A Máfia

1 O que se pode esperar de um mafioso?


Notas iniciais
Oi gente, espero que gostem!

Era uma aflição e uma afronta estar ali. No escritório de meu pai. Decidindo o meu futuro. Para ele, era uma coisa simples e objetiva, já que ele queria uma coisa e tinha convicção de que seria assim. Mas para mim, já não era tão simples, já que estávamos falando sobre o MEU futuro. Meu querido e incerto futuro. E eu gostava dele ser “incerto”, gostava da ideia de que qualquer coisa poderia acontecer e mudar completamente o rumo da minha vida. Gostava ainda mais quando não era meu pai esse dedo do destino. Para a situação ficar ainda mais clara para vocês, meu pai é um mafioso. E caso você tenha imaginado um cara gordo e careca, com um terno barato listrado e um chapéu ridículo combinando, quero que saiba que eu não o julgo. Quando criança, também o imaginava assim. Mas ai eu cresci e vi que as coisas não eram tão simples, elas eram piores e bem mais complicadas.

Contudo, por mais que eu amasse o meu pai, eu odiava A Máfia. Odiava por tudo que era mais sagrado aquele ciclo de gente suja, fazendo coisas sujas. O ódio era presente em cada olhar de uma pessoa que pertencia à Máfia, ou que trabalhasse para ela. Por muitas vezes, ouvi conversas de meu pai e seus seguidores sobre matar pessoas, e a frieza com que eles falavam me deixava aterrorizada. Matar gente era o que dava prazer a eles. E eu não queria ser assim. Não queria me casar com alguém assim, não queria que meu filho crescesse em um ambiente assim.

Mas meu pai pensava diferente.

Teve tempos em que achei que seria obrigada a me casar com um mafioso, mas se tem uma coisa em que aprendi com a Máfia foi ser forte e determinada. Foi na minha adolescência em que aprendi a dominar e não ser dominada. Sim, fui e rebelde e confrontei meu pai por diversas vezes, me levando a ficar ainda mais rancorosa com a Máfia e fazendo que meu ódio por eles crescesse ainda mais, uma vez que o motivo de nossas brigas e desavenças foi por causa dela. Mas ainda continuava a ser a princesa do papai. Ele me amava acima de tudo e eu a ele. O que me causou diversos problemas, essa coisa de amar e odiar. Choro por pouca coisa, mesmo sendo durona igual a meu pai, sou frágil como uma garotinha de cinco anos. E eu odeio ser assim. Outro motivo para odiar a Máfia. Minha mãe diz que eu sou como a lua e suas fases. Quero acreditar nela.

_Já decidiu o que irá fazer? – uma pergunta fácil e objetiva. Eu sabia o que queria fazer. Queria ser livre, independente e poder viajar o mundo. Coisa que não era fácil de explicar para meu pai.

_Ainda não. – disse eu.

_Então o que veio fazer aqui? – pergunta ele sem tirar os olhos do maldito jornal que lê todos os dias em seu maldito escritório.

_Vim lhe avisar que irei sair hoje à noite. – disse o fitando. Ele finalmente para de ler o jornal e olha para mim, me avaliando. – E antes que pergunte, para uma balada.

Ele não diz nada, apenas assente e volta a ler o jornal. Dou meia volta e sigo para a cozinha. Meu pai nunca me prendeu em casa, com medo ou receio de que eu fuja, ou seja, sequestrada por algum inimigo, mas em compensação eu sou cercada de seguranças. Todos disfarçados é claro, mas com o tempo aprendi distinguir quem trabalha para a Máfia e quem é apenas uma pessoa normal.

Na cozinha, encontro a cozinheira da casa, Edna, e minha mãe, Catarina.

_Bom dia pequena, como foi sua noite? – Edna pergunta enquanto enche um copo com suco de laranja para mim.

_Foi ótima. – respondo sorrindo para ela.

Aproximo-me de minha mãe e a abraço, lhe desejando um bom dia, depois faço o mesmo com Edna. Pego meu suco de laranja e me sento em cima do balcão gigante da cozinha. Aliás, essa cozinha e toda a casa são gigantes. Mas qual casa seria adequada para uma família mafiosa? Uma mansão estava de bom tamanho para o meu pai.

_Já foi falar com o seu pai? – minha mãe pergunta enquanto me repreende com o olhar por eu estar sentada em cima do balcão. Ignoro sua olhada mortal e tomo um bom gole do suco.

_Sim mãe, eu já falei com ele. – disse assim que terminei o suco. Ela assente e sorri, mostrando seus dentes perfeitos.

Minha mãe tem os cabelos curtos e enrolados, apenas sua franja era alisada quimicamente, seu corte de cabelo foi bem radical vindo dela. Antigamente seus cabelos eram longos e alisados, mas então um dia, ela radicalizou legal, retirando à química e cortando as longas madeixas e ainda fez luzes. Meu pai adorou e eu e ele rimos muito quando ela apareceu daquele jeito dizendo que aparentava ser bem mais nova com aquele corte. O que não era mentira, ela ficou bem mais gata e moderna.

E caso eu não tenha mencionado, minha mãe é advogada. Engraçado não? Pai mafioso e mãe advogada. Já deve imaginar como foi minha infância, tentando separar o que era certo e errado. Por um lado o fora da lei e por outro, a que impõe as leis. Minha mãe diz que foi amor à primeira vista e que quando ela descobriu que ele era um mafioso, ela se apaixonou ainda mais, alegando que ela sempre teve uma queda gigante por caras “maus”. Vê se pode?! Uma advogada que adora os bandidos. Mas tenho que confessar que a puxei nesse quesito também, não posso negar.

_E ele permitiu? – perguntou ela, levantando uma sobrancelha. Argh, sempre quis aprender a fazer isso.

_Não disse nada, então, irei considerar aquilo como um “divirta-se”. – falei dando de ombros.

_Devo te esperar para o café da manhã? – Edna pergunta, despertando também a curiosidade da minha mãe.

_Provavelmente... – ela esboça um sorrisinho, já que odeia quando eu passo a noite fora, diz que morre de preocupação. –... Não.

Completo e ela fecha a cara. Minha mãe e eu acabamos rindo dela e de sua preocupação.

_Bom, vou indo. Tenho audiência hoje à tarde e tenho que me preparar. – disse minha mãe, se levantando. Ela passa à mão na saia cinza tentando desamassar e limpa as migalhas de pão que ali estavam. Ela vestia um belo conjuntinho de saia e blazer cinza com uma blusa social branca por baixo, calçava um sapato preto de salto pequeno.

_Vai voltar para o almoço ou será apenas eu e o senhor do mundo? – ironizo.

_Ouvi isso, querida. – olho para trás e vejo meu pai encostado na batente da porta, faço uma cara de opa e sorrio para ele.

_O senhor sabe que foi um elogio. – digo. Ele concorda com a cabeça e chama minha mãe para leva-la até o escritório onde ela trabalha. Outro lugar que também é cercado de gente disfarçada.

O engraçado da coisa toda é que ninguém desconfia de que meu pai seja o que realmente é. Para todos, ele é um grande empresário antissocial que não participa de eventos publicitários e essas coisas que gente rica adora fazer. Gostaria de ver a cara deles se descobrirem a verdade. Ah, odeio essas pessoas também... Gente rica. Odeio quando se fazem de pessoas gentis e sou obrigada a ficar sorrindo para elas e ficar conversando sobre coisas banais. Mas elas me adoram, vivem tentando me apresentar seus filhos, caras mesquinhos que se acham a última bolacha do pacote. Ridículos.

_O que foi querida? – acordo de meus devaneios quando Edna se põe em minha frente e acena para mim, tentando me trazer de volta a vida.

_Minha mãe não disse se ia ou não voltar para almoçar. – disse eu, ela concorda com a cabeça e volta para de trás do fogão começando a preparar o almoço. Salto de cima do balcão e vou para a sala e depois subo as escadas e entro em meu quarto, me jogando em minha cama já arrumada.

Fico ali por alguns minutos e depois me estico para pegar meu celular que se encontra no chão, em cima de uma pequena almofada branca. Vejo que tem algumas mensagens e todas são de Lia. Abro as mensagens e leio.

Já falou com o seu pai?”

“Bela adormecida? Hello? Tem alguém ai?”

“Oh queridinha, eu não tenho o tempo todo pra você não, quer fazer o favor de responder isso logo? Obrigada.”

Sorrio ao ler a última mensagem, Lia mesmo com seus 21 anos, continua igual a uma adolescente de 15 anos. Seu jeito de falar também não mudou nada. Conhecemos-nos na primeira série, nos odiamos no começo, mas depois de descobrirmos que odiávamos a mesma coleguinha de turma, não nos separamos mais.

Respondo suas mensagens confirmando que estava tudo pronto para hoje à noite. Ela, em resposta, manda uma carinha feliz.

Lia é a minha única amiga que sabe da verdadeira raiz de minha família. Confio a ela todos os segredos, sejam eles da Máfia ou não, e meus sentimentos. A mesma me entende e ouve sempre o que eu tenho a falar. Gostaria de poder nos definir como melhores amigas, mas não acho que exista um termo que possa nos definir.

Jogo meu celular em cima da cômoda e me levanto, descendo novamente para o primeiro andar da casa. Na sala, encontro Edna ao telefone, provavelmente falando com o filho Josué, que também trabalha para a Máfia, ele é um dos nossos seguranças “particulares”. Ele também é lindo. É alto e tinha um corpo bem trabalhado, com uma barriguinha perfeita. Loiro e com os olhos verdes claros, sem falar que ele tem uma cara de safado que, nossa! Confesso que eu e ele já ultrapassamos o limite de patrão e empregado e nos divertimos muito em uma noite. Ambos bêbados é claro, mas foi com ele a minha primeira vez. Nunca me apaixonei por ele e nem ele por mim, mas sempre mantivemos um carinho especial um pelo o outro.

Passo por Edna e vou até a cozinha para espiar o que teremos hoje no almoço. Pelo cheiro serão almôndegas. Saio da cozinha e vou até a sala de armas. Sim, eu amo armas. Sou fascina por elas. É uma loucura eu sei, mas fazer o que, elas me fascinam. A sala de armas é no subterrâneo da casa, abaixo do escritório de meu pai, e a passagem para ir até lá é passando por uma estante que na verdade é uma porta. Interessante, não?

E é o que faço, após passar pela falsa estante, desço as escadas de pedra e chego a uma sala em que as paredes são feitas de pedra, assim como o piso. No centro da sala, a uma grande e alta mesa, e na parede da esquerda e da direita tem dois grandes armários de aço, onde são guardadas as armas. Não posso evitar e um sorrisinho escapa pelo canto de minha boca. Aproximo-me de um dos armários e abro as duas portas, revelando várias armas de pequeno e grande porte. E eu, particularmente, gosto das de grande porte.

_Não devia estar aqui Valentina. – dou um pulo com o susto que levo. É meu pai.

_Dio Mio pai, quer me matar do coração? – pergunto enquanto levo a mão ao coração e tento controlar a respiração. Odeio quando ele faz isso, chegar de mansinho.

_Perdão, mas sabe que não gosto que você venha aqui. – diz se aproximando.

_Não, a mamãe não gosta que eu venha aqui. Já o senhor, adora. – falei.

Ele olha para mim severo, mas depois, ciente de que eu estava certa, sorri e se aproxima do outro armário. O abre e pega uma AK-47. Ele a segura e juro que consigo ver seus olhos brilharem. Já deve perceber de quem eu puxei esse fascínio por armas.

_Esta aqui é uma destruidora, não gosto muito dessas, mas não posso negar que elas fazem um belo estrago. – diz cautelosamente.

_Gosto de manuseá-la. – digo me aproximando de meu pai e analisando junto com ele.

_Sei que gosta, gosta de tudo que faça um grande estrago, não é mesmo? – diz sem tirar os olhos da arma.

_Tive a quem puxar. – rebato e ambos esboçamos um sorriso.

Analisamos outras armas e discutimos os mais variados assuntos sobre elas, passamos um bom tempo fazendo isso, e quando chequei meu relógio, já se passava do meio dia. Juntamos as armas e as devolvemos aos seus devidos lugares, subimos as escadas e quando eu já estava saindo do escritório de meu pai, esse começou a falar:

_Valentina, espere. Queria falar com você, sobre A Máfia. – fala sério.

Fecho a cara por completo, era impossível passar um tempo com ele sem falar sobre essa maldita Máfia.

_Já conversamos sobre ela. – digo confiante.

_Não, não conversamos. Você tem que continuar Valentina, se pelo menos se casasse com alguém da Máfia...

_Não termine isso! – grito. – Como pode desejar um futuro desses para a sua filha? Quer que eu morra nesse tipo de negócio? Quer que eu mate gente por drogas? Quer que eu continue a tradição de condenar jovens a morte? Que tipo de pai é você?

_Não grite comigo Valentina! – gritou ele mais alto ainda, me fazendo estremecer. Quero chorar, mas não irei, não na frente dele. – Sabe que eu te amo, mas esse é o negócio da família.

_Você tem tantos empregados, tanta gente trabalhando para você! Escolha um deles e o faça seu herdeiro. – continuo gritando, é sempre assim, quando fico nervosa ou saio quebrando tudo ou falo gritando.

_Sabe que não é assim tão fácil, e você minha filha, você tem um dom, sabe comandar essa Máfia, sabe negociar e tem uma mente brilhante. Seria perfeito se juntasse com alguém...

_E AINDA QUER QUE EU ME CASE COM ALGUÉM IGUAL A VOCÊ? – explodo, gritando.

E então percebo a burrada que eu disse. O rosto de meu pai se torna obscuro, só Deus sabe como ele deve ter se sentido ao ouvir isso.

_Me desculpe pai, mas eu não suporto isso aqui, não suporto a Máfia! Não gosto de ser quem eu sou, mas tenho orgulho de ser sua filha, só não gosto de ter puxado sua genialidade criminosa. E não quero que meus filhos cresçam em um ambiente assim. – explico um pouco mais calma.

Meu pai me olha com remorso e fica alguns minutos em silêncio, depois de um tempo, ele solta o ar pela boca e se aproxima de mim, me abraçando.

_Só quero que saiba que tudo o que estou fazendo por você é por amor. – fala enquanto me aperta sobre seu peito.

Mas algo em sua voz me deixa preocupada. O que ele está fazendo por mim?

_O que quer dizer com isso? – pergunto intrigada olhando para ele.

_Você saberá na hora certa. Agora venha, sua mãe já deve estar chegando para o almoço. – meu pai diz saindo do escritório me deixando contrariada com suas palavras.

Um arrepio percorre por meu corpo. Essa coisa toda sobre meu futuro e a Máfia está deixando meu pai de cabelos brancos, mas o quão terrível ele poderia fazer para que eu trabalhasse nos negócios da família? Afasto esses pensamentos e vou até a sala de jantar, onde encontro minha mãe já se servindo e meu pai se preparando para tal ato. Sento-me com eles e, como previsto, o prato de hoje é almôndegas. Tento relaxar e me descontrair enquanto minha mãe conta alguns de seus casos, mas a forma como meu pai disse aquilo não sai da minha cabeça. Afinal, o que se pode esperar de um mafioso?

Notas finais
E então? Gostaram? Não esqueçam de deixar as opiniões e dúvidas de vocês :)