passado mais sombrio ainda faz com que me sinta segura do que fazia (e irei fazer) aqui dentro da Máfia. É como se o errado, ou a culpa não tivessem mais significados para mim, eu apenas queria cumprir meu compromisso com a Máfia. E se ela pedia casos extremos, bom, a Máfia já é o caso extremo.
_Eu aceito. – digo mal sentindo as palavras saírem livremente da minha boca.
[...]
Russos... Caramba, sabe como é difícil negociar com essas pessoas frias e sem sentimentos? É um jogo mental super equilibrado e às vezes bem difícil de se lidar. Mas eu desde muito nova sempre fui paciente (acredite se quiser) para entender as pessoas. Entender como elas jogam, o modo como elas blefam, o jeito que elas mentem. Os jogos de baralho como poker e esses jogos de cassinos, me ajudaram a expandir esse meu “dom” e quando fui ver eu era ótima em jogos psicológicos, logo meu pai fez um teste comigo, me colocando em uma simulação de negociação com mafiosos.
E querem saber? Eu fui brilhante. E tinha apenas 15 anos.
_Os carros já estão a nossa espera. Pronta? – pergunta Vitor.
Estávamos em casa e o relógio marcava 23:55, iríamos nos encontrar com os russos as 00:00.
Sim. – respondo.
Estava vestindo uma calça preta e uma blusa de mangas brancas com um decote em V, calço um par de coturnos pretos e depois de uma ultima olhada no espelho eu saio do banheiro e encontro Vitor vestindo um terno preto, ele estava sem a gravata e a blusa social branca estava com alguns botões abertos o deixando bem sexy. Seus olhos pretos estão cravados em mim e eu tento não me intimidar com eles, ele se aproxima de mim e coloca seu braço em minha cintura, me puxando para ele.
_Pronta? – pergunta ele. Faço que sim com a cabeça confiante, e ele tenta me beijar, porem me afasto.
_Ainda estou furiosa por você ter dito aquilo, se quer um beijo vá pedir a “elas”. – falo olhando em seus olhos como se estivesse o desafiando.
Me afasto dele e saio do quarto, passo no quarto de Lia e aviso que já estava indo. Ela me abraça forte e pede para que eu tenha cuidado, depois desço e encontro um par de seguranças me esperando na sala, prontos para sairmos. Comprimento eles com um aceno de cabeça e eles fazem a referencia da Máfia, alguns minutos depois Vitor desce e partirmos para o quartel, pois será lá que as negociações serão feitas.
Quando o carro estaciona na entrada do quartel e eu desço do carro e perto da entrada avisto alguns seguranças com o símbolo da Máfia russa bordado no peito do paletó. Russos gostam de mostrarem o quanto são sofisticados, mas os seguranças da minha Máfia também estavam “uniformizados” com o símbolo da Costa Nostra. Era uma reunião formal que pedia por esses detalhes. Entramos no prédio e vamos direto para o elevador, que nos leva até o andar subterrâneo e então eu, Vitor e mais quatros seguranças seguimos para outra sala de reuniões onde os russos nos aguardavam.
À medida que nos aproximamos da porta, um frio na barriga começa a tomar conta de mim. Fazia tempo que não fazia uma coisa dessas e tenho medo de falhar, e eu não posso falhar. E como se percebendo o meu nervosismo, Vitor segura a minha mão e eu o olho instintivamente. Ele para a alguns metros da porta do escritório e se vira para mim:
_Eu confio em você, sei que vai se dar bem lá dentro. Lembre-se que vou estar ao seu lado, não vai acontecer nada de ruim. – diz ele.
Respiro fundo e concordo com a cabeça. Começamos a andar novamente e instantes depois já estávamos dentro da sala sentados com Hugo Kuznetsov, homem de grande importância da Máfia Russa, em uma mesa oval. E pela minha rápida pesquisa que fiz da vida dele, descobri que ele não é casado, ou seja, vive em puteiros e coisas assim. Sei que se eu tentar seduzi-lo irei conseguir persuadi-lo e por fim conseguir o contrato para que ele forneça as armas a um bom preço para nós.
_É um prazer conhecê-la pessoalmente, Valentina. – Hugo diz.
_O prazer é todo meu, Hugo. – falo enfatizando cada palavra como se deve e dando um sorrisinho malicioso no final.
Ele pega a mensagem é da um sorriso sujo. Eca. Hugo é um homem de uns 50 anos, mas não aparenta ter essa idade. Seu porte físico é de um atleta e em seu rosto é apenas visível algumas linhas de expressões, seu cabelo é de um tom loiro escuro e os olhos são castanhos.
_Como vai seu pai, Valentina? – pergunta ele sorrindo cinicamente.
Ele quer me atingir, o idiota deve saber da traição de meu pai perante a mim e está usando isso para fazer um jogo emocional. Maldito. Sorrio para ele e digo que ele estava ótimo, sem deixar expressar nada que comprove a minha irritação sobre o assunto.
_Creio que você deve estar muito chateada com ele, por ele ter feito o que fez com você.
_Hugo, por favor, viemos aqui para tratar de negócios e não de problemas familiares. – digo.
Ele me olha e sinto que o irritei com isso. Ele levanta o olhar e depois dá um pequeno sorriso, apoia os cotovelos na mesa e me encara. Tenho que ser esperta, não posso irrita-lo muito, há muitas máfias querendo negociar com ele, não posso errar.
_Sabe, Chiacchio, há uma pessoa querendo iniciar uma guerra contra a Costa Nostra e ele esteve comigo ontem a noite me perguntando se eu não queria participar deste movimento. Me ofereceu bastante pelos meus serviços.
Paraliso.Uma guerra entre máfias? Como eu não soube disso? Olho para Vitor tentando não demonstrar a minha cara de surpresa e meio que o fuzilo com o olhar, depois volto a minha atenção para Hugo. Traço um plano rápido em minha cabeça, um novo jogo psicológico para lançar sobre Hugo.
_E eu devia me preocupar com isso? – pergunto. Depois dou uma risada e curta e continuo. – Como você mesmo disse é uma guerra contra a Costa Nostra e nós somos uma organização mafiosa formada pelas maiores máfias de várias partes do mundo. Somos poderosos, Hugo. Quem é que vai querer começar uma guerra contra nós sabendo do nosso poder e união?
Xeque Mate.
Hugo estremece o olhar e seu corpo fica rígido, como se ele não tivesse pensado nisso. Mantenho a minha pose de poderosa enquanto minha cabeça quase dói com tanta coisa que se passa por ela. Ele fica em silêncio por um bom tempo e quando fala, pergunta sobre as minhas propostas com a sua Máfia.
_Eu até iria fazer uma proposta digna Hugo, mas eu não gostei da forma como falou comigo minutos antes, eu senti como se você estivesse me ameaçando, ameaçando a mim e a minha Máfia, que por sinal é a Costa Nostra. Então o negocio agora será diferente e quero que preste bastante atenção. – falo séria. – Você irá começar a me fornecer as armas a um preço ridiculamente baixo e não irá reclamar disso porque, caso você faça isso, EU irei começar uma guerra contra você. E quero deixar bem claro que se algum idiota deseja começar uma guerra contra a Costa Nostra, avise a ele que não é apenas com a minha Máfia com quem ele irá guerrear, será com Máfias espelhadas pelo mundo todo que não medem esforços para acabar com aqueles que a subestimam. Estamos entendidos?
Podia ver o sangue de Hugo circular pelas suas veias enquanto ele ficava vermelho de raiva. Foi um perfeito xeque mate. Consegui intimida-lo e usar suas palavras contra ele mesmo e agora ele estava sem saída. Claro que começar uma guerra contra a Máfia Russa não seria fácil, mas como eu disse, Costa Nostra não é formada por apenas uma Máfia.
_Você se acha muito para quem acaba de assumir os negócios da família. – diz ele.
_Ao contrario de você, eu cresci na Máfia, não precisei matar ninguém para estar na posição que eu estou. Minha família lutou e pagou por isso. E se achou que iria encontrar uma menina com os sentimentos a flor da pele, sinto muito por tê-lo desapontado, mas será a Máfia que eu não irei desapontar. – me levanto arrastando a cadeira para trás e Hugo esbugalha os olhos. – E para mim já terminamos aqui. Vou te dar um dia para pensar no assunto Hugo, depois disso já sabe.
Lanço-lhe um ultimo olhar a ele e saio do escritório confiante e satisfeita com o meu trabalho. O frio na barriga que me atrapalhava antes foi substituído por uma euforia sem explicação. E é neste exato momento que eu percebo que eu gosto disso, gostei do que fiz. Eu nasci para fazer isso, nasci para a Máfia.
Entro no carro e espero por Vitor e quando ele entra, sem pensar duas vezes, sento em seu colo (de frente para ele) e o beijo. O beijo é quente e, como os outros, cheio de desejo, é o único jeito de eu expressar e acalmar o calor do momento em meu corpo. Paramos minutos depois por falta de ar.
_Você sabe que não há outra mulher em minha vida além de você, não é? – sussurra ele olhando em meus olhos e tudo o que eles transmitem é que ele me quer.
Nossos rostos estão quase colados e nossa respiração segue em um ritmo totalmente descompensado.
_Eu sei. – digo acariciando o canto de sua boca.
_Você fez um trabalho incrível lá dentro. – diz ele apertando minha cintura contra ele.
_Eu sei. – falo e ele sorri.
_Você é tão segura de si assim? – pergunta ele sorrindo.
_Só quando estou com você. Você me faz ser assim, Vitor e infelizmente estou gostando.
Ele sorri.
_Então eu acho que estou fazendo um ótimo trabalho.
Ah, ele estava... E estava sendo incrível.
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