A Máfia
31 A loucura de um homem que ama
Notas iniciais
Vitor corre para dentro da sua casa, a fim de salvar Lia e as crianças, e os acha exatamente onde Valentina disse onde estariam. A guerra lá fora já acabou e os homens de Vitor estão levando os de Valentin para o Quartel, para serem torturados. Assim que Vitor abre a porta, Julie corre e salta em seu colo, chorando baixinho assustada.
_Tio Vitor... – balbucia ela.
_Está tudo bem agora querida, está tudo bem. – ele diz afagando os cabelos da pequena.
Lia se levanta com Lorenzo nos braços e seus olhos estão avermelhados, ela está totalmente fora de si, nunca chegou a ver algo assim ou passar por uma situação tão estressante como esta. Mas ela não está tão nervosa quanto por pensar em Valentina nas mãos de Valentin. Quando vê Vitor, sua esperança chega a aumentar, talvez ele tenha a salvado, pensa ela.
_Valentina... Ela... – ela tenta dizer algo, mas as lágrimas não deixam. Vitor sacode as cabeças e as lágrimas rolam por seu rosto.
Muriel finalmente chega e corre para abraçar a amada. Ele a conforta da melhor maneira que pode enquanto tenta entender o que ela diz. Lia entra em uma crise e começa a falar apenas em italiano, deixando Muriel confuso e preocupado ao mesmo tempo. Vitor aperta Julie em seus braços, tentando controlar a raiva que sente. Raiva e culpa. Ele se sente tão culpado que chega a ser estúpido. Ele foi incapaz de proteger a mulher que ama e isso chega a doer nele, dói tanto que ele pensa que pode cair duro a qualquer momento. Valentina está em perigo e ele está, agora, de mãos atadas.
Não.
Ele vai fazer algo. Ele prometeu a Valentina que irá até o fim do mundo atrás dela e ele vai. Nem que seja a última coisa que ele faça. E ele vai começar a ir agora.
Ele anda apressado para fora de seu escritório e dá de cara com uma das empregadas da casa, ele entrega Julie em seus braços e pede que ela cuide bem da criança, depositando um beijo no topo da cabeça da pequena. Depois ele segue para fora da casa e passa pelos estilhaços de vidros e balas no chão, sem se importar pelo numero absurdo de homens mortos em seu quintal e entra em um de seus carros. Várias pessoas chamam por seu nome durante seu trajeto até o carro, mas ele está possesso de raiva e nem dá ouvidos. Entra no carro e dá a partida, saindo cantando pneus dali.
Ele dirige em alta velocidade pela cidade e ultrapassa vários sinais vermelhos e causa, pelo menos, dois acidentes. Mas isso não importa para ele. Ele tem que chegar o mais rápido possível no Quartel. E quando finalmente chega, larga do carro sem se importar em estacionar e bate a porta com força. Entra pisando com passos firmes e só de olhá-lo, as pessoas se afastam assustadas. Vitor está possesso e ele não está nem aí em demonstrar isso.
Ele entra no elevador e aperta o botão, mas ele não vai para o último andar, para o seu escritório, onde o pai da Valentina se encontra para eles discutirem um plano para resgatarem Valentina. Ele também não vai para a sala de Mark, para tentar rastreá-la ou coisa do gênero. Longe disso. Vitor desce para o subsolo, para ver Josué.
Augustos exigiu que ninguém o matasse ainda e Vitor não entendeu bem o porquê, Josué merecia morrer o mais rápido possível. Mas agora ele entende. Augustos sabia que algo assim iria acontecer e Josué veria a calhar. E para o bem dele, é melhor que ele venha, sim, a calhar.
_Diga onde ela está seu desgraçado! – Vitor esmurra a cara do homem no segundo seguinte em que entra furioso na pequena sala onde Josué está sendo mantido. – Fala!
Atordoado, Josué não diz nada, apenas cuspe sangue, deixando Vitor ainda mais fora de si, o levando a receber outro soco, seguido por um chute no estomago.
_Para! – Josué pede. – Não sei do que está falando, cara.
Josué está fraco e mortalmente ferido, não come ou bebe algo há dias. Praticamente foi deixado ali para ter uma morte solitária e dolorida. Ele limpa o canto da boca e olha para Vitor, só de vê-lo assim ele sabe que algo aconteceu com Valentina. E ao contrário do que muitos pensam, ele se preocupa com ela. Mesmo fazendo o que fez, ele ainda a ama como sua irmã.
_Valentin invadiu minha casa e levou Valentina com ele, então é melhor você começar a me contar onde ele está! – exige Vitor irado.
Josué se ajeita no canto onde está jogado e se senta com dificuldade. Ele encara Vitor e sacode a cabeça.
_Eu não sei de nada. – ele diz.
Vitor se enfurece e o pega pelo colarinho, o levantando bruscamente e o jogando contra a parede, o pressionando.
_Não me venha com essa seu bastardo. – vocifera Vitor. – Com certeza você deve saber de algo, deve ter escutado alguma coisa quando ia... quando ia visitar aquele canalha!
_Nós só nos falávamos por telefone! – rebateu Josué. – Eu lhes contei isso.
_Mas eu não acredito em você.
_Se eu soubesse Chiacchio, eu contaria. Eu me preocupo com Valentina.
Ao ouvir isso, Vitor fica enojado e solta Josué, e sem pensar duas vezes, desfere socos no rosto do homem.
Uma, duas, três, quatros, cinco vezes. E Vitor continua a socar. Ele sentia raiva e precisava descontar, e Josué é o candidato perfeito para isso. Vitor apenas parou de esmurrar o traidor quando o chefe de Cosa Nostra, Augustos, o segura e o arrasta para longe de Josué.
_Calma, Vitor! – grita Augustos, tentando segurar a toda custa Vitor, que se debate, querendo continuar a quebrar a cara de Josué. – Nós vamos achar minha filha, vamos achar sua mulher!
Mas Vitor não dá ouvido e empurra Augustos para longe e saca sua arma, apontando para Josué e o encarando mortalmente.
_Não entendi porque você fez questão de deixá-lo vivo, mas agora eu entendo. Só que ele não irá nos dizer nada, Augustos, então não há motivos para ele continuar vivo.
_Valentin a está levando para Itália! – Augustos diz com a voz firme, chamando a atenção de Vitor.
_Como sabe disso?
Augustos dá um passo à frente em direção a Vitor, as mãos entendidas pronto para pegar a arma de sua mão.
_Hoje mesmo eu dei um colar a Valentina e nele, há um rastreador. Com ele, podemos segui-la para qualquer lugar que ela for. E nesse momento, ela está indo para Itália.
Vitor encara o sogro. Um colar com um rastreador... Muito bem pensado. Talvez isso ajude a recuperar sua mulher, Vitor pensa. Um pequeno alivio invade o coração de Vitor e ele respira fundo.
Augustos encara o genro espantado. Vitor está fora de si e ele nunca o viu assim. Ele também está nervoso por conta do sequestro da filha, ele já previu coisa do tipo e tentou evitar de todas as maneiras, e o colar com rastreador era algo que ele queria nunca usar. Mas Valentina é forte, ela vai aguentar.
_Largue essa arma e vamos. – Augustos ordena.
Vitor abaixa a arma e se vira para a porta, seguindo o sogro para a saída. Mas antes que fechasse a porta, Vitor se vira para Josué e aponta novamente a arma e antes que alguém faça algo para impedi-lo, Vitor atira. Um tiro certeiro na cabeça.
_Ele não é mais necessário. – falou após atirar.
****
Valentin me olha intensamente com um sorriso besta no canto dos lábios. Ele está sentado em minha frente e estamos em seu jatinho voando para algum lugar. Tento esconder o nervosismo e também tento parar de por minha mão sobre minha barriga a todo instante. Por sorte, a blusa que visto é uma bata, então sem chances de Valentin perceber a minha barriga de quatro meses. Mas sinto uma necessidade enorme de abraça-la, pois estamos sozinhos e frente a frente com o cara que eu mais temo no mundo. A única maneira para que eu pare de acariciar minha barriga é apertar com força o cordão que meu pai me deu. Sustento o olhar maníaco de Valentin.
Seus olhos são de um tom de azul muito claro e não posso deixar de notar que são lindos. Porém são sombrios. Tudo em Valentin é. Não é como Vitor, que te dá aquela vontade insana de descobrir mais sobre, mas sim uma sensação de medo, insegurança e pavor. Como se Valentin fosse o predador e você a presa. E no momento, eu sou a presa pronta para ser devorada.
_Algo para beber, mon amour? – Valentin pergunta me oferecendo uma garrafa de água.
Não me mexo, continuo a encarar sua face e a observar seus movimentos sem expressar nada. Ele sorri e pega um copo, o enchendo com a água e estende para mim. Eu não beberia lógico, mas minha garganta estava tão seca que há horas estou relutando contra mim mesma para não pedir algo. Pego o copo de sua mão e analiso o conteúdo. Não há nenhum vestígio que ele tenha colocado algo ali dentro, como um sonífero ou outra droga, então fecho os olhos torcendo para que eu esteja certa e bebo.
_Não se preocupe Valentina, é apenas água. – Valentin diz.
Coloco o copo de água sobre a pequena mesa que nos separa.
_Já deve saber que eu não confio em você. – digo e ele esboça um sorriso e se debruça sobre a mesa.
_Mas tem que aprender a confiar, já que iremos passar o resto da nossa vida juntos. – diz.
_Você é louco. – falo me debruçando sobre a mesa também. – Vitor irá me achar e matar você, sabe disso.
_Eu disse para o resto das nossas vidas, Valentina. Se eu tiver que nos matar para que isso aconteça, eu o farei.
A calma com que Valentin diz isso me assusta tanto que recuo para trás, engolindo em seco. Viro a cabeça para o lado da janela e fecho os olhos com força, segurando as lágrimas. Meu plano para pegar Valentin era tão bom... Pena que ele resolveu aparecer para mim ao invés de ligar. E agora, aqui estou. Dentro de um avião que eu não faço a mínima ideia para aonde possa estar indo na companhia de um louco e para piorar, carregando um filho na barriga. Antes, pensar em meu bebê me acalmava, mas agora só me deixa mais aflita. E quando penso em Vitor meu coração se despedaça. A imagem dele derramando aquela única lágrima não sai da minha cabeça. Ele estava tão desesperado naquele momento, sei que se ele pudesse ele teria me salvado, mas ele não podia. Era impossível. Um de nós ia acabar morrendo e sei muito bem que esse alguém seria ele. Já me sinto tão aliviada de Valentin não ter feito nada contra ele naquele momento que não gosto de imaginar outra coisa.
E além do mais, ele precisava tirar Lia e as crianças daquele quarto secreto, caso contrário, ninguém as acharia e com a casa pegando fogo, elas poderiam morrer lá dentro. Isso também me deixa um pouco mais tranquila, elas estão a salvos.
_Senhor, vamos pousar agora. – um homem aparece dizendo. Ele veste roupas casuais, calça jeans escura, camiseta e uma jaqueta, nada comparado com os homens da Cosa Nostra, que sempre estão bem vestidos em ternos pretos e de marca.
Já se nota a diferença de poder e riqueza por aí.
Valentin assente e o homem volta a desaparecer.
_Está pronta? – pergunta ele a mim, com um sorriso enigmático.
_Onde estamos Valentin? – questiono.
_Onde tudo começou é claro. – diz. – Onde nos apaixonamos.
Olho pela janela, mas a visão que tenho não me dá nenhuma dica de aonde possamos estar. Apenas o ambiente é diferente. Com certeza não estamos mais nos Estados Unidos, e pelas palavras de Valentin, devemos estar na Itália. O ar está gélido e a neblina deixava tudo muito misterioso e perigoso. Quando o avião pousa, Valentin se levanta e estende sua mão para mim, eu hesito por um instante e isso faz com que ele se irrite, me pegando pelo braço com força e me arrastando para fora do avião.
Essas variações de humor e personalidade de Valentin é bem apavorante. Uma hora ele está preste a se atirar na minha frente para receber uma bala por mim, na outra, ele é quem está atirando em mim.
Quando desço a escada do avião e colo o pé em terra firma, Valentin continua a me puxar pelo braço até o carro preto que estava a nossa espera. Ele me joga dentro dele e eu me encolho no canto perto da janela enquanto ele entra furioso falando em francês. Eu nem me preocupo em tentar entender, coisa boa com certeza não deve ser. Ele se vira para mim e puxa meu braço mais uma vez e com a outra mão, ele pega com força meu rosto e me obriga a olhá-lo.
_Você é minha! – grita. – Entendeu? Minha!
Observo Valentin assustada e viro meu rosto, tirando sua mão do meu rosto e voltando para meu canto. Ponho meus pés em cima do assento e as abraço, escondendo meu rosto e passando minhas mãos carinhosamente sobre minha barriga. A dor voltou e tento me acalmar, se algo acontece com meu bebê eu simplesmente não sei o que será de mim. Já o amo tanto que não posso imaginar minha vida sem ele. Mas dói tanto que tento segurar meus gemidos para que ninguém escute principalmente Valentin, que deve achar que estou chorando, e de fato estou. Fecho os olhos com força e imagino Vitor. Imagino nossos beijos, seu toque, seus carinhos, sua voz... Tento me focar apenas nele e no nosso amor. Mentalizando com força todos os nossos momentos bons. E por incrível que pareça, a dor diminui quando me lembro de Vitor dizendo que me ama. Um sorriso bobo se forma em minha face e agora choro de saudades.
Estou tão assustada aqui com Valentin que tudo que eu mais quero é ver Vitor. Que ele me tire daqui e me leve para casa, para a nossa cama e me abrace com força, dizendo que está tudo bem agora e que nada mais vai acontecer comigo. Mas isso está longe de acontecer. Só que eu preciso ter fé, tenho que acreditar e manter essa esperança a salvo. Faz apenas algumas horas desde que Valentin me sequestrou, talvez Vitor esteja agora voando para cá atrás de mim. Talvez de alguma forma ele saiba onde estou. Talvez as coisas acabem bem...
_Não chore, mon amour. – Valentin passa sua mão sobre meus cabelos. – Ninguém vai tirar você de mim.
Olho para ele e não fico surpresa ao constar que ele tenha voltado a ser bonzinho comigo novamente e que ele sorri docemente para mim.
O meu medo é exatamente esse, Valentin. – penso.
Engulo em seco e volto a olhar pela janela, agora prestando atenção na paisagem lá fora. Tudo que vejo é verde e de vez em quando, algumas casas de campo e alguns animais nas pastagens e só. O trajeto até, onde seja lá onde Valentin está me levando, dura uma hora me dando enjoos. Quando o carro para e salto dele, observo a abismada a mansão a minha frente e a reconheço rapidamente.
_Achou que eu esqueci? – Valentin pergunta ao pé do ouvido.
É uma casa vitoriana e é toda revestida de pedra com um tom escuro. Ela mais me lembra um castelo, por conta das pedras e pelo tom escuro que tem e foi por isso que me apaixonei por ela quando criança. Eu estava brincando na praia com Valentin quando a avistei no topo de uma montanha bem afastada. Eu fiquei totalmente maravilhada com ela, até pedi para meu pai comprá-la (e ele até tentou, mas ela não estava à venda.) e disse a Valentin que um dia moraria nela. E aqui estamos.
Olho para trás e ao longe avisto a praia.
Então estou em Palermo.
Não seria esse o último lugar em que Vitor me procuraria? Com certeza!
_A partir de agora essa será a nossa casa. – Valentin volta a dizer. – Pense, não vai ser perfeito?
Engulo em seco e já nem tento mais segurar as lágrimas.
_Responda! – grita Valentin.
Fecho os olhos com força, soltando um soluço por conta do choro.
_Vai sim. – obrigo me a dizer em um sussurro.
Mas isso basta para Valentin, que dá um sorriso de contentamento. Ele anda até a entrada da casa, parando na porta da casa, virando-se para mim. E pela segunda vez no dia, ele estende a mão para mim e ciente do que poderia acontecer caso eu não a pegasse, caminho com passos lentos até ele, pegando sua mão e dando um sorriso forçado, nervosa. Adentramos no local e não consigo prestar atenção em nenhum canto da casa, mesmo que eu tenha sido apaixonada por ela quando mais nova e ficasse horas imaginando como seria o seu interior, simplesmente não consigo. Minha cabeça estava focada em apenas uma coisa: manter minha esperança viva.
[...]
Depois de horas passeando com Valentin pela casa com ele me mostrando cada detalhe do lugar com um entusiasmo de dar inveja, ele finalmente permitiu que eu fosse para o quarto quando eu aleguei estar cansada. Ele disse também que havia algo para mim em meu quarto e que queria que eu vestisse seu presente para o nosso jantar mais tarde. Dei um sorriso e sai, subindo a escada sendo guiada por uma empregada.
_Por favor, me ajuda! – suplico a ela quando já estamos na porta do meu quarto. Mas ela parece não me dar ouvidos e abre a porta, me empurrando para dentro. – Eu preciso de um telefone, por favor!
Mas ela não dá ouvidos e adentra no quarto junto comigo e com mais três empregadas, que me olham seriamente e definitivamente não dão a mínima para mim.
_Por favor, aquele homem me sequestrou, eu preciso falar com meu marido. Tudo que peço é um telefone! – explico e elas continuam com as mesmas expressões desinteressadas para mim. – Vocês pouco se importam, não é? Ótimo, duvido que até falem a minha língua.
Suspiro frustrada e caminho até a cama, onde um vestido de cor salmão foi cuidadosamente deixado. Ele é longo e por sorte não é colado, mas sim bastante solto. Não tinha mangas, se fechava como uma gargantilha. Não é luxuoso nem nada disso, mas é bastante bonito. Mas não deixo de revirar os olhos ao pensar nesse jantar que Valentin preparou para nós.
Uma das empregadas me empurra para o banheiro me entregando uma toalha branca.
_Você tem trinta minutos. – e fecha a porta.
Oh, então ela fala a minha língua. Claro que fala, mas não dá a mínima para o meu desespero, deve estar sendo muito bem paga para não se importar comigo.
No banheiro, tudo o que tem nele é uma banheira e um chuveiro. Nada de espelhos, pentes ou essas coisas que geralmente têm em um. Talvez Valentin tenha retirado tudo temendo que eu utilizasse um dos objetos para escapar, o que com certeza eu faria. Mas não sou burra de tentar, sei o que me aconteceria se eu tentasse e fosse capturada: levaria uma bela surra. E isso sem duvidas poderia matar meu filho, então sem chances. Depois de uma rápida olhada, começo a retirar minhas peças de roupa com pressa e me enfio debaixo do chuveiro, tomando um banho absurdamente quente. Não demoro muito, pois não quero que nenhuma das empregadas abra a porta e me veja, se elas virem minha barriga, contariam para Valentin sem pensar duas vezes.
Enrolo-me na toalha e tento abrir a porta, mas e mesma estava trancada. Então dou algumas batidas nela e uma das moças a abre.
_Traga-me o vestido. – peço.
_Iremos lhe vestir, venha. – uma outra diz, me chamando.
_Não preciso de ajuda para me vestir, já sou bem grandinha para isso. – rebato. – Tragam a porcaria do vestido agora! – esbravejo na intenção de assustá-las.
E consigo. Contrariada, a moça traz o vestido para mim com os braços estendidos e com ele cuidadosamente deitado sobre eles. Puxo o vestido sem cuidado nenhum e fecho a porta com força na cara dela. Retiro a toalha e visto o vestido e então, saio de dentro do banheiro caminhando até a penteadeira, que é onde uma moça jovem me espera para começar a me arrumar. Ela parece estar assustada, diferente das outras duas, pelo jeito ela é nova se tratando dos trabalhos para a Máfia. Algo nela me lembra de Dominique e seu jeito dócil, e anoto mentalmente de tentar ficar sozinha com ela em algum momento. Se eu conseguir convencê-la de me ajudar, ela será de bastante ajuda.
_Você está pronta. – a jovem diz para mim depois de um tempo.
_Está lindo, obrigada. – digo e a jovem sorri.
Pelo menos ela parece gostar de mim, penso.
O penteado que ela faz em mim é realmente bem bonito, me fazendo lembrar ainda mais de Dominique e seus dons com penteados. A jovem fez uma tiara de trança e o restante do meu cabelo estão soltos. A maquiagem também é ela que faz, e é bem leve. O batom é bastante parecido com a cor do vestido e meus olhos estão iluminados, destacando o castanho. Levanto-me sendo guiada pelas quatros para fora do quarto, indo para fora da casa onde um carro me esperava. Estranho, mas não digo nada e entro no carro, sendo levada para a praia. Quando o carro estaciona e um dos homens de Valentin abre a porta para me ajudar a sair, uma onda de lembrança me atinge. É a mesma praia em que Vitor e eu jantamos na noite seguinte em que nos conhecemos, Modello.
Não, isso não pode ser uma mera coincidência, não parece ser. E tenho mais certeza ainda quando o segurança me leva até uma mesa no fim da praia. Sinto uma sensação de déjà vu quando me aproximo, está tudo arrumado como no dia em que Vitor me levou para jantar. Tudo. Até mesmo a rosa em um jarro sobre a mesa e as tochas estão em seus devidos lugares. Apenas a lua e as estrelas não enfeitam o local como antes e parte de mim fica contente, a noite seria linda demais para uma ocasião tão desagradável.
Em pé ao lado da mesa, Valentin me espera com um sorriso simples. Paraliso por um instante. Ele veste a mesma roupa que Vitor usou no dia. Isso com certeza não deve ser real! Valentin não chegaria a esse ponto...
_Você está linda! – diz ele, pegando minha mão e a beijando. – Gostou da surpresa?
Faço que sim com a cabeça ainda tentando entender o que esta acontecendo. Dios, até o cabelo de Valentin está igual ao de Vitor! Isso definitivamente não é normal.
_O que está acontecendo aqui? – questiono intrigada.
_Não sei do que está falando. – diz ele dando de ombros e puxando minha cadeira para que eu pudesse me sentar. Ele me senta a minha frente e abre uma garrafa de vinho. – Fiz este jantar exatamente como antes, com os mínimos detalhes possíveis.
_Você nunca me trouxe aqui antes! – esbravejo já perdendo a paciência. – Vitor sim, e ele me preparou um jantar lindo e romântico e eu adorei, não você!
Valentin me olha preocupado e coloca sua mão sobre a minha na mesa, sorrindo mais uma vez, só que dessa vez como se estivesse de algum modo com pena de mim.
_Valentina, eu sou seu Vitor agora e dessa vez a nossa história de amor seguirá um rumo certo. – diz com a voz suave. – Sem nenhum erro ou interrupção. Eu serei seu Vitor e você, como sempre, minha Valentina.
Fico totalmente paralisada com suas palavras, com certeza ele enlouqueceu. E se antes eu estava apavorada, agora eu nem sei mais como me definir.
Fale com o autor