A Máfia
29 "Tu, tudo ocupas"
Notas iniciais
Os olhos de Vitor estão cravados em mim. Olhando-me intensamente e eu simplesmente não consigo desviar o olhar. Forço-me a lembrar de como é que se respira e de tentar me manter lúcida.
Acho que a ideia de fazer um jantar romântico cairia bem agora.
_Eu espero mesmo, Sr. Chiacchio. Sua esposa é muito encrenqueira, mas precisa ficar de repouso pelo resto da gestação. – Richard diz e me assusto. Desvio meu olhar de Vitor e o olho.
_O-o que quer dizer com isso? – pergunto a ele. – Tem algo de errado?
Toco minha barrica e a acaricio, olhando assustada para Richard.
_Não, minha querida, claro que não. – solto o ar pela boca aliviada. – O que eu quis dizer é que você tem que se afastar da Máfia. Por completo. Sem estresse. Sem brigas. Sem absolutamente nada que a faça ficar nervosa.
Concordo de leve com a cabeça, mesmo sabendo que nesse momento vai ser meio impossível me afastar de todos os problemas.
_Irei fazer o possível. – digo a ele.
_Faça também o impossível, querida. É da vida do seu filho e da sua que estamos falando. – concordo outra vez de leve com a cabeça, mas dessa vez ciente das suas palavras. – Bom, agora que já puxei a orelha dos papais, eu vou indo. E Vitor, leve Valentina ao meu consultório para que possamos fazer o ultrassom e ver como esse bebê está.
_Eu não vou esquecer. – Vitor diz dando ênfase.
Se eu senti que foi uma indireta? É talvez.
Richard se levanta da beirada da cama e pega sua inseparável maleta e segue para a saída, me deixando sozinha com Vitor no quarto. Tento não voltar a olhar para ele, pois com certeza ele deve estar com aquele olhar intimidador e eu realmente não sei o que disser a ele agora. Ele pode estar com raiva de mim e eu não o culpo, afinal, o cara ficou sabendo que vai ser papai por um médico da família. Normal, se a situação não fosse um pouco mais complicada: eu já sabia disso há quase um mês! Ah, definitivamente Vitor deve estar bem bravo comigo. Ótimo.
_Depois de uma visita do médico, eu perguntaria se você tem algo para me contar, mas acho que isso não será mais necessário. – Vitor fala ainda parado na entrada do quarto.
Encolho os ombros envergonhada e constrangida, essa não era a situação que eu queria criar quando ele soubesse que seria pai. Não mesmo.
_Se quiser brigar comigo, brigue logo. Eu sei que devia ter te contado isso antes. – falo.
Vitor se aproxima de mim e eu me encolho ainda mais na cama.
_E por que você acha que eu vou brigar com você? – perguntou surpreso, se sentando na minha frente.
_Porque você ficou sabendo que vai ser pai por um médico que não sabe guardar segredos e eu já sabia disso há quase um mês e não te contei? – ironizei.
Vitor exibiu um curto sorriso.
_Eu poderia ficar bravo com isso, mas não vou. – ele diz baixinho.
_Não?
Vitor sorri deixando o sorriso permanecer por mais tempo em sua face.
_Não. – diz ele, se aproximando mais de mim e tocando meu rosto, o acariciando. Fecho os olhos sentindo seu toque. – Valentina, você está me concedendo uma das maiores maravilhas desse mundo: um filho! Eu não poderia estar mais feliz agora, acredite. Você está me fazendo o homem mais feliz desse mundo e eu seria um canalha se ficasse bravo com você.
Abro os olhos novamente e vejo Vitor exibindo um sorriso enorme, de canto a canto. Acho que posso contar nos dedos quantas vezes já vi Vitor exibir um sorriso, mas sempre foram sorrisos de lado ou aqueles sorrisos fechados. Mas nunca, nunca o vi sorrir desse jeito, mostrando todos os seus dentes perfeitamente enfileirados e brancos. Seu sorriso é tão lindo! E, céus, ele está realmente feliz por ser pai e isso está estampado em cada canto de seu rosto me deixando aliviada e feliz ao mesmo tempo.
_Jura? – pergunto tentando segurar o sorriso, o que é impossível com ele na minha frente sorrindo dessa maneira.
_Eu juro. – falou convicto.
_Não está nem um pouco bravo por eu não ter dito isso antes? Por não ter ficado sabendo por mim?
Vitor suspira sem desfazer o sorriso.
_Bom, eu gostaria de saber o motivo de você não ter me dito antes. – contou.
_Eu só... Eu só queria esperar pelo momento certo. – sussurrei de cabeça baixa. – Mas nunca tínhamos um momento assim e eu fui deixando passar. E além do mais, nós tínhamos concordado que ter filhos estava fora de questão agora.
Vitor levantou minha cabeça delicadamente.
_Você está com medo? – perguntou.
O encaro por alguns instantes.
_Estou. – digo.
_Eu vou está com você. Te protegendo. – diz ele.
Toco a mão de Vitor que ainda está e meu rosto e a aperto sobre minha face, sorrindo.
_Eu sei, eu sei. Mas coisas acontecem Vitor, se Valentin descobre isso, ele vai pirar e...
_Ei, esqueça Valentin agora, ouviu? Esqueça! – exclamou ele. – Esse momento é nosso, só meu e seu. Esqueça problemas, esqueça Valentin, esqueça tudo e se concentre apenas nisso – Vitor toca a minha barriga com delicadeza, sorrindo e eu coloco minha mão sobre a sua. – e nisso aqui.
Vitor pega minha outra mão e a coloca sobre seu peito esquerdo, me fazendo sentir seu coração bater acelerado.
_E o que isso significa? – pergunto a ele, mal contendo o sorriso.
_Significa que eu não podia estar mais certo pelo o que sinto por você, Valentina. E nesse momento, eu tenho mais do que certeza.
Meu coração também começa a bater rápido assim que entendo o significado de suas palavras.
_E isso quer dizer que... – sussurro baixinho e ele sorri.
_Eu amo você.
[...]
Sabe aquela sensação de não estar sentindo o chão? Não aquela ruim, mas aquela gostosa sensação de estar flutuando? Aquela sensação de que aconteça o que acontecer, nada vai estragar o momento? Um momento só seu e da pessoa que ama. Às vezes esse tipo de sensação nem precisa ser compartilhada para ser sentida, ela pode ser somente seu. Mas no meu caso, ela esta sendo compartilhada.
Vitor e eu estamos deitados na cama há horas apenas saboreando a presença um do outro. Eu estava sentada entre as suas pernas e encostada sobre seu peito, Vitor intercalava suas caricias entre meus cabelos e minha barriga. Esse é um daqueles momentos que se passam, mas você nunca esquece, não importa os anos, ele sempre vai estar nítido em seus pensamentos, como se você o tivesse vivido ontem. E eu tenho certeza que eu nunca irei esquecer-me desse momento. Acho que nunca passei um momento assim com Vitor, tão íntimo, romântico e diferente. Aqui, agora, nesse exato momento, parecemos um casal comum, simples. Que não tem problemas e muito menos Máfias para comandar. Não, nessa noite é somente eu, Vitor e nosso bebê.
_O que acha que vai ser? – Vitor pergunta se referindo ao sexo do bebê.
Sorrio.
_Menino. – digo.
Vitor acaricia minha barriga pela milésima vez.
_E você? – pergunto.
_Gostaria de ter uma menina, mas outra de você nessa casa eu não aguentaria. – zombou. — Quando iremos descobrir o sexo?
_Acho que daqui a algumas semanas. Vou falar com o Dr. Richard e marcar a consulta. – digo.
_Ótimo. – diz ele.
A voz de Vitor está diferente desde o momento que ele soube que estou grávida. É como se ele estivesse falando sorrindo e de fato ele está. Eu me sinto tão bem em saber que eu sou o motivo dessa alegria, afinal, não a nada melhor do que fazer a pessoa que ama feliz.
E o melhor de tudo: Vitor disse que me ama.
Eu fiquei tão feliz quando o ouvi me disser essas três palavras que a minha vontade foi de sair pulando e gritando. A partir daquele momento eu me senti viva, especial e única.
_Se for menino, que nome gostaria de dar a ele? – Vitor pergunta.
_Um nome bem sexy. – digo sorrindo.
Vitor ri.
_Um nome sexy? – indaga.
_Sim. Nada de nomes de gente velha, ou nomes em homenagens. Se for menino, eu quero que ele tenha um nome belo, forte e que faça as meninas suspirarem por ele. – explico. – E você?
_Eu não sei, mas acho que você tem razão. – ele fala. – E se for menina?
Penso e o primeiro nome que me vem à cabeça é Alicia. Meus olhos marejam sem que eu perceba e fico quieta por alguns instantes.
_Alicia. – digo.
Vitor também fica em silêncio e acho que é a primeira vez em horas que ambos desfazemos os sorrisos. A morte de Alicia ainda é recente e pensar nela e no que aconteceu com ela ainda machuca a todos. Sem dizer que Valentin continua com Geovana e não fazemos ideia de onde ela possa estar ou o que ele pretende fazer com ela. Isso é o que me assusta.
_Acho que seria perfeito. – Vitor diz após um tempo.
Voltamos a ficar em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos.
[...]
Acordo ouvindo o som da chuva forte lá fora. O som dos trovões são fortes e altos e parecem que irão abrir o céu. Olho para o lado e me encontro sozinha na cama sem nenhum sinal de Vitor. Com certeza devo ter caído no sono enquanto estávamos deitados juntos. Olho para o relógio em cima da cabeceira e ele marca onze da noite. Devagar, levanto e desço da cama, caminhando até o banheiro e tomando um banho quente. Ao sair, visto uma calça de flanela preta e uma regata branca, visto por cima um cardigan também preto e desço para o andar de baixo a procura de Vitor.
_Valentina! – Lia se levanta do sofá da sala assim que me vê descer as escadas.
Ao vê-la meu coração dispara e eu corro até ela, abraçando-a com força.
_Dio Santo! – exclamo. – Eu fiquei tão apavorada, Lia, mais tanto!
Lia me aperta entre seus braços e soluça, por conta do choro.
_Me perdoa eu não queria ter causado nada disso. Eu juro! – ela diz.
Afasto-me dela apenas para olhar em seu rosto, segurando ele entre minhas mãos.
_Não foi culpa sua, ok? Não foi! – digo baixinho e ela assente. – Fiquei tão aliviada quando soube que nada tinha acontecido com você. – falo voltando a abraça-la.
_Josué apareceu em casa dizendo que você estava em perigo e me colocou em um táxi dizendo que eu seria levada para o Quartel. Entrei sem pensar duas vezes, mas aí o motorista dirigiu para fora da cidade dizendo que era onde o endereço levava e foi aí que o carro quebrou e ficamos lá por horas. O sol estava tão quente que acabei desmaiando e quando acordei já estava em casa e Muriel me contou o que havia acontecido. Contei a ele sobre Josué e ele ligou para o seu pai. – Lia disparou.
Respiro fundo e a solto.
_Eu fiquei sabendo.
_ Sinto muito. – diz ela olhando em meus olhos. – Por Alicia e... Por Josué.
Sigo para a cozinha e Lia vem logo atrás de mim, sentamos no balcão e ficamos um tempo em silêncio. Um tempo pela Alicia e um pouco pela traição de Josué.
_Já é a segunda morte dentro da minha família causada por Valentin. – digo. – E ele ainda levou meu melhor amigo com ele.
_Josué deve ter um bom motivo para ter feito isso. Talvez ele tenha sido ameaçado! – Lia diz.
Olho para ela já com os olhos avermelhados e balanço a cabeça, dizendo que o único motivo para ele ter feito aquilo foi para ter mais poder. Os homens estão sempre vendendo suas almas por poder, mas no final vão todos para o mesmo lugar no inferno.
_A coisa boa nisso tudo é que meu pai já não suspeita mais de Vitor. – falo. – Eles voltaram a ser aliados.
Lia assente.
_Isso é uma boa noticia. – diz exibindo um sorriso singelo.
Assinto e mordisco um dos bolinhos recém-tirados do forno que estão sobre o balcão. Não sei há quanto tempo não os como, mas o sabor continua o mesmo. Maravilhoso. Lia me acompanha e nós duas lanchamos alguns bolinhos junto com suco de abacaxi em silêncio. Estou tão feliz de vê-la ao meu lado, sã e salva que tento tirar o sorriso do meu rosto, mas não dá. Lia é quase uma irmã para mim e depois de tudo o que aconteceu nessas últimas horas, só ela pode me ajudar a passar por isso. Se eu a tivesse perdido também, não sei o que seria de mim.
_Sabe do que acabei de me lembrar? – Lia diz quebrando o silêncio entre nós.
_O quê?
_De quando voltávamos de madrugada das festas e tia Edna sempre deixava um lanche para nós dentro do forno, porque ela sabia que chegaríamos com fome e sempre fazíamos barulho preparando algo para comer. – diz ela com um sorriso pendendo dos lábios.
Acabo sorrindo também. Uma vez, Lia e eu tentamos preparar alguns sanduiches quando voltamos de uma festa em Palerma, mas estávamos bêbadas demais para isso e acabamos acordando a casa toda. Fiquei de castigo naquele dia e a partir daí, Edna começou a deixar lanches para nós duas.
E pensando em Edna, meu coração dói. Ela é praticamente da família, ela e Josué sempre fizeram parte da minha família. Eu não sei como ela vai reagir quando souber que o único filho que sempre a encheu de orgulho, é um traidor. Ela não merece uma coisa dessas.
_Edna sempre foi uma mãe para nós. – digo.
_Como será que ela vai reagir quando souber? – Lia diz se referindo a Josué.
_Eu não pensei nisso. – digo e respiro fundo. – Na verdade nem eu sei como eu estou reagindo a isso tudo. A morte da Alicia, Geovana nas mãos de Valentin, Josué como traidor e – não consigo evitar o sorriso. – com Vitor dizendo que me ama.
Lia que antes me encarava tensa, começa a mudar lentamente sua expressão facial. Primeiro fica confusa, depois acha que talvez tenha entendido errado, ai ela percebe o sorriso em meu rosto e percebe que na verdade ela entendeu muito bem e a sua boca se abre em um grande “o”.
_Santo Dio, ele-ele disse-disse isso? Quer dizer, ele finalmente confessou que-que... Dios Mio, ele disse mesmo?
Lia gaguejava e eu me divertia com seu ataque de euforismo. Ela me olha surpresa e consigo ver em seus olhos que ela está feliz por mim.
_Sim, ele disse! E ele também sabe que estou grávida, não foi da maneira que eu queria que ele ficasse sabendo, mas foi perfeito mesmo assim. – conto relembrando a cena.
_Fico tão feliz por você, minha amiga. – diz Lia se levantando e me abraçando. – Você merece tantas coisas boas que essas não podem nem superar. Muitas ainda virão, quando tudo isso acabar você verá.
Lia diz de coração e fico feliz por ouvir isso. Eu sei que quando tudo isso acabar – quando Valentin for morto e as coisas na Cosa Nostra se estabilizarem – eu finalmente terei um pouco de paz. Estarei sendo fútil se pensar que não houvera mais problemas, pois eu sou mafiosa, minha família toda é. E vários outros problemas ainda virão, mas eu tenho certeza que não serão nada comparados ao que estamos vivendo agora. E sim, eu sei que várias coisas boas me esperam, mesmo pensando que o universo não vai muito com a minha cara, eu sei que meu filho me trará paz e tranquilidade, sem falar em um amor incondicional.
_Nós iremos viver felizes. – digo a ela. – Nós.
[...]
O relógio marcava meia-noite e meia e Vitor ainda não havia voltado. Lia me disse que ele e todos os outros chefes da Máfia estavam em uma reunião superimportante no Quartel. Estavam todos lá discutindo sobre Valentin e as coisas que conseguiram arrancar de Josué sobre ele: ataques, planos e os outros aliados.
Muriel deixou Lia aqui em casa junto de mais cem homens armados até os dentes nos protegendo e eu podia ouvi-los dando voltas e mais voltas pela casa conversando um com os outros pelo rádio. Lia adormeceu em seu antigo quarto a meia hora e estou, desde então, tentando entrar em contado com alguém do Quartel.
Eu devia estar lá.
Devia estar sabendo das coisas que Josué tinha a falar. Devia saber quais são os próximos planos de Valentin e principalmente devia saber como eles irão resgatar Geovana. Eu devia e estou querendo muito estar lá. Certo que Richard disse para eu não me envolver mais com assuntos da Máfia por conta da gravidez, que o estresse estava me fazendo mal e que isso podia prejudicar a mim e ao meu bebê. Mas ficar aqui sem saber de nada também não ajuda muito. Depois de meia hora sem conseguir falar com ninguém e com a tentativa falha de voltar a dormir, subi para o escritório de Vitor e comecei a buscar por informações.
Conectei o computador com o HD dos computadores do Quartel e tentei hackea-los. Eu sei que Mark estaria de plantão em sua sala e não demora muito para um aviso de perigo aparecer na tela do meu computador.
“Você está tentando hackear mafiosos. Desista.”
Sorrio e mando uma mensagem na mesma hora me identificando e pedindo que ele atendesse seu telefone. Segundos depois e ele responde:
“Vitor desconectou todos os telefones durante a reunião. Ele quer ter o telefone principal livre caso Valentin ligue.”
Suspiro. Valentin nunca ligaria para eles, eu sou o meio para isso. E Valentin não vai entrar em contado tão fácil assim, ainda mais agora, quando todos querem que ele de sinal de vida. Não. Ele é esperto, vai deixar todos arrancando os cabelos tentando entrar em contado com ele, é isso que ele quer, causar um caos.
Valentin só liga quando algo está errado. Quando eu estou vulnerável e tenta usar isso ao seu favor e me atingir de alguma maneira. E pensando em tudo o que ele causou nesses dois últimos dias, é questão de tempo que ele entre em contato comigo.
“Mark, caso Valentin me ligue, você acha que consegue rastrear a ligação e descobrir de onde ele está ligando?”
Pergunto já bolando um plano em minha mente.
“Consigo, mas caso ele desligue o celular antes da hora, perco tudo. Você terá que enrolá-lo. Por acaso você tem o número dele?”
“Não, ele bloqueou seu número, mas o nome está gravado em meu celular. Eu acho que ele não vai demorar a entrar em contato comigo, eu só não sei quando.”
Mark escreve por alguns minutos e ouço um barulho vindo do andar de baixo. Rapidamente pego a arma que fica embaixo da mesa e a engatilho, apontando para a porta.
_Desculpe, senhora, não queria tê-la assustado. – um dos seguranças aparece na porta e eu abaixo a arma, dando um sorriso fraco.
Volto minha atenção para o computador e leio a mensagem deixada por Mark.
“Vou deixar o programa preparado e irei hackear seu celular, assim quando ele ligar para você, meu computador irá fazer a transferência de sinal e eu poderei localizar Valentin.”
Respondo um ok para ele.
“Sinto muito pelo o que vem acontecendo com você.” – Mark manda.
“Eu também. Como as coisas estão por aí? – pergunto.
Um segundo depois e ele manda:
“Bem feias.”
[...]
Agora são uma e meia da manhã e estou sentada com as pernas cruzadas encima do balcão. Na minha frente, uma vasilha cheias de uvas vem sendo a minha companhia durante o começo da madrugada.
Depois da conversa com Mark, eu tentei dormir, mas não consegui. Revirei a cama toda até sentir vontade de comer uvas e desci para a cozinha novamente. Sentei em cima do balcão mesmo, sem me importar com o olhar feio que uma das cozinheiras me lançou quando ela entrou na cozinha para preparar café para os homens lá fora.
A casa é minha, a cozinha também e eu me sento aonde eu quiser.
Quando voltei a ficar sozinha novamente, senti uma necessidade enorme de conversar com alguém, mas não havia ninguém ali exceto por mim. Bom, por mim e pelo meu bebê. Eu li alguns artigos que, quando estão na barriga, os bebês gostam de ouvir a voz da mãe. Toco minha barriga ligeiramente já crescida e a acaricio, abrindo um sorriso logo depois.
_Querido bebê, — começo, me sentindo uma completa idiota. – quando eu soube que estava grávida de você, eu surtei. Não que eu não quisesse, mas acho que eu não estava preparada para algo assim, de tamanha responsabilidade. E sabe, eu também fiquei com medo, apavorada. Acho que ainda estou, principalmente quando penso que você cresce a cada dia e que chegará o dia em que você sairá de mim. Isso é bem apavorante. Mas o que me conforta é que eu sei, eu sinto que valerá a pena, porque a cada dia que eu sinto você crescer dentro de mim eu vou nutrindo um amor especial por você e eu acho que nunca senti isso antes. Eu amo você e nem te peguei no colo ainda. Coisa louca, né? Eu também acho, na verdade tenho certeza. Mas mesmo tendo medo e ficando apavorada com a ideia do parto, eu quero que saiba que você será muito bem recebido aqui e muito amado também. Tem uma família enorme te esperando: avós, avôs, tios e tias. Sem falar nos seus primos! Ah, sim, seus primos, com certeza serão seus melhores amigos quando crescer. Lorenzo e Geovana terão quase a sua idade e Julie será como uma irmã mais velha enciumada. Mas ela é um amor, não se preocupe. E claro, terá seu pai, Vitor. – paro por alguns segundos e sonho com a imagem de Vitor sendo pai. – Ele será o melhor pai do mundo, tenho certeza. E já se considere sortudo porque você tinha que ver o sorriso que ele deu quando soube da sua existência, foi lindo! E ele não tirou o sorriso do rosto por horas! Ele está todo bobo com a ideia de ser pai e não é por nada não, mas você está com uma genética poderosa. Sendo menino ou menina, você nos dará muito trabalho.
_Com certeza vai.
Ouço a voz de Vitor e viro a cabeça para trás, o encontrando parado na entrada da cozinha com um sorriso bobo nos lábios, com certeza se divertindo comigo falando sozinha.
_Há quanto tempo você está ai? – pergunto surpresa.
Vitor anda até mim, deixando sua arma em cima da estante e se debruçando na minha frente, entre as minhas pernas.
_Desde querido bebê. – ele diz. – Não sabia que gostava de conversar com ele.
_E não gostava. – digo. – Até agora. – Vitor sorri. – Não acredito que você estava escutando o tempo todo, era um momento entre mãe e filho, sabia? Não tinha o direito de ficar escutando atrás da porta.
_Eu não estava escutando atrás da porta. – diz ele. – Vim beber algo e te encontrei aqui, conversando com o nosso filho.
Vitor se aproximou e me fitou com os olhos serenos. Ficamos assim por longos segundos, até que ele colocou sua mão em meu rosto e aproximou o seu do meu, ficando a milímetros de distancia. Fecho os olhos sentindo sua respiração quente em meu rosto e esperando ansiosamente por seu beijo, que é o mais quero agora.
_Eu já disse que te amo hoje? – Vitor pergunta calmo fazendo meu coração pular em meu peito.
Acho que ainda não me acostumei com a ideia de Vitor falando isso para mim.
_Já. – digo com um sorriso enorme brotando em minha face. – Mas adoraria ouvir de novo.
E mesmo de olhos fechados, sinto Vitor sorrindo também, me deixando ainda mais feliz.
_Eu amo você, Valentina Chiacchio. Amo você e todas as suas complicações. – abro os olhos e o encaro. – Porque tu, tudo ocupas.
Posso não ter me acostumado com Vitor dizendo que me ama, mas, com certeza, posso me acostumar com a ideia.
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